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A festa da Bugiada e Mouriscada de S. João de Sobrado

Sobrará, ainda em férias, alguma disponibilidade para dar uma vista de olhos a um documentário extenso?

Fiz parte da equipa do projeto Festivity, coordenado pela Rita Ribeiro, que concretizou, em 2023, um livro e, em 2024, um documentário, ambos dedicados à festa da Bugiada e Mouriscada, que ocorre na véspera do S. João, na freguesia de Sobrado, concelho de Valongo. Trata-se de uma festa grandiosa e incrível, ímpar do ponto de vista estético e da adesão popular.

Seguem o documentário Bugiada e Mouriscada de Sobrado: a festa e quem a faz e o capítulo “Os serviços da tarde na Festa de S. João de Sobrado: A bênção escatológica num mundo às avessas”, do livro São João de Sobrado. A festa da Bugiada e Mouriscada.

Bugiada e Mouriscada de Sobrado: a festa e quem a faz. Silvana Torricella. Projeto Festivity do CECS da Universidade do Minho. Janeiro 2024

Apresentação de dois livros: Festas de São João de Sobrado / Mosteiro de Tibães

Sexta, dia 15 de março de 2024, pelas 21H00 no Centro de Documentação da Bugiada e Mouriscada, em Sobrado, Valongo, decorrerá a apresentação do livro “São João De Sobrado: A Festa da Bugiada e Mouriscada”, da autoria de Rita Ribeiro, Manuel Pinto, Albertino Gonçalves, Alberto Fernandes, Luís Cunha e Luís António Santos. Os promotores são a Comissão de Festas do São João de Sobrado 2017 e a Associação São João de Sobrado.

Sábado, dia 16 de março de 2024, às 15 h, na Sala do Capítulo do Mosteiro de Tibães, decorrerá, promovida pelo Grupo de Amigos do Mosteiro de Tibães, GAMT, a apresentação do livro “Para uma interpretação do mosteiro: Tibães do espaço à vivência, da materialidade à simbólica”. A publicação será apresentada pelo Professor José Carlos Miranda, da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais (UCP – Braga).

O abraço ao divino: a experiência pessoal e social da festa (texto ilustrado)

“A festa é um excesso permitido, ou melhor, obrigatório” (Freud, Sigmund, 1913, Totem e Tabu).

As festas circunscrevem-se no tempo e no espaço. “A festa tem uma data e é uma data” (SCZARNOWSKI, Stefan & Hubert, Henri, 1919, Le culte des héros et ses conditions sociales, Paris, F. Alcan): a festa de S. Lourenço é no dia 10 de Agosto (tem uma data); 10 de Agosto é o dia de S. Lourenço (é uma data); para quem é devoto de S. Lourenço, o dia 10 de Agosto é dia santo.

Feira de S. Martinho. Penafiel

A origem da maior parte das festas é remota e rural. A sua configuração altera-se em função do calendário agrícola. Consumadas as colheitas, por altura do S. Miguel, a natureza mostra-se, no outono e no inverno, menos generosa. Quem não tem pão no celeiro, porco na corte e vinho na adega, passa mal. As famílias recolhem-se e o convívio afrouxa. Neste contexto de carência, as festas apelam à coesão social e à generosidade. As festas de São Martinho, de São Nicolau, do Natal, dos Reis ou de São Sebastião caracterizam-se todas pela ideia da dádiva e de partilha. São Martinho reparte a capa, a caridade de S. Nicolau é proverbial, o Menino nasce na pobreza, cantam-se de porta em porta as janeiras pedindo as sobras da época natalícia e S. Sebastião benze banquetes gigantescos.

O beijo ao santo durante a procissão. Festa das Papas em honra de São Sebastião. Gondiães.

No verão, no auge das colheitas, as festas querem-se de excesso e abundância. Lúdicas e efervescentes, transvasam do adro para o terreiro e, do terreiro, para os (des)caminhos. Algumas festas celebram o poder das instituições, como o Corpo de Deus, outras, a potência popular, como o Santo António, o São João e o São Pedro.

Corpo de Deus – Coca. Monção. Município de Monção. 2019

Entre a melancolia do inverno e a euforia do verão, intercalam-se o Carnaval e a Páscoa. O Carnaval enterra o velho, a austeridade invernal, e prenuncia a renovação da natureza e da vida coletiva que a Páscoa, a seu tempo, celebra. O reforço dos laços sociais na Páscoa não é o mesmo das festas do inverno. No inverno, governam-se as reservas, o passado; a Páscoa é compassada pela promessa; mobilizam-se as pessoas e os recursos, semeia-se a abundância futura. Os novos tempos são mais de “amaiantes”[i] do que de nicolinos, mais milho que pinheiro.

Nicolinas. Guimarães

Mito ou realidade, as sociedades ditas rurais esfumaram-se. E as festas mudaram. Algumas viram-se para os turistas e os forasteiros. São “festas extrovertidas”. Notável foi o ajustamento do calendário das festas ao regresso sazonal dos emigrantes. Muitas festas transitaram para o verão. Com o decréscimo de emigrantes em férias, algumas festas perderam um pouco de tudo: raízes, tronco, ramos e folhas.

Resgate da tradição: O entroido de Castro Laboreiro. Farrangalheiros e garruços são máscaras típicas de Castro Laboreiro. Altominho TV. 2021.

A duração de uma festa pode extravasar os dias programados. Existem festas que começam antes e acabam depois: bailes, música, sorteios, quermesses, decoração… No início do século XX, a Romaria d’Agonia, por volta do dia 20 de Agosto, animava Viana do Castelo desde a primeira barraca a instalar-se, dias antes, até à última a desmontar-se, no início de Setembro (Martins, Moisés, Gonçalves, Albertino, Pires, Helena, 2000, A Romaria da Srª da Agonia, Viana do Castelo, Grupo Desportivo e Cultural dos Trabalhadores dos Estaleiro Navais de Viana do Castelo, p. 29).

Mas não são estas dimensões do tempo que desejo abordar. Cíclicas, as festas evoluem em tempos e espaços extraordinários. O início da festa é estrondosamente anunciado: foguetes, paradas, bombos ou arruadas inauguram a suspensão da ordem e a abertura dos festejos. Uma derradeira salva assinala o regresso à normalidade. Entretanto, vivencia-se uma experiência extraordinária e numinosa. O divino aproxima-se dos seres humanos. O sagrado e o profano exacerbam-se. A presença do sagrado intensifica-se, por um tempo, nos espaços demarcados (com bandeiras, arcos, iluminação). Se o divino se aproxima do humano, o humano expõe-se ao divino, por exemplo, através da oração, das promessas e das penitências. Acredita-se que, no período da festa, no devido local, o santo é mais milagreiro. Em Cavez, assegura-se que a fonte sulfurosa de S. Bartolomeu tem mais cheiro e faz mais milagres no dia do santo (Gonçalves, Albertino & Gonçalves João, 2014, A Festa de S. Bartolomeu de Cavez: https://tendimag.com/?s=bartolomeu). Na festa de S. Tiago das Bichas, a ocasião também era única. As bichas (sanguessugas) escolhiam o dia da sua intervenção milagrosa: “Há ao pé desta igreja um ribeiro, em dia de São Tiago, que é o orago, concorre muita gente a tomarem bichas para sararem de várias enfermidades. E é tradição antiga que só naquele dia se achavam no dito ribeiro que se chama de S. Tiago” (Capela, José Viriato, As freguesias do distrito de Braga nas Memórias Paroquiais de 1758, Braga, 2003, p. 224).

Cada festa traça a sua geografia simbólica. O romeiro pressente-o. Os lugares não ostentam o mesmo valor. Cresce desde o espaço de transição para o sagrado até à imagem do santo, passando pelo exterior e o interior do templo. À medida que se avança, os gestos e as palavras mudam, num sinal de respeito e devoção. Para trás, fica o mundo, a hora é de despojamento e oração. Importa tocar, beijar e agradecer ao santo. A devoção e a penitência procuram o sagrado: à volta da igreja, junto a um rochedo, na sombra de uma gruta ou na frescura de uma fonte. Onde o divino estiver, está o romeiro.

A proximidade do sagrado. Romaria da Senhora da Peneda em 1963. Arquivo da RTP. Sem som.

O acesso aos lugares sagrados pode ser especialmente cuidado. Alguns santuários têm escadórios: Nossa Senhora da Peneda, Bom Jesus do Monte, Nossa Senhora dos Remédios (Lamego) ou o Escadório das Virtudes, no Mosteiro de Tibães. Convidam os romeiros ao esforço da aproximação, pela ascensão, ao divino. Ladeados por esculturas e pinturas, alusivas, mormente, ao Calvário, estes escadórios propiciam uma ascese e uma catequese pela imagem. Mas, com a localização frequente das igrejas e das capelas no cume da paisagem, a ascensão sofrida dispensa escadórios. Por exemplo, o acesso à capela de São Romão no topo da Citânia de Briteiros é tão íngreme e inóspito que supera qualquer escadório em termos de sacrifício.

Procissão de Velas. Senhora dos Remédios. Arco de Baúlhe. Associação Festeiros do Arco. 2021

Nas igrejas, os devotos aproximam-se dos santos. Este é o magnetismo geral. Mas assim como, na lenda, Nossa Senhora da Orada se esgueirava todos os dias da capela para acudir às vítimas da peste em Riba do Mouro (Campelo, Álvaro, Lendas do Vale do Minho, Valença, Associação de Municípios do Vale do Minho, 2002), a santidade pode sair da igreja para se aproximar das pessoas. Durante a procissão, o santo irradia a sua aura sagrada e abençoa o território. A procissão de S. Sebastião das Papas, nas freguesias de Samão e Gondiães, é um bom exemplo (Gonçalves, Albertino & Gonçalves, João, 2013, “Entre o Céu e a Terra: Festas e Romarias de Cabeceiras de

Basto”, in Cabeceiras de Basto: História e Património, Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto, 2013, p. 188-203). Detém-se para o santo benzer a broa e as papas para o banquete. Consta que a broa benzida, milagrosa, não apodrece. Testemunho de que o divino e o humano se aproximam reciprocamente, na referida procissão, S. Sebastião, o santo, é apeado para ser beijado pelos devotos. Outras procissões percorrem a paróquia, por exemplo, a procissão de velas, mas a mais sagrada e a mais abrangente é o compasso pascal. O beijo à imagem de Cristo, lugar a lugar, casa a casa.

Semana Santa. Braga. Câmara municipal de Braga. 2016

A cartografia da festa é móvel. Pode mudar de ano para ano, de dia para dia e, até, de hora para hora. O valor e o significado do espaço mudam tal como muda a relação entre o profano e o sagrado, ora distantes, ora encostados, ora justapostos. À noite, durante o arraial, o profano expande-se. De dia, a procissão dissemina, por um tempo, o esplendor do sagrado a toda a paróquia.

A relação entre o profano e o sagrado é um tema recorrente e polémico. Ao longo da história, a posição da Igreja tem oscilado, consoante os contextos e as políticas. A tendência vai no sentido de não admitir o profano nas barbas do santo, adotando-se as medidas estimadas necessárias. No final dos anos 1920, o combate ao “sol pagão” esteve ao rubro. Na Festa d’Agonia, ameaçou-se silenciar os sinos. O problema não é apenas físico, corporal. A distância visual e a distância auditiva também contam. Os sinos, os foguetes, a música e os altifalantes são intrusivos e controversos. De ambas as partes.

Romaria d’Agonia 2019. Vídeo promocional. Vianafestas – Romaria d’Agonia. 2019

Não é apenas a relação entre o sagrado e o profano que condiciona a dinâmica das festas. Além do clero, muitas entidades intervêm na programação das festas: a confraria, a comissão, as organizações e as associações locais… Cada um com os seus interesses e as suas perspetivas. A Festa d’Agonia, na viragem do século XIX para o século XX, constitui um caso exemplar (Martins, Moisés, Gonçalves, Albertino, Pires, Helena, 2000, A Romaria da Srª da Agonia, Viana do Castelo, Grupo Desportivo e Cultural dos Trabalhadores dos Estaleiro Navais de Viana do Castelo, p. 21-58).

Sob uma lua pagã. Festival de Folclore. Romaria d’Agonia, 2021.

Quem faz a festa é o povo. Não organiza, nem programa, nem executa, mas faz a festa. Dá-lhe seiva, corpo e alma. Sem povo, não há festa. As festas não morrem por falta de celebração ou de espetáculo, agonizam por falta de afluência. Oferecendo-se a festa como uma cristalização identitária da comunidade, assevera-se preocupante ver as festas e os lugares sem gente, a apagar-se. Mas o que mais surpreende não é o desaparecimento desta ou daquela festa, é a resiliência das populações e a sobrevivência das festas, a contracorrente do esvaziamento demográfico e da desvitalização social. É certo que o esvaziamento e a desvitalização são, em parte, compensados pela população flutuante, que tende a aumentar nos períodos festivos. O fenómeno revela-se, mesmo assim, notável. A fazer fé nos censos da população, em cinquenta anos, entre 1960 e 2011, a população de Castro Laboreiro decresceu de 1 941 para 540 residentes, reduzindo-se para cerca de um quarto. Por sua vez, entre 2001 e 2011, em apenas dez anos, o valor do índice de envelhecimento duplicou, subindo de 640 idosos por 100 jovens para 1 561 idosos por 100 jovens (17 jovens até 14 anos e 266 idosos com 65 e mais anos). Em 2011, metade (49,3%) da população residente tinha 65 ou mais anos de idade. Estes números não impedem que, com mais ou menos gente, a festa se faça. Na freguesia de Castro Laboreiro ocorrem, concentradas no verão, 11 festas religiosas: 2 em Julho, 5 em Agosto e 4 em Setembro. Em média, uma festa por semana! (União das Freguesias de Castro Laboreiro e Lamas de Mouro: http://www.castrolaboreiro-lamasdemouro.com/?m=festas&id=2703).

Festa do Ribeiro. Castro Laboreiro, 2010, Albertino Fernandes.

A festa é um negócio, que contribui para a economia local, incluindo a Igreja. Para além da salvação das almas, convém cuidar da satisfação dos corpos. A realização de uma festa envolve uma série de empresas, profissões e atividades convocadas: ornamentação, pirotecnia, publicidade, ex-votos, animação, som, iluminação, montagem de estruturas, roupas, bandas de música, música popular, fanfarras, ranchos folclóricos, quermesses, abarracamento (comes e bebes, brinquedos, jogos), restauração, hotéis, comércio… No auge das férias dos emigrantes, as festas de Melgaço foram, certamente, um bom negócio. Algumas festas desempenham um papel económico importante como mercado e plataforma catalisadora de toda uma região. É o caso da Feira e Festas de S. Miguel de Refojos.

O rural vai ao urbano. Chega de bois. Feira e Festas de S. Miguel. Cabeceiras de Basto

Quem faz a festa é o povo. A multidão, o movimento, a poeira, o barulho, a iluminação e as emoções. O excesso no sacrifício e no prazer. O muito comer e o muito beber. Gritar, em vez de falar, para vencer a algazarra. A festa consta entre as mais humanas das obras humanas. Humano o profano, humano o sagrado. Na missa, na procissão e nos bailes, o povo exprime-se como corpo coletivo… Com recalcamentos, obsessões, sonhos, fantasmas e a sua parte de sexualidade e violência.

A lenda da Ponte de Cavez e a Festa de São Bartolomeu. Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto, 2020.

A festa funciona, simultaneamente, como catálise e catarse. Em noites de atrevimento, vigiar os jovens nos bailes era uma missão incontornável. Tantos namoros começaram em festas. Era uma preocupação. Quando o arraial pendia para o dionisíaco, os pais fechavam as filhas em casa. Por exemplo, na noite de São Bartolomeu de Cavez. Libertado pelo santo, “o diabo andava à solta”. A sexualidade e a violência costumam dar as mãos. Os mais velhos entusiasmam-se a recordar as refregas com o pau nas festas das freguesias vizinhas. Na excitação e na embriaguez reinante, qualquer rastilho entornava o caldo. Os rastilhos mais correntes usavam chapéu ou saias. Em algumas regiões, os beligerantes aprazavam o ajuste de contas para os dias ou, de preferência, as noites de determinada festa. Assim acontecia em Ribeira de Pena, Mondim de Basto e Cabeceiras de Basto com a festa de São Bartolomeu. Drena-se violência para a festa como se a violência endógena não bastasse. No conto “Como ela o amava” (Noites de Lamego, 1863), Camilo Castelo Branco descreve um confronto trágico, de que resultaram duas mortes, uma disputa por causa de uma mulher, na ponte de Cavez. Sublinhe-se, por último, que muitas festas ritualizam e encenam a violência. Atente-se, por exemplo, no martírio dos Santos Marroquinos, em Paderne, ou na guerra entre bugios e mourisqueiros, no S. João de Sobrado. Nestes casos, a própria festa incorpora a violência. [Carregar na imagem para aceder ao vídeo seguinte e ligue o som].

Festa da Bugiada e Mouriscada. Sobrado – Valongo. 2016. Festivity / CECS.

Não obstante o abraço divino, a utopia da igualdade, a sexualidade e a violência, quem entra pequeno na festa pequeno sai. A festa não esbate as desigualdades, espelha-as. Na competição dos candidatos à organização, na escolha dos mordomos, na publicitação altifalada das esmolas, nos leilões, no alinhamento das procissões, nas assimetrias do território… As festas são obra humana. Crescem, florescem e definham. Algumas desaparecem ou atrofiam por decisão administrativa. A Festa dos Tolos e a Festa do Burro, ambas medievais, não resistiram às reformas da Igreja. Por sua vez, o Corpo de Deus, outrora a mais imponente das procissões, ficou, de censura em censura, reduzida ao esqueleto. Sobreviveu a Coca, em Monção, bem como o Baile dos Ferreiros, em Penafiel. Hoje, os ventos sopram favoráveis às festas laicas. Algumas festas religiosas extinguem-se. Na maioria dos casos, não falta a devoção mas o público. Artes do envelhecimento e da desertificação. Dissipa-se o dia do santo, perde-se um ramo da árvore da comunidade. Uma árvore a que cortaram um ramo sobrevive, mas não é a mesma. E não perde pouco, se entendermos a festa como uma forma de “instituição imaginária da sociedade” (Castoriadis, Cornelius, 1975, L’Institution imaginaire de la société, Paris, Seuil). Não é irrelevante.

Escreve François Rabelais (Gargantua, 1534) que “o riso é apanágio do homem”. A festa, também! Até nas condições mais adversas, nas guerras ou nas crises, o ser humano não esquece a festa.

[i] Grupos de agricultores que se associavam para organizar e calendarizar as lavouras. Cada casa contribuía consoante o que possuía: junta de bois, ferramentas, mão-de-obra. Era costume chamar-se “amaiantes” aos participantes destes grupos.

Equidade fiscal. Os filhos da nação

O cobrador de impostos. Festa da Bugiada e Mouriscada. São João de Sobrado

Ai estes são os filhos da nação / Adultos para sempre / Ansiosos por saber / Se a cruz é salvação (Quinta do Bill. Filhos da nação. 1994).

Surpresa! Os fumadores são os ricos da nação. O imposto sobre o tabaco volta a aumentar. Para bem da equidade. Existe alguma razão específica? Invocar a prevenção avizinha-se de uma fraude. Há décadas que, ano após ano, o imposto sobre o tabaco aumenta e a prevalência do tabaco não desce:

“Entre 2005/06 e 2014, a proporção de fumadores de ambos os sexos diminuiu 1 ponto percentual (…) sendo de 20% em 2014” (Programa Nacional para a Prevenção e Controlo do Tabagismo 2017).

Aprecio relatórios. São informativos. O Relatório da Direcção-Geral da Saúde é parcimonioso:

“As prevalências de consumo mais elevadas observaram-se no grupo com a escolaridade secundária: mais de um quarto das pessoas com ensino secundário fumava (26,0%)”. Nada a acrescentar sobre os outros grupos de escolaridade… Não existem dados? Nada sobre os níveis de rendimento, tão pouco sobre as categorias socioprofissionais. Mas fica-se a saber que “na população desempregada, mais de um terço fumava (35,9%)”. Assim esclarecido, arrisco conjecturar: a maior prevalência do tabaco incide sobre as classes populares e as categorias sociais mais pobres.

Adriaen van Ostade. A Peasant in a Red Beret Smoking a Pipe, 1646

Às vezes, as vias da misericórdia são insondáveis. Desenha-se uma nova teoria da prevenção sanitária: quanto menos dinheiro tiver uma população, mais saudável é. Com esta arte, se trata da saúde dos outros. Convém desfazer o nó do encantamento profilático: o governo precisa deste dinheiro e não tem coragem de taxar outros segmentos da população. Um em cada três desempregados é contemplado por este sapatinho de Natal. Louvado sejas!

Quinta do Bill. Filhos da nação. 1994

A bênção escatológica num mundo às avessas. Os Serviços da Tarde na Festa de São João de Sobrado

Dedico este artigo aos alunos de Sociologia da Cultura. Sabem aprender, descobrir e conhecer de diversas formas. Uma sabedoria em perdição. Gosto dos alunos! São pinceladas coloridas numa tela que tanto se esforça por ser cinzenta. Os alunos ajudam-me a não enterrar o pensamento. Aflitos com o pico de trabalhos práticos, contra-organizaram-se; pediram o adiamento da aula. Segue um texto de apoio. Tornou-se vício crónico a avaliação sobrepor-se à função.

01. A Bênção Escatológica. Os Serviços da Tarde na festa de S. João de Sobrado

01. A Bênção Escatológica. Os Serviços da Tarde na festa de S. João de Sobrado

Este texto decorre de um estudo em curso dedicado à festa da Bugiada e Mouriscada de Sobrado, no concelho de Valongo, estudo coordenado por Rita Ribeiro, que integra os seguintes investigadores do CECS (Centro de Estudos Comunicação e Sociedade) e do CRIA (Centro em Rede de Investigação em Antropologia): Moisés de Lemos Martins; Manuel Pinto; Luís Santos; Emília Rodrigues Araújo; Luís Cunha; Jean-Yves Durand; e Maria João Nunes. Caiu-me em sorte escrevinhar sobre os Serviços da Tarde.

Vídeo 01. Festa dos Bugios e Mourisqueiros. Sobrado – Valongo. CECS. 2016. Ver, também, para uma panorâmica global, o documentário Viagem ao Maravilhoso: Bugios e Mourisqueiros, RTP, 1990.

Os Serviços da Tarde, ou Sementeiras, consistem numa sequência de episódios, de índole carnavalesca, associados à atividade agrícola. Culmina numa farsa: a Dança do Cego, ou Sapateirada. Trata-se de um ritual único e notável, antes de mais, pela consistência. Os princípios gerais, a macroestrutura, reiteram-se em cada uma das partes, as microestruturas (Goldmann, Lucien, 1970, “Microstrutures das les vingt-cinq premières répliques de Nègres de Jean Genet”, in Structures Mentales et Création Culturelle, Paris, Ed. Anthropos, pp. 341-67). Esta “cristalização fractal” decorre da sedimentação e da consolidação de crenças e rituais ancestrais. Os Serviços da Tarde, mormente a Dança do Cego, não destoariam das festas populares que excitavam as praças e ruelas medievais. O grotesco, acentuadamente escatológico, anima as diversas atividades, conferindo-lhes espontaneidade, irreverência e impacto. Não se observa qualquer separação entre os protagonistas e o público. Não existem palcos ou cercas passíveis de contrariar a abrangência turbulenta do convívio coletivo (Maffesoli, Michel, 1988, Le Temps des Tribus, Paris, Méridiens-Klincksieck). A interação, desejada, é constante. Predomina a cultura cómica popular  (Bakhtin, Mickail, [1965] 1970, L’oeuvre de François Rabelais et la culture populaire au Moyen Âge et sous la Rennaissance, Paris, Gallimard). As máscaras, omnipresentes, escondem ou revelam? Alteram. Retomando Mikhail Bakhtin ([1929] 1970, La poétique de Dostoïevki, Paris, Seuil), a máscara propicia o diálogo com a alteridade que coabita dentro e fora de nós. Quando a mascarada é coletiva, são as próprias comunidades que se descentram e transformam.

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02. Bugios mascarados. Fotografia de Michel Sasso. 2012.

Os Serviços da Tarde abrem com a Cobrança dos Direitos. Ao ar livre, acompanhado por bugios e rodeado pelo público, o cobrador monta num burro às avessas. Para escrever a contabilidade, finge carregar a enorme pluma no rabo do burro. Este episódio marca toda a série. A figura do burro montado às avessas é remota. Esculturas da Antiguidade mostram Sileno (ver Sileno, o vinho e o burro: https://tendimag.com/2015/03/28/sileno-o-vinho-e-o-burro/) e Dionísio às arrecuas num burro (Imagem com Dionísio). Estas imagens popularizam-se nas iluminuras medievais. Durante as Festas dos Loucos e a Festa do Burro, o eclesiástico eleito bispo entra na igreja montado às avessas num burro, por sinal, o animal celebrado durante a “cerimónia” (ver Heers, Jacques, 1984, Fête des fous et carnavals, Paris, Fayard). Estes casos são convergentes: o burro montado às avessas simboliza a desordem cósmica, mais precisamente, a inversão do mundo, tópico maior dos Serviços da Tarde.  (Imagem da Idade Média; som com a missa do burro).

Dionísio montado num burro  (200AC) Minneapolis Institute of Fine Art

03. Dionísio montado num burro. 200 a. C. Minneapolis Institute of Fine Art.

O burro possui uma elevada carga simbólica que o inclina mais para as profundezas do inferno do que para as alturas do paraíso. Animal do presépio, o único montado por Cristo (na fuga para o Egipto e na entrada em Jerusalém), o burro é associado à teimosia e à sexualidade exuberante. Por seu turno, o uso do rabo do burro como tinteiro indicia, para além da inversão, o rebaixamento grotesco: a pluma e, por extensão, o cobrador deixam-se contaminar pelo baixo corporal asinino. A inversão e o rebaixamento são escatológicos (Cabral, Muniz Sodré A.& Soares, Raquel Paiva de A., 2002, O Império do Grotesco, Mauad, pp. 65-72). O baixo material e corporal, a sexualidade, os excrementos, a desordem e a poluição comportam uma potência de morte e de vida, de regeneração (Douglas, Mary, 1966, Purity and Danger, New York, Frederick A. Praeger).

À Cobrança dos Direitos, sucede a Lavra da Praça, que engloba três atividades agrícolas: semear, gradar e lavrar. A representação da agricultura como ciclo de tarefas povoa os livros de salmos e de horas medievais: o Livro de Horas de D. Manuel, da primeira metade do séc. XVI (1983, Imprensa Nacional / Casa da Moeda) constitui um bom exemplo. Mas os Serviços da Tarde acrescentam um pormenor crucial: a inversão do tempo. O camponês não só monta o burro como cavalga o calendário agrícola às avessas. Semeia antes de gradar; grada, antes de lavrar; paga os direitos antes de colher. Baralha-se o tempo, baralha-se a vida. Destroem-se ordens e constroem-se desordens (Balandier, George, 1980, Le pouvoir sur scènes, Paris, Balland; e Gonçalves, Albertino, 2009, Vertigens. Para uma sociologia da perversidade, Coimbra, Grácio Editor).

04. Montando um burro. Macclesfield Psalter (c.1320-30).

04. Montando um burro. Macclesfield Psalter (c.1320-30).

Montado às avessas, o camponês semeia. Retira de um saco “sementes” que espalha sobre o público. Dissemina e, simbolicamente, insemina. Fertiliza e fecunda, como manda a festa de S. João! O “saco das sementes” continha, nos tempos do linho, baganhas esmagadas, substituídas, hoje, por serrim, ambos desperdícios. Segundo consta, com impurezas à mistura. A arruada toma ares de charivari: gaitas, gritos, obscenidades, provocações e um banho de gente. A violência espreita: o camponês, derrubado do burro, envolve-se com os bugios e com a assistência até aos limites do simulacro. A terra e a semente, o caos e a violência, a campa e o túmulo…

Os “actores” que “vestem a personagem” do camponês (Stanislavski, Constantin, [1949], A Construção da Personagem, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira 1986) evidenciam arte e treino. Aqui, o camponês deixa-se cair do burro desamparado e roda pelo chão. Logo, passa por baixo da cavalgadura. São gestos de rebaixamento, mas também habilidades teatrais de saltimbancos. A festa prepara-se, de facto, durante todo o ano, de ano para ano.

 

Vídeo 02. Lavra da Praça. Gradar.

Lavrar e gradar são actividades agrícolas consecutivas. Lavra-se e, de seguida, grada-se para, depois, semear. O arado que sulca a terra destaca-se como um símbolo quase universal da sexualidade (Chevalier, Jean & Gheerbant, 1969, Dictionnaire de symboles, Paris, Robert Laffont). Agora apeado, o camponês guia a grade, ou, no episódio seguinte, a charrua, puxada, uns metros à frente, por um burro ou por um cavalo. Destemperado, a frisar a doidice e a embriaguez, o camponês grada e sulca o asfalto, o granito e a terra. A condução, imprevisível, ameaça chocar com a assistência. Às vezes, acontece. Circulam e cruzam-se insultos e palavrões. A grade acaba destruída. O camponês faz questão. Não faltou pontaria para acertar numa árvore. O lavrar e o gradar convocam a sexualidade, a loucura, o caos, o movimento e a violência. O ambiente de “efervescência criativa” (Durkheim, Émile, [1912] 1991, Les formes élémentaires de la vie religieuse, Paris, Le Livre de Poche) frisa a orgia (Maffesoli, Michel, 1982, L’Ombre de Dionysos. Contribution à une Sociologie de l’Orgie, Paris, Méridiens/Anthropos). Catarse? Despedida cíclica? Libertação ? Violência fundadora (Maffesoli, Michel, 1984, Essai sur la violence banale et fondatrice, Paris, Librairie Méridiens/Klincksiec ; Girard, René, 1972, La Violence et le Sacré, Paris, Editions Grasset)?

Os Serviços da Tarde operam uma inversão do tempo, uma das maiores tentações da humanidade. Num anúncio publicitário célebre, um jovem casal despede-se, no meio da praça, à vista de todos. Ele sobe para o autocarro e ela fica desconsolada. As pessoas começam a “andar para trás”: o ciclista, o carro e os peões; o barbeiro recoloca o cabelo na cabeça do cliente, o pintor apaga a tinta, o varredor esvazia o lixo… E o autocarro reaparece, lentamente, de marcha atrás; o jovem desce, abraçam-se e ficam felizes para sempre. Este anúncio da Orange chama-se, apropriadamente, Rewind City (agência: Publicis; França, 2008). Encena o recurso à magia para alterar o destino e a ordem cósmica (ver Publicidade e Magia; https://tendimag.com/2013/08/05/publicidade-e-magia/). Os Serviços da Tarde invertem o ciclo agrícola para fazer recuar a vida? As gentes de Sobrado sabem que não há magia que valha. O que não os impede de retomar, ano após ano, o ritual. Os bugios também sabem que vão perder a guerra com os mourisqueiros. Mas entregam-se ao combate!

Um pouco por todo o mundo, na noite de São João, acendem-se, nas praças e nos campos, fogueiras para dar mais dia à noite. Mas ninguém se ilude: amanhã, por artes do solstício, o dia será mais curto e a noite mais longa. Há algo de trágico e de glorioso nesta luta lúcida contra o inelutável (ver Goldmann, Lucien, 1955, Le Dieu Caché, Paris, Gallimard).

A Dança do Cego, ou Sapateirada, último episódio dos Serviços da Tarde, exibe todos os pergaminhos de uma farsa. Entaladas entre os mistérios e as moralidades, as farsas medievais aliviavam os fiéis de tanta seriedade. Surgiu, assim, um género teatral breve, com poucas personagens, apostado na ação, nos adereços e no cenário, em detrimento da palavra. A linguagem é vulgar, os gestos e os objetos impróprios e a violência, uma pantomina. Propensa a equívocos e absurdos, a farsa privilegia as reviravoltas que vitimam o agressor, humilham o soberbo ou enganam o aldrabão. Menção especial merece a inversão de género: a mulher engana e domina o homem, como no caso da Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente. Não obstante, a farsa não visa propósitos moralizadores ou edificantes. A interação com o público é apanágio da farsa. Relíquia histórica, a Dança do Cego ostenta estas propriedades. Convoca, inclusivamente, as personagens da farsa mais antiga de que há registo. Da segunda metade do séc. XIII, Le Garçon et l’Aveugle (Paris, Librairie Ancienne Honoré Champion, 1921) também inclui um cego acompanhado pelo criado.

Vídeo 03. Dança do cego. São João de Sobrado.

A Dança do Cego é tão apreciada que, à semelhança de outros números, é representada em vários locais da vila de Sobrado. Replicada junto à igreja e noutros locais, as pessoas acotovelam-se à volta de um lamaçal imundo. Dezenas de metros quadrados de lama, urina e excrementos de animais. Sentado num banco, andrajoso, o sapateiro martela o calçado, molha-o e atira-o indiscriminadamente para o público, que o recebe como uma espécie de bênção escatológica. O sapateiro e a mulher (representada por um homem) não param de se desentender. Aproxima-se um cego com o seu criado. O cego tropeça e estatela-se de bruços no lamaçal. Furioso, o sapateiro bate-lhe com a vara. Arrepende-se. Para verificar o estado de saúde, aproxima a cara do traseiro do cego. Respira, pelo menos por baixo! Deslocando-se de um lado para o outro, o sapateiro bate com a vara no lamaçal. Mais uns salpicos providenciais. O público aproxima-se e afasta-se; delira. Entretanto, o criado do cego rapta a mulher do sapateiro, que terá que recorrer ao jogo do pau para a reaver.

A auscultação de sinais vitais junto ao traseiro é rara e insólita, mas não é inédita. No livro Pantagruel, Epistemão foi decapitado durante uma batalha épica. Panurgo coze-lhe a cabeça:

“De repente, Epistemão começou a respirar, depois a abrir os olhos, depois a bocejar, depois a espirrar, e por fim deu um grande peido da sua reserva. Disse então Panurgo: – Está, com toda a certeza, curado” (Rabelais, François, [1532] 2006, Pantagruel, Lisboa, Frenesi, p. 168).

A Dança do Cego é uma obra-prima, sistemática e radical, de rebaixamento escatológico. O lamaçal é uma espécie de húmus. “O humano é também húmus” (Maffesoli, Michel, 1998, Elogio da Razão Sensível, Petrópolis, RJ, Vozes, p. 35). O cego estatela-se no lamaçal e aí permanece imobilizado. Os sapatos remetem para os pés, rasteiros e desvalorizados. O arremesso dos sapatos e os salpicos de esterco configuram um ritual misto de batismo e poluição. Tudo servido com entusiasmo público. Estamos perante um rebaixamento grotesco festivo, que regenera e restaura. A solução adotada pelo sapateiro para descortinar os sinais vitais do cego representa um caso paradigmático de rebaixamento mediante aproximação dos contrários: a face nobre e o traseiro ignóbil. Graças a este mergulho na terra e no corpo, a comunidade resulta renovada e reforçada. Não se vislumbra a mínima sombra de grotesco do estranhamento corrosivo kayseriano (Kayser, Wolfgang, [1957] 1986, O grotesco: configuração na pintura e na literatura, São Paulo, Editora Perspectiva). Na Dança do Cego, o rebaixamento quer-se cómico, vitalista e popular, “bakhtiniano”. O baixo, prenhe, é esperançoso.

Existem festas e rituais congéneres um pouco por todo o mundo. Lidamos com arquétipos (Jung, Carl Gustav, 2000. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Rio de Janeiro: Vozes), “estruturas antropológicas do imaginário” (Durand, Gilbert, 1960, Les Structures Anthropologiques de l’Imaginaire, Paris, P.U.F.). Assim como, em Sobrado, o camponês brinda o público com sementes e o sapateiro com lama imunda, em Lanjarón (Granada, Espanha), durante a “Carrera del Agua”, logo a seguir à meia-noite de S. João, residentes e forasteiros percorrem cerca de 1 500 metros molhando-se uns aos outros, com o que estiver à mão, sob uma “chuva” que cai das janelas, das varandas e dos telhados, enviada pelos não participantes. A rega no lugar da sementeira.

O cego e o sapateiro movem-se na lama. Em Bibiclat, no norte das Filipinas, durante o São João, ao amanhecer, os aldeões reúnem-se em silêncio num campo pantanoso, cobrem-se de lama e vestem capas feitas de folhas de bananeira. Assistem neste preparo à celebração da missa.

Mais perto, nas freguesias de Romarigães (Paredes de Coura), Covas (Vila Nova de Cerveira) e São Julião (Valença) ocorre a pega ou apanha do porco. À volta de um recinto cercado, enlameado a rigor, o público assiste à briosa perseguição de porcos bravos. Ganha o concorrente mais rápido a agarrar os bichos (ver Lama, excrementos e porcos; https://tendimag.com/2016/06/26/lama-excrementos-e-porcos/).

Vídeo 04. Apanha do porco. Covas. Vila Nova de Cerveira. 2012.

Recoloquemos o olhar na matriz medieval, nas festas dos loucos e na festa do burro. À semelhança do cobrador e do camponês, o eclesiástico eleito entra na igreja às arrecuas, montado num burro. Baseado em documentos de 1454 e 1482, Mr. du Tilliot descreve, em livro publicado em 1741, o pandemónio durante e após a celebração do ofício:

“On voyait les Clercs & les Prêtres faire en cette Fête un mèlange afreux de folies & d’impietez pendant le service Divin, où ils n’assistoient ce jour-là qu’en habits de Mascarade & de Comedie. Les uns étoient masquez, ou avec des visages barbouillés qui faisoient peur, ou que faisoient rire, les autres en habits de femmes ou de pantomimes, tels que sont les Ministres du Theatre. Ils dansoient dans le Choeur en chantant , & chantoient des chansons obscènes. Les Diacres & les Sou-diacres prenoient plaisir à manger des boudins & des saucices sur l’Autel, au nez du Prêtre célébrant : ils jouoient a ses yeux aux Cartes & aux Dez : ils mettoient dans l’Encensoir quelques morceaux de vieilles savates, pour lui faire respirer une mauvaise odeur. Après la Messe, chacun couroit, sautoit & dansoit par l’Eglise avec tant d’impudence, que quelques un n’avoient pas honte de se porter à toutes sortes d’indécences, & de se dépouiller entierement ; ensuite ils se faisoient trainer par les rues dans des tombereaux pleins d’ordures, où ils prenoient plaisir d’en jetter à la populace qui s’assembloit  autour d’eux » (Mr. du Tillier, 1741, Memoires pour servir a l’histoire de la Fête des Foux, Lausanne & Geneve, chez Marc-Michel Bousquet & Compagnie, pp. 5-6).

Alusão à Missa do Burro. Le livre de Lancelot du Lac. Autres romans arthuriens. Nord de France. 13e siècle.

Alusão à Missa do Burro. Le livre de Lancelot du Lac. Autres romans arthuriens. Norte de França. Séc. XIII.

“Sabemos que os excrementos desempenharam sempre um grande papel no ritual da “festa dos tolos”. No ofício solene celebrado pelo bispo para rir, usava-se na própria igreja excremento em lugar  de incenso. Depois do ofício religioso, o clero tomava lugar em charretes carregadas de excrementos; os padres percorriam as ruas e lançavam-­nos sobre o povo que os acompanhava (Bakhtin, Mikahil, 1987. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento. São Paulo. HUCITEC, P. 126).

Durante a Missa do Burro, o ofício e os cânticos eram talhados a preceito. As pessoas cantavam, bramiam e zurravam em devoção ao animal.

Clemencic Consort. Clemencic Consort. Kyrie Asini – Litanie. La Fête de l’Ane. 1985.

À semelhança dos Serviços da Tarde, a festa dos loucos começa invertida e acaba escatológica.

 

A Dança do Cego ganha em ser integrada na série dos trabalhos agrícolas dos Serviços da Tarde. Alude, inequivocamente, à adubação. O camponês dispunha o estrume em montículos para o espalhar por todo o campo antes da lavra. Fertilizante, a Dança do Cego não conhece princípio nem fim; é o princípio e o fim; é o recomeço, em adubo líquido. O eterno retorno do estranho sempre próximo. Forasteiros, o cego e o criado ameaçam a ordem local. O rapto e o resgate da mulher do sapateiro exprimem o carácter agonístico da competição sexual. Nos Serviços da tarde, tudo é movimento, metamorfose e vertigem. Território, comunidade, violência e sexualidade, dimensões cardeais da vida humana, borbulham no caldeirão da lama impura. Impuro sobre impuro gera libertação e esperança. Há batismos e batismos! A potência telúrica e a promessa das entranhas abraçam-se, dançam e envolvem-nos nos Serviços da Tarde da festa de São João de Sobrado. De geração em geração, desde tempos imemoriáveis.

Máscaras: Bugiada e James Ensor

01. Bugiada

01. Bugiada

Apeteceu-me revisitar a Bugiada de Sobrado. Desta vez, via Internet. As máscaras lembram James Ensor (Bélgica, 1860-1949). Não têm qualquer ligação, mas, ressalvando a obsessão de Ensor pelo tema da morte, é uma tentação ensaiar um diálogo. A cor, a fantasia e a exuberância justificam-no. Segue uma miscelânea de imagens da Bugiada e da obra de James Ensor.

19. Bugiada

19. Bugiada

A Bugiada de Sobrado é caracterizada por uma riqueza, uma originalidade, uma ancestralidade e uma participação popular notáveis. Chamo a atenção para a fotografia com o burro montado ao contrário. Tal como na Idade Média, durante a missa do burro (ver Figura 20, na página da direita, em baixo). Outrora como agora, o burro montado ao contrário significa a inversão do mundo, um mundo às avessas (sobre a missa do burro, ver http://tendimag.com/2015/02/19/tolos-e-burros/).