Desigualdades desiguais

Género, raça, etnia, território, idade, política, capital social, capital físico, nacionalidade, língua, saúde, profissão, migrações, rendimentos, educação, beleza, gosto… Um sem fim de fatores de desigualdade social. Cada um com a sua capacidade de mobilização. Existe uma desigualdade na luta pela igualdade. Há fatores mais desiguais que outros. Uma lista de anúncios pela igualdade revela que existem fatores quase ausentes enquanto que outros sobrecarregam lista.
O anúncio indiano The Divide, da Paytm, propõe um dispositivo engenhoso para mapear as desigualdades de género. O resultado não engana.
Maternidade desportiva

Guerreiros e atletas. Espartanos. Olímpicos. Semideuses e ídolos. Desde a Antiguidade, que a proeza exalta os seres humanos. Pela obra e pela devoção. À semelhança dos pódios gregos, muitos anúncios publicitários parecem escaparates elitistas de heroínas e heróis. No anúncio The Toughest Athletes, da Nike, as mulheres atletas, mães ou grávidas, são fortes e resistentes. O segredo provém do uso de roupas desportivas Nike. No contexto atual da natalidade, este anúncio é oportuno.
“Dados do Instituto Nacional de Estatística dão conta de que, em 2020, houve menos 2,6% nascimentos e mais 10,2% óbitos do que em 2019. Em 2020, nasceram menos bebés em Portugal e o número de óbitos cresceu muito, o que fez com que o saldo natural do país (a diferença entre o número de nados-vivos e de óbitos) continuasse negativo, pelo 12.º ano consecutivo, e em valores superiores aos anteriores. Os dados, ainda preliminares, são do Instituto Nacional de Estatística (INE) e foram revelados esta terça-feira (Morremos mais e houve menos nascimentos: saldo natural em Portugal cada vez mais negativo. Público, 16 de março de 2021: https://www.publico.pt/2021/03/16/sociedade/noticia/morremos-menos-nascimentos-saldo-natural-portugal-negativo-1954621).
Alegria dos sentidos

Deixemos descansar a razão no colo dos sentidos. Georg Simmel aborda, no ensaio dedicado à sociologia dos sentidos (1981, Sociologie et épistémologie. Paris, PUF), a visão, o ouvido e o olfato. Para ele, “é muitas vezes o que ouvimos que nos permite saber o que vemos” (Paquot, Thierry, 2012, “En lisant Georg Simmel”, Hermès, La Revue 2012/2 (n° 63), pages 21 à 25). No anúncio 2021 Earth Odyssey, da marca Jeep, por extraordinárias que sejam as imagens, quem comanda a dança é o som. Um belíssimo anúncio. Não me importava ser o autor.
Chover no molhado

É tempo de mobilização para a vacina. No anúncio It’ up to you, da Ad Council, os “embaixadores” são presidentes. Os casais Clinton, Obama, Bush e Carter defendem o interesse da vacinação. Chover no molhado? Este é um assunto em que nunca choverá o suficiente.
Perguntas impertinentes:
Por que aparecem presidentes em vez de médicos, cientistas ou epidemiologistas? São mais competentes no que respeita a vacinas?
Por que aparecem quatro presidentes em vez de um? Dizem praticamente o mesmo. Repetir o mesmo argumento torna-o mais verdadeiro ou mais convincente?
Vilfredo Pareto aborda estas questões no Trattato di sociologia (1916).
A herança dos Pink Floyd
Falar em David Gilmour é pensar, também, em Roger Waters. Gilmour com 75 anos e o Waters com 77, são os dois rostos dos Pink Floyd. Continuam ativos. Roger Waters lançou um álbum em 2017 (Is This the Life We Really Want?), outro em 2018 (Igor Stravinsky’s The Soldier’s Tale); David Gilmour publicou o álbum Rattle That Lock, em 2015, e o single Yes, I Have Ghosts, em 2020. A solo, durante e após os Pink Floyd, Roger Waters assinou seis álbuns de estúdio e David Gilmour, quatro.
Discos de Roger Waters






David Gilmour e Roger Waters são inconfundíveis. São diferentes. Associo-os, no entanto, a um mesmo aspeto da respetiva carreira. Nenhum descola da matriz dos Pink Floyd, nomeadamente da última fase da banda. A ópera Ça Ira (2005), de Roger Waters, é, porventura, a exceção. A meu ver, não recriaram a herança dos Pink Floyd. Ouvi e reouvi os discos, pacientemente, à espera de algum diamante escondido. Repare-se que os Pink Floyd se notabilizaram pela sua renovação regular. Como nenhuma outra banda!
Discos de David Gilmour




Seguem três músicas do Roger Waters. Duas integram o álbum mais recente Is This Life We Really Want? (2017). A primeira, Hello In There, é especial. A segunda, The Gunner’s Dream, é, pelo contrário, um cover dos Pink Floyd (The Final Cut, 1983). A terceira, It’s A Miracle, do álbum Amused To Death (1992), encaro-a como um pequeno diamante.
David Gilmour e Leonard Cohen

David Gilmour compôs em 2020 a canção Yes I Have Ghosts (vídeo 1) por ocasião do lançamento do áudio-livro A Theater For Dreams (2020) da esposa Polly Samson. É acompanhado pela filha Romany Gilmour (harpa e voz). Lembra Leonard Cohen. O suficiente para justificar uma pesquisa rápida. Há registo de David Gilmour a interpretar várias canções de Leonard Cohen, tais como So Long, Marianne, Fingerprints, Bird o the Wire, Hey, That’s No Way To Say Goodbye… E If It Be Your Will, cover gravado em família (vídeo 2). Não resisto a acrescentar o original de Leonard Cohen (vídeo 3). Um emigrante melgacense no Canadá ofereceu-me uma cassete de Leonard Cohen com esta canção. As coisas são relações sociais.
Lagartos. As alterações climáticas

“O lagarto andou à roda, à roda, à roda, até que abocanhou a cauda. Mordeu, mordeu, mordeu… Ficaram os dentes” (Albertino Gonçalves).
As alterações climáticas sentem-se, mas, por vezes, não se pensam; pensam-se, mas, por vezes, não se age. É a perspetiva dos seguintes anúncios:
- The climate is changing, da Singapore’s national water, alerta para o cuidado a ter com a água.
- Face à l’urgence climatique, les discours ne suffisent pas, do Greenpeace France, denuncia a inconsequência dos discursos (políticos).
As alterações climáticas são uma onda gigante que ameaça afundar-nos.
O Tendências do Imaginário face ao confinamento

O confinamento tem constrangimentos. Mormente, quando é duplo: pandémico e mórbido. Por doença, tenho a mobilidade limitada a um dos pisos da casa. Esta vida apertada tem consequências, inclusivamente, ao nível do Tendências do Imaginário.
Muitos artigos inspiram-se na observação da vida quotidiana. Descobertas de trazer no bolso. É um divertimento que cultivo, uma espécie de “sociologia espontânea”. Com o confinamento, resta-me a “observação de pássaros: os conflitos entre gatos, a etiqueta das bicadas dos pardais nas migalhas de pão ou os estratagemas dos melros para aceder à comida dos gatos.
Os “artigos de fundo” são uma marca do Tendências do Imaginário. Textos originais que exigem semanas de pesquisa e escrita. O confinamento comprimiu o tempo no presente. O aqui e o agora tornaram-se avassaladores, avessos a iniciativas de fôlego. Não há impulso. O futuro mora nos faróis dos palpiteiros.
O Tendências do Imaginário está diferente, com uma quebra de microssociologia e ensaio intelectual. Prosseguem a publicidade e a música. Estas circunstâncias contribuem para um novo papel da música.
A casa lembra uma discoteca. Gavetões, gavetas e prateleiras repletas de vinis, CDs e DVDs. Acervo de um melomaníaco. A maioria das músicas do Tendências do Imaginário provêm desta coleção. Com o confinamento, a relação com a música mudou. Outrora, a música acompanhava outras atividades, incluindo o trabalho. A música era ambiental. Agora, beneficia de uma dedicação exclusiva. Concentrado e repostado, ouço e seleciono as músicas. Esta nova interação com a música comporta um efeito relevante, que tende a privilegiar a tradição, os discos, em detrimento da inovação (a procura, sobretudo, na Internet).
Em resumo, com o duplo confinamento, pessoal e social, o Tendências do Imaginário arrisca-se a perder diversidade e atualidade. Não obstante, as visualizações mantêm-se.
Como ilustração, seguem duas músicas: o Concerto para Piano, nº1, de Frédéric Chopin, da coleção de discos e do polo da tradição; e The Silence, da Manchester Orchestra, uma banda indie norte-americana (polo de inovação, via Internet).
Solidão e indiferença

O modo como as galinhas colocam a cabeça quando prestam atenção não engana. Revelam uma capacidade de concentração superior à de muitos humanos. Dedico-lhes este artigo.

Multiplicam-se os anúncios relativos à vacinação. Alguns são esdrúxulos, outros singelos. O anúncio Parce qu’on rêve tous de se retrouver, do Ministère des Solidarités et de la Santé, de França, é bem concebido. Dispõe-se em três tempos: visita – reencontro – sonho. Cumpre à vacina tornar o sonho realidade. A canção Je reviens te chercher (1967), de Gilbert Bécaud, acompanha o anúncio. Uma bela canção. Mas prefiro, do mesmo cantor, L’Indifférence (1977). As vacinas podem combater a solidão, mas de pouco servem face à indiferença.
Modernidade avançada

O Daniel Noversa enviou-me este vídeo. Um expoente de humor aberrante. A ciência e a cultura transformam-se numa distopia delirante. O fabuloso tem precursores: os romances de François Rabelais, As Viagens de Gulliver, de Jonhatan Swift, a Quinta dos Animais, de George Orwell, e o absurdo Pays Sages, de Rafael Pividal. Gosto do tema e do modo. Há momentos em que parece que a vida se enganou na encruzilhada. Um excesso sôfrego de verdades e soluções. A enciclopédia do disparate. A sequência em que a robot leiteira evita o agricultor para se encostar ao trator é uma delícia. Fiquei sem fôlego literário. O Álvaro Domingues tem descoberto, no mundo fotografável, cotejos insólitos semelhantes. É ele que deve comentar esta espécie de documentário fictício.
