Archive | Junho 2016

Os três macacos e a violência conjugal

Os três esqueletosFalo pela tua boca e alimento-me do teu medo. “Não ouvir o mal, não falar do mal e não ver o mal”. Os monstros crescem à sombra do silêncio, da cegueira e da surdez. A censura dos sentidos é uma ferida na humanidade.

Partilhamos causas sociais na Internet, incomodamo-nos com os famosos, ignoramos os próximos… Um barco sem âncora nem remos.

A não assistência a pessoa em perigo é punível se, sem perigo grave para si ou para terceiro, se abstiver voluntariamente de prestar ou providenciar ajuda a uma pessoa exposta a perigo grave, independentemente do facto de a situação dessa pessoa ter sido observada por si ou lhe ter sido descrita por aqueles que solicitaram a sua intervenção.
Em caso de não assistência a pessoa em perigo, incorre numa pena de prisão de oito dias a cinco anos e numa multa de 251 a 10 000 EUR, ou apenas numa destas penas. (https://e-justice.europa.eu/content_rights_of_defendants_in_criminal_proceedings_-169-LU-maximizeMS-en.do?clang=pt&idSubpage=5).

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Anunciante: Protection Femmes. Título: Violences conjugales… Osez en parler. Agência: Ben’s Communication. Direcção: Malek ben gaid Hassine. França, 2016.

A Cabeçada de Cristiano Ronaldo

Cristiano Ronaldo Nike

Em 1978, passei três meses na Jugoslávia. Em Tuzla, uma professora de francês pediu-me para falar da Revolução do 25 de Abril aos alunos de uma escola secundária. Compareceram centenas. Na escola, abundavam os campos de ténis e de basquetebol. Anos depois, os tenistas e os basquetebolistas da ex-Jugoslávia constavam entre os melhores do mundo. Em Portugal, sucede algo semelhante. Não há recanto que não acolha um “campo da bola”. Os clarões nocturnos parecem naves extraterrestres a aterrar. Os resultados ultrapassam os da Jugoslávia. Os melhores treinadores e jogadores de futebol do mundo são portugueses. Nós somos assim, não desperdiçamos oportunidades. Desde há algum tempo, estamos a investir em empreendedores. Não se fala noutra coisa. O sino de Wall Street que se apronte!

Marca: Nike Football. Título: Follow Your Dreams – The Switch. Agência: Wieden + Kennedy. Direcção: Ringan Ledwidge. Internacional, Junho 2016.

Sociocídio

Escultura alusiva ao conto O Rei Vai Nu, de Hans-Christian Anderson. Colónia. Alemanha.

Escultura alusiva ao conto O Rei Vai Nu, de Hans-Christian Anderson. Colónia.

“Não existe defeito que, com o tempo, numa sociedade corrupta, não se torne um mérito, nem vício que a convenção não consiga elevar à virtude (Alvaro Corrado, Il nostro tempo e la speranza, Milano, Bompiani, 1952).

Hoje, é dia do Senhor, e dos bons pensamentos. Neste mundo, é mais fácil valorizar os defeitos ou as qualidades? Que a resposta não salte da ponta da língua mas mergulhe na inteligência. O disparate desnuda o Rei. Perguntas sem resposta estimulam, como diria Hercule Poirot, “as pequenas células cinzentas”. Hoje, dia do Senhor, abraço uma “nova regra sociológica”: Não cometer sociocídio, no sentido de não mumificar a vida social. Não reifiques, semeia! Stoopid?

Alice Cooper. Hey Stoopid. Álbum homónimo. 1991.

Planar

Plastic 2“Ça plane pour moi” é o título de uma canção de Plastic Bertrand (1977). Foi um sucesso surpreendente em França, mas também no estrangeiro. Foi adoptada por vários anúncios publicitários e foi alvo de vários covers (Leila K., Sonic Youth, Nouvelle Vague). Representou uma lufada de ar punk. A letra lembra uma fatrasia medieval, uma poesia cujas palavras e frases não têm nexo nem sentido, subordinando-se à sonoridade e a eventuais alusões subentendidas.

Plastic Bertrand. Ça plane pour moi. 1978.

Ça plane pour moi (letra)

(Wham! Bam!)
(Mon chat ‘Splash’)
Gît sur mon lit
A bouffé sa langue

En buvant
(Tronc)
Mon whisky
Quand moi

Peu dormi, vidé, et brimé
J’ai du dormir dans la gouttière
Où j’ai eu un flash
Hou! Hou! Hou! Hou!
En quatre couleurs

Allez hop!
Un matin
Une
(Louloute)
Est venue chez-moi

Poupée de Cellophane
Cheveux chinois
Un sparadrap
Une gueule de bois

A bu ma bière
Dans un grand verre
En caoutchouc
Hou! Hou! Hou! Hou!
Comme un indien dans son igloo

Ca plane pour moi
Ca plane pour moi
Ca plane pour moi, moi, moi, moi, moi
Ca plane pour moi
Hou! Hou! Hou! Hou!
Ca plane pour moi

Allez hop! La nana
Quel panard!
Quelle vibration!
De s’envoyer

Sur le paillasson
Limé, ruiné, vidé, comblé
“You are the king of the divan!”
Qu’elle me dit en passant
Hou! Hou! Hou! Hou!
I am the king of the divan

Ca plane pour moi
Ca plane pour moi
Ca plane pour moi, moi, moi, moi, moi
Ca plane pour moi
Hou! Hou! Hou! Hou!
Ca plane pour moi

Allez hop!
T’occupe, t’inquite
Touche pas ma plante
It’s not today

Quel le ciel me tombera sur la tte
Et que l’alcool me manquera
Hou! Hou! Hou! Hou!
Ca plane pour moi

Allez hop! Ma nana
S’est tirée
S’est barrée
Enfin c’est
(Marre)
tout casser

L’vier, le bar me laissant seul
Comme un grand connard
Hou! Hou! Hou! Hou!
Le pied dans le plat

Ca plane pour moi
Ca plane pour moi
Ca plane pour moi, moi, moi, moi, moi
Ca plane pour moi
Hou! Hou! Hou! Hou!
Ca plane pour moi

Ca plane pour moi
Ca plane pour moi
Ca plane pour moi, moi, moi, moi, moi
Ca plane pour moi.

 

Cantar com a garganta

popeye 1934Tu tens garganta, ele tem garganta, eu tenho garganta, mas não a garganta do mongol Batzorig Vaanchig. Foi o meu rapaz, o benjamim, quem desencantou este vídeo. Mas, para retomar a sabedoria do livro do Eclesiastes (“não há nada de novo debaixo do sol”), recorro a uma relíquia dos desenhos animados: nos Estados Unidos, em 1934, o genérico da série Popeye The Sailor já era cantado com a garganta (ou o diafragma ou o estômago). It’s the pioneering spirit, stupid!” O canto da garganta nem sempre é agradável: ver https://tendimag.com/2015/06/29/arcanjos-e-anjos-da-guarda/; it’s the disgusting spirit, stupid!

Mongolian Throat Singing. Batzorig Vaanchig.

Popeye The Sailor: Lets Sing with Popeye (1934).

 

 

Old Spice: Um Novo Conceito de Publicidade

old-spice-remix-hed-2016A agência Wieden + Kennedy Portland criou para a Old Spice um conceito de publicidade inconfundível. Humor estapafúrdio, sequências alucinantes e personagens hilariantes. Os cenários, a acção e os pormenores sucedem-se grotescos e excessivos. Entre os espectadores, há quem delire e quem se enfade.

O primeiro vídeo, Horrifying Mutant Nightmare Abomination, corresponde a um remix de sete anúncios da Old Spice do ano 2015.

Marca: Old Spice. Título: Horrifying Nightmare Abomination (Remix). Agência: Wieden + Kennedy Portland. USA, Junho de 2016.

Os anúncios da Old Spice nem sempre foram tão excêntricos. Selecciono quatro anúncios antigos, dos anos sessenta aos anos noventa. São machistas: o homem que é homem escolhe Old Spice (ver Not Meant for All Men, 1983); não há mulher que resista ao encanto do perfume (Old Spice Aftershave Lotion, anos sessenta, Mark Of a Man, nos anos setenta); nem sequer a mulher presidente  (Bunker, 1999).

Marca: Old Spice. Título: Old Spice Aftershave Lotion. USA, anos sessenta.

Marca: Old Spice. The Mark of a Man. Anos setenta.

Marca: Old Spice. Título: Not Meant for All Men. 1983.

Marca: Old Spice. Título: Bunker. Agência: Saatchi & Saatchi. Àfrica do Sul. 1999.

Nos anúncios mais recentes, o machismo não desaparece. Mas tudo resulta ridicularizado, incluindo o machismo. O caso muda de figura.

O caso do planeta apagado

Orange

Coitados dos astronautas! O planeta sumiu. Pintaram-no com tinta preta. Toda a humanidade. Não sobrou um pincel.

Amália Rodrigues (2)

Amália Rodrigues

À semelhança das farsas medievais, os anúncios da Orange não perseguem objectivos morais. Lembram o Principezinho e o reino do coração e da imaginação. “O importante é a Rosa” é uma frase do Principezinho que inspirou a canção homónima de Gilbert Bécaud. Desta vez, é interpretada por Amália Rodrigues. No planeta do Principezinho, se não imaginamos, não vemos.

Marca: Orange. Título: Planet. Agência: Publicis Conseil Paris. Direcção: Frederic Planchon. França, 2007.

Amália Rodrigues. C’est la rose l’important. Ao vivo, em França, em 1968.

Distracção fatal

Campanha contra a droga

Campanha contra a droga

A publicidade anda necrófila. Volta e meia, repete o mote: “Se insistir, morre!” A Maria João enviou-me o anúncio suíço “Anastase: The Magic Trick”, da Polícia de Lausanne. Escrever mensagens e ouvir música  num smartphone na rua é fatal. Como ilustração, um jovem é atropelado por um carro. “Abracadabra! Se tu também queres realizar este truque incrível [a morte], basta um telefone móvel, alguns excertos de música, uma aplicação sms e, sobretudo, um pouco de inatenção”. Com humor negro, ficamos elucidados: o abuso do smartphone mata. Como o álcool, a droga, a obesidade, o tabaco.

Campanha contra o alcool

Campanha contra o alcool

Desconversemos.

O uso indevido do smartphone mata. E o resto, não mata, nem morre? Eis uma pitada de absurdo lógico.

A política, o desporto, o amor, o sexo, o sol, os medicamentos e os hospitais, não matam? Até o ridículo.

A OMS, que se presta a estes alertas, bem podia discriminar uma lista exaustiva com tudo quanto mata. Morreríamos mais felizes, para sempre!

Campanha contra a obesidade

Campanha contra a obesidade

Scotland Against Narcotics

Scotland Against Narcotics

O meu rapaz, que detesta absurdos lógicos, corrige: sustentar que o uso indevido do smartphone mata não significa que a ligação seja linear nem geral. Basta meia dúzia de vítimas para se poder afirmar que o “smartphone” mata. Assim, relativizada, a sentença de que o smartphone mata tende a esvaziar-se. O que incha, desincha e passa. O uso do smartphone na rua não mata, pode matar. Matar, sem mais nem menos, é um concentrado votado à propaganda.

Segundo a Polícia de Lausanne, na Suíça, em 2013, “1100 pessoas foram gravemente feridas ou faleceram devido à distracção. Entre os peões, 66% reconhecem que telefonam ou ouvem música durante as suas deslocações a pé”. Algumas informações têm o condão de desinformar: das 1100 pessoas, quantas morreram? Para além do smartphone, que outras fontes de distracção estão contempladas? Os números prestam-se a diversas embalagens.

Anunciante: Police de Lausanne. Título: Anastase: the magic trick.  Direcção: Raphael Sibilla & Jerôme Piguet. Suíça, Maio 2015.

Filhos da Revolução

Telenor

A descontinuidade da técnica na era da repetição cultural. Durante cinquenta anos, os rituais sucederam-se, apenas mudaram os objectos.

Marca: Telenor. Título: Telenor Mobile TV. Agência: Carbergs (Stockholm). Suécia, 2007.

Não resisto. Segue T. Rex, Children of Revolution. 1972.

T. Rex, Children of Revolution. 1972.

Riscos e rabiscos

Pompeia

Pompeia

A publicidade, por vezes, satura. O acordo ortográfico, também. Boa parte dos anúncios soam a evangelho. Uma pessoa equilibrada mandava os anúncios, por exemplo, para a ERC, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social, e dedicava-se à leitura, à conversa, aos amigos, ao passeio, ao exercício físico. Mas é próprio de um aselha esmerar-se. Se a publicidade actual dá náuseas, demanda a antiga. A publicidade muda de ano para ano. Nessa vertigem, só é ultrapassada pelos tacões e pela barba. Tal como a moda, a publicidade tem ondas: ora slow motion, ora legos, ora mutantes, ora ciborgues. Encantaram-me dois anúncios cheios de grotescos e arabescos: linhas e contracurvas que desenham figuras efémeras. Tão leves, tão lindos! O primeiro, Kolibri, é de 2006; o segundo, Fantasia, de 2007.

Marca: Motley Bird. Título: Kolibri. Agência: Psyop. USA, 2006.

Marca: Gustav Paulig. Título: Fantasia. Agência: Sec & Grey Finland. Finlândia, 2007.