Rotação
“Uma tentação assombrava o Pinga Letras. Deixar de escrever. Não tem a quem, pelo menos, alguém que se sinta. Escrever é um engajamento; parar, um desprendimento. Escrever é coisa de sísifos, de moinhos de água. Página a página, a pedra mói sem pausas. Um dia, deixa de escrever, e ninguém dá por isso. É verdade que cultiva um estilo próprio: nota-se à primeira frase; à segunda ou à terceira enfastia. Metáforas, paradoxos, subentendidos, intertextualidades… E algumas ideias. Quem quer ideias? Não há ideias como as de cada um… Ponto final! A originalidade é um estorvo. Bastam ecos e massagens. Por outro lado, em textos curtos, as ideias parecem raquíticas. São bonsais do pensamento. Falta-lhes o incenso, o sermão e a procissão. O melhor é regressar à incubação de livros, esses transoceânicos da sabedoria fadados à insolação da inteligência. Um livro! Daqueles que passam, num ápice, de contribuições importantes a lixo de estantes. Um livro, com introdução e conclusão, mais um ano dos vinte que restam. Uma promessa, um sacrifício, uma mercadoria. E o Pinga Letras não parava de cogitar: um dia, talvez recomece do ponto de partida. Será um grande avanço. E entusiasma-se. Vai ser um grande livro, na crista do vento e com título apelativo: A Liquidez Conjugal na Era da Coca-cola” (Apontamentos de um limpa para brisas, 2016).
Michael Kenna, nascido em 1953 na Inglaterra, é um fotógrafo residente nos Estados Unidos. A sua fotografia, enigmática, despojada e minuciosa, acusa influências orientais, nomeadamente do Japão. Segue uma pequena galeria de imagens.
Resgate sobre rodas
Y.M.C.A. é uma música dos Village People. IMCA é uma instituição internacional cristã, criada no século XIX, que promove a juventude, a saúde, o exercício físico e a responsabilidade social. No vídeo dos Village People aparece várias vezes o logótipo da IMCA, instituição que chegou a processar os Village People. O anúncio Tornado está muito bem concebido. O quadro e as imagens não podiam ser mais depurados: uma ciclista no fio de um horizonte alvoroçado por um tornado. Pedala sem qualquer hesitação ao longo do fio que separa a terra e do céu. Sai do furacão como entrou: determinada. Entretanto, resgatou um cão. Missão cumprida. Lembra alguns vídeos dos Pink Floyd (e.g. High Hopes, The Division Bell). A protagonista resgatou um cão preso no furacão. A nós, ninguém nos resgata. À mínima lufada de ar fresco, logo vêm os embaixadores da razão fóssil com não sei quantas exigências. Votar, votamos, como os nossos “parceiros”, só não votamos nos nossos donos. Carregar na imagem para aceder ao vídeo.
Marca: Twin Cities IMCA. Título: Tornado. Agência: Preston Kelly. Direcção: Joe Schaak/Field. USA, Janeiro 2016.
Não resisto a adicionar o vídeo dos Village People. Uma banda gay cujos vídeos evidenciavam figuras e símbolos másculos. Era o seu jeito de comunicação. O vídeo Y.M.C.A. contempla vários símbolos da masculinidade: um polícia, um índio, um cowboy, um soldado… Carregar na imagem para aceder ao vídeo.
Amor
Lisa Gerrard, Nina Simone… Lhasa de Sela, falecida em 2010, com 37 anos de idade, é um caso à parte. Associada ao circo, nómada, reservada… Em 2004, fez uma digressão em Portugal, que incluiu a Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão. Comeu bacalhau em Xabregas e levou consigo um fado de Amália Rodrigues. Seguem Meu amor meu amor, ao vivo, e De cara a la pared (La llorona, 1997). Não perca De cara a la pared, nem que seja para reouvir um clássico dos nossos dias.
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Vozes e ecos
Além de Lisa Gerrard, há outras vozes. Nina Simone é um espectáculo em palco: canta, toca piano, conversa, resmunga com o público e dança à africana (Nina Simone – Live in Montreux 1976: https://vimeo.com/36880003). Gosto, há demasiado tempo, de Don’t Let Me Be Misunderstood (1964). Gosto de tanta coisa! Sou um omnívoro. Um pinga-amor pós-moderno. Quando não gosto, faço como. Não é verdade! Quando não gosto, sou mais ácido que o H2SO4.
Falta tempo a este artigo. Estou a corrigir testes. É uma bênção. Graças aos testes, os professores vão para o céu. Pentear nuvens. Este artigo resume-se a um eco. A Internet está cheia de ecos. O encadeamento digital da mesmidade. A página com a canção Don’t Let Me Be Misunderstood soma 10 251 409 visualizações! Somos um eco infinitamente pequeno, mas com direito a registo.
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Nina Simone. Don’t Let Me Be Misundestood. Broadway-Blues-Ballads. 1964.
A dança dos carneiros
O anúncio Commence Operation Boomerang, para o Australia Day Lamb 2016, é uma paródia descomedida de filmes e séries de aventuras. Os australianos radicados no estrangeiro são “ajudados” a regressar à Pátria para comemorar o dia do carneiro. Até a princesa da Dinamarca, australiana, não escapa ao apelo. Várias vedetas integram o elenco do anúncio: Lee Lin Chin, Stephen Moore, Mitch Johnson, Sam Kekovich e, naturalmente, o MasterChef George Calombaris. Tanto espalhafato suscitou polémica, sendo a iniciativa contestada pelos aborígenes, pelos vegetarianos e pelos defensores dos animais.
Tudo me serve de pretexto para dizer um disparate. Conhece a expressão “carneiros de Panurge”? É internacionalmente proverbial. No Quart Livre, de François Rabelais, Panurge, companheiro de Pantagruel, desentende-se, a bordo de um barco, com o dono do rebanho de carneiros em carga. Diplomático, Panurge presta-se a comprar um carneiro. Após um interminável regateio, mal adquire o carneiro, atira-o ao mar. Todos os carneiros, sem excepção, seguem. Na tentativa de segurar o rebanho, o dono e os pastores também caíram à água. Em suma, estamos perante carneiros de Panurge quando, enquanto seguidores compulsivos, para onde vai um, vão todos.
Na Austrália, não há só carneiros. O país foi o berço dos Dead Can Dance, formação marcada por uma sonoridade própria e pela voz de Lisa Gerrard. O grupo tem, entre outras, uma costela medieval e renascentista. Yulunga é uma canção do álbum Into the Labyrinth, editado em 1993.
Oscilações do gosto
Ontem, convocámos os tomates de François Rabelais e de Jeanne La Folle (séculos XV e XVI), hoje, propomos um cântico sagrado bizantino do século IX. Não nos fixamos, nem resvalamos para o centro. “Vogamos num meio vasto, sempre incertos e flutuantes, impelidos de uma extremidade a outra” (Blaise Pascal, Pensamentos). Não há pantocrator que nos acuda. “Vogar sempre incertos e flutuantes” pode agoniar, mas também pode encantar.
Stavroteotokia é uma música bizantina com mais de mil anos. O tempo passa, inexoravelmente. O tempo é o grande destilador da humanidade. Um alambique alquímico. Também é uma enorme compostagem. Compare-se a Stavroteotokia, do século IX, com um dos sucessos musicais da era digital, Cigu Bugule.
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O Stavroteotokia. La Capella Reial de Catalunya – Grupe Sufi Al-Darwish – Hespèrion XXI – Jordi Savall, dir. Imagem: Sacramentário de Charles le Chauve, 869-879.
Violência e humilhação
Repórteres sem Fronteiras denuncia imagens de exaltação da guerra, de morte, sofrimento e humilhação, no âmbito da edição do 50º álbum 100 photos pour la liberté de la presse, consagrado ao fotógrafo Robert Capa. Fundador da Magnum, Robert Capa consta entre os maiores fotógrafos do século XX. As suas fotografias fazem parte, saibamos ou não, do nosso imaginário. Seleccionei quatro fotografias, todas sobre o mesmo assunto. Não são as mais famosas, captam, porém, uma actividade humana que não convém menosprezar: a humilhação pública. Nos dias imediatos ao fim da Segunda Guerra Mundial, os franceses entregaram-se à caça aos colaboracionistas. Rapavam, por exemplo, o cabelo às mulheres e expunham-nas em cortejos degradantes. Porque tiveram um filho com um alemão ou por outra culpa qualquer.
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Anunciante: Reporters sans frontières. Título: Reporters de guerre. Agência: BETC. Direcção: Owen Trevor. Janeiro 2016.
Galeria: Humilhação das mulheres colaboracionistas no fim da Segunda Guerra, em França
O Mundo na Barriga
Ana Rita Ferraz é actriz e professora na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Ambos gostamos do grotesco. Tem uma paciência enorme para com os meus silêncios. Está a organizar um encontro sobre o riso na Universidade. No seu mural (https://www.facebook.com/anarita.ferraz.33), chovem preciosidades. Por exemplo, a fotografia de Leila Searle e a citação de François Rabelais. Acrescento quatro iluminuras com testículos surreais extraídas do Livro de Horas de Jeanne la Folle (1486-1506), quase contemporâneo de François Rabelais (1494-1553).
“Perdida a cabeça, perece apenas a pessoa; perdidos os colhões, perecerá toda a natureza humana” (François Rabelais, Le Tiers Livre, 1546).
Piropos em série
Barroco era a designação portuguesa de uma pérola defeituosa. Deu nome ao estilo barroco. Piropo (em inglês, pyrope) é uma pedra preciosa. Atirada a uma pessoa, pode causar danos, nomeadamente se for embalada em “propostas de teor sexual”. O anúncio Swipe for Doritos é, com certeza, um anúncio de sensibilização. Assim como se exibem mortos e feridos para prevenção rodoviária, também se somam piropos para inibir o assédio sexual verbal. Caso contrário, não sendo um anúncio de sensibilização, Swipe for Doritos corre o risco, neste país, de ser punido com pena de prisão até um ano.
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Marca: Doritos. Título: Swipe for Doritos. USA, Janeiro 2016.








