Archive | Fevereiro 2014

Pintar o campesinato: Jean-François Millet.

Jean-François Millet. As Respigadoras. 1857.

Jean-François Millet. As Respigadoras. 1857.

Na disciplina de Sociologia da Arte, estamos a dar os impressionistas, com recurso a um docudrama da BBC (The Impressionists, 2006). Conjugar o passado no “futuro anterior” é uma tentação. Apostar no que interessa é outra. Ambas constituem uma forma de cegueira. A abertura e a dispersão são mais do que uma distracção. A focagem apaga mais do que ilumina. E, no entanto, cada momento histórico encerra uma riqueza inesgotável.

Jean-François Millet. Hunting Birds at Night.  1874.

Jean-François Millet. Hunting Birds at Night. 1874.

Para Ernst Bloch, a investigação não se pode cingir ao que existiu, importa convocar também o que poderia ter acontecido, embora não se tivesse concretizado. Se a história está repleta de impossíveis realizados, ainda mais apinhada está de possíveis por realizar. A floresta não tem só caminhos e clareiras. Mas a bússola tende a reter do passado apenas aquilo que desagua no presente, resumindo-o, de preferência, em poucas palavras. E, no entanto, para aprender a humanidade toda a humanidade é pouca. Pelos vistos, acabaram as grandes narrativas… Sobram as grandes palavras: pós-modernidade; hiper modernidade, pós-humanidade, hiper realidade, hiper pós… Uma procissão que teima em não se aventurar por entre as árvores da floresta. Esta pedagogia do caminho batido e do olhar filtrado conforta a ilusão de que o presente é uma espécie de bacia da história da humanidade.

Jean-François Millet. Descanso ao meio dia. 1866.

Jean-François Millet. Descanso ao meio dia. 1866.

Van Gogh. A Sesta.  1890

Van Gogh. A Sesta. 1890

Em França, na segunda metade do século XIX, para além dos academistas e dos impressionistas, houve outros artistas envolvidos na disputa em torno do que devia ser a arte. Dentro e fora da Académie Royale de Peinture et de Sculpture. Fora, abriram caminho, entre outros, o realismo (e.g. Jean-François Millet e Gustave Courbet) e o simbolismo (e.g. Gustave Moreau e Odilon Redon).

Jean-François Millet. the gust of wind. 1871-73

Jean-François Millet. the gust of wind. 1871-73

Jean-François Millet (1814-1875), francês, filho de camponeses, precursor e referência do realismo, fundador da Escola de Barbizon, frequenta vários cursos de pintura graças a uma sucessão de bolsas. Ao dedicar-se, com estilo próprio, à pintura de camponeses humildes, afasta-se claramente do estilo académico: “Le style académique ne pousse pas tant les artistes à trouver leur propre style qu’à se rapprocher d’un idéal qui repose sur quelques principes; simplicité, grandeur, harmonie et pureté” (http://www.mutinerie.org/les-lieux-de-travail-qui-ont-change-lhistoire-3-les-ateliers-dartistes/#.Uwfb4fl_tih). No quadro As Espigadoras, 1857, retrata as camadas mais baixas da sociedade: três mulheres camponesas rebuscam grãos de trigo após a colheita.

Jean-François Millet. The Angelus, 1857-1859.

Jean-François Millet. The Angelus, 1857-1859.

Salvador Dali.The Angelus. 1935.

Salvador Dali.The Angelus. 1935.

Millet teve influência nos pintores impressionistas, nomeadamente Van Gogh, que retoma algumas cenas. Por outro lado, Salvador Dali não só retoma O Angelus (1857–59), como lhe dedica um livro: Le Mythe Tragique de l’Angélus de Millet, 1ª ed. 1938, Paris, Allia Editions, 2011.

Millet. Two Men Turning Over the Soil. 1866. Van Gogh. Two Peasants Digging. 1889.

Millet. Two Men Turning Over the Soil. 1866. Van Gogh. Two Peasants Digging. 1889.

Na sociologia, Pierre Bourdieu faz várias alusões a Millet e Jean-Claude Chamboredon, co-autor de Le Métier de Sociologue, escreveu um artigo sobre Millet: “Peinture des rapports sociaux et l’invention de l’éternel paysan: les deux manières de Jean-François Millet”, Actes de la Recherche en Sciences Sociales, nº17-18, 1977, pp. 6-29.

A um morto nada se recusa

FunalcoitãoEste anúncio é extraordinário. Não tanto por ser promovido por uma agência funerária, mas porque é criativo, ousado, raro. Não releva de um grotesco vulgar. Inspira-se no poema Fim, de Mário de Sá-Carneiro. Original, comporta um tipo de humor que não abunda em Portugal. Uma amiga enviou-me, em boa hora, este anúncio. Na minha infância, um primo, então estudante em medicina, não se cansava de repetir este poema. Cheguei a um ponto da travessia em que a vida segue com excesso de memória, como uma nova Roma onde todos os caminhos vão parar! Em contrapartida, a torneira da vontade, pouco a pouco, tende a encravar. Memória atrai memória: os Trovante musicaram, em cadência lenta, este poema. “Quando eu morrer batam em latas / Rompam aos saltos e aos pinotes / Façam estalar no ar chicotes / Chamem palhaços e acrobatas”. Burros não hão-de faltar!

Marca: Funalcoitão. Tema: A um morto nada se recusa. Agência: BAR. Direcção criativa: Diogo Anahory e José Carlos Bomtempo. Portugal, 2014.

Trovante. Fim. Uma noite só. 1999.

Indefinição e instabilidade

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Máscaras estilizadas, parcas em feitio e expressão. Repetitivas e incómodas. São disfóricas. A inquietação não precisa de grandes atavios para se instalar. Um monstro, quanto menos definido, maior o efeito, perdão, pior o efeito. A propósito da “coisa” (The Thing, John Carpenter, 1982), um ser de substância improvável, Omar Calabrese escreve: “a coisa não tem uma forma autónoma, mas as suas células imitam as dos seres que lhe passam mais perto, até as engolirem e se transformarem nelas. O que faz que, quando a coisa é enquadrada, seja na realidade ora um cão, ora um membro da expedição” (A Idade Neobarroca, Lisboa, Edições 70, 1999, p. 109). O monstruoso reconhece-se, mas desconhece-se. E quanto mais se desconhece, maior a monstruosidade. Em suma, um anúncio excelente!

Marca: Zona Jobs. Título: Lottery. Agência: McCann, Buenos Aires. Direcção: Turbo Trueno. Argentina, Fevereiro 2014.

São Valentim Ecosófico

the-flower-orangeNeste anúncio, a Orange brinda-nos com uma lenda que, embora passada algures em África, se manifesta actual. Uma princesa deseja uma flor mítica. Vários pretendentes se dispõem a procurá-la. Apenas um vence a prova: aquele que respeita a flor, não lhe toca e regressa tornando-a presente pela descrição, pela palavra. “Words are the most precious gift”. Trata-se de uma mensagem de São Valentim ecosófica, com animação e música a condizer.

Marca: Orange. Título: The Flower. Agência: Marcel, Paris. Direcção: Scott Benson. França, Fevereiro 2014.

Seara académica

Pink-Floyd-High-HopesEstou a ler, com interesse, uma dissertação, em que a autora utiliza a seguinte expressão: seara académica. Perversamente, veio-me à ideia outra palavra: ceifa. Lembrou-me, também,um vídeo musical em que os símbolos académicos passeiam surrealisticamente pelos campos: Pink Floyd – High Hopes.

O amor, o papel e o digital

Paperman

Que seria do amor sem o papel? Um amor digital? Cartas de amor, quem as não tem? E emails com 720 kb de amor? Corpos Photoshop. Virais ou protegidos, com firewall e anti-vírus. Carícias à velocidade da luz… Tenho cá para mim que um dia virá em que as crianças vão nascer na motherboard por contacto online. Em suma, filhos digitais. Nada que não esteja ao alcance da nossa elite científica, discriminada positivamente pela actual sagacidade política. Vai ser emocionante ler no rodapé dos telejornais: oito gémeos provenientes de uma ligação no Twitter nasceram por download; no Japão, uma consola deu à luz uma futura equipa de futebol… Era tão giro, não era? A descoberta científica do milénio para resolver o problema do século! Agora ou nunca!… Os portugueses ficaram famosos por andar a espalhar sexo pelo mundo. Pelo menos assim o advoga a teoria do lusotropicalismo. Em breve, será a vez do sexo digital e do lusodigitalismo. Para uma visualização de Paperman com mais qualidade, aceder http://www.dailymotion.com/video/xzt3vb_paperman_shortfilms.

Paperman (O rapaz do Papel). John Kahrs. 2012.

Vitral

Auguste Rodin. La Cathédrale. 1909.

Auguste Rodin. La Cathédrale. 1909.

Há dias sombrios em que a lua pasma dentro de nós. Mas há sons que são raios de sol. Esgueiram-se pelos poros da pele convertida em vitral. Iluminam-nos com lágrimas coloridas num colar de esperança.

Camille Saint Saens. Introduction et Rondo capriccioso en la mineur. Op. 28. 1863. Excerto.

Vinte homens e uma personagem

Heineken. The OdysseyA cada um o seu talento e alguns minutos de fama

Pela criatividade e pela originalidade, o anúncio Odyssey, da Heineken, arrisca-se a ficar na história da publicidade.
Tudo concorre para um ambiente peculiar, lúdico: a música (16 toneladas, de Noriel Vilela), o navio, o ritmo, os comportamentos e os gestos. Uma heterotopia, diria Michel Foucault. Um carrossel de culturas, acrescentaria.
– Who is that man?
– That can´t be just one man.
Tornou-se habitual reconhecer várias personagens num único ser humano. Neste anúncio, somos convidados a reconhecer vários seres humanos numa única personagem.

Há domínios em que admiro os holandeses. Fazem um anúncio e escolhem uma música brasileira. É a sua maneira de ser globais. Na maior parte dos países, incluindo Portugal, faz-se um anúncio e escolhe-se uma música inglesa. É a sua maneira de ser globais. Uns são fecundos, outros são fecundados.

Este anúncio é brilhante, pixel a pixel. O ritmo, vertiginoso, não atropela os pormenores. A quantidade de informação frisa o barroco! Disse barroco?

Marca: Heineken. Título: The Odyssey. Agência: Wieden+Kennedy. Holanda, Janeiro 2014.

Grotesco japonês

Francisco de Goya, Saturno devorando seu filho (1819-1823).

Francisco de Goya, Saturno devorando seu filho (1819-1823).

Existem grotescos japoneses para quase todos os gostos e para quase todas as idades. Nos anúncios, por exemplo. Nos anime, também. Dois séculos depois do Saturno de Francisco de Goya, os titãs da mitologia grega e romana são reconvocados: no anime Attack on Titan, ameaçam devorar uma cidade; no anúncio do Subaru, não conseguem levar a melhor a um automóvel.

Marca: Subaru. Título: Attack on Titan, Live-action Forester. Direção: Shinji Higuchi. Japão, Janeiro 2014.

Attack on Titan, de  Hajime Isayama, Japão, 2013

À Espera dos Ícones

the-sunday-times-newspaper-icons-Quem espera nunca alcança. Quem muito espera, espera por si. Sê paciente, espera que aconteça até deixares de ser. Muito alcança quem não espera sentado. Espera pela cor das cerejas enquanto estão verdes porque depois comem-nas os pássaros. Muitas  vezes, quando chega quem se espera, não é de lamentar a espera, mas a chegada. Certo é que não vale a pena esperar pelo novo programa do The Sunday Times dedicado aos ícones porque já começou no início de Fevereiro. O anúncio da agência Grey é notável.

The Sunday Times ‘ICONS’ – This is all about those iconic cultural images that we pin to our walls and stick in our minds. We all have our favourites. Heisenberg, Kraftwerk, and Banksy’s kissing coppers all featured in early scripts, but we wanted to take a snapshot of what’s making the headlines in 2014. Daft Punk winning big at the Grammy’s, The final series of Mad Men, and Tarantino are all over the media right now. These people and their work have left an indelible mark and we’ll probably still be talking about them in ten, twenty maybe even a hundred years years time. The TV spot is a respectful nod to it all.

Marca: The Sunday Times. Título: Icons. Agência: Grey. Direcção: Us. UK, Fevereiro 2014.