A espreguiçadeira
C
om 1915 artigos publicados no Tendências do Imaginário, apetece-me ensaiar um tipo de artigo enfadonho. Gosto de arte e de literatura. Abordam os fenómenos sociais com um olhar próprio. Constroem mundos verosímeis onde a sociologia ganha em se inspirar. Associa-se, assim, Mikhail Bakhtin a Fiódor Dostoiévski, Pierre Bourdieu a Gustave Flaubert, Marcel Proust à micro-sociologia, Thomas Mann a Erving Goffman…A Montanha Mágica (1924), da autoria de Thomas Mann, prémio Nobel da Literatura em 1929, é uma obra-prima do século XX. Hans Castorp, o protagonista, visita o primo, Joachim, internado num sanatório em Davos, na Suíça. Acaba ele próprio por ser internado com tuberculose. A escrita de Thomas Mann atarda-se sobre os meandros da “adaptação” de Hans Castorp ao sanatório, uma “instituição total” (Erving Goffman): usos dos objectos, a hexis corporal, os gestos, o espaço, o tempo, as rotinas, a comunicação, os afectos, os outros, o pessoal… Página a página, Hans Castorp ajusta-se à instituição, melhor, a instituição absorve-o, retomando uma expressão de Erving Goffman (Os momentos e os seus homens, 1988; Asilos, 1961). Retive dois excertos do romance. No primeiro, inicial, Hans Castorp “adapta-se”, com a ajuda do primo, ao sanatório; no segundo, já na parte final do livro, é a vez de Hans Castor, já veterano do sanatório, ajudar o tio cônsul, Tienapple, a “aclimatar-se” à orgânica e ao espírito da instituição.
Vislumbram-se, nestes dois excertos de A Montanha Mágica, algumas pontes entre Thomas Mann e Erving Goffman: a ideia de “espírito do lugar”, “a desarticulada monotonia da existência rotineira”, os rituais, o staff, a demarcação entre os mundos interior e exterior. No segundo excerto, o tio de Hans Castorp revela-se, hesitante e confuso, um caso de início de “mortificação do eu” (Asilos, 1961). O valor atribuído aos objectos é particularmente sedutor. O termómetro e o retrato, por exemplo. Mas, sobretudo, a espreguiçadeira, fonte de prazer, cuidado de si e entorpecimento. A espreguiçadeira ergue-se como um símbolo da instituição: introduz e ancora as pessoas na orgânica, no ritmo e no espírito do sanatório (sobre a importância dos objectos na interacção social, ver Erving Goffman, Relações em Público, 1971).
Para aceder aos dois excertos de A Montanha Mágica, carregar na imagem ou no seguinte endereço: A Espreguiçadeira.
Sociocídio
“Não existe defeito que, com o tempo, numa sociedade corrupta, não se torne um mérito, nem vício que a convenção não consiga elevar à virtude (Alvaro Corrado, Il nostro tempo e la speranza, Milano, Bompiani, 1952).
Hoje, é dia do Senhor, e dos bons pensamentos. Neste mundo, é mais fácil valorizar os defeitos ou as qualidades? Que a resposta não salte da ponta da língua mas mergulhe na inteligência. O disparate desnuda o Rei. Perguntas sem resposta estimulam, como diria Hercule Poirot, “as pequenas células cinzentas”. Hoje, dia do Senhor, abraço uma “nova regra sociológica”: Não cometer sociocídio, no sentido de não mumificar a vida social. Não reifiques, semeia! Stoopid?
Alice Cooper. Hey Stoopid. Álbum homónimo. 1991.
Adeus à cátedra
“As coisas a que mais queremos (…) não são com frequência quase nada. São um nada que a nossa imaginação transforma em montanha. Um outro esforço de imaginação faz que o descubramos sem dificuldade” (Blaise Pascal, Pensamentos).
Perdi, há anos, um concurso para uma vaga de professor catedrático na área de Sociologia da Universidade do Minho. Herdei alguns fantasmas. Por exemplo, alguém atribuiu, quase salomonicamente, 101 pontos a um candidato e 100 ao outro; houve quem tenha compensado o desequilíbrio na dimensão “prestação de serviços à comunidade” convocando a atividade sindical… Estes e outros fantasmas dormem no inverno do meu descontentamento: assombram a confiança e corroem a vontade. Imbuído de sentido institucional, prossegui indignado por dentro e plácido por fora.
Está aberto novo concurso para uma vaga de professor catedrático na área de Sociologia da Universidade do Minho. Há tapetes que só se pisam uma vez. É verdade que um homem tem que fazer o que tem que fazer. Persigo, porém, uma figura que pertence ao passado: o intelectual. A um homem compete-lhe ponderar o que deve fazer.
Com a fábula da raposa e das uvas na sombra, confesso que, a caminho da reforma, a cátedra me motiva pouco. Prescindo dos júris para professor associado, professor catedrático e provas de agregação. Inquietam-me os desfechos em tribunal. Dispenso avaliar colegas. Não me seduzem os cargos de topo. Não me atrai o poder. Por acréscimo, a diferença de remuneração é, no meu caso, irrelevante.
Há coisas que só se perdem uma vez. Para o bem e para o mal e com o risco de não agradar nem a gregos, nem a troianos, decidi não concorrer. Adeus à cátedra!
Texto em pdf: Adeus à cátedra pdf
Albertino Gonçalves.
25 anos da licenciatura em Sociologia (UM)
Comemoramos os 25 anos do curso de licenciatura em Sociologia na próxima terça, dia 20 de Outubro, pelas 17 horas, no Anfiteatro B1 da Universidade do Minho. Se és da Sociologia, contamos contigo. Fazes parte! Se não és, contamos contigo também.
Segue material gráfico produzido para o evento: programa, cartaz e projectos de cartaz. As mãos, com cerca de 9 000 anos, estão na Cueva de las Manos (Patagónia, Argentina).
Até terça!
A civilização da leveza

Luis Ricardo Falero. Faust’s dream. 1880.
Ontem decidi começar a escrever um artigo, desses que dão pontos, sobre a leveza. À semelhança daqueles que escrevi sobre o grotesco, a dobra, o fragmento e a ilusão. Há anos que debico o tema. Desde Outubro de 2011, o blogue Tendências do Imaginário dedicou, pelo menos, 31 artigos aos tópicos da leveza e da levitação (ver lista no fim do artigo). Antes de iniciar um artigo, costumo proceder ao levantamento das publicações mais recentes. Como primeira referência, calhou-me um farol do pensamento contemporâneo: Gilles Lipovetsky, De la légèreté, Grasset, 2015. Nem mais, nem menos. Eis um autor que escreve rápido: 10 livros em 13 anos.
“Nous vivons une immense révolution qui agence pour la première fois une civilisation du léger.Le culte de la minceur triomphe ; les sports de glisse sont en plein essor ; le virtuel, les objets nomades, les nanomatériaux changent nos vies. La culture médiatique, l’art, le design, l’architecture expriment également le culte contemporain de la légèreté. Partout il s’agit de connecter, miniaturiser, dématérialiser. Le léger a envahi nos pratiques ordinaires et remodelé notre imaginaire : il est devenu une valeur, un idéal, un impératif majeur. Jamais nous n’avons eu autant de possibilités de vivre léger, pourtant la vie quotidienne semble de plus en plus lourde à porter. Et, ironie des choses, c’est maintenant la légèreté qui nourrit l’esprit de pesanteur. Car l’idéal nouveau s’accompagne de normes exigeantes aux effets épuisants, parfois déprimants. C’est pourquoi, de tous côtés, montent des demandes d’allègement de l’existence : détox, régime, ralentissement, relaxation, zen… Aux utopies du désir ont succédé les attentes de légèreté, celle du corps et de l’esprit, celle d’un présent moins lourd à porter. Voici venu le temps des utopies light.” (pode ler online o livro de Lipovetsky no seguinte endereço: https://play.google.com/books/reader?id=RmGjBQAAQBAJ&printsec=frontcover&output=reader&hl=pt_PT&pg=GBS.PP1.
“Este anúncio encaixa-se que nem uma luva no que tenho andado a estudar: a suspensão da gravidade como levitação e libertação, ou seja, como desprendimento das amarras da vida e do mundo” (AG:http://tendimag.com/2011/11/12/a-insustentavel-leveza-da-compra/).

Michelangelo. La tentazione di Sant’Antonio. 1488. Tempera su tavola, Kimbell Art Museum,
“Estou convencido que a leveza atrai mais as pessoas do que a liquidez, a velocidade, a imaterialidade ou a fragmentação. Consumimos comidas e bebidas leves. Deslizamos em desportos leves tais como o surf e o asa delta. Os corpos e os gestos querem-se elegantes e graciosos. A leveza anda associada à liberdade. Os pássaros não voam em gaiolas. Pelo menos à vontade. Devem, vadios, acabado o voo, vir ter connosco, decididos. Tive duas aves assim, soltas. Uma era uma pega que, tendo todo o mundo à disposição, vinha pousar no meu ombro ou na minha mão. A leveza é uma aspiração, raramente uma realidade. As nossas vidas têm conta, peso e medida. A sociedade emprega-nos e desemprega-nos, mas não nos larga. A leveza pede desgravitação e desprendimento. Normalmente, arrastamo-nos. Arrastamos os passos, arrastamos os dias, arrastamos a alma, arrastamos a vontade. Eis o nosso valor de uso (AG http://tendimag.com/2013/11/20/so-sobe-o-que-tem-peso/)”.

Two scotsmen and a witch flying on a broomstick. Etching by Paul Sandby with text by Hopkins.
“Não há paciência para tanta levitação. Mas a publicidade insiste. Nos anúncios a bebidas gaseificadas, as borbulhas refrescam, tonificam e, sobretudo, libertam. A não ser mais pela recorrência, convém registar o ato, o modo e a missão: bebe, descola e voa! O homem contemporâneo sonha! Sonha em desprender-se. Sonha que é líquido num vaporizador. Sonha que é múltiplo, com plataformas ambulantes. Sonha que é mais arcaico do que as árvores do Paraíso. O homem sonha como nunca sonhou. Sonha com os prodígios do ecrã, com a circum-navegação, com galerias de espelhos, pós-narrativas e guerras de Titãs. Joga às escondidas na floresta da vida, líquido, plural, arcaico e sonâmbulo. Com os pés no ar!” (AG: http://tendimag.com/2015/03/03/borbulhas/).

Luís Ricardo Falero. L’étoile double: ca. 1881.
Ando ultrapassado porque sou lento. Leio devagar, “publico” pouco… Apraz-me comunicar, de perto ou de longe, com quem dialogo e interajo. Devia escrever mais e com outra urgência, mas, para mim, o pensamento é alambicado. Pede evaporação e condensação. Está pronto quando está pronto, se algum dia o estiver. Sou assim, atrasado. Com este ritmo, não vou chegar a tempo ao caixão. Apresentei uma comunicação na Sorbonne, no mês de Junho de 2011, sobre “La suspension de la gravité dans l’enluminure médiévale et dans la publicité actuelle” (Socialité Postmoderne, Journées du CEAQ). Entretanto, “não escrevi” sobre o tema. Não escrevi? Escrevi textos para dezenas de milhares de leitores espalhados pelo mundo. Mas, não escrevi. Neste mundo que é o meu, escrever significa submeter um paper a um júri de pressupostos pares. Como sustentam Lipovetsky, Maffesoli, Eco e outros cientistas sociais, a sociedade contemporânea tem muito de medieval. Parece uma roleta: pós-moderna, moderna, clássica, medieval… Não sou apóstolo das minhas próprias ideias. Ainda menos, candidato a vitrinas em que não encontro reflexo. Prefiro a proximidade e o interconhecimento. A edição do livro do Lipovetsky, mais do que terra queimada, oferece-se como um balsamo. Acompanhado, sinto-me menos excêntrico: “não sou o único a olhar o céu!”

Stefano di Giovanni.The Blessed Ranieri Frees the Poor from a Prison in Florence. Between 1437 and 1444. Louvre.

Luis Ricardo Falero. The Butterfly. 1893.
Sinto-me ultrapassado. O mundo fugiu-me. Lembro-me de algumas revistas: Revue Française de Sociologie, Année Sociologique, Cahiers Internacionaux de Sociologie, Communications, L’Homme et la Société, Actes de la Recherche en Sciences Sociales, Populations, L’Homme… Revistas sem indexação, mas com identidade. Agora, os meus olhos perdem-se no meio de tanto apelo global. Naquele tempo, as revistas ainda não se pautavam por métricas de rankings e apelos internacionais. A burocracia não era a carroça da ciência.
E pronto! O Gilles Lipovetsky escreveu um livro sobre a leveza. Quanto a mim, nem um artigo submeti. Não basta plantar ideias, convém colher também as letras.
Artigos do Tendências do Imaginário sobre a leveza:
– Levitação: 01 de Outubro de 2011.
– Asas para quê: 07 de Outubro de 2011.
– Libertação: 29 de Outubro de 2011.
– A insustentável leveza da compra: 12 de Dezembro de 2011.
– A insofismável leveza do tacto: 28 de Janeiro de2012.
– Celebridades aos saltos: 09 de Fevereiro de 2012.
– Perdido em movimento: 10 de Fevereiro de 2012.
– Um par de asas: 18 de Fevereiro 2012.
– We robots: 14 de Março de 2012.
– Levitação 2: 05 de Abril de 2012.
– Descolagens: 12 de Abril de 2012.
– Voar ou levitar?: 10 de lAgosto 2012.
– Hipnose: 12 de Outubro de 2012.
– Da necessidade de voar: 16 Setembro de 2012.
– A levitação do Professor Tournesol: 28 de Outubro de 2012.
– Da banalidade da levitação: 08 de Dezembro de 2012.
– Só sobe o que tem peso: 20 de Novembro de 2013.
– Balões: 28 de Novembro de 2013.
– Voo pesado: 29 de Novembro de 2013.
– Memórias com asas: 6 de Dezembro de 2013.
– A incomensurável leveza do beijo: 12 de Fevereiro de 2014.
– Deslizar: 09 de Março de 2014.
– Flutuar naturalmente: 15 de Maio de 2014.
– O milagre da queda: 26 de Junho de 2014.
– Cerveja debaixo de água: 27 de Outubro de 2014.
– Mercúrios: 22 de Fevereiro de 2015.
– Geração ultraleve: 03 de Março de 2015.
– Borbulhas: 03 de Março de 2015.
– Baloiços: 08 de Março de 2015.
– Vertigens a baixa altitude: 02 de Abril de 2015.
– Magnetismo: 27 de Abril de 2015.
Sociologia sem palavras 9: Desporto e propaganda
Sou humano, nada do que é humano me é estranho.
(Terêncio, Heautontimorumenos, 163 d. C.)
O nono episódio de Sociologia sem palavras não é cómico. Parte do mundo também não o é. Mas pode sempre ser filmada com humor. Não é o caso. Neste episódio, o assunto é sério e o filme também. Leni Riefenstahl (1902-2003) realizou vários filmes encomendados pelo governo nazi, entre os quais O Triunfo da Vontade (1935), filme-documentário-espectáculo sobre o congresso do partido nazi de 1934 em Nuremberga, e Olympia (1938), sobre os Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim. Ambos os filmes são propaganda nazi, o que não obsta a que Leni Riefenstahl seja, hoje, considerada uma das grandes realizadoras da história do cinema, com uma obra inovadora, pautada por uma criatividade estética excecional. Os excertos apresentados pertencem ao filme Olympia: o primeiro à segunda parte (Festival da Beleza) e o segundo à primeira parte (Festival das Nações). Na série Sociologia sem palavras, este episódio inscreve-se a contracorrente. Não dá vontade de rir. “Nada do que é humano me é estranho”!
Sociologia sem palavras 9: Desporto e Propaganda. Excertos de Leni Riefenstahl, Olympia, 1938.
Sociologia sem palavras 8: Empreendedorismo
O humor de Mr. Bean (Rowan Atkinson) é inconfundível. A maioria dos seus filmes são relativamente extensos. Este excerto de Do-It-Yourself Mr. Bean tem a duração ideal para ajudar a responder a mais uma pergunta da série Sociologia sem palavras.
Sociologia sem palavras 8: Empreendedorismo. Do-It-Yoursel Mr. Bean.
Nem a ponta de um pêlo
A partir de autores como Norbert Elias, Georges Vigarello ou Mikhail Bakhtin, costumo dedicar uma aula de Sociologia da Cultura à evolução dos usos do corpo desde a Idade Média. Mais habituados a grandes ideias do que a pequenas realidades, os alunos vão aderindo com alguma renitência. O objectivo é apreender como, séculos a fio, os usos do corpo evoluíram no sentido do auto-controlo, da rectificação, do polimento e do fechamento. Ao nível das posturas, da pele, das rugas, da boca, dos dentes, das secreções, da transpiração, da expectoração … E dos pêlos. A depilação humana foi mais radical do que a desflorestação da Amazónia. Ontem, as pernas e as axilas; hoje, as áreas genitais; amanhã, o cabelo e as sobrancelhas. A Gillette, marca infesta ao pêlo, mostra, no primeiro anúncio, o terreno que os pêlos perderam em apenas um século. Os dois vídeos seguintes apresentam a melhor forma de rapar as áreas genitais. Garante-se que “rapar os pelos torna a pessoa mais limpa” e que “cortar os arbustos dá mais visibilidade à árvore”. As nossas sociedades, que já não sei como as nomear, são exímias em criar e discriminar pessoas. Agora são os peludos. Trata-se de modalidades de estigma assentes em atributos sui generis que os media tendem a ampliar. Morte ao pêlo! Viva a árvore!
Marca: Gillette. Título: 100 years of hair. Agência: Grey London. Direcção: Oh Yeah Wow. UK, Julho 204.
Gillette. Manscaping. How to shave: Shaving down there.
Gillette. Male Grooming: How to shave your groin.










