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Sôfregos e insensatos

Three great forces rule the world: stupidity, fear and greed  /Três grandes coisas governam o mundo: a estupidez, o medo e a ganância (Albert Einstein)

Uma pesquisa no Tendências do Imaginário a partir da palavra “amamentação” conduziu-me ao artigo Born to be wild, de 2013. Um vídeo perdera a fonte e a resolução de outro deixava a desejar. Entendi recauchutá-lo. Acrescentei a canção The Pusher, dos Steppenwolf, que, tal como Born to be wild, integra a banda sonora do filme Easy Rider. Creio que mais que selvagens ou traficantes, tornámo-nos uns sôfregos insensatos.

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BORN TO BE WILD (Revisão do artigo de 6 de janeiro de 2013)

Steppenwolf. Born to be wild – A retrospective -1966-1990. 1991. Capa

Born to be wild. As árvores, naturalmente! Crescem na vertical e morrem de pé. Nós crescemos domesticados e com uma coluna vertebral muito flexível. Começámos logo na primeira amamentação a beber cultura. Para ser selvagem, é preciso renascer sem cordão umbilical. As feras que compunham o público deste tipo de música, podemos observá-las no concerto dos Focus, em 1973. Filho às cavalitas, cabelos l’orealizados, o futuro entalado nas calças e camisolinhas justas, curtas e sem mangas. Uma selvajaria muito mimosa!

Born to be wild, de 1968, foi o maior sucesso da banda canadiana Steppenwolf. Readquiriu notoriedade com o filme Easy Rider (1969). Este concerto é de 1969.

Steppenwolf – Born To Be Wild. Single, 1968. Ao vivo em 1969

Hocus Pocus, de 1971, foi o maior sucesso da banda alemã Focus. Este concerto é de 1972. A qualidade do vídeo não é a melhor, mas o conteúdo compensa.

Focus – Hocus Pocus. Moving Waves, 1970. (Live At Pinkpop Festival 1972
Steppenwolf – The Pusher (cover de Hoyt Axton, 1963). Single, 1967

Crescer em ambiente hostil

A indústria musical australiana atravessa um momento difícil: festivais cancelados e salas de espetáculo encerradas. Segundo a Australian Recording Industry Association (ARIA), a Austrália é o décimo mercado musical do mundo, mas apenas quatro álbuns e três singles de artistas australianos alcançaram o top 100 em 2023.

Imagem: Briggs

Para contrariar esta situação, a Sprout, marca de acessórios musicais, concebeu a plataforma criativa Homegrown Sound, cuja campanha de lançamento estreia “Munarra”, o novo single de Briggs, artista indígena que funde hip-hop e heavy metal. Inspirado no seu próprio percurso de vida, Briggs pretende “ultrapassar os limites (…) contar uma história sobre o que significa crescer em ambiente hostil e emergir disso com força”. O resultado é brutal, insólito e visceral. Um dos vídeos musicais mais impressionantes de que guardo memória.

Marca: Sprout. Artista: Briggs. Título: Munarra. Agência: +61 / Bear Meets Eagle On Fire. Direção: Tom Noakes. Austrália, novembro 2024

Distância social. A cerca

Muros e barreiras representam um tema que afeta particularmente a memória de alguns povos. Carregar na imagem seguinte para aceder ao vídeo do anúncio Der Zaun.

Marca: Kaufland. Título: Der Zaun. Agência: Kaufland In House. Direção: Thomas Garber. Alemanha, dezembro 2022

Barreiras e erupções

Je prends mes désirs pour des réalités car je crois à la réalité de mes désirs / Tomo os meus desejos por realidade porque acredito na realidade dos meus desejos (slogan de Maio 68)

Marca: Deutsch Telekom. Título: Bubbles. Agência: MUW Saatchi & Saatchi (Bratislava). Direção: Alex Feil. Alemanha, novembro 2024

Diga-o com robots!

Trauma, garra, amor, frustração, engano… diga-o com máquinas, de preferência com robots! Resulta mais eloquente.

Anunciante: War Child. Título: Escape Robot. Produção: Raw London. Direção: Thomas Martin. Reino Unido, janeiro 2018
Marca: Oxford. Título: Cool Robot – Never Give Up. Agência: gyro:paris. Direção: Drake Doremus. França, agosto 2016
Anunciante: Cinemark & Hoyts. Título: Robot. Agência: Geometry. Direção: CLAN. Argentina, 2019
Marca: Carl’s Jr. Título: Robot. Agência: David&Goliath (Los Angeles). Direção: Rocky Morton. Estados Unidos, 2011
Marca: Hamlet. Título: Robots. Agência: Cdp. Reino Unido, 1977

Já faltou mais!

Má sorte a daqueles que lhes censuram o nome! Velhos não são os trapos, velhos somos nós! Como as crianças são crianças, os jovens, jovens e os adultos, adultos. Cada qual com a sua dignidade e distinção. De eufemismo em eufemismo, a sociedade disfarça realidades e coteja fantasmas.

Rembrandt, Bust of an Old Bearded Man, Looking Down,1631

Segue uma mão, aprazivelmente enrugada, de canções vintage francesas ainda não contempladas no Tendências do Imaginário.Todas com letras notáveis. Cantar a velhice faz bem aos pulmões, ao coração e à cabeça. Uma maneira, como qualquer outra, de partilhar e agradecer. Obrigado!

Herbert-Félix Thiéfaine – La ruelle des morts. Suppléments de mensonge. 2011
Bénabar – La Coquette. Les risque du métier. 2003
Zas – Si je perds. Recto verso. 2013
George Brassens – Marquise. Les Trompettes de la renommée. 1962. No programa “Cinq colonnes à la une”, da RTF, do7 de dezembro de 1962.
Georges Moustaki – La vieillesse. Ballades en Ballade: Racines et Errances. 1975

Crise da reflexividade crítica e autodestruição

A quem nunca tem dúvidas e raramente se engana

Francisco de Goya. Episódio na guerra da independência espanhola, ca. 1810

El sueño de la razón produce monstruos (Francisco de Goya)

Preocupam algumas dinâmicas e tendências atuais. Em particular, a crescente mobilização em termos raciais, étnicos, religiosos, nacionalistas… com pretensas estirpes naturais, “antropológicas” e “biológicas”. Por exemplo, vários maniqueísmos tais como filias e fobias sionistas e islamistas.

“Hegel observa em algum lugar que todos os grandes fatos e pessoas da história mundial acontecem, por assim dizer, duas vezes. Ele esqueceu de acrescentar: uma vez como tragédia, a outra como farsa” (Karl Marx, O 18 Brumário de Luís Bonaparte, 1ª ed. 1852). Nada impede, porém, que se repitam como tragédias, eventualmente maiores.

Imagem: Francisco de Goya. Visión fantasmal, ca.1801

Parece estar em curso um eclipse do propriamente político e do espírito (auto) crítico. O regresso à identificação e ao pensamento automáticos e estereotipados. Convém recordar o mundo e, especialmente, a Europa antes da primeira e da segunda guerras mundiais.

Imagem: Francisco Goya (atribuído a). O colosso. Após 1808

Para complicar, a história também revela que a mera razão não é suficiente para enfrentar o delírio simbólico. Sem o sustento e o fermento do imaginário e do emocional pouco consegue. O racional carece de uma centelha irracional para se manter aceso, para motivar e mover os seres humanos.

Existem anúncios de consciencialização que se propõem, e podem, ajudar. É o caso do anúncio “The 100th Edition”, do jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung. Foi galardoado com vários prémios, entre os quais o Grande Prémio, na categoria “impresso”, no âmbito dos 2024 New York Festivals Advertising Awards.

Imagem: Francisco de Goya. Pátio de um manicómio. 1794

Hegel e Marx podem estar certos. É plausível que a história se repita de um modo cíclico ou em espiral. Mas existe uma realidade que não obedece a este retorno. Não só não recua como não para de avançar: a capacidade humana de autodestruição.

Anunciante: Frankfurter Allgemeine Zeitung. Título: The 100th Edition. Direção:  Scholz & Friends. Alemanha, junho 2024

Jejum guloso

Não faltam fatores de desigualdade. Alguns beneficiam de uma enorme visibilidade: o género, a raça… Outros, não sendo menores, permanecem discretos: de idade, de língua… Não tenho, contudo, memória de hegemonia tão aceite, entranhada e global como, atualmente, a da língua inglesa.

Como as demais, a hegemonia do inglês é solar. Conforme o lado, ofusca ou ensombrece. Jejuar resume-se a um gesto simbólico. Óculos escuros não apagam o sol, ainda menos uma peneira. Mas propicia-se mais do que dar luz à luz.

Christoph Weidiz. Dança mourisca.1530

O simbólico não é inócuo. Interfere na nossa visão do mundo, logo no nosso modo de (re)agir. Jejuar pode contribuir para rasgar horizontes e “dar novos mundos ao mundo”, torná-lo mais rico, complexo e diversificado. Dispensar o que nos enfarta pode revelar-se salutar e, até, estimular a gula. As sombras ganham vida e entregam-se a ritmos, sonoridades e coreografias admiráveis. Acomete-nos a vertigem da descoberta e vacila ligeiramente a dominação que nos submete.

A música é outra. O ar assobia pelas frinchas das janelas e o sobrado range novos ritmos. E noite dentro, em regime lunar, espelham-se nos vidros os nossos próprios fantasmas. Ressoam outras línguas, de uma estranheza que ressoa familiar. Por exemplo, o sefardita, mas também o mourisco e o luso-árabe.

Acontece-nos visitar poesias e canções cuja origem nem sonhamos: o “Belo Manto”, de José Peixoto e Sofia Vitória; a “Hortelã Mourisca”, de Amália Rodrigues; “O Pastor”, dos Madredeus…

E surpreendemo-nos a cismar: como nos empobrece a riqueza que nos dão!

José Peixoto & Sofia Vitória – Belo Manto. Belo Manto — Música para Poesia Luso-Árabe e Poesia Medieval Portuguesa. 2017
Amália Rodrigues – Hortelã Mourisca. 1977
Madredeus – O Pastor. Existir. 1990. Ao vivo, O Pastor, seguido de A Vaca de Fogo e Os Senhores da Guerra, no Palais des Beaux-Arts, Bruxelas, Bélgica, 24 de abril de 1995

Era uma vez uma península chamada Sefarade

Roque Gameiro. A expulsão dos judeus (em 1497). 1917

Esforço-me por esquivar os grandes corredores e portais e procurar nichos e postigos. Outras línguas, outras culturas, outras músicas. Cabe a vez à tradição sefardita com raízes hispano-hebraicas. Talya G. A. Solan e os Yamma Ensemble oferecem-se como uma primeira brisa que lembra essas origens.

Imagem: Talya G. A Solan at the Rudolstadt Festival 2023

Kedem Ensemble (com Talya G. A. Solan) – Shnei Shoshanim (duas rosas). Vídeo oficial, 2014
Yamma Ensemble – King David. Rose of the Winds. 2020. Ao vivo desde 2011
Yamma Ensemble – Song of Solomon / Song of songs. To awaken love, 2023
Trio Yamma – Betuno. A song for a baby born. Basket full of stars. 2016. Live in Brotfabrik Theater, Bonn, Germany, 2015

O vinagre e as moscas

Há muitas maneiras de o dizer e outras tantas de o entender, o que representa um desafio para os agentes publicitários. Tanto podem contribuir, junto do público, para o envolvimento e o agrado como para o enfrentamento e o desconforto, provocando sensações e sentimentos ora de satisfação, confiança e esperança, ora de perturbação, insegurança e receio. Difíceis de antecipar, as reações podem resultar perversas: indiferença, rejeição e, até, adversidade em vez de adesão, reconhecimento e conversão. A maioria dos anúncios comerciais, interessados em congregar e cativar, apostam na primeira modalidade; os anúncios de sensibilização, mais empenhados em assustar e mitigar, na segunda, destacando-se as campanhas antitabaco como exemplo extremo. Na prevenção ambiental ou rodoviária, a opção pela polémica e pelo choque tende a ser menos drástica e sistemática, com eventual recurso à fantasia, à simpatia e, até, ao humor. O anúncio natalício “Llegar”, da Dirección General de Tráfico (DGT), de Espanha, oferece-se como um excelente exemplo.

Um dia virá em que as altas autoridades se dignarão ponderar um provérbio antigo: “Não é com vinagre que se apanham moscas”; ou “Apanham-se mais moscas com uma colher de mel do que com vinte barris de vinagre“.

Entretanto insiste-se, décadas a fio, na repetição, na agressividade e, muitas vezes, na intrusão sem que os resultados correspondam. Algo me escapa! Existirão outras lógicas que não consigo ou ouso equacionar? Além da conversão, a discriminação, a estigmatização e a demonização? A justificação da penalização, nomeadamente através de impostos demasiado excessivos e pouco dissuasivos? Com certeza que não, seria grave.

Anunciante: DGT (Dirección General de Tráfico). Título: Llegar. Agência: Accenture Song. Direção: Juan Silva. Espanha, dezembro 2023