A multiplicação dos dias

21 de Março: Dia Internacional das Florestas e da Árvore

21 de Março: Dia Internacional das Florestas e da Árvore. Fonte: http://www.regiaodeagueda.com.

Ontem foi o Dia Internacional da Felicidade. Hoje é o Dia Mundial da Síndrome de Down. Vem-me à memória o artigo A Felicidade é um Flor Caprichosa, publicado no dia 21 de Março de 2014.

“O bom senso é a coisa que, no mundo, está mais bem distribuída (…) o poder de bem julgar, e de distinguir o verdadeiro do falso que é aquilo a que se chama o bom senso ou a razão, é naturalmente igual em todos os homens” (Descartes, Discurso do Método). 

A felicidade não é como o bom senso cartesiano. É, antes, como o amor pascaliano: “não tem idade, está sempre a nascer” (Blaise Pascal, Discours sur les passions de l’amour). A felicidade é caprichosa. Tem, sem dúvida, condicionantes, mas não tem lugar, nem mestre. Não tem caminho, nem ponto fixo. Não se decreta, nem se prescreve. Como é voz comum, não se compra. Surpreende. Cresce e murcha como uma flor sem jardim. A felicidade não é um estado, é um movimento. É a alma a fazer surf na espuma dos dias.

Anunciante: World Down Syndrome Day. Título: Dear Future Mom. Agência: Saatchi & Saatchi. Direcção: Luca Lucini. Itália, Março 2014.

O dia 21 de Março é o dia do ano com mais dias. Para além da Primavera e da síndrome de Down, é o Dia Internacional das Florestas e da Árvore, Dia lnternacional para a Eliminação da Discriminação Racial e Dia Mundial da Poesia, Não existe no calendário tamanho dia. Por acréscimo, de 21 a 28 de Março, é a Semana de Solidariedade com os Povos em Luta contra o Racismo e a Discriminação Racial. Os dias e as semanas internacionais da ONU são díspares. Alguns surpreendem. Por exemplo, o 12 de Abril é o Dia Internacional do Voo Espacial Tripulado e o 20 de Maio é o  Dia Mundial das Abelhas (fonte: https://nacoesunidas.org/calendario/dias-e-semanas/).

Retalha-se, de algum modo, o sentimento e o pensamento das pessoas embalando-os em unidades de tempo. Em termos de modernidade, esta listagem segmentada configura uma agenda. Na nossa era, a acção quer-se agendada no local e no momento certos. Convém prever, com a devida preparação e encenação, que o 21 de Maio é o Dia Mundial para a Diversidade Cultural e para o Diálogo e o Desenvolvimento ou que, logo a seguir, a 25 de Maio, começa a Semana de Solidariedade com os Povos sem Governo Próprio.

Subsiste um detalhe que intriga: a prática de comemorar num dia vários dias. Edward T. Hall (The Silent Language, 1959; The Hidden Dimension, 1966; e The Dance of Life, 1983) assinala a tendência para o desaparecimento da polícronia e o desenvolvimento da monocronia. O polícrono mistura os tempos e as actividades sem vislumbre de agenda. Faz várias coisas ao mesmo tempo na altura que se proporcione. O monocrono guia-se, pelo contrário, pela agenda, linearmente fraccionada, uma tarefa de cada vez. Propor um dia com vários dias não é moderno. Mas não é grave. A multiplicidade também é susceptível de segmentação: As escolas comemoram um dia, os hospitais, outro, os movimentos cívicos, outro, a comunicação, outro, e ainda sobrará para as famílias.

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