Archive | Março 2021

Música para vizinhos

Mordillo.

Já me aventuro no pátio! Com pequenos passos dobra-se o cabo da boa esperança. Colho os raios de sol, o zumbido das abelhas e o perfume das plantas: alecrim, lavanda, limonete e umas flores amarelas a que sou alérgico. Sobreviver a um cigarro ao ar livre é um prazer. Como o Minho e a Galiza, o vício e o prazer namoram-se. A ida ao pátio é um ritual. Garrafa de água neste bolso, tabaco, naquele e telemóvel, naqueloutro. Os bolsos são a medida do homem. Faltam uns decibéis de música ambiente. Convém que a lista agrade aos vizinhos. Segue um exemplo de lista com músicas apropriadas para apreciar à distância.

Ed Alleyne-Johnson. Oxford Suite, Pt. 1. Purple Electric Violin Concerto. 1992.
Cecilia. Love of a Silent Moon. Voice of the Feminine Spirit. 1994.
Karunesh. The Wanderer. The Way of the Heart. 2002.

Espelho de aumento

Master of the Coronation of the Virgin. De mulieribus claris, Marcia, circa 1403.

“Não aprecio anúncios de promoção a categorias sociais. A discriminação positiva é discriminação”, de raça, etnia, nacionalidade, religião, política, profissão, estatuto, saúde, conhecimento, estética, desporto, idade e, neste caso, género. Por apreciáveis que sejam, não aprecio. Mas não censuro. Como escreve Norman Rush (2015), “a discriminação positiva é uma expressão curiosa. É a desigualdade ao serviço da igualdade” (Corps subtils, Paris: Rivages). Não é menos verdade que a sociedade não é uma folha de papel milimétrico onde se traçam riscos de boa vontade. A sociedade, incluindo o universo feminino, é rugosa, diferenciada e imprevisível. As dobras da desigualdade não são fáceis de engomar. O critério predominante de seleção de anúncios do Tendências do Imaginário não é o tema, o dilema ou a ideologia, mas a qualidade. O anúncio First of Many — Women’s History Month 2021, da Google, é excelente, ressuma qualidade, da primeira até à última imagem. Imagens de uma elite.

Marca: Google. Título: First of Many – Women’s History Month. Estados-Unidos, maio 2021.

Progressivo e psicadélico

Nektar. Nektar. 1975.

Há grupos de rock que parecem deslocar-se com os sinos de Mafra: os Beatles, os Rolling Stones, os Pink Floyd… Outros batem à porta da memória com dedos de algodão. É o caso dos britânicos Van Der Graaf Generator e Nektar. Perdura, contudo, alguma influência junto de alguns segmentos herdeiros do rock progressivo e psicadélico. Ressoam, por exemplo, no festival SonicBlast, de Moledo do Minho. Se gosto da música? O ouvido esquerdo gosta, o direito, não. Por que publicar? Pela dialética do reconhecimento e do estranhamento. Os Beatles, os Rolling Stones e os Pink Floyd não há quem não os reconheça. Convocá-los é iniciar uma valsa num jogo de espelhos. No blogue, garantem picos de visualização. Os Van Der Graaf Generator e os Nektar estranham-se. As visualizações afundam-se. Um abismo distintivo mas com interesse. O desgosto, bem temperado, faz falta. Os gostos não são como os colarinhos; dispensam andar engomados. A mesmidade repete-se, regala-se e pasma.

Van Der Graaf Generator. Man Erg. Pawn Hearts. 1971.
Nektar. It’s all in the mind. Journey to the Centre of the Eye. 1971.

À minha maneira

Tom Rosenthal. Go Solo. 2014.

Há anúncios que vêm aos pares. Por exemplo, os anúncios The Chase, apresentado no artigo precedente, e Leaving The Nest, em baixo, ambos produzidos para a marca Renault Zoe-E-Tech. Leaving The Nest manifesta-se particularmente feliz na escolha da música, de Tom Rosenthal:

I’m happy, nothing’s going to stop me
I’m making my way, i’m making my way
I go solo, oh go solo,
I’m making my way home
I’m making my way
(Tom Rosenthal – Go Solo. 2014)

Segue o anúncio Leaving The Nest, mais duas canções de Tom Rosenthal: Go Solo (do anúncio) e Leaving The Nest.

Marca: Renault Zoe-E-Tech. Título: Leaving The Nest. Agência: Publicis Conseil. Direção: Vincent Lobelle. França, março 2021.
Tom Rosenthal. Go Solo. Head Full of Honey (soundtrack). 2014.
Tom Rosenthal. It’OK. B-Sides. 2013.

Perseguição

As cenas de perseguição são uma tentação. Quanto mais aparatosas e improváveis, melhor. Neste anúncio da Renault, o resultado da perseguição, a multiplicação da presa, é surpreendente. Vale o anúncio! E o beijo fugaz no coração do anúncio. Uma parte do real? uma vénia simbólica? Um enxerto ritual? Uma mensagem subliminar? As cores são fantásticas.

Marca: Renault. Título: The chase. Agência: Publicis Conseil. Direção: We are from L.A. França, Março 2021,

Alteração climática

Salla 2032. Finlândia

E se Salla, povoação polar da Finlândia, se candidatar aos Jogos de Verão de 2032? Graças, precisamente, às alterações climáticas! A população antecipa o evento, aclimata-se. Humor on the rocks, glaciar. Estranha-se, mas não se entranha. Um arrepio. Acusamos o embate, o alarme, de uma ficção caricata e bem contada. Espantoso é este anúncio tão polar ser brasileiro. A agência Africa, de São Paulo, tem um portfólio ímpar.

House of Lapland / Supported by Fridays for Future. Título: Save Salla. Agência: Africa (São Paulo). Brasil, fevereiro 2021.

Como um gato atrás de uma tartaruga

Moody Blues. Tuesday. Days of future passed. 1968

Confinamento duplo: pandemia e quatro meses de baixa médica. Não saio. Pareço um gato atrás de uma tartaruga. Em estacionamento. No retrato de família, pareço um emplastro. A televisão e o computador cansam-me. Cansa-me, também, o que tenho para fazer e não faço. Entrei em estado lesma. Comando na mão, escuto música. Escuto música, como, bebo e durmo. Faço inveja a um suíno.

Moody Blues. Tuesday afternoon. Days of future passed. 1968
Moody Blues. Eyes of a child. To our children’s children’s children. 1969.
Moody Blues. Question. A question of balance. 1970.

Mulheres no poder

Posthumous painted portrait of Cleopatra VII of Egypt, from Herculaneum, Italy. 1st century AD.

A Maria Beatriz, pioneira da Sociologia em Portugal, partilhou este vídeo sobre o protagonismo político de mulheres. Por princípio, não aprecio publicidade promotora de uma categoria social. A discriminação positiva é discriminação. Mas, para além da massagem, o vídeo The women are coming proporciona uma aprendizagem. Não imaginava!

British Columbia Women’s Institute. Women are coming. Janeiro 2021.

A dança da mercadoria

McDonald’s. CBO Comeback. 2021.

A mesa ainda é madeira, coisa prosaica, material. Mas, logo que se revela mercadoria, transforma-se em algo ao mesmo tempo perceptível e impalpável. Além de estar com os pés no chão, firma sua posição perante as outras mercadorias e expande as idéias fixas de sua cabeça de madeira, fenômeno mais fantástico do que se dançasse por iniciativa própria (Marx, Karl (2011). O Capital. Livro I. São Paulo: Boitempo Editorial,121-122).

A McDonald’s retoma, na Bélgica, a comercialização do hamburger CBO. O ressurgimento de uma relíquia, que, pelos vistos, traz a população em delírio quase religioso. O hamburger CBO parece abrir as portas do céu. O cúmulo da felicidade. Dançam as mercadorias, e nós dançamos com elas.

Marca: McDonald’s. Título: CBO Comeback. Agência: TBWA. Bélgica, fevereiro 2021.