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Estupidez global

Mapa da ecorregião amazônica definida pelo WWF. Imagem de satélite da NASA.

Uma só coisa me maravilha mais do que a estupidez com que a maioria dos homens vive a sua vida: é a inteligência que há nessa estupidez (Fernando Pessoa, Fragmentos de uma Autobiografia, Joinville . SC, Clube de Autores, 2017, p. 132).

O Facebook tem a gentileza de me recordar artigos antigos. Com o tempo, anúncios como o Life, da Sociedade de Amigos da Amazónia, tornam-se raros, tendem a sair de circulação, incluindo a Internet.

Segundo Carlo Cipolla, de um estúpido pode-se esperar tudo, até a adopção de comportamentos que claramente o prejudicam. O estúpido é, assim, imprevisível, o que o torna particularmente perigoso, para si e para os outros. Este anúncio mostra-nos que de normais e de estúpidos todos temos um pouco.

Anunciante: Sociedade de Amigos da Amazónia. Título: Life. Agência: Matosgrey. Direcção: Fernando Sanches. Brasil, Abril 2009.

A multiplicação dos dias

21 de Março: Dia Internacional das Florestas e da Árvore

21 de Março: Dia Internacional das Florestas e da Árvore. Fonte: http://www.regiaodeagueda.com.

Ontem foi o Dia Internacional da Felicidade. Hoje é o Dia Mundial da Síndrome de Down. Vem-me à memória o artigo A Felicidade é um Flor Caprichosa, publicado no dia 21 de Março de 2014.

“O bom senso é a coisa que, no mundo, está mais bem distribuída (…) o poder de bem julgar, e de distinguir o verdadeiro do falso que é aquilo a que se chama o bom senso ou a razão, é naturalmente igual em todos os homens” (Descartes, Discurso do Método). 

A felicidade não é como o bom senso cartesiano. É, antes, como o amor pascaliano: “não tem idade, está sempre a nascer” (Blaise Pascal, Discours sur les passions de l’amour). A felicidade é caprichosa. Tem, sem dúvida, condicionantes, mas não tem lugar, nem mestre. Não tem caminho, nem ponto fixo. Não se decreta, nem se prescreve. Como é voz comum, não se compra. Surpreende. Cresce e murcha como uma flor sem jardim. A felicidade não é um estado, é um movimento. É a alma a fazer surf na espuma dos dias.

Anunciante: World Down Syndrome Day. Título: Dear Future Mom. Agência: Saatchi & Saatchi. Direcção: Luca Lucini. Itália, Março 2014.

O dia 21 de Março é o dia do ano com mais dias. Para além da Primavera e da síndrome de Down, é o Dia Internacional das Florestas e da Árvore, Dia lnternacional para a Eliminação da Discriminação Racial e Dia Mundial da Poesia, Não existe no calendário tamanho dia. Por acréscimo, de 21 a 28 de Março, é a Semana de Solidariedade com os Povos em Luta contra o Racismo e a Discriminação Racial. Os dias e as semanas internacionais da ONU são díspares. Alguns surpreendem. Por exemplo, o 12 de Abril é o Dia Internacional do Voo Espacial Tripulado e o 20 de Maio é o  Dia Mundial das Abelhas (fonte: https://nacoesunidas.org/calendario/dias-e-semanas/).

Retalha-se, de algum modo, o sentimento e o pensamento das pessoas embalando-os em unidades de tempo. Em termos de modernidade, esta listagem segmentada configura uma agenda. Na nossa era, a acção quer-se agendada no local e no momento certos. Convém prever, com a devida preparação e encenação, que o 21 de Maio é o Dia Mundial para a Diversidade Cultural e para o Diálogo e o Desenvolvimento ou que, logo a seguir, a 25 de Maio, começa a Semana de Solidariedade com os Povos sem Governo Próprio.

Subsiste um detalhe que intriga: a prática de comemorar num dia vários dias. Edward T. Hall (The Silent Language, 1959; The Hidden Dimension, 1966; e The Dance of Life, 1983) assinala a tendência para o desaparecimento da polícronia e o desenvolvimento da monocronia. O polícrono mistura os tempos e as actividades sem vislumbre de agenda. Faz várias coisas ao mesmo tempo na altura que se proporcione. O monocrono guia-se, pelo contrário, pela agenda, linearmente fraccionada, uma tarefa de cada vez. Propor um dia com vários dias não é moderno. Mas não é grave. A multiplicidade também é susceptível de segmentação: As escolas comemoram um dia, os hospitais, outro, os movimentos cívicos, outro, a comunicação, outro, e ainda sobrará para as famílias.

Promessa de morte

Evil League

Alien, Bane, Dark Vador, Darth Vader, Joker, Predator, Voldemort… Quantos supervilões cabem num anúncio? Supervilões aos molhos! Já estava com saudades de sentir o ecrã tremer de medo. Tanto mal, tanta destruição. Até o símbolo da modernidade, a torre Eiffel, cai no Sena. A morte anda à solta dentro de nós. Carnívoros e lenhadores, somos pecadores inglórios! Somos a cadeia do mal. Somos bons pela nossa santa ignorância e demoníacos pelas devastadoras consequências. Nesta quadra natalícia, para nossa felicidade global, poupemos o pinheiro, poupemos os dentes, pelas florestas, pelos animais, por nós próprios.

Marca: Greenpeace. Título: Evil League: L’Ultime Menace. Agência: 84.Paris. França, Dezembro 2017.

Deflorestação

Quino. Pensamiento

Quino. Pensamento

Este blogue anda meio macabro. Não é de estranhar. Participo numa equipa de investigação sobre a morte nos media e estou a dedicar-lhe a escrita de um livro. A própria sociedade também anda obcecada com a morte. Tropecei com anúncio argentino Sin bosques nos ahogamos todos, da Greenpeace. O título é sugestivo: nos ahogamos todos. Mas o vídeo reforça: um homem, fechado num recipiente transparente, fica sem ar, à medida que as florestas são destruídas, até ao afogamento. Um “espectáculo” de morte.

Anunciante: Greenpeace. Título: Sin bosques nos ahogamos todos. Agência: Wofbpp. Argentina, Agosto 2016.

Para contrariar esta onda funesta, pesquisei as entradas felicidade, alegria e vitalidade nas bases de anúncios. Saiu este Moved by Magic, da rádio Magic FM. Estimulante.

Marca: Magic FM. Título: Moved by Magic. Agência: Mother. Direcção: Daniel Kleinman. UK, 2003.

 

O Oráculo das Boas Causas

Rafael Sanzio. Madona Sistina. 1512-1513. Dresden. Detalhe.

Rafael Sanzio. Madona Sistina. 1512-1513. Dresden. Detalhe.

“Bater-se por uma causa justa é já uma vitória” (Anónimo).

A imagem, o som, a estética, a técnica, a história, a criatividade e o envolvimento, quando são bons, contribuem para a qualidade de um anúncio publicitário. Mas existe um trunfo com importância crescente: uma boa causa. As boas causas movem montanhas. No anúncio Not just pictures, a Nikon refreia por uma boa causa, os indígenas das florestas, santuários da natureza e da humanidade: “Stop. They are not just pictures. Stop killing the forest!”. Resta convencer os anjos de Rafael Sanzio.

Marca: Nikon. Título: Not Just Pictures. Produção: Quad. Direcção: Alejandro Toledo. 2004.

O abismo

Incêndio em Caminha. 2015.

Incêndio em Caminha. 2015.

Em 2012, participei num documentário dedicado a uma árvore de Guimarães. Competia-me cuidar do simbolismo. A árvore é um ser cósmico vivo que acolhe a vida. Agarra-se à terra, bebe água, eleva-se no ar e consume-se no fogo. É uma ponte vertical entre as profundezas da terra e as alturas do céu. Há quem associe a árvore ao sagrado. E ao demoníaco, também. A árvore ergue-se como um marco da memória individual e colectiva. Quando regresso às origens, visito as árvores: a pereira e a tangerineira partiram sem avisar. Menos dois troncos de memória, menos dois anjos da guarda. Valem-me, para compensar, as rotundas e os semáforos. O anúncio Farewell to the forest, da Unilever, sublinha que, no mundo, a cada minuto, é desarborizado o equivalente a 36 estádios de futebol. Um abismo!

O antropólogo George Condominas publicou, em 1957, o livro Nous avons mangé la forêt (Comemos a floresta; Paris, Mercure de France). Estuda os Mnong-Gar dos planaltos do Vietname. Tinham o seguinte costume: num ano, desbastam uma parte da floresta onde semeiam, por exemplo, arroz; no ano seguinte, cortam outra parte da floresta. Ano a ano repetem a proeza. Até que, volvidos vários anos, regressam ao início onde os espera uma floresta recomposta. E recomeçam “a comer a floresta”… É possível explorar a floresta sem a destruir.

Marca: Unilever. Título: Farewell to the forest. Agência: David Buenos Aires/Ogilvy & Matter. Direcção: Nico Perez Veiga. Argentina, Agosto 2015.

A floresta, o lobisomem e o automóvel

Toyota. Werewolf

Fala-se na floresta… Logo aparecem o lobisomem fotogénico, a capuchinho atrasada, o playboy desorientado… E o carro com enguiço ou feitiço. Quase uma estreia: o segundo anúncio do Panamá no Tendências do Imaginário.

Marca: Toyota. Título: Werewolf. Agência: Ogilvy. Panamá, Fevereiro 2014.

Uma baleia na floresta

The WDC. Safe and free

Quando a inspiração e a arte se dão as mãos pode acontecer um anúncio de inesperado e belo efeito. À semelhança da coca-cola de Fernando Pessoa, uma baleia a nadar numa floresta é um conceito que “Primeiro, estranha-se. Depois, entranha-se”.

Marca: Whale and Dolphin Conservation (WDC/WDCS). Título: Safe and free. Agência: Gentleman Scholar. USA, Novembro 2013.

Papel Digital

Digital Insurance. BrazilEm turismo no Brasil, um casal de pombos depara-se com a destruição da floresta. Não revelo mais para não ser spoiler. Pode carregar em HD no canto superior direito do vídeo.

Marca: Digital Insurance. Título: Brazil. Agência: BBR Saatchi & Saatchi, Israel. Direção: Rani Carmeli. Israel, Outubro 2013.