Distração Fatal
The Unseen, da AT&T, é um anúncio de prevenção rodoviária. Especial. Alerta sobre os riscos decorrentes de usos abusivos dos próprios produtos: atender ao telemóvel ou escrever mensagens enquanto se conduz. Não é a primeira vez que a AT&T recorre a este esquema (ver Close to Home, It Can Wait, 2015). É uma opção em expansão. Estamos perante uma nova modalidade, engenhosa, de publicidade de consciencialização.
O anúncio é primoroso. Os contextos, os protagonistas e os comportamentos são gizados e caracterizados ao mais ínfimo pormenor. Normais, as pessoas são encantadoras. O pai leva as filhas à escola. A mãe dá pela falta do cão. Liga ao marido. Este não atende, “it can wait”. Estaciona o carro para falar. Um rapaz “aparece” no banco de trás. Conversam. O rapaz desaparece. “Só”, o pai atende o telemóvel enquanto conduz. Atropela uma criança, aquela que lhe tinha aparecido no carro. “ You’re never alone on the road”. “Distracted Driving is never OK”. A aparição da vítima releva de uma espécie de premonição. Constitui o momento fulcral do anúncio. A premonição, crença arreigada na nossa história e na nossa cultura, não funcionou como aviso mas como prenúncio de morte. Em suma, um anúncio com impacto.
Apocalipse
As ferramentas divinas podem avariar, dando azo a um novo apocalipse: ausência de gravidade, acidentes, chuva de peixes, carros voadores, cães a conduzir homens pela trela, cabras a montar burros… Quando um telemóvel avaria, desgraça à porta! Valha-nos Mophie: “When your phone dies, God knows what can happen. Mophie. Stay Powerful”.
Marca: Mophie. Título: All-Powerless. Agência: Deutsch LA. Direcção: Christopher Riggert. USA, Janeiro 2015.
O telemóvel mágico. Novo conto de Natal
Em La Mentalité Primitive (1922), obra polémica de Lucien Lévy-Bruhl, colaborador de Émile Durkheim, a mentalidade primitiva é definida como vincadamente pré-lógica. No pensamento pré-lógico não prevalece o princípio da não contradição: “uma pessoa pode ser simultaneamente si mesma e uma outra, estar aqui e além, ser ao mesmo tempo o antecedente e o consequente, e o determinismo dos fenómenos da natureza é substituído pela participação mística ou mágica” (Mucchielli, Roger & Mucchielli-Bourcier, Arlette, 1969, Lexique des sciences sociales, Paris, Éditions sociales françaises). As noções de mentalidade primitiva e de pensamento pré-lógico foram severamente criticadas. O próprio Lucien Lévy-Bruhl assumiu, passadas algumas décadas, uma revisão: “Corrija-se expressamente o que acreditava exato em 1910: não há uma mentalidade primitiva que se distingue da outra por duas características que lhe são próprias (mística e pré-lógica). Há uma mentalidade mística mais acentuada e mais facilmente observável nos “primitivos” do que nas nossas sociedades, mas presente em todo o espírito humano” (Lévy-Bruhl, Lucien, 1949, Carnets, Paris, Presses Universitaires de France, 1949).
Registo a correção, mas resisto a acreditar que o homem contemporâneo seja somenos místico ou mágico ou abrace com força o princípio de não contradição. Convencem-me mais Vilfredo Pareto e alguns teóricos da pós-modernidade, a começar por Michel Maffesoli e pelo meu colega Jean-Martin Rabot, que tanto insistem na ideia de um “reencantamento do mundo”. A nossa relação ao mundo da vida é mais mística e mais mágica do que nos apressamos a admitir. Até um objeto técnico como o telemóvel se dá ares de objeto mágico, principalmente nesta quadra de fé em Deus e de fé nos homens. Atente-se neste anúncio da Claro, uma empresa operadora de telefonia móbil da América Latina.
As separações são dolorosas. Deixam marcas que não se apagam. O que vale é o telemóvel, a fita-cola mágica das relações interpessoais.
Marca: Claro. Título: Qué le dirías? Agência: Ogilvy & Mather Costa Rica. Direcção: Jesus Revuelta. Costa Rica, Dezembro 2014.
voo pré-nupcial
O retorno aos arquivos pode ser compensador. Em 2007, teve lugar no Mosteiro de Tibães a exposição “Vertigens do barroco”. A um canto, recortava-se uma sala de estar com móveis modernos extravagantes e um baú do séc. XVIII com anjos a dançar. No centro, corriam num ecrã “cápsulas de emoções, ou seja, dezenas de anúncios publicitários. Por exemplo, o Marry me, da Siemens, de 2006.
Obsolescência programada e criação destrutiva
Da General Motors dos anos 1920 à atual Microsoft, suspeita-se de um encurtamento propositado da duração dos produtos (a obsolescência programada). Pois na era do hiperconsumismo e do upgrade, raros são os bens que completam o seu ciclo de vida. São ultrapassados, ainda em uso, por outros mais recentes. Estamos perante um “massacre” de objetos motivado pela inovação e pela atualização. Não se trata de obsolescência programada mas de morte precoce. Os anúncios da Etsalat e da Virgin Mobile ilustram esta “criação destrutiva”. Publicados em Agosto, quase em simultâneo, parecem gêmeos. O primeiro, egípcio, elenca uma série de artes de executar um telemóvel, o segundo, norte-americano, uma série de “acidentes felizes” com o mesmo resultado: o apocalipse dos objetos démodés. Ambos anunciam, profeticamente, novos produtos e novos tempos.
Anunciante: Etisalat. Título: Mobile Massacre. Agência: Strategies, Cairo. Direção: Omar Hilal. Egipto, Agosto 2012.
Anunciante: Virgin Mobile. Título: Happy Accidents. Agência: Mother New York. Direção: Guy Shelmerdine. EUA, Agosto 2012.
O telemóvel indiscreto: Tecnologia e relações conjugais
As novas tecnologias interferem na interacção social, em particular, nas relações conjugais alargadas. É que aos homens custa-lhes dominar tecnologias tão simples como o telemóvel. São como os peixes de Brueghel: pescadores pescados.
Produto: Comviq. título: Leonard. Agência: The Mills Forsman & Bodenfors. Direçao: Kevin Thomas. Suécia, 2002.
Produto: Uol. Título: Caracas. Agência: Del Campo Nazca Saatchi & Saatchi. Argentina, 2002.
A Tribo da Baleia
Portugal produz boa publicidade. Alguma, por sinal, pouco vista no País. Quem se lembra deste anúncio da Optimus em que um grupo de telemobilizados bem parecidos salva uma baleia? Bem parecidos e disponíveis, porque não é qualquer pessoa que pode largar, de repente, tudo o que está a fazer para ir empurrar um cetáceo. A ecologia e o (neo)tribalismo são traços da sociedade actual. Se acrescentarmos uma juventude fresca, livre e bem dotada, aproximamo-nos da fórmula de muitos anúncios nacionais.
Marca: Optimus. Título: Whale / Corrente. Agência: BBDO Portugal Agência de Publicidade / Krypton. Portugal, Agosto 2004.

