O arquiteto da ternura e as bolas de cristal
Francisco de Assis, o “segundo Cristo”, abençoado com as cinco chagas, santo que abraçou a divindade na figura de um leproso e foi abraçado pela divindade despregada da cruz, reformador da devoção cristão, sobressai, não só pela ênfase na Paixão, mas também como o grande arquiteto da ternura: inventou o presépio. Vivemos tempos em que é particularmente oportuno evocar o franciscanismo. Faço votos que cada um possa abraçar, desta vez, o próximo na figura do menino Jesus.
Os anúncios Vive la magie des fêtes, da Air Canada, e The Biggest Gift, da Deutsche Telekom, convocam a figura da bola de cristal, uma variante do presépio. Encenam outros encantos que nos aguardam, do tamanho do nosso olhar e à escala das nossas mãos.
Distinguem-se, porém, num aspeto: no presépio, os nossos dedos podem percorrer os caminhos de serrim, molhar-se no lago e afagar as personagens de barro; nas bolas, o cristal materializa uma fronteira que impede a tangibilidade, os dedos embatem numa porta que não se abre. O presépio é marcado pelo toque e pela aproximação, a bola de cristal, pela visão e pelo confinamento. Trata-se de uma separação involuntária que cada anúncio, a seu modo, se propõe ultrapassar. Quer-me parecer que o motivo da bola de cristal se vai multiplicar nesta quadra natalícia como uma alegoria ou uma metáfora da nossa condição atual. Existe, todavia, um mundo em que as bolas de cristais, tantas e de tantos feitios, já não cabem. O mundo é o da comunicação social, e as bolas assumem, até à saturação, outra virtude: a previsão fantástica do futuro.
Arqueologia do slow

Ontem apresentei uma comunicação sobre “a música na publicidade de automóveis” no âmbito de um encontro online dedicado ao tema Identidades e Comunidades Musicais. Quando termino uma comunicação, evito o rescaldo. Esgoto o pensamento. O interesse imediato por parte da audiência é bênção que declino. Os encontros online tendem a reduzir o risco. Após uma comunicação, sabe bem desligar, pasmar… Brejeirice à parte, com esta alergia cerebral, não enjeitaria dançar um slow, comunicar, em silêncio, por outros meios. Embalar até anestesiar a inteligência. Uma extravagância improvável nos encontros públicos, bem como no discurso online, condução solitária de um automóvel sem volante. Não se dança um slow sozinho. Contento-me com um sumo de laranja e um par de cigarros. Nas pistas de dança dos anos setenta, os corpos extremavam-se: ora aceleravam, separados, nos shakes; ora abrandavam, reencontrados, nos slows. Volvidos alguns anos, as séries de slows começam a desertificar as pistas. O corpo pedia cerveja, whisky, gin tónico; preferia dialogar noutras órbitas. Entalados entre a ressaca dos sessenta e a rampa dos oitenta, os anos setenta compuseram uma década estranha, que o tempo se apressou a varrer e a memória se obstina a acarinhar.
Gilbert Bécaud

Gilbert Bécaud partiu no dia 18 de Dezembro de 2001, há 20 anos. Um compositor e intérprete extraordinário, que “não se ouve muito nas ondas, o que, no fundo, parece miseravelmente uma falta de saber-viver e de reconhecimento” (https://soirmag.lesoir.be/263485/article/2019-12-06/gilbert-becaud-monsieur-100000-volts).
“L’important c’est la rose”. Mais “il est mort le poète”. “Et maintenant?” “T’iras pas au paradis”.
Imperfeição e transfiguração. O sublime em estado líquido

Estou a estudar o tema da transfiguração na arte paleocristã. Magníficos, deslumbrantes, estes dois anúncios vêm mesmo a propósito. São uma generosa prenda de Natal.
A água, mãe da vida, fluxo, imersão, banho sagrado, batismo, transfiguração. O perfume, fragância do sólido e do líquido, pele sublimada, aura benta, intimidade pública, aparência da essência: transfiguração. A máquina, o outro do mesmo, o humano, o animal, a fuga e a odisseia compulsiva. A noite, a porta, a cruz, o limbo e a margem, a potência, o híbrido, o centauro, o mítico e o profano divino: transfiguração. A demanda da perfeição do imperfeito, a nossa tragédia, a coroa da nossa estética.
Que seria eu sem ti?
Canções de amor, em ameno desuso. Outros valores se levantam.
A Bela Adormecida. À procura de novas versões

“Grã-Bretanha: Uma advogada quer proibir a Bela Adormecida porque “o beijo não é consentido”. Feministas e pedagogas suíças apoiam-na” (https://lesobservateurs.ch/2017/11/29/grande-bretagne-une-avocate-veut-interdire-la-belle-au-bois-dormant-car-le-baiser-nest-pas-consenti-des-feministes-et-pedagogues-suisses-la-soutiennent/).
Por que não substituir o macho pela máquina?
Uma vida traduzida em covers

Aos vinte anos, ouve-se música dos 70’:
Aos trinta, ouve-se música dos 90’:
Aos quarenta, música dos 2000’:
E aos cinquenta, música dos 2010’:
Ouvir mais uma vez
Não me importo de ouvir uma, duas, três vezes a canção Je crois entendre encore, da ópera Les Pêcheurs de Perles (1863), de Georges Bizet. A primeira, interpretada por Allison Moyet; a segunda, por Plácido Domingo; e a terceira, por David Gilmour, acompanhado ao violoncelo por Caroline Dale.




