Sem limites
Estapafúrdio, bizarro… ou, com palavras mais elegantes, fabuloso e exuberante… O cúmulo da performance, da filosofia de cordel e da reflexividade expressiva. Limites, será que ainda existem limites? Sinto-me parodiado, gozado. E você? Também se sente parodiado? Não pelo que somos, mas pelo que significamos. Uns heróis cómico-lendários. Uns disparates perfumados.
Carregar nas imagens para aceder aos anúncios.
Marca: Old Spice. Título: Whale. Agência: Wieden + Kennedy (Portland). Direcção: Steve Rogers. USA, Janeiro 2016.
Marca: Old Spice. Título: Rocket Car. Agência: Wieden + Kennedy (Portland). Direcção: Steve Rogers. USA, Janeiro 2016.
Sonho à solta
“Que de sonhar ninguém se cansa” (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego).
O sonho saiu à rua! Com quatro rodas. Esgueirou-se pela nuca do criador. Coisa de pasmar, fantástica e surreal! Abram! Abram alas à imaginação que o Honda Civic vai passar. Num rodopio. Gosto da palavra rodopio: combina curva, movimento e velocidade. Num mundo em perpétuo inacabamento, a travessia segue os passos de Antonio Machado: faz-se andando. Acaba mal começa. Desfaz-se em metamorfoses e fragmentos num puzzle desconexo e acelerado de paisagens e figuras oníricas. Pictóricas: os volumes e as diferenças sobrepõem-se aos contornos e aos elementos. Este anúncio lembra os culpados do costume: Hieronymus Bosch, Peter Bruegel, René Magritte, Salvador Dali… Também lembra outros anúncios. No meio de tanta lembrança, também vem a propósito a Sinfonia Fantástica de Hector Berlioz. Sonhem! Que “o homem é do tamanho do seu sonho” (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego).
Carregar nas imagens para aceder aos vídeos.
Marca: Honda. Título: The Dreamer. Agência: RPA. Direcção: Guto Terni, Sam Mason, Vinicius. USA, Dezembro 2015.
Berlioz: “Symphonie Fantastique” – 5th Mvt. – Leonard Bernstein
Anúncio: Limpeza Acrobática
Oferece-se mecânico para limpeza de espaços imundos. Garante-se música, ritmo, dança, beleza e, caso necessário, anti-corrupção.
Uma coreografia fantástica com música a preceito. The Mechanic, da Cillit Bang, é um anúncio de rara qualidade.
Confirma-se que os produtos de limpeza são o reduto dos super-heróis da publicidade. Carregar na imagem para aceder ao anúncio.
Marca: Cillit Bang. Título: The Mechanic. Agência: BETC (Paris). Direcção: Michael Gracey. França, Janeiro 2016.
Aurora boreal
Não sou gota de água puxada pelo vento. Não estou no vento. Não faço parte. Sou o que resta. Pássaro com asas de fogo a chamuscar a sombra. Gosto do cósmico e do cómico. Gosto do cósmico cómico. Quem dera ser garrafa de cerveja astronauta e pintar a atmosfera. De verde, claro, cor de sonho.
Carregar na imagem para aceder ao anúncio:
Marca: Heineken. Título: Nature’s wonder. Agência: Czar. Direcção: Bart Timmer. Holanda, Dezembro 2015.
A manipulação como profissão
Gosto de Marshall McLuhan. Rasga caminhos com rara generosidade. As ideias saltam por entre as páginas. Ler McLuhan é uma festa, senão uma orgia, do espírito. Tamanha inquietação não está, contudo, na moda. Para os génios actuais, uma ideia não cabe num livro. Talvez em dois ou três. O leitor é massajado até não sentir o cérebro. Não se explora, explana-se. O argumento alonga-se e a criatividade adormece. Abraçamos o pensamento, ou ele nos abraça, mas não o fecundamos. Entramos na era do ovo cozido. Ninguém me dissuade que uma ideia que se arrasta até ao infinito não dá um nó na alma.
The Mechanical Bride, o primeiro livro de Marshall McLuhan (1951), é uma compilação de sessenta crónicas. Aborda tópicos respeitantes à “cultura de massas” e à “cultura popular”: iconografia, publicidade, revistas de moda, banda desenhada… Um a um, os fragmentos juntam-se num caldo inspirador, prenúncio de algumas das descobertas mais marcantes do século XX. A fragmentação criativa não é apanágio de Marshall McLuhan. Acodem-me Blaise Pascal (Pensamentos, 1670), Georgy Lukacs (A Alma e as Formas, 1910), Rolland Barthes (Mythologies, 1957) e Umberto Eco (Viagem na Irrealidade Quotidiana, 1983).
Habituamo-nos a voar alto, com ambição e desenvoltura. Não esqueçamos, porém, as asas que nos sustentam:
“Ours is the first age in which many thousands of the best-trained individual minds have made it a full-time business to get inside the collective public mind. To get inside in order to manipulate, exploit, control is the object now (Marshall McLuhan, The Mechanical Bride, Prefácio).
Segue o pdf da crónica que dá o título ao livro “The Mechanical Bride”:
Marshall McLuhan. The Mechanical Bride, in The Mechanical Bride. Folklore of Industrial Man. 1951.
Piropos, galanteios e tromboflebites

Quino. Hombres de Bolsillo
Cara
Proibidos os piropos? A alteração do Artigo 170 do Código Penal, uma nova pérola legislativa, acorda fantasmas de outras eras, tais como a interdição da Coca-cola; o controlo dos isqueiros; as regras de decoro balnear que condenavam o andar descalço fora da praia sob pena de cinco coroas. Zelo do Estado Novo! Zelo renovado com a intenção de proibição do arroz de cabidela, não sei se por iniciativa do governo português ou da comunidade europeia (cada vez os destrinço menos). Acresce a vetusta pragmática de D. João V (1749) que decretou a proibição das rendas no vestuário.
Somos um país de grandes legisladores. Ressalvando um Marquês de Pombal, vislumbramos minúsculo e irrisório. No código penal, consta ou não a figura da agressão verbal? Existe ou não legislação sobre o assédio sexual?
O Artigo 181.º (Injúrias) do Código Penal estipula:
“ 1- Quem injuriar outra pessoa, imputando-lhe factos, mesmo sob a forma de suspeita, ou dirigindo-lhe palavras, ofensivos da sua honra ou consideração, é punido com pena de prisão até 3 meses ou com pena de multa até 120 dias”.
Constitui o piropo uma agressão verbal tão específica que justifique legislação adicional?
A regulamentação do piropo lembra o artista que compõe uma espiral “à maneira” para uma coluna virtual. Importa ponderar a relevância deste tipo de pérolas. A interpretação e a aplicação da lei agradeciam.
Proibiram os piropos. E os galanteios? Como categorizar um ato verbal como um piropo? Ou como um galanteio? Ou como outra coisa qualquer? Não se trata de mera retórica. Um piropo só é um piropo quando, pelo menos, duas pessoas assim o entenderem. E as frases não saem das cordas vocais com rótulos. Dependem da definição da situação e das linhas de conduta adoptadas pelos intervenientes. Quando ele, ou ela, profere um piropo, este agrada ou ofende, estimula ou inibe. Em suma, ser ou não ser piropo depende dos interlocutores, da interacção e dos “jogos de linguagem”. A Justiça tem manifestado alguma dificuldade em lidar com os crimes de violação. Como vai abordar os piropos ou o que quer que seja? Dava jeito um Índex de piropos. Sempre achei que era o que nos faltava! Aguardo, com expectativa, a polifonia dos piropos nos tribunais. A proibição do piropo afigura-se-me relevar mais de um manifesto, por sinal, ideológico, do que de uma lei do Estado a pensar na Nação.
Alguém na esfera do poder entendeu legislar contra os piropos. São as estreitezas e os horizontes que temos. Proibir assemelha-se, no entanto, à receita de antibióticos: usar com parcimónia. O delírio suscita delírio. Por que não candidatar o piropo a património da humanidade? É tão absurdo quanto concebível, com argumentos sólidos estribados numa análise SWOT.
Para concluir este primeiro exercício de provocação, uma anedota.
No meu tempo de estudante em Braga, os artistas do piropo encostavam-se ao edifício do Turismo. Aproxima-se uma jovem elegante, andar seguro e nariz empinado.
Um jovem lança o piropo:
– Tem cuidado que não te caia a virgindade!
A visada responde de imediato:
– Se me cair a virgindade, apanha-a e mete-a no rabo, que precisas tu mais dela do que eu.
Quando este país estiver completamente depurado de violência simbólica, teremos, fatalmente, saudades dos piropos.
Coroa
Tive, como prenda natalícia, uma tromboflebite. Castiga o corpo e tolda o espírito.
Este texto devia ter começado com o Artigo 170 do Código Penal, designadamente a alteração recente avessa ao piropo:
“Quem importunar outra pessoa, praticando perante ela atos de carácter exibicionista, formulando propostas de teor sexual ou constrangendo-a a contacto de natureza sexual, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal”.
Nenhuma menção aos piropos! Adivinha-se que cabem nas “propostas de teor sexual” “importunas”. Importunas, repita-se. Nesta base, qual a razão do alarido na comunicação social? Como emergiu e se tornou viral a notícia da “proibição do piropo”? Será apenas mais uma jogada na miragem das audiências?
A teoria do two step flow, formulada por Paul Lazarsfeld, Bernard Berelson e Hazel Gaudet (The People’s Choice, New York, Columbia University Press, 1948) numa investigação dedicada a uma eleição presidencial releva o papel dos leaders locais de opinião. Entre o primeiro e último elo interpõem-se várias mediações. A influência pública é tudo menos directa e linear. Entre faróis e nevoeiros, entretecem-se diversas versões da “realidade”.
A alteração do Artigo 170 do código penal foi, “discretamente” aprovada, no dia 05 de Agosto de 2015. Coube ao Diário de Notícias, de 28 de Dezembro de 2015, introduzi-lo na esfera pública numa notícia de intitulada “Piropos já são crime e dão pena de prisão até três anos”. O mote está dado. Seguem-se os ecos na comunicação social, a febre nas redes sociais, os esclarecimentos dos políticos e a perplexidade dos públicos. Temos faróis e tradutores. As “propostas de teor sexual” podem ser vulgarmente interpretadas como “piropos”, assim como os “contactos de natureza sexual” eram associados aos “apalpões”, inclusivamente, pelos próprios protagonistas políticos (“Piropo com teor sexual é crime e dá pena de prisão até três anos”, Esquerda.net, 29 de Dezembro de 2015). É o destino, quiçá desejado, da legislação abstracta, abrangente e vaga. Presta-se ao parecer e à interpretação. A segunda chave é a seguinte: para além da Convenção de Istambul, a proposta avançada pelo PSD foi precedida por iniciativas, de inspiração feminista, por parte da UMAR e do Bloco de Esquerda. Terceira chave, a alteração resume-se à aplicação de decisões assumidas na Convenção de Istambul. Chave gasta. Os nossos legisladores assumem-se cada vez mais como tradutores de medidas deliberadas alhures, o que engrossa um rio de responsabilidade sui generis. Quando, por acréscimo, as medidas “passam despercebidas, “varridas para debaixo do tapete”, as águas tornam-se turvas.
Multiplicam-se os faróis, os nevoeiros e as chaves, que lembram um canivete suíço: servem para abrir e para fechar, para entrar ou sair, para trazer no bolso ou no cérebro. O aditamento referente às “propostas de teor sexual” constitui um bom húmus para a excitação da esfera pública.
Mulheres e meninas
Em crónica no jornal Expresso, de 29 de Dezembro, Paula Cosme Pinto rebate estas chaves de interpretação da alteração do Artigo 170 do Código Penal. Primeiro, considera o artigo no seu conjunto. É uma perspectiva legítima. Uma entre outras. A novidade permanece, contudo, o aditamento, a nova parte do todo. Segundo, importa não confundir piropos, formulação de propostas de teor sexual e assédio sexual:
“diz o dicionário que um piropo é uma “palavra ou frase lisonjeira que se dirige a uma pessoa revelando que se acha essa pessoa fisicamente atraente; forma de galanteio”. Já no que toca ao assédio sexual, é um “conjunto de atos ou comportamentos, por parte de alguém em posição privilegiada, que ameaçam sexualmente outra pessoa”. Para quem não conseguia chegar lá pela sua própria cabeça, talvez estas definições dos dois termos ajudem a que se faça luz”. Convocar a palavra piropo é uma tradução despropositada. Terceiro, “a lei não se refere à mulher, refere-se à ‘pessoa’ (…) Refere-se explicitamente à vítima enquanto “pessoa”. Mulheres, homens, meninos, meninas. Aliás, convém que não se desvalorize o assédio sexual a que tantos homens e garotos também estão sujeitos”.
O artigo do Código Penal fala, efectivamente, em “pessoas”. Literalmente, nada a acrescentar. Convocar a relação esfíngica entre a letra e o espírito da lei seria terrorismo intelectual, no sentido atribuído por Henri Lefebvre. Mas…
Os próprios protagonistas da alteração do Artigo 170 , como a deputada Carla Rodrigues, não resistem à elipse do género masculino: o aditamento aplica-se
“em qualquer circunstância: no local de trabalho, na rua, em grupos sociais, em qualquer situação em que um agressor pratique qualquer desses atos. Acho que as mulheres e as meninas estão muito mais defendidas com esta formulação. Praticamente todas as coisas que são ditas na rua para importunar as mulheres, tudo aquilo que é ordinarice, fica assim criminalizado. Agora é preciso é que tenham consciência disso e denunciem. É preciso divulgar a existência deste novo crime” (Diário de Notícias, 28 de Dezembro de 2015).
Apesar das aparências, a questão está longe de ser inócua. É grave!
Homens e meninos
Remontando ao combate à violência doméstica, segundo a Lei nº112/2009, de 16 de Setembro, as medidas destinam-se à
“prevenção da violência doméstica, à protecção e à assistência das suas vítimas (…) Para efeitos de aplicação da presente lei, considera -se: a) «Vítima» a pessoa singular que sofreu um dano, nomeadamente um atentado à sua integridade física ou mental, um dano moral, ou uma perda material, diretamente causada por acção ou omissão, no âmbito do crime de violência doméstica previsto no artigo 152.º do Código Penal”.
A lei relativa à violência doméstico tão pouco fala em homem ou em mulher mas apenas em vítima e em pessoa. O combate à violência doméstica foi acompanhado por uma apreciável campanha de sensibilização. Sendo a pessoa o alvo do programa, por que motivo muitos homens se sentiram, de facto, excluídos? Pressentiram que o dispositivo não lhes era dedicado. Os poucos dos muitos homens vítimas de violência doméstica que recorreram às instituições tenderam a ficar pelo primeiro contacto. Vários estudos confirmam esta tendência. Não é uma vergonha nacional? Uma não discriminação que discrimina? Neste caso, a “pessoa”, o “ser humano”, é vítima de agressão física e simbólica: pela Família, pela Sociedade e pelo Estado. São pessoas… Na Quinta dos Animais, há pessoas que são mais pessoas do que outras.
“Das mais de 26 mil vítimas de violência doméstica em Portugal que pediram ajuda no ano passado, cerca de 15,5% são homens, segundo números oficiais da Direcção-Geral da Administração Interna, referidos nesta segunda-feira durante a apresentação de um estudo universitário sobre o tema. A psicóloga Andreia Machado, da Universidade do Minho aplicou um inquérito cujos resultados indicam que embora 70% dos inquiridos afirmem ter sido vítimas de um comportamento abusivo nos últimos 12 meses, apenas 9% deles se afirmem vítimas de violência. Ainda existe uma relutância masculina em se admitir ser vítima de violência e o preconceito social é o principal motivo.
O inquérito incidiu sobre indivíduos de sexo masculino com mais de 18 anos e com relações heterossexuais. 60% dos inquiridos admitiu ser vítima de agressões psicológicas com impacto para a sua saúde mental, mas apenas 23% procurou ajuda. Destes, 83% relatam que os profissionais das forças de segurança “nada ajudaram”. Para Andreia Machado, o estudo da violência contra os homens está no patamar em que estava o estudo da violência contra as mulheres nos anos 70. A “feminização do fenómeno e a invisibilidade de outras faces do problema” conduz a que esta seja uma violência ainda não reconhecida socialmente no nosso país. Socialmente mas não só.
A psicóloga foi uma das oradoras presentes no seminário-debate As outras faces da violência doméstica, promovido pela Associação de Apoio à Vítima (APAV). João Paiva foi uma voz activa apresentando um caso de violência doméstica, o seu. “As pessoas desatam-se a rir na nossa cara, mesmo quem está destacado na esquadra para tratar de assuntos de violência doméstica”, disse.
Para esta testemunha na primeira pessoa, quando um homem pretende apresentar queixa por violência, é quase certo que esbarra num “comportamento estranho”. Diz ser necessário lutar contra a invisibilidade e a passividade das forças de segurança e da justiça e afirma ser difícil avançar-se para formalizações de processos. A razão, no seu entender, é uma: “sou homem”. (Público, 18 de Novembro de 2013).
Discriminar ou não discriminar, eis a questão, tão antiga quanto a humanidade. Mais próximo da modernidade é o seguinte paradoxo: discriminar sem discriminar.
Escrever com dores faz mal às letras. Escrever à pressa sobre matéria não urgente é um atentado ao pensamento.
Kama Sutra
Muitos anúncios encenam anedotas seguindo um formato próximo do cartoon. Incidem sobre os tópicos do costume: o sexo, a religião, o poder, a desgraça e a estupidez. O anúncio Kama Sutra, da Fiat, convoca o sexo e a desgraça. Num ambiente de voyeurismo de bairro, a desgraça é pública. O percurso do casal lembra uma passerelle.
Carregar na imagem para aceder ao anúncio.
Marca: Fiat. Título: Kamasutra. Agência: Leo Burnett Milan. Itália, 2002.
O pormenor e a originalidade

Há anúncios que não brilham pela originalidade. Nem nas partes, nem no todo. Conseguem, não obstante, um efeito próprio, porventura o efeito desejado. Afirmar que um anúncio não é original, nem nas partes, nem no todo, não afasta possibilidades. Um anúncio, como o The Marmelade, da Krueber, contém pormenores originais, singulares, capazes de fazer a diferença, nomeadamente ao nível estético. Atente-se no rosto feminino coberto com café em pó. Se um anúncio parcimonioso em atributos originais pode lograr um efeito próprio, anúncios repletos de originalidades podem, por sua vez, acabar em lugares comuns. O imaginário não é linear nem é redondo. É retorcido e enrugado. Apraz-lhe saltar de paradoxo em paradoxo. Parafraseando Blaise Pascal, demasiada originalidade banaliza. Por outro lado, retomando Omar Calabrese, o pormenor oferece-se como a parte que pode dizer o todo.
Marca: Krueger Espresto. Título: The Marmelade. Agência: Brand Lounge. Direcção: Torsten Eichten. Alemanha, 2014.
Peregrinos e missionários
Há quem viaje para conhecer e quem viaje para se dar a conhecer. No mundo das ciências e das artes, a tendência crescente é viajar para se dar a conhecer. Sinto-me, no entanto, mais próximo dos primeiros, os peregrinos, do que dos segundos, os missionários. Nos anos setenta, viajei pela Europa do Leste. Desencantei os Omega, um grupo húngaro de rock progressivo, talvez a melhor banda rock da história da Hungria, um país com vasta tradição musical. Guardo dois álbuns no cantinho dos semáforos arqueológicos. Lembrei-me dos Omega durante a passagem de ano. Não sei porquê. A minha memória não segue o fio da razão. Dos Omega, escolho uma canção de 1969: Gyöngyhajú lány (The girl with the pearl’s hair), do álbum 10 000 lépés. Segue a versão ao vivo do concerto dos 50 anos, na Hungria, em 2012. Os Omega são pouco conhecidos em Portugal tal como os Xutos e Pontapés devem ser pouco conhecidos na Hungria. Fossem ambos ingleses ou norte-americanos e seriam, provavelmente, conhecidos em ambos os países. Assim pende a democracia cultural global. É o princípio da justeza variável: uns viajam sentados; outros fartam-se de andar sem nunca chegar.
Para aceder aos vídeos, carregar nas imagens.
Omega. Gyöngyhajú lány (The girl with the pearl’s Hair). 1969. Concerto dos 50 anos. 2012.
Dizia-se, na altura, que os Omega eram parecidos com os Uriah Heep. Como o Tendências do Imaginário ainda não contemplou esta banda, segue a canção Lady in Black, do álbum Salisbury, de 1971. Com Ken Hensley, a solo, ao vivo, em Frankfurt, numa fase avançada da carreira.
Uriah Heep. Lady in black. Salisbury. 1971. Ken Hensley, a solo, em Frankfurt.



