Viagra para o Fiat 500
Administrar Viagra a um Fiat 500 é desperdício. Mais falta faz no orçamento e nos bancos, que, como diz o silêncio, pouca tiveram a ver com a crise. Consta, sábia e politicamente, que a crise é da responsabilidade das famílias que vivem acima das possibilidades e das mordomias do funcionalismo público. Os funcionários públicos são um pau de dois bicos: causa e cura da crise; causa, pelas mordomias e gorduras, cura, com cortes e rescisões! Uma sangria inédita, graças a uma nova estirpe de sanguessugas, para equilíbrio das contas.
Concentremo-nos no anúncio. Associar sexo e automóvel é banal. Quase todo o anúncio é dedicado ao percurso atribulado da pílula de Viagra. De ressalto em ressalto, adquire velocidade num crescendo de nonsense. Um recurso humorística garantido.
Enfim, este anúncio da Fiat é uma boa publicidade ao Viagra. Para além das virtudes em termos de volume e potência, o anúncio, e a odisseia da pílula, inicia com um casal de idade e termina com um jovem garboso. Viagra, o elixir da juventude!
Marca: Fiat. Título: Blue pills. Agência: The Richards Group. USA, Outubro 2014.
A discriminação dos obesos
Nos séculos XV a XVIII, em plena Idade Moderna, perseguiram-se, exilaram-se e executaram-se judeus, árabes, bruxas, tolos… Quinhentos anos depois, perseguem-se outros seres humanos. Os obesos não são exilados, nem executados, mas são perseguidos, rebaixados e estigmatizados. Continua no vento a intolerância fanática. Uma gorda no governo, nem pensar! No Ministério da Saúde, cruzes! Pelos vistos, é obesidade doente. Assim sendo, não é pecado, mas é defeito. Há quinhentos anos, a perseguição fundamentava-se em derivações religiosas; agora, fundamenta-se em derivações científicas. Religião como ciência e ciência como religião. Em ambos os casos, razão delirante. A discriminação social sempre me interessou. Atento à discriminação dos obesos, não aguardava uma notícia tão crua como esta do Courrier International: Une personne obèse peut-elle être ministre da la Santé? A caça ao gordo é caça ao homem. E a caça ao homem é atributo dos monstros. O sono da razão continua a produzir monstros (Francisco Goya).
Sade: Um Homem da Natureza
“O corpo é um templo onde a natureza pede para ser reverenciada” (Marquês de Sade).
Criar figuras com corpos agrupados é arte antiga. Os infernos das iluminuras medievais contêm cachos humanos dinâmicos. O mesmo sucede com o tema da bruxaria. Arcimboldo criou rostos com corpos de crianças. Num anúncio da Ford, os corpos de bailarinos compõem um automóvel. Spencer Tunick fotografa milhares de corpos nus em diversos contextos. A Vaseline fez um anúncio com várias cenas de um “mar de gente nua”… Mas a obra mais próxima deste teaser do Musée d’Orsay é o anúncio da Sidaction, um sorvedouro trágico de corpos condenados. Não é, portanto, nem a matéria nem o tema que individualizam o teaser. Talvez o modo. Alguns momentos destas esculturas movediças lembram fugazmente Luca Signorelli (c. 1445 –1523), Auguste Rodin (1840 – 1917) e outros artistas. É, porventura, nesses instantes e nessas citações que o teaser se afirma.
Sade. Attaquer le soleil. Um filme de David Freymond & Florent Michel. Uma produção do Musée d’Orsay. França, 2014.
Anunciante: Sidaction. Título: Le sablier. Agência: Leo Burnett. França, 2007.
Marca: Vaseline. Título: Sea of Skin. Agência: BBH. Direção: Ivan Zacharias. USA, 2007.
Mulheres Chanel Nº5
Gisele Bündchen, supermodelo brasileira, é a actual mulher Chanel Nº5. O corpo, o rosto e os gestos enchem o anúncio dirigido por Baz Luhrmann. Pode falar-se em mulher objecto? No anúncio, como na vida, Gisele é mãe, companheira, modelo e desportista. O anúncio cola-se a esta quádrupla faceta. Foi gizado a pensar em Gisele. Existem mulheres objecto de luxo? Neste caso, uma mulher de luxo para uma marca de luxo? Protagonizar um anúncio para o Chanel Nº5 é ascender a um pedestal. Quem não se lembra do anúncio Nicole Kidman da Chanel Nº5? Foi há dez anos, em 2004. Há pedestais para mulheres objecto? A história é uma narrativa minimalista, quase nula. O cantor, Lo-Fang, coro grego nada discreto, pouco diz: “You’re The One That I Want”. Procurem e encontrem-se. Pode haver mulheres sujeito em narrativas ténues que sejam mulheres objecto? Em suma, a categoria “mulher objecto” depende das propriedades sociais da mulher representada? Neste anúncio, Gisele não é uma actriz que interpreta um guião. Gisele é o anúncio, um anúncio associado ao seu nome. Pode Gisele Bündchen ser considerada uma mulher objecto? Quem é uma mulher objecto?
Marca: Chanel. Título: The One That I Want. Direção: Baz Luhrmann. Internacional, Outubro 2014.
Marca: Chanel. Título: Nicole Kidman. Direção: Baz Luhrmann. Internacional. 2004.
Ar condicionado
Marca: Vigorsol. Título: Reconditioned. Agência: BBH. UK, 2004.
À dentada
A Happydent concebeu formas originais de evidenciar o brilho dos dentes proporcionado pelas suas pastilhas elásticas. Que inventar para testemunhar a robustez dos dentes? Nada como uma paródia do western spaghetti à Sergio Leone. Um humor próprio da Índia, um país onde a indústria do cinema consta entre as maiores do mundo.
Marca: Happydent. Título: Dirty Harry. Agência: Ogilvy & Mather, Mumbai. Direção: Prashant Issar. Índia, 2006.
A lâmpada de Aladino
A dentadura luminosa nem sempre foi o mote dos anúncios da Happydent (ver http://tendimag.com/2014/08/27/dentes-brilhantes/). Na era da publicidade primitiva, antes da censura do nu feminino gratuito, o corpo da mulher era uma panaceia: até pastilhas elásticas vendia! Artes do sex appeal da mulher objecto! Era só esfregar os olhos, como lâmpadas de Aladino, e logo se insinuava uma miragem própria de calendários de empresas de pneus. Cruzes! Abençoado o bom senso que exorcizou esta praga. Vade retro, mulher objecto!
O vídeo deste anúncio, premiado em Cannes, não é em alta resolução. Passa assim despercebida qualquer imperfeição das “cirurgias plásticas”.
Marca: Happydent. Título: Cosmetic. Agência: Selection. Direção: Joe Ronan. Itália, 2003.
Potência
Quando a música é boa, e o resto não desmerece, vale a pena experimentar. No novo anúncio da Volvic e no trailer do videojogo Assassin’s Creed, repete-se a música de Woodkid. E a mesma propensão para o mito, senão para o arquétipo. Do conjunto, desprende-se uma sensação de potência. Existe uma estética da potência? Tem milénios… Um anúncio, um trailer, um videoclip. Três forças da natureza humana.
Marca: Volvic. Título: La Force du Volcan. Agência: Young & Rubicam Paris. Direção: Johnny Green. Europa, Outubro 2014.
Assassin’s Creed: Revelations – Official E3 Trailer. Ubisoft Montréal. Junho 2011.









