Archive | Outubro 2014

A revolta dos brinquedos

Quebra-nozesOs brinquedos e os contos alicerçam o nosso imaginário. O Quebra-Nozes e o Rei dos Camundongos (1816), de E.T.A. Hoffmann, é um conto clássico: o soldado quebra-nozes, oferecido à menina Marie, adquire vida e luta contra os Camundongos. Volvidos escassos anos, Hans Christian Andersen escreve O Soldadinho de Chumbo (1838): um soldadinho sem uma perna, oferecido a um menino, apaixona-se por uma boneca bailarina, enfrentando vários desafios.

Neste anúncio da Nissan, o brinquedo fantástico não é um soldadinho, mas uma miniatura de super-herói. Mudam-se os tempos, mudam-se, mas pouco, os fantasmas. O protagonista também não é uma criança, mas um adulto. Não espanta. Os historiadores, os demógrafos e os sociólogos defendem que não só a esperança de vida tem aumentado como os seres humanos crescem mais devagar. Se os bonecos fossem de peluche, este anúncio seria o prenúncio do Gremlins 4.

Marca: Nissan. Título: Revenge. Agência: TBWA Toronto. Direção: Leigh Marling. Canadá, Outubro 2014.

Urna

Stride. Urn.Um nojo! Em todos os sentidos da palavra. Um nojo ao cubo. Subsiste, porém, um não sei quê de genial. Quando a urna quebrou, ocorreu-me um aspirador. Mas não! Não se trata de uma purga mas de uma partilha. Uma aberração rara. Imprevisível! Mas estranho, mesmo estranho, é o anúncio dar vontade de mastigar pastilhas elásticas! Se fosse nutricionista, era capaz de aconselhar aos clientes em cura de emagrecimento este vídeo antes das refeições.

Marca: Stride. Título: Urn. Agência: JWT. Direção: Michael Downing. USA, 2011.

Jingles

Vivo. #pegabem

Quando a música se apodera do anúncio, o resto dança!

Marca: VIVO. Título: #PEGABEM. Agência: DPZ – Rio de Janeiro. Direção: Heitor Dhalia. Brasil, Outubro 2014

Marca: VIVO. Título: #PEGABEM. Agência DPZ – Rio de Janeiro. Direção: Heitor Dhalia. Brasil, 2004.

Cozinha mágica

Figura 1. Michelangelo Caravaggio. Still life with fruit. 1601-1605.

Figura 1. Michelangelo Caravaggio. Still life with fruit. 1601-1605.

A culinária está na moda. Sempre esteve. Na minha infância, o que as mulheres mais trocavam era mexericos, fotonovelas e receitas de cozinha. Entretanto, as receitas ultrapassaram as fotonovelas. Em consumo, circulação e sonho. Este anúncio da Oxo multiplica os movimentos, os contrastes, as metamorfoses e os fragmentos, tudo regado com umas colheres de absurdo. Em suma, para nosso regalo, uma ementa neobarroca. Até apetece uma mixórdia com parafusos, dados e contas de colar. Basta acrescentar Oxo Herbs, e já está! It’s the magic touch. Embora em escalada, a estetização dos alimentos não é novidade. Visite-se a secção da alimentação do Harrods, em Londres, a vetusta Fauchon, em Paris, ou a rue des Bouchers, em Bruxelas.

Figura 2. Pieter Aertsen. Butcher's Stall with the Flight into Egypt, 1551.

Figura 2. Pieter Aertsen. Butcher’s Stall with the Flight into Egypt, 1551.

A estetização dos alimentos é muito antiga. Antes de Arcimboldo e Caravaggio (Figura 1) eclodiu na pintura renascentista um entusiasmo pela natureza morta com alimentos. O pintor holandês Pieter Aertseb é um bom exemplo (Figura 2). Mas esta arte remonta, pelo menos, ao Império Romano (figuras 3 e 4).

Marca: Oxo. Título: The magic touch. Agência: Jwt London. Direção: Conkerco. UK, Outubro 2014.

Figura 3. Pompeian painter around 70 AD.

Figura 3. Pompeian painter around 70 AD.

Figura 4. Still-life. Mosaic, Roman artwork, 2nd century CE. From a villa at Tor Marancia, near the Catacombs of Domitilla.

Figura 4. Still-life. Mosaic, Roman artwork, 2nd century CE. From a villa at Tor Marancia, near the Catacombs of Domitilla.

Hino ao barroco

god-only-knows-cover-lordie

É barroco! Mas não é o barroco da Basílica de S. Pedro, em Roma, nem o barroco da Catedral de S. Paulo, em Londres. É o barroco orquestrado pela BBC no ecrã digital. A glória da comunicação social. Vinte e sete artistas famosos para uma única canção: God only knows, um cover dos Beach Boys. Os movimentos, as figuras, os planos, os detalhes, tudo respira barroco. Cada celebridade empresta o seu brilho, mas, como convém ao barroco, o esplendor repousa no conjunto. À semelhança do fogo-de-artifício, o engenho não mora nas estrelas mas na constelação.

Marca: BBC Music. Título: God only knows. Agência: Karmarama. Direção: François Rousselet. UK, Outubro 2014.

Esclerose múltipla

Multiple Sclerosis

Para além da razão, no limiar da hiper realidade, o sufoco no cubo da imaginação. Parece real? Mais que isso: este é o nosso realismo. Sentimos o real na pele a partir de uma catástrofe de sentidos. Neste anúncio da Multiple Sclerosis Society, sentimos o outro, aquele que não está no meio de nós, debaixo da pele. Carregar em HD.

Anunciante: Multiple Sclerosis Society. Título: Trapped. Agência: The Brand Agency. Direção: Perry Westwood. Austrália, Outubro 2014.

O Cruzeiro do Galo em Barcelos

02. Cruzeiro do Galo. Barcelos. Face posterior.

02. Cruzeiro do Galo. Barcelos. Face posterior.

Vale a pena visitar o Cruzeiro do Galo, em Barcelos. Obra única, de traço popular, porventura do início do séc. XVIII. Um exemplo da arte de contar com parcas imagens difíceis de esculpir: o galego “enforcado”, S. Tiago a ampará-lo e o galo, combativo e matinal, a iluminar as trevas; no topo, Cristo na cruz. Impressiona a centralidade da morte: o “enforcado”, o galo renascido e Cristo crucificado. Tudo gira em torno do galo, símbolo associado ao sol nascente e à ressurreição:

“O galo é também um emblema de Cristo, como a águia e o cordeiro. Mas assume especial relevo o seu simbolismo solar: luz e ressurreição” (Jean Chevalier & Alain Gheerbrant, 1982, Dictionnaire des symboles, Paris, Robert Laffont/Jupiter, p. 282).

Há notícia de lendas semelhantes em vários lugares da Europa, mas não há galo como o de Barcelos.

A seguir à galeria de imagens, acrescenta-se a mais antiga e mais completa versão escrita da Lenda do Senhor do Galo (Domingos J. Pereira, Nova Memória Histórica da Villa de Barcelos, ampliada, manuscrita, 1877), reproduzida na página do projeto maisBarcelos: http://www.galegossmaria.maisbarcelos.pt/?vpath=/inicio/ogalodebarcelos/.

Lenda do Senhor do Galo

“Por aqueles sítios, à beira da estrada velha, talvez no mesmo sítio do Senhor do Galo, havia uma estalagem muito concorrida pelos viandantes que se desfaziam em elogios sobre a formosura, sem igual, da sua dona, moça gentil, cuja fama de beleza se estendia por muitas léguas, mas em desabono de quem nada havia que dizer. Fez o diabo (e quem senão ele!) que em certo dia acertou de entrar na estalagem um peregrino, por sinal galego, que, acompanhado de um galhardo mancebo, seu filho, ia cheio de fé cumprir um voto a S. Tiago. Ver a estalajadeira ao mancebo e ficar enfeitiçada com ele, foi o momento, posto que o filho do galego não fosse acometido da mesma paixão que levou aquela até aos pontos que o leitor vai ver. Quando ela se convenceu de que os viandantes não contavam demorar-se mais que o tempo necessário para tomar algum repouso, empregou todos os recursos que lho sugeriu a sua imaginação de mulher para persuadir o peregrino da conveniência de demorar-se alguns dias. Quando conheceu que era impossível vencer a teimosia do galego em continuar seu caminho, empregou todos os esforços para conseguir do filho que ali ficasse até ao regresso do pai, e quando a obstinação desta foi seguida pela indiferença do moço, a estalajadeira formou um plano, genuinamente diabólico, que pôs em acção, logo de seguida.

Pagaram os peregrinos as despesas, despediram-se da vendeira, que longe de manifestar pesar, aparentou rosto risonho e sorriso de mau agouro e sem se demorar mais, continuaram aqueles santos varões sua piedosa jornada. Não haviam progredido muito nesta quando, num cotovelo de caminho, apareceu um bando de aguazis que dirigindo-se ao mancebo lhe disseram:

– Em nome d’El-rei, estás preso.”

Atónitos, pai e filho, com dificuldade conseguiram perguntar, balbuciantes, o que significava aquilo e, por isso, calcula-se como ficariam ao ouvir qualificar o moço de ladrão e o que mais é, quando dentro da sacola lhe retiraram uns talheres de prata, corpo do delito que a estalajadeira denunciara à justiça.

O peregrino prosseguiu imperturbável a sua visita a Santiago, depois de abraçar o filho que, conduzido à cadeia, não tardou a ser condenado à pena da forca, segundo a legislação então em vigor.

Nesse dia e na mesma hora em que deveria ser executada a sentença valeu-se o galego pai da sua peregrinação e, cheio de pesar com a notícia do que se passava, foi procurar o juiz, em ocasião que estava comendo, a fim de o convencer da inocência do filho. Desejando o magistrado que ele não o importunasse, pedindo-lhe pelo filho, declarou-lhe que para o acreditar inocente seria preciso que cantasse o galo assado que tinha na mesa e ia trinchar. Dizer isto, pôs-se de pé o galo, sacudir a salsa e começar a cantar foi um abrir e fechar de olhos.

Levantou-se o juiz aterrado, olhou o relógio, era precisamente a hora da execução. Correu, seguido pelo pai ao sítio do suplício e a grande distância um e outro viram que chegavam tarde!… O réu via-se dependurado da viga fatal… Pouco porém importava tudo isto. S. Tiago pegava no filho à vista do pai, amparando com a cabeça e mãos os pés do enforcado.

… eis a tradição, transmitida ao longo dos anos, que deu origem ao cruzeiro do Senhor do Galo.”

 

007 Peugeot

Peugeot. The Legend Returns. 2014

O anúncio Le retour de la légende, da Peugeot, é uma reprise, um remake, de um anúncio emblemático da Peugeot, estreado em 1987, há quase trinta anos: Le Bombardier. Esta revisitação suscita três apontamentos:

  • A publicidade mantém-se próxima do cinema. Neste caso, trata-se de uma paródia da saga 007.
  • Um anúncio que remete para um anúncio é um sinal da autonomia da publicidade.
  • A comparação entre os dois anúncios revela uma enorme diferença ao nível dos recursos técnicos.

Quanto ao resto, a história é antiga: o ser humano vence a técnica graças à técnica.

Marca: Peugeot. Título: Le retour de la légende. Agência: BETC. Direção: Andy’s. França, Setembro 2014.

Marca: Peugeot. Título: Le bombardier. Agência: Hcm. Direção: Gerard Pires. França, 1987.

 

Sociologia sem palavras 6: Envelhecimento

Cornelius Baba. The fear (Homage to Francisco Goya). 1987.

Cornelius Baba. The fear (Homage to Francisco Goya). 1987.

Os fracos a ajudar os fortes é espectáculo corrente. Em contrapartida, quando os fortes ajudam os fracos é motivo para primeira página com foto-reportagem no interior. Pode não ser verdade, mas parece. Parece, também, que a balança do Senhor está estragada!

O sexto episódio da série Sociologia sem palavras é dedicado ao envelhecimento. Não resisto a acrescentar a canção Les vieux (1963), de Jacques Brel.

Jaques Tati. Mon Oncle. França, 1958. Excerto.

Jacques Brel. Les Vieux. 1963.

Sociologia sem palavras 5: Brincadeira

Mon Oncle

Brincadeiras, quem as não teve? O lúdico sobressai como uma componente matricial das sociedades (Johan Huizinga, Homo Ludens, 1938; Alberto Nídio Silva, Jogos, Brinquedos e Brincadeiras, dissertação de doutoramento, Universidade do Minho, 2010). Basta mencionar os jogos e as brincadeiras da infância para um sorriso se pasmar no rosto. Momentos de inocência? Crianças pueris? Estes angelismos são fábulas de adulto.  Na realidade, as brincadeiras e os jogos de crianças encerram dimensões perversas.

Jacques Tati capricha em dar tempo ao humor. Um riso sem elipses nem pressas. O sentido do detalhe nos filmes de Jacques Tati lembra os romances de Marcel Proust. Jacques Tati não é ingénuo. Ri dos nossos gestos mais naturais. No filme Mon Oncle, as brincadeiras e os jogos de crianças são claramente endiabrados.

A brincadeira é o tópico principal do quinto episódio da série Sociologia sem palavras. No vídeo, carregar em HD.

Jacques Tati. Mon Oncle. 1958. Versão italiana.