Tag Archive | USA

Máquinas desejadas

Old Spice. Soccer 2

Mais um cheirinho a  Old Spice. Regressa a aposta num protagonista biomecanóide. Uma figura com séculos,  mas, hoje, particularmente infestante. À dita pós-modernidade associam-se duas multiplicidades: a do ser múltiplo e a do ser multiplicado. O ser multiplicado é o maná das identidades líquidas e fragmentadas: uma dúzia (pós-moderna) a agarrar o presente e apenas uma (moderna) a pagar impostos!
Comparando com o artigo anterior (http://tendimag.com/2014/07/25/pos-modernidade-vitoriana/), suspeita-se que, na pós-modernidade modernamente assistida, o que está em voga não é a carne (censurada), mas a máquina (desejada). A tragédia grega tem o coro, Pinóquio, o Grilo Falante e eu, o Demónio Céptico, demónio que me anda a tentar: “a pós-modernidade é, antes de mais, o pós-modernismo, e o pós-modernismo, um movimento intelectual profético, a grande narrativa contemporânea”.

Marca: Old Spice. Título: Soccer. Agência: Wieden+Kennedy USA. USA, Julho 2014.

O Corredor Tecnológico

ARRISA ARRIS é uma empresa da área da comunicação e da informática. O anúncio Inventing the Future começa num hangar com imenso espaço inocupado. Uma metáfora do presente? Do futuro? Do futuro no presente (Barbara Adam)? O protagonista entra num corredor. Não se vislumbra o fundo. Em jeito de paredes, inúmeros objectos electrónicos empilhados: televisores, computadores, monitores, despertadores, rádios… A disposição não é casual, mas também não é linear, nem geométrica. Há margem para a diversidade e para a originalidade. Este desarranjo na representação da história da tecnologia electrónica constitui uma das características mais relevantes do anúncio. O corredor é o passado no presente (Barbara Adam). Parece um labirinto. Mas não é! Não há modo de se perder. O homem da Arris avança seguro, sem hesitação, maquinal. Sem parar! O avanço no corredor faz lembrar um videojogo. Mas não é. Tem níveis mas não tem conclusão. Trata-se de um passado num presente que tem futuro. Pelo caminho, alguns marcos, por sinal, heterogéneos: a difusão da televisão, os Looney Tunes, a viagem à lua, a MTV, o skate, a queda de Hussein, a câmara de filmar incorporada nos portáteis… Um pouco de tudo. Não se enxergam, pelo menos à primeira vista, imagens disfóricas. Nem Hiroshima, nem Dallas 1963, nem 11 de Setembro! Estamos perante um mundo fantástico, sedeado algures entre o Canadá e o México. À semelhança dos brinquedos de E.T.A. Hoffmann ou do filme Toys Story, os objectos técnicos têm vida própria. Parecem dispensar mão humana. No início, o comando pousado no solo activa-se sozinho. O mesmo sucede com os ecrãs e demais objectos técnicos durante o avanço no corredor. Arris é artífice e herdeira deste mundo mágico. É uma garantia e uma promessa. Uma promessa garantida.

https://vimeo.com/85281780

Marca: ARRIS. Título: Inventing the future. Agência: Story Worldwide. Direcção: Alex Topaller, Dan Shapiro. USA, 2014.

ARRIS is a global innovator in IP, video and broadband technology. We have continually worked with our customers to transform the experience of entertainment and communications for millions of people across the world. The people of ARRIS are dedicated to the success of our customers, bringing a passion for invention that has fueled our 60-year history: We created digital TV, delivered the first wireless broadband gateway and are pioneering the standards and pathways for tomorrow’s personalized, Ultra HD, multiscreen, and cloud services. We are dedicated to meeting today’s challenges and preparing for the tasks the future holds. Collaborating with our customers, ARRIS will continue to solve the most pressing challenges of 21st century communications.
Together, we are inventing the future.

O pneu, a pornografia e a liberdade

7 Up

A 7 Up encontrou uma alternativa às pin ups dos calendários Pirelli: os camionistas. Uma paródia. Em 2002, a desinibição respirava outros ares. Menos filtrados. Comprova-se a onda neste e noutros anúncios. Entretanto, parece ter-se instalado uma nuvem de puritanismo pós-moderno. Pergunto-me se, para além das contas públicas, não está a aumentar o défice da liberdade quotidiana. De directiva em directiva, de rectificação em rectificação, de salvaguarda em salvaguarda, acabamos mais dirigidos e mais correctos. Acabamos tolhidos. Tolhidos…

Marca: 7 Up. Título: Calendar. Agência: Young & Rubican. USA, 2002.

 

Brutal

Old Spice Brasil

Mr. Old Spice vai ao Mundial. Com o humor habitual. Como as toupeiras turbo, cava túneis subterrâneos sem gps. Muita cor, muito som, muita agitação. A ausência de sentido estimula os sentidos. Com estas artes, os brasileiros estão expostos uma sobrecarga semiótica.

Há grotescos e grotescos. O esquema da Old Spice provoca cada vez menos estranheza. É uma réplica. O anúncio da Budweiser joga no mesmo campo, com o mesmo equipamento, mas com outro estilo. O contraste entre a rudeza dos wrestlers e a delicadeza do vestuário é um ovo de Colombo bem explorado.

Marca: Old Spice Brasil. Título: Po po po po power. Agência: Wieden + Kennedy, Portland. Brasil, Junho 2014.

Marca: Budweiser. Título: Mister pro wrestling wardrobe designer. Agência: DDB. Direcção: Tom Schiller. USA, 2002.

Better than sex

Menir do Outeiro. Reguengos de Monsaraz

Menir do Outeiro. Reguengos de Monsaraz

Um anúncio como já não estava à espera: embalado em sexo, com ou sem cosméticos. Bem feito.

Marca: Better then sex, Título: Duty to please your beauty. Agência: Standard Time. Direcção:  Elliot Dillman / Bankrupt Films. USA, Junho 2014.

O mundo é uma bola

Beauty shot of a large fry

Começou o grande circo…

Marca: McDonald’s. Título: Gol. Agência: DDB Chicago. Direção: Henry Alex Rubin. USA, Maio 2014.

Claras em castelo ou a consistência da liquidez

Alison Saar. Coup, 2006

Alison Saar. Coup, 2006

Nos momentos mais líquidos, a arte é uma boa embarcação. As esculturas de Alison Saar, nascida em Los Angeles em 1956, têm raízes que bebem, sobretudo, na mitologia grega e na tradição africana e ameríndia.

Alison Saar. Brod.

Alison Saar. Brod.

“Informed by artistic traditions from the Americas to Africa and beyond, and by her mixed racial upbringing, Alison Saar fuses her paradoxical responses to the black-and-white delineations of political and social forces into a powerful, visual, and kinesthetic tension. Saar uses the history and associations of her materials, everyday experience, African art and ritual, Greek mythology, and the stark sculptural tradition of German Expressionism to infuse her work with an intensity that challenges cultural and historic references and stereotypes. Through a process of self-scrutiny and introspection, Saar forcefully investigates elements of marginalization and discrimination to present poetic responses as to how these historical burdens can be transformed, and how symbolic atonement, and even some measure of redemption, can be imagined”.
http://www.massart.edu/Galleries/Bakalar_and_Paine/Past_Exhibitions_2014/Alison_Saar_STILL.html

Poder na palma da mão

apple_ad_powerful_thumbnail

O iPhone 5 permite auscultar o corpo, traçar itinerários, acompanhar uma canção, filmar curtas metragens, promover instalações de arte, ver as estrelas…  “With the power of iPhone 5s, you’re more powerful than you think”. Tanto poder na palma da mão! E, no entanto, não parece. Nem com resmas de iPhone 5s. A Física deve ter algum princípio do género: quando um fenómeno é demais, deixa de se sentir. Por exemplo, quando a velocidade de um corpo é muito elevada, deixamos de o ver. Da generosa colheita de mestres palavras circuladas nas últimas décadas, empowerment (empoeiramento?) é aquela que mais aprecio. O homem moderno é um Sansão compulsivo, com a técnica a substituir o cabelo. We are so empowered, aren’t we?

Marca: iphone. Título: Powerful. Agência: TBWA. USA, Abril 2014.

 

A juventude não tem idade

A Dodge faz 100 anos. Celebra-os com um anúncio onde figuram apenas pessoas centenárias, que partilham a sua sabedoria. Mais uma ideia simples com belo efeito. Em 24 horas, o anúncio ultrapassou quatro milhões de visualizações na internet. A Dodge é centenária, mas os carros são novos. Os idosos também são centenários, mas têm um espírito jovem. Os idosos sobressaem porque nos surpreendem com o seu espírito jovem? Estou a interpretar mal, não estou? Em tempos, uma mulher que parecia um homem até não parecia uma mulher! Estou a desconversar, não estou? Estou. Mais do que costume. Quando uma pessoa passa o dia a espremer pensamentos, o que apetece é desligar ou desconversar. Pensar, apenas, na idade que rejuvenesce. Tudo é esplendoroso quando é o que é mais o seu contrário.

Marca: Dodge. Título: Wisdom. Agência: The Richards Group. Direcção: Samuel Bayer. USA, Abril 2014.

Ser diferente

Arte por crianças com autismo. Amigos, por  Wil C. Kerner, com 12 anos de idade.

Arte produzida por crianças com autismo. Amigos, por Wil C. Kerner, com 12 anos de idade.

Há mundos e mundos. Os teus, os dos outros e os nossos. E aqueles que nem sequer suspeitamos. Mundos da vida. Mundos sensoriais. O que ouve um autista? Este anúncio da National Autistic Society esboça um cenário (para mais informação, consultar http://www.autism.org.uk/living-with-autism/understanding-behaviour/the-sensory-world-of-autism.aspx).

Anunciante: National Autistic Society. Título: Sensory Overload. Agência: The News. Direcção: Steve Cope. USA, Abril 2014.

O anúncio Sensory Overload lembra a ópera rock Tommy (1969), dos The Who, filmada por Ken Russell. Durante a guerra, o capitão Walker é dado como morto. Deixa a mulher grávida. Nasce Tommy. A mãe tem um amante: Frank. Passados alguns anos, o pai, inesperadamente, regressa e é assassinado por Frank. Tommy presencia a tragédia através de um espelho. A mãe e o padrasto insistem que ele nada viu, nem ouviu, logo nada contará a ninguém. Tommy torna-se, de facto, cego, surdo e mudo…

Os anos corroeram a memória dos The Who e do realizador Ken Russell, que ganhou um óscar em 1969 pelo filme Women in love. Em 1971, estreou o estranho e excessivo The Devils. Em 1980, é a vez da ficção científica com Altered States. Realizou, também, vários filmes dedicados a compositores musicais (Elgar, Liszt, Mahler, Tchaikovsky).

Sobram fórmulas para enterrar talentos. A mais vulgar é R.I.P. e a mais eufemística, “estava adiantado em relação ao seu tempo”: a obra de Ken Russel tinha traços pós-modernos, mas antes da declaração do fim das grandes narrativas, e barrocos, mas antes do neobarroco…

Segue a faixa See Me Feel Me – Listening to you, do album Tommy (1969) dos The Who.