Se chove, que chova
Os meus avós paternos eram galegos. Na aldeia, da janela do quarto vejo a Galiza e oiço o comboio galego.
Este anúncio dispensa palavras: “São necessários dois anos para aprender a falar e sessenta para aprender a calar” (Ernest Hemingway).
Um abraço, Ludo! És a mais galega das minhotas!
Marca: Supermercados Gadis. Título: Se chove, que chova. Espanha, 2013.
Milagre

Frei Manuel dos Reis. Visão de D. Afonso Henriques na batalha de Ourique. 1665. Museu de Alberto Sampaio
O futebol configura uma luta de titãs. Prometi alhear-me dos “anúncios do Mundial”. Mas não há modo de lhes escapar. A Nike e a Beats by Dre acabam de lançar os anúncios The Last Game e The Game Before the Game, com duração superior a 5 minutos. Ambos convocam o “etos do guerreiro”. O humano contra o inumano, mas também o humano a braços com aquilo que o divide: o cálculo e o risco, a força e a fé, a razão e o coração… No “último jogo”, os heróis, “demasiado humanos”, enfrentam a burocracia da ciência e a eficácia dos clones. O anúncio é todo ele uma glória à animação em jeito de apoteose barroca. No “jogo antes do jogo”, acompanhamos a preparação ritual do herói antes do confronto, a construção do milagre, como na prece do cavaleiro medieval antes da refrega. O anúncio mergulha numa aura trágica, com a imagem e o som a entrelaçar-se ao ritmo da pulsação.
Ambos os anúncios são herdeiros de obras mais antigas. Retenho o filme Fuga para a Vitória, de 1981, com a participação de Pelé, Ardiles, Bobby Moore e Deyna. Quase todo o filme se resume à preparação do jogo. O adversário era a máquina nazi e o futebol, o cavalo de Tróia.
Marca: Nike. Título: The Last Game. Agência: Wieden + Kennedy, Portland. Direcção: Jon Saunders. USA, Junho 2014.
Marca: Beats by Dre. Título: The Game Before the Game. Agência: R/GA New York. Direcção: Nabil Elderkin. USA, Junho 2014.
O importante é a rosa
Ao domingo, costumo ouvir mais música. Novidades e velharias. Normalmente, vencem as novidades, mas, hoje, estão a ganhar os vinis. Pouco importa, desde que não tome as bolotas por amendoins. The Rose é a banda sonora de um filme estreado em 1979, um tributo a Janis Joplin, com Bette Midler como protagonista. Considero-o o último grande musical rock com raízes em Woodstock. A canção, The Rose, foi retomada, recentemente, pelos Westlife. Opto pela Bette Midler.
Vi o The Rose no Kinopanorama, em Paris, num ecrã curvo gigantesco, com 24 metros de base e um som colossal. Nesse ano, 1979, voltei para ver O Tambor, uma experiência esmagadora. O Kinopanorama fechou em 2002. Sobre esta sala de cinema: http://cinematreasures.org/theaters/7315.
Bette Midler. The Rose. The Rose. 1979
Um quase nada que muda quase tudo
O Botafogo, equipa de futebol brasileira, alterou a camisola: as listas pretas passam a brancas, e as brancas, a pretas. Marcel Duchamp não teria feito melhor.
O objectivo confesso é a luta contra o racismo. Como diria Vladimir Jankélévitch (Le je-ne-sais-quoi et le presque rien, 1980), trata-se de um quase nada que muda quase tudo.
Há princípios que importa inventar: quanto menor for o ícone maior a mobilização. Por outras palavras, a comunhão é grande quando a hóstia é pequena.
A troca das listas da camisola do Botafogo logra, porventura, mais efeito do que dezenas de encontros internacionais de cientistas, activistas e intelectuais.
É a força da cidadania! É o simbólico, estúpido! É o marketing, estúpida! É o hiper-real, estúpidos!
Anunciante: Botafogo. Título: Camisa invertida. Agência: Africa. Direcção: Daniel Lieff / Gabriel Ghidalevich. Brasil, Junho 2014.
Bilitis
Conhecem Francis Lai? Não, não é um sociólogo. Não conhecem… Não faz mal! Se não conhecem não existe. Simpatizo com aquilo que não existe. Não incomoda. Mas o Francis Lai existe. Compôs a música de dezenas de filmes, entre os quais Un Homme et Une Femme (1966), Love Story (1970) e Emmanuelle (1975). Agora, conhecem? Centrado nas relações entre mulheres, Bilitis (1977), dirigido por David Hamilton, passou mais despercebido. Mas a banda sonora não desmerece. A música de Francis Lai fica no ouvido e na memória. São poucos os álbuns que me lembro quando os escutei pela primeira vez. Bilitis é um deles. Há 37 anos! Uma relíquia a partilhar. Escolhi três faixas: 5 – L’Arbre; 9 – Scène d’Amour; e 11 – Bilitis Générique de fin. Eventualmente, para descontrair.
Sete
Música electrónica, voz distorcida, levemente hipnótica. Fotografias, a preto e branco, veladamente humanas. Lista de frases breves, dispersas, estranhamente encadeadas.O que é?
Um anúncio brasileiro em português, não um anúncio português em inglês. Um excelente anúncio brasileiro.
Marca: Época. Título: A Semana. Agência: W/Brasil. Brasil, Junho 2014.
Assexia
Paula Rego. Pregnant rabbit telling her Parents. 1982.
Gosto da publicidade argentina. Os anúncios são impudicamente sexuados. Nada a ver com a “assexia” europeia. Quem acompanha a publicidade argentina e a publicidade europeia fica impressionado com o contraste. Curiosamente, a taxa de natalidade também é distinta: 17,3‰, em 2011, na Argentina; 8,5‰, ou seja metade, em 2012, em Portugal, 10,3‰, em 2012, na União Europeia. Permito-me um apelo aos nossos zelosos cuidadores empoleirados: acabem com o tabaco e com o arroz de cabidela, mas deixem o sexo!
Marca: PepsiCo Argentina. Título: Patinaje. Agência: BBDO Argentina. Direção: Luciano Podcaminsky. Argentina, 2012.








