Males do Mundo

No Tendências do Imaginário, existem, na década de 2010, nove artigos de 16 de julho com interesse: Apelo (2012); Idolatria (2012); Chove na natalidade (2014); Sisifite (2015); Havemos de ir a Viana (2016); Sociedade de choque (2017); Umbilicados, narcisistas e egoístas (2018); e Simplesmente só (2019).
Pensei publicar hoje dois “pacotes”: 1) Miopia umbilical, com os artigos Umbilicados, narcisistas e egoistas(2018), a que acrescentava Avatar Narcisista (10.12.2017) e Nota de rodapé (26.11.2016); 2) Solidões, com os artigos Simplesmente só (2019), a que acrescentava A solidão como companheira (19.11.2016) e Aspirar a solidão (21.02.2021).
Desisto do pacote Solidões. Fica para o ano. Substituo-o por outro pacote, Males do mundo, com os artigos Apelo (16.07.2012) e Sociedade de choque (16.07.2017). Não só porque condiz mais com a “miopia umbilical”. mas, sobretudo, porque ao procurar uma versão com melhor resolução da sequência de abertura, com direção da NoBrain, do filme Huit, só o encontrei na minha própria página do YouTube. Precise-se que o filme Huit teve a participação de oito realizadores, entre os quais Jane Campion, Gus Van Sant e Wim Wenders. Nestas circunstâncias, descarreguei a referida sequência de abertura, salvaguardando-a em triplicado: no disco duro, na página do YouTube e no Tendências.
Segue o pacote Males do Mundo com dois artigos, Apelo (2012) e Sociedade de Choque, com dois vídeos veras impressionantes: “Huit“ (2009) e “Article 13 – L’horreur ne prend jamais de vacances” (2017).
Impossíveis conseguidos ou oportunidades desperdiçadas?

Para Ernst Bloch, a utopia remete para um futuro exequível com raízes no presente que justifica uma esperança mobilizadora. Algures, creio que no livro dedicado a Thomas Münzer, sustenta a seguinte convicção: se a história está repleta de impossíveis realizados, também o está de possíveis não concretizados. Volvidas algumas décadas, os 17 objetivos adotados em 2015 pelos Estados-Membros das Nações Unidas farão parte dos impossíveis conseguidos ou dos possíveis desperdiçados?
A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, adotada por todos os Estados-Membros das Nações Unidas em 2015, define as prioridades e aspirações do desenvolvimento sustentável global para 2030 e procura mobilizar esforços globais à volta de um conjunto de objetivos e metas comuns.
O real e o virtual
Insisto na mesma tecla: a promoção das causas e a publicidade de sensibilização dão-se bem com a fantasia. Eis um bom tema para uma dissertação relevante: “o papel da fantasia na promoção de causas”. Neste belíssimo, competente e eficiente anúncio da ONU, Não escolha a extinção, um dinossauro Tiranossauro Rex é o protagonista e a Assembleia Geral das Nações Unidas, a audiência. Em primeiro plano, o dinossauro; em segundo plano, as imagens das alterações climáticas e da fome no mundo. Imaginemos! Porque a imaginação também é caminho para o conhecimento e a consciencialização. Imaginemos que em vez do dinossauro discursava o Secretário-Geral das Nações Unidas. O impacto seria maior, menor ou igual? Seria, com certeza, diferente. Realidades e virtualidades…
Este é o fim
Belo amigo
Este é o fim
Meu único amigo, o fim
De nossos planos elaborados, o fim
De tudo que está de pé, o fim
Sem segurança ou surpresa, o fim
Nunca vou olhar em seus olhos… outra vez
Consegue imaginar como será
Tão sem limites e livre
Desesperadamente precisando da mão de algum estranho
Em uma terra de desespero?
(Excerto de The Doors, The End, 1967. Tradução: Vagalume).
A multiplicação dos dias

21 de Março: Dia Internacional das Florestas e da Árvore. Fonte: http://www.regiaodeagueda.com.
Ontem foi o Dia Internacional da Felicidade. Hoje é o Dia Mundial da Síndrome de Down. Vem-me à memória o artigo A Felicidade é um Flor Caprichosa, publicado no dia 21 de Março de 2014.
“O bom senso é a coisa que, no mundo, está mais bem distribuída (…) o poder de bem julgar, e de distinguir o verdadeiro do falso que é aquilo a que se chama o bom senso ou a razão, é naturalmente igual em todos os homens” (Descartes, Discurso do Método).
A felicidade não é como o bom senso cartesiano. É, antes, como o amor pascaliano: “não tem idade, está sempre a nascer” (Blaise Pascal, Discours sur les passions de l’amour). A felicidade é caprichosa. Tem, sem dúvida, condicionantes, mas não tem lugar, nem mestre. Não tem caminho, nem ponto fixo. Não se decreta, nem se prescreve. Como é voz comum, não se compra. Surpreende. Cresce e murcha como uma flor sem jardim. A felicidade não é um estado, é um movimento. É a alma a fazer surf na espuma dos dias.
Anunciante: World Down Syndrome Day. Título: Dear Future Mom. Agência: Saatchi & Saatchi. Direcção: Luca Lucini. Itália, Março 2014.
O dia 21 de Março é o dia do ano com mais dias. Para além da Primavera e da síndrome de Down, é o Dia Internacional das Florestas e da Árvore, Dia lnternacional para a Eliminação da Discriminação Racial e Dia Mundial da Poesia, Não existe no calendário tamanho dia. Por acréscimo, de 21 a 28 de Março, é a Semana de Solidariedade com os Povos em Luta contra o Racismo e a Discriminação Racial. Os dias e as semanas internacionais da ONU são díspares. Alguns surpreendem. Por exemplo, o 12 de Abril é o Dia Internacional do Voo Espacial Tripulado e o 20 de Maio é o Dia Mundial das Abelhas (fonte: https://nacoesunidas.org/calendario/dias-e-semanas/).
Retalha-se, de algum modo, o sentimento e o pensamento das pessoas embalando-os em unidades de tempo. Em termos de modernidade, esta listagem segmentada configura uma agenda. Na nossa era, a acção quer-se agendada no local e no momento certos. Convém prever, com a devida preparação e encenação, que o 21 de Maio é o Dia Mundial para a Diversidade Cultural e para o Diálogo e o Desenvolvimento ou que, logo a seguir, a 25 de Maio, começa a Semana de Solidariedade com os Povos sem Governo Próprio.
Subsiste um detalhe que intriga: a prática de comemorar num dia vários dias. Edward T. Hall (The Silent Language, 1959; The Hidden Dimension, 1966; e The Dance of Life, 1983) assinala a tendência para o desaparecimento da polícronia e o desenvolvimento da monocronia. O polícrono mistura os tempos e as actividades sem vislumbre de agenda. Faz várias coisas ao mesmo tempo na altura que se proporcione. O monocrono guia-se, pelo contrário, pela agenda, linearmente fraccionada, uma tarefa de cada vez. Propor um dia com vários dias não é moderno. Mas não é grave. A multiplicidade também é susceptível de segmentação: As escolas comemoram um dia, os hospitais, outro, os movimentos cívicos, outro, a comunicação, outro, e ainda sobrará para as famílias.
Sofrimento

“Mas as crianças Senhor / Porque lhes dais tanta dor?!” (Augusto Gil. Balada da Neve. 1909).
O anúncio Violence marks forever, da UNICEF, foi publicado no dia 5 de Dezembro. No mesmo dia, à noite, foi exibido integralmente no noticiário da SIC. É raro os noticiários passarem anúncios. Será por causa da instituição, a UNICEF? De David Beckham, embaixador de boa vontade da ONU? Do tema, a violência contra as crianças? Do modo, imagens animadas “tatuadas” na pele? Provavelmente, o conjunto. Nesta quadra de generosidade natalícia, a UNICEF cativa-nos com altíssima publicidade. Mas não é completamente original. Desconfio que a originalidade é veneno e a repetição néctar.
Os NoBrain criaram, em 2009, um vídeo, também para a ONU, intitulado Huit (os oito objectivos adoptados pelas Nações Unidas para o desenvolvimento mundial). As imagens são “projectadas” em corpos não identificados. Mas o efeito é semelhante. A pele é o suporte das imagens. A pele é sensibilidade e memória. O fascínio actual pelas tatuagens não desmente esta vocação da pele. “A violência fica marcada para sempre”.
Estes dois anúncios lembram um terceiro, com mais de trinta anos, também da UNICEF: imagens de crianças vítimas da fome acompanhadas pela música Twelve O’clock (1975), do Vangelis. Ainda não encontrei o anúncio. Um português, Luís Moreira, de Setúbal, produziu um vídeo que conjuga esta música do Vangelis com excertos do filme Jesus de Nazaré (Franco Zefirelli, 1977). O resultado é interessante (ultrapassou dois milhões de visualizações).
Anunciante: unicef. Título: Violence marks forever. Agência: Blind Pig. Direcção: Jonas McQuiggim. Reino Unido, Dezembro de 2016.
Título: 8. Director: NoBrain. Produção: LDM Production. Pós-produção: Mac Guff Ligne. França, 2009.
Vangelis. 12 o’clock. Heaven and Hell. 1975. Vídeo produzido por Luís Moreira, com excertos do filme Jesús de Nazaré (Franco Zefirelli, 1977).
Palavras do tamanho do mundo
Este anúncio das Nações Unidas centra-se na palavra. É certo que “no mundo há muitas palavras e poucos ecos” (Goethe), e, contrariando Sólon, “a palavra [não] é o espelho da acção”; a palavra pode, inclusivamente, ser o seu disfarce. O anúncio convoca 19 palavras para expressar aquilo que “o mundo mais necessita”. Palavra puxa palavra, e outras ocorrem. Por exemplo, a verdade. Realidade complicada, pela qual muitos seres humanos deram a vida. Uma palavra que caberia em mais três segundos de anúncio. Sem ela, as demais palavras arriscam-se a ser levadas pelo vento. Um vento, porventura, tóxico.
Anunciante: ONU, World Humanitarian Day 2013. Título: The World Needs More. Agência: Leo Burnett, New York. EUA, Agosto 2013.
A Institucionalização da Felicidade
A Felicidade, eu conheci-a, era uma senhora de idade, de boas famílias, alta e magra, que morava junto à igreja da minha aldeia. Chamá-la pelo nome era um regalo. Hoje, é o Dia Internacional da Felicidade. É-se feliz? Para sempre, nos contos de fadas. Está-se feliz? Muitas vezes. Há quem meça a felicidade dos povos… Mais complicado do que abraçar as nuvens. Mas há quem acredite nestes ícaros da objectividade forçada… E quem devore os números e os regurgite. Hoje é o dia internacional da felicidade. Quem diria! Seguem:
– uma entrevista ao Jornal de Notícias sobre a “felicidade dos portugueses”, publicada hoje (para aceder ao artigo, carregar na imagem ou no seguinte endereço: http://www.jn.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=3118437&page=-1).
– um vídeo musical dos Fleetwood Mac (Don’t Stop. Rumours, 1977), não para proporcionar felicidade, mas um pouco de alegria. A resolução do vídeo deixa a desejar, mas a qualidade do conteúdo compensa.
Apelo
Desafiados a fazer a introdução a uma série de sete vídeos produzidos por realizadores consagrados, os NoBrain propõem este vídeo. Fenomenal. Já o publiquei algures, mas não me importo de repetir.



