Dom Caio, o Salvador
Um dia virá, envolto em nevoeiro, um alfaiate, terror das moscas. “A cavalo e sem cair”, munido de dedal e agulha, vai costurar os cortes das tesouras orçamentais e reconquistar os sete castelos aos usurários dos Mercados. Sem Dom Caio, a vida é uma Aljuderrota. Mas, no Panteão nacional, depois dos mata-moiros, dos expulsa-judeus, dos mata-frades e dos esfola-funcionários, repousarão, um dia, os mata-moscas. Entretanto, a bandeira nacional sangra, como no quadro de Manuel Casimiro (1987). Resta fechar os olhos e ver! Ver Dom Caio aos gritos, “eu caio, eu caio”, e o povo atrás em coro, “nós também, nós também”.
Dom Caio
Era um alfaiate muito poltrão, que estava trabalhando à porta da rua; como ele tinha medo de tudo, o seu gosto era fingir-se de valente. Vai de uma vez viu muitas moscas juntas e de uma pancada matou sete. Daí em diante não fazia senão gabar-se:
– Eu cá mato sete de uma vez!
Ora o rei andava muito aparvalhado, porque lhe tinha morrido na guerra o seu general Dom Caio, que era o maior valente que havia, e as tropas do inimigo já vinham contra ele, porque sabiam que não tinha quem mandasse a combatê-las. Os que ouviram o alfaiate andar a dizer por toda a parte: “Eu cá mato sete de uma vez!” foram logo metê-lo no bico do rei, que se lembrou de que quem era tão valente seria capaz de ocupar o posto de Dom Caio.
Veio o alfaiate à presença do rei que lhe perguntou:
– É verdade que matas sete de uma vez?
– Saberá Vossa Majestade que sim.
– Então nesse caso vais comandar as minhas tropas e atacar os inimigos que me estão cercando.
Mandou vir o fardamento de dom Caio e fê-lo vestir ao alfaiate, que era muito baixinho, e que ficou com o chapéu de bicos enterrado até às orelhas; depois disse que trouxessem o cavalo branco de Dom Caio para o alfaiate montar. Ajudaram-no a subir para o cavalo, e ele já estava a tremer como varas verdes; assim que o cavalo sentiu as esporas botou à desfilada, e o alfaiate a gritar:
– Eu caio, eu caio!
Todos os que o ouviam por onde passava diziam:
– Ele agora diz que é o Dom Caio; já temos homem.
O cavalo, que andava acostumado às escaramuças, correu para o sítio em que se combatia, e o alfaiate com medo de cair ia agarrado às crinas, a gritar como um desesperado:
– Eu caio, eu caio!
O inimigo, assim que viu o cavalo branco do general valente e ouviu o grito: “Eu caio, eu caio!”, conheceu o perigo em que estava, e disseram os soldados uns para os outros:
– Estamos perdidos, que lá vem o Dom Caio; lá vem o Dom Caio!
E botaram a fugir à debandada; os soldados do rei foram-lhes no encalço e mataram-nos, e o alfaiate ganhou assim a batalha só em agarrar-se ao pescoço do cavalo e em gritar: “Eu caio”.
O rei ficou muito contente com ele e, em paga da vitória, deu-lhe a princesa em casamento, e ninguém fazia senão louvar o sucessor de Dom Caio pela sua coragem.Teófilo Braga, Contos tradicionais do povo português, 1ª ed. 1883, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1999, p. 215.
Um dia perfeito
Hoje, revi teses de mestrado. Em fim de prazo, caem como dióspiros. Actualizei, fora de tempo, o currículo na página da FCT. Retoquei uma conferência integrada na reinauguração da Casa das Artes. Refiz, pela quinta vez, a distribuição por grupos dos alunos de uma unidade curricular sui generis. Ainda não visitei o correio electrónico. É um prazer que gosto de adiar; mensagens marinadas têm outro encanto. Não passeei na areia, nem nos rochedos, nem na floresta. Vi autocarros na ponte 25 de Abril e peões na ponte do Infante. Se calhar, uma miragem. Ou um golpe de asa de um povo espremido. Acode-me, por vezes, a suspeita de que, para os novos “salvadores da Pátria”, o povo só vale pelo pouco que ganha.
Vou regressar às teses… Está uma luz perfeita para a leitura. Os pensadores da pós-modernidade proclamam a “conquista do presente”. Albergará essa conquista um homem abissal? No extremo do promontório, o homem, conquistador do presente, já não consegue olhar para trás, convocar o lastro do passado, nem para o horizonte, sondar a promessa do futuro, olha apenas para baixo, para a vertigem do abismo.
Canções como Perfect Day, do Lou Reed, são vacinas contra esta estreiteza de perspectivas.
É sábado, um dia perfeito. Just a Perfect Day…
Lou Reed. Perfect Day.
Sem-abrigo. A arte da sobrevivência
Este anúncio do Mosteiro Franciscano de Düsseldorf deixa, à primeira vista, um travo turvo. É promovido por quem lida de perto com a pobreza e não apenas por quem a retrata. Adivinha-se, nos detalhes dos pequenos gestos, uma cumplicidade de todos os dias. As imagens logram o efeito desejado. E a música? Não é desengraçada, mas é excessiva. Embacia os óculos e enche moldura onde se encolhe a “arte da sobrevivência”. Duas forças podem corroer-se mutuamente. Afinal, quem é o artista? O sem-abrigo? A Tinseltown Music Productions? A Ogilvy & Mather? O mosteiro franciscano? O público? Será que, para além de ver com os olhos do coração, também temos que abanar a cabeça entre as orelhas?
Anunciante: Franciscan Monastery. Título: Surviving is an Art. Agência: Ogilvy & Mather. Direção: Florian Meimberg. Alemanha, Outubro 2013.
A Cenoura e o Sonho
Este anúncio da Samsung, concebido pela elite da criação publicitária, é um belo exemplar de mitologia urbana contemporânea (ler a notícia que acompanha o vídeo). E não digo mais! Estou assoberbado a preencher mapas e formulários para a instituição governamental responsável pelo financiamento e pela avaliação da produção científica e tecnológica nacional. Ocorre-me pensar, a propósito, como com apenas meia dúzia de cenouras é possível conduzir organizações históricas e culturais gigantescas!…
Marca: Samsung. Título: The Developer. Agência: Leo Burnett. Direção: Adam Hashemi. USA, Outubro 2013
Vibrações nas Alturas
Que fazem dois homens (objecto?) num anúncio de roupa interior masculina? Trepam ao tecto dos Alpes, despem-se acalorados, fazem acrobacias esculturais. Não se encostam a um automóvel, nem bebem cerveja. Suspensos num fio, a milhares de metros de altitude, propagam as vibrações da colecção de Outono/Inverno de Sir Paul Smith. Vale a pena ver. Pelo menos a 720p.
Marca: Paul Smith. Título: Underwear Autumn/Winter Collection. Agência: Direct. Direção: Sébastien Montaz-Rosset. Outubro 2013.
“This week we released a film to promote our autumn/winter 13 underwear collection, you can watch it here. In a world full of things that are so predictable, the obvious root for promoting underwear would be for us to use a well-bult guy and a classic shot that we’ve seen many times before, but I was keen to do something that was different. We’ve worked with a brilliant film-maker Sébastien Montaz-Rosset and slackliners Antoine Moineville and Tancrède Melet. I’ll let the film do the talking but I hope you like the result, we think it’s really amazing and scary as hell. And remember, breath comes in short pants!” (Paul Smith).
A Fonte da Juventude
Vários amigos me enviaram o anúncio Baby and Me (Evian, 2013). Tive a ocasião de o ver no próprio dia em que foi publicado. Circulava na Internet a uma velocidade incrível, que pressagiava a ultrapassagem do recorde mundial detido pelo anúncio Roller babies (Evian, 2011), com cerca de 150 milhões de visualizações (Guiness World Records). O novo anúncio era uma promessa de maná universal. Fiz birra! Colocá-lo no blogue para quê? Todos o conheciam. Um comentário minimamente original requeria tempo e disposição. Para ruminar ideias. Ruminar é, hoje, um luxo. As universidades andam hiperactivas, enredadas em órgãos, reuniões, plataformas, protocolos e formulários. Tudo se ritualiza, até o pensamento. Longe vão os tempos em que o professor universitário desfrutava da schole, a “distância à urgência e à necessidade” (Pierre Bourdieu). A schole transformou-se numa reminiscência evanescente. Escrever crónicas e artigos é uma actividade sitiada. Com o teclado da vontade em constante adiamento, que escrever a propósito do anúncio Baby and Me?
Marca: Evian. Titulo: Baby and Me. Agência: BETC Paris. Direção_ We are from LA. França, Abril 2013.
A Evian é exímia em tatuar a pele com lendas e mitos, num registo jovial, dinâmico e eufórico. Uns antigos, como a sereia e a fonte da juventude, outros, modernos, como a identidade e a natureza. O mote segundo o qual a água de Evian rejuvenesce remonta, pelo menos, aos anos 1990.
No anúncio Baby and Me, adultos procuram-se e vêem-se no espelho. Os “Narcisos” actuais, para além de belos, são incrivelmente jovens. Na imagem reflectida, a idade comprime-se. Uma miragem? Uma projecção fantástica em que nos reconhecemos. De um lado, o adulto, a dois passos, do outro lado do espelho, a criança. Trata-se de uma regressão jubilosa, “un retour aux sources”, um regresso à nascente e à origem. Uma nova versão da Fonte da Juventude, de Lucas Cranach (1546): idosos aventuram-se nas águas milagrosas, saindo, no lado oposto, jovens. No anúncio Seniors (Evian, 2000), pessoas de idade regeneram-se vigorosamente ao ritmo de uma coreografia exuberante. Este anúncio, que fecha com o lema “Evian, proclamada fonte de juventude para o vosso corpo”, assume-se como uma réplica do anúncio, com bebés, Water Ballet (Evian, 1999). Para ver o anúncio Seniors, carregar na imagem ou no seguinte endereço: Evian. Seniors.
A Andorinha e a Primavera
Esta crónica do comUM corresponde a uma nova versão de um artigo publicado no blogue Tendências do Imaginário (http://tendimag.com/?s=porcos). Para aceder à crónica, carregar na imagem.
A Galinha e o Político
Quem concebeu este anúncio deve ser um génio. Palpita-me que não foi um político. Há actividades que queimam os fusíveis da criatividade. Ressalvando a inteligência, entre as galinhas e os políticos pouco há em comum: as galinhas mantêm a compostura, o equilíbrio e o rumo. E põem ovos! Coisa que os políticos não fazem.
Marca: Mercedes-Benz. Título: Chiken. Agência: Jung von Matt/Neckar, Stuttgart. Direção: Daniel Warwick. Alemanha, setembro 2013.
Penso Rápido
Como ilustra o anúncio Band-Aids can’t fix everything, o penso rápido não é uma panaceia, na realidade, resolve poucos males. No século XVIII, acreditava-se que a sangria com sanguessugas era uma panaceia. Agora, não sei se a panaceia é o penso rápido ou a sangria (por corte ou por sanguessuga). Inclino-me a duvidar que o penso rápido e a sangria sejam uma boa medicina para as pessoas e seus países.
Anunciante: Red Cross. Título: Band-Aids can’t fix everything. Agência: Monkeystack. Direção: Troy Bellchambers. Austrália, Setembro 2013.
Neste artigo, o título é quase maior que o texto. Na freguesia da Faia, em Cabeceiras de Basto, a Festa de S. Tiago das Bichas foi, durante séculos, muito concorrida. No dia da festa, as pessoas mergulhavam as pernas no ribeiro para ser curadas pelas bichas, ou seja, pelas sanguessugas (sobre a Festa de S. Tiago das Bichas, ver Gonçalves, Albertino & Gonçalves, João, “Entre o Céu e a Terra: Festas e Romarias de Cabeceiras de Basto”, in Cabeceiras de Basto: História e Património, uma bela edição da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto, 2013, pp. 188-203). A seguir à imagem da capa do livro, transcrevo um pequeno excerto relativo à Festa de S. Tiago.
“Em que consiste a festa das bichas? A primeira pista é-nos facultada pelas memórias paroquiais de 1758: “Há ao pé desta igreja um ribeiro, em dia de São Tiago, que é o orago, concorre muita gente a tomarem bichas para sararem de várias enfermidades. E é tradição antiga que só naquele dia se achavam no dito ribeiro que se chama de S. Tiago” (CAPELA, 2003: 224). As pessoas da freguesia contam as histórias que os avós lhes contavam: antigamente, quando as pessoas tinham problemas no sangue ou outras doenças em que era necessário purificar o corpo, mergulhavam as pernas no estreito ribeiro que corre perto da igreja de S. Tiago. No dia do Santo, apareciam as sanguessugas que se agarravam às pernas dos banhistas e curavam varizes e coágulos, regenerando os corpos dos devotos.
Reza a lenda que as bichas aparecem apenas no dia de S. Tiago, muito embora a vida e a obra de S. Tiago nada tenham a ver com semelhante lenda. Pormenor que não obsta a que a memória da cura pelas sanguessugas se mantenha viva e festiva. Hoje, ninguém se aventura a mergulhar as pernas no ribeiro, mas a festa das bichas continua a realizar-se com dignidade todos os anos no último fim-de-semana de julho ou no primeiro de agosto, com missa, procissão, música e fogo-de-artifício no final.
“Chama-se esta Paróquia vulgarmente Santiago das Bichas, porque em um regato, que por ela corre há muitas sanguessugas, e desde as primeiras Vésperas deste Santo até às segundas concorre a ele em romaria muita gente sã e enferma de vários males e uns mandam tirar estes bichos para os pôrem em si, outros metem as pernas na água e aferrando-se nelas lhes tiram quantidade de sangue, com que se acham melhor, e se atribui a milagre do Santo, não o pegar das sanguessugas, pois é seu natural, mas o obrarem tanto bem repentinamente” (COSTA, 1706, I: 151). Por sua vez, as Memórias Paroquias de 1758 especificam que as sanguessugas “só naquele dia se achavam no dito ribeiro que se chama de São Tiago” (CAPELA, 2009: 224). Se o Padre António Carvalho da Costa contempla na sua Corografia, de 1706, a festa de Santiago das Bichas é porque esta era importante.
O renome da festa de S. Tiago das Bichas não é de estranhar. A sangria é uma prática preventiva e terapêutica que remonta, pelo menos, ao Antigo Egipto. Hipócrates (460-370 a.C.) recomenda-a para as dores fortes do fígado e do baço, a pneumonia com febre e a apoplexia cerebral. No século XIII, é editada a obra «Regimen Sanitatis Salernitanum», ligada à escola de medicina de Salerno, da qual se extrai o seguinte poema:
“A sangria, aos olhos, dá novo lustro
Reanima a memória, esclarece o cérebro
Com doce calor, aquece as medulas
Apazigua o intestino e o ventre rebeldes
Acalma diluindo-o o estomago irritado
Concede aos sentidos refrescados, vigor e nitidez
E dá à voz uma suavidade agradável”[1]A sangria, enquanto modo de equilibrar os humores internos, quase foi encarada como uma panaceia para todos os males. Uma das modalidades de sangria recorre a sanguessugas, animais que têm a particularidade de produzir uma substância anticoagulante chamada hirudina. A utilização de sanguessugas atinge o apogeu no decurso do século XIX. Para se ter uma noção da amplitude do fenómeno, registe-se que a França importou, no ano de 1833, onze milhões de sanguessugas. Por essa altura, a Alemanha exportava anualmente para os Estados Unidos cerca de trinta milhões de exemplares (JARDIN, 2005: 17).
Nesta perspectiva histórica, compreende-se a reputação da festa de S. Tiago das Bichas. Pela afluência e pelo motivo. No século XII, a escola de medicina de Salerno chamava a atenção para o calendário apropriado para as sangrias, aconselhando as horas, os dias e as estações mais propícias. Durante a festa de S. Tiago das Bichas ocorria uma conjunção extraordinária: um espaço, o ribeiro; um tempo, o período festivo; e um agente ocasionalmente abundante e eficaz, as sanguessugas. A cura milagrosa assenta nesta coincidência. Acontece ali, naquele momento, com aquelas bichas, por graça do Santo. Configura-se um triângulo simbólico com os seguintes vértices: generosidade divina, disponibilidade da natureza e carência humana. Os tópicos de uma visão do mundo.” (Gonçalves, Albertino & Gonçalves, João, op. cit., pp. 195-196).”
[1] Traduzido a partir de JARDIN, 2005: 11










