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Uma borboleta no nariz

Butterfly on irl’s nose. Bear Mountain Butterfly Sanctuary (https://bearmountainbutterflies.com/about/)

No homem, é a borboleta que se transforma em verme (Henry de Montherlant)

O arco da generosidade

No passado 30 de janeiro, no artigo “Carta de uma Criança ao Menino Jesus”, escrevi: “Receber é bom, oferecer ótimo. Habitualmente, ocorre reciprocidade. Ora a dádiva suscita contra dádiva (Marcel Mauss, Ensaio sobre a dádiva, 1925), ora entra numa cadeia que acaba por regressar ao início (Bronislaw Malinowski, Os argonautas da Pacífico Ocidental, 1922). De qualquer modo, o gesto tende a compensar”.

Na disciplina de Sociologia da Arte e do Imaginário, da Academia Sénior de Braga, propomo-nos fazer um vídeo dedicado à felicidade. A pesquisa de obras com alguma afinidade com o tema conduziu-me a “Ripple – Kindness and good deeds will come back to you”, do realizador singapurense Daniel Yam, que alude precisamente à circulação da dádiva, a qual, passado algum tempo, pode regressar à origem, embora com outra carga simbólica.

Ripple – Kindness and good deeds will come back to you. Realizador: Daniel Yam. Colocado em 16.07.2021

Do mesmo realizador, pode também ver as curtas In the Heart of the Zoo e The Journey. A primeira convoca “o amor, a família e a natureza”, a segunda realça o papel dos marcadores da memória, por banais e simples que sejam, na preservação da felicidade.

In the Heart of the Zoo: A Love Story For All Ages. Realizador: Daniel Yam. Colocado em 17.04.2023
The Journey. Realizador: Daniel Yam. Colocado em 18.07.2021

Mergulhar na irrealidade: a banheira e o chuveiro (revisto)

O toque de Midas dos novos media visa o mergulho experiencial noutros mundos, mais ou menos irreais, estampados eventualessmente em ecrãs. Entre as novas “varinhas mágicas” constam a realidade virtual, as exposições imersivas, como a Living Van Gogh na Alfândega do Porto (2023), e os videojogos FPS (First Person Shooter) como o Half Life (1998). Somos convidados a participar em universos audiovisuais ou multissensoriais (com alterações e estímulos olfativos, táteis, térmicos), de um modo estático (sentados face a um ecrã fixo) ou dinâmico, como nos simuladores do Pavilhão da Realidade Virtual durante a Expo 98, porventura em interação, com o crescente e cada vez mais sofisticado auxílio de interfaces, luvas digitais, óculos estereoscópicos e capacetes de imersão. Em todos os casos, aventuramo-nos a sentir, experienciar, como reais situações ou ações irreais.

O mergulho na irrealidade pode processar-se segundo dois movimentos aparentemente inversos: a projeção e o envolvimento. Por um lado, sintonizamo-nos ou identificamo-nos com elementos do universo proposto: pessoas, humanóides, animais, animações ou objetos. Quanto maior for a semelhança mais fácil a identificação? Nem sempre. O contraste pode favorecer a “simpatia”. Atente-se em figuras como o E.T., o Shrek ou o WALL-E. Por outro lado, o universo proposto interpela-nos, cativa-nos e envolve-nos. No primeiro caso, na projeção, ocorre um efeito banheira; no segundo, no envolvimento, um efeito chuveiro. Frequentemente, projeção e absorção conjugam-se num reforço mútuo (o anúncio Cowboy, da Solo Soda, ilustra este entrelaçamento).

Marca: Solo Soda. Título: Cowboy. Agência: DMB&B. Direção: Les Roenberg. Noruega, 1999

Vem este resumo a propósito da campanha publicitária inaugurada esta semana  pela empresa da Singapura Prism+. No primeiro anúncio, As close as you can get to the concert, mais próximo do “efeito chuveiro”, uma velhinha é arrebatada por uma estrela rock (releve-se o contraste entre as duas personagens); no segundo, As close as you can get to the cooking, mais próximo do “efeito banheira”, um telespetador identifica-se com um perú em vias de ser cozinhado; por último, no terceiro, As close as you can get to the drama, o mais próximo da interação, do duplo efeito de projeção e envolvimento, um casal participa como vítima numa cena de tortura. Ousadia e criatividade a desafiar os limites!

Marca: Prism+ (Q Series Qe Google TV. Título: As close as you can get to the concert. Agência: MullenLowe Singapore. Direção:  Khun ‘Un’. Singapura, agosto 2023
Marca: Prism+ (Q Series Qe Google TV. Título: As close as you can get to the cooking. Agência: MullenLowe Singapore. Direção:  Khun ‘Un’. Singapura, agosto 2023
Marca: Prism+ (Q Series Qe Google TV. Título: As close as you can get to the drama. Agência: MullenLowe Singapore. Direção:  Khun ‘Un’. Singapura, agosto 2023

Diga-o com robots!

Touch Community Services. Human Touch. Singapura. 2022

Parece-me que estou a ficar senil, mas não resisto a repetir: manifesta-se impressionante como o ser humano tem de recorrer à mediação do não-humano (animais, animações, objetos) para expressar, significar, o humano.

Singaporean charity TOUCH Community Services has released a heart-warming film about the power of the human touch, produced by BBH Singapore. / The ‘touching’ film is set in the future and tells the story of Alfie, a robot assistant, who learns about the human touch from the family and community it interacts with. / Accompanied by an acoustic arrangement of the classic hit, Human, written by The Killers, the campaign film embodies TOUCH’s commitment to inspire hope and transform lives through the power of human connection, both in the present and the future (Ads of the World, The Human Touch: https://www.adsoftheworld.com/campaigns/the-human-touch, acedido em 11.10.2022).

Anunciante: Touch Community Services. Título: Alfie / The Human Touch. Agência: BBH Singapore. Direção: Roslee Yusof. Singapura, outubro 2022.

O mundo a duas cores

A tentação do Cristo pelo diabo (1ª e 2ª tentações). Detalhe do teto em madeira pintada, c. 1130.40. Zillis Grisons, Suisse, Igreja de Saint-Martin.

O maniqueísmo é uma opção frequente na publicidade que aposta em apresentar um mundo a duas cores. No caso dos anúncios filipinos Cream e Watch, da empresa alimentar Jollibee, exorciza-se, ridicularizando, a ambição desmedida, ilusão, o dispendioso e o egoísmo fatores de uma felicidade. Oposta, a marca Jollibee “endorciza” a sensatez, o acessível e a família, garantes de uma felicidade verdadeira. O creme da juventude e o relógio do futuro contra a satisfação no presente.

A pandemia pode proporcionar-se como tema oportuno para uma publicidade omnívora. O anúncio singapuriano A message from the future, também da Jollibee, coloca-nos perante dois cenários que nos tocam, dentro e fora da pandemia: um mundo cinzento, claustrofóbico, solitário e doloroso versus um mundo colorido, aberto, feliz e familiar que ultrapassa a pandemia, que a Jollibee afasta e aproxima, respetivamente.

Marca: Jollibee. Título: Cream. Agência: GIGIL Philippines. Direção: Marius Talampas. Filipinas, janeiro 2022.
Marca: Jollibee. Título: Watch. Agência: GIGIL Philippines. Direção: Marius Talampas. Filipinas, janeiro 2022.
Marca: Jollibee. Título: A Message from the Future. Agência: BBH Singapore. Direção: Law Chen. Singapura, maio 2021.

Lagartos. As alterações climáticas

T-shirt. Aquecimento global.

“O lagarto andou à roda, à roda, à roda, até que abocanhou a cauda. Mordeu, mordeu, mordeu… Ficaram os dentes” (Albertino Gonçalves).

As alterações climáticas sentem-se, mas, por vezes, não se pensam; pensam-se, mas, por vezes, não se age. É a perspetiva dos seguintes anúncios:

  • The climate is changing, da Singapore’s national water, alerta para o cuidado a ter com a água.
  • Face à l’urgence climatique, les discours ne suffisent pas, do Greenpeace France, denuncia a inconsequência dos discursos (políticos).

As alterações climáticas são uma onda gigante que ameaça afundar-nos.

Anunciante: Singapore’s national water. Título: The climate is changing. Agência: Tribal Worldwide Singapore. Singapura, março 2021.
Anunciante: Greenpeace France. Face à l’urgence climatique, les discours ne suffisent pas. Agência: Strike. Direção: Strike & fix STUDIO. França, março 2020.

A borboleta da sorte

Dancing-butterflies-flying-through-Changi-Airport-as-part-of-“Be-A-Changi-Millionaire”-promotion

Estar só! Quanta misantropia cristalizada! Décadas de militância macambúzia. Realmente só? E os milhões de internautas no aquário digital? Não toco, nem cheiro, nem beijo. As pessoas acampadas no computador são como as laranjas da infância. Colhidas no pomar, colocava-as no cimo da rampa, punha-as a rolar, corria para o outro extremo, e trespassava-as com as flechas de um arco feito com varetas de guarda-chuva e fio de sediela. É antigo o gosto pela minha companhia.

A sorte é uma palavra movediça. Se de Gastão e Calimero, todos temos um pouco, a relação com a sorte é complicada. Há quem espere pela sorte. Fia-se na Virgem e não corre. Entretanto, envelhece. Na verdade, “a sorte dá muito trabalho”. Para ter sorte é preciso ter o resto: um empurrão, bastante capital e alguma preparação. “A sorte sorri apenas aos espíritos bem preparados” (Joseph Pasteur). Stendhal (Le rouge et le noir, 1830) é mais céptico: “a sorte agarra-se pelos cabelos, mas ela é careca”. O azar, reverso da sorte, das duas uma, ou é desculpa ou é falsa consciência.

Que o acaso existe, lá isso existe. O mundo é mais aleatório do que nos aprontamos a imaginar. Depende de grandes e pequenos nadas, como o nariz de Cleópatra:

“Qui voudra connaître à plein la vanité de l’homme n’a qu’à considérer les causes et les effets de l’amour. La cause en est un je ne sais quoi. Corneille. Et les effets en sont effroyables. Ce je ne sais quoi, si peu de chose qu’on ne peut le reconnaître, remue toute la terre, les princes, les armées, le monde entier. Le nez de Cléopâtre s’il eût été plus court toute la face de la terre aurait changé (Pascal, Pensées, 1670)”.

A sorte é como uma borboleta: quando se agarra amachuca-se; e tem a vida curta: quando muito, algumas semanas. Luck is in the air é um belo anúncio oriental, com borboletas artificiais.

Marca: Changi Airport. Título: Luck is in the air. Agência: Ogilvy (Singapura). Singapura, Julho 2018.

Lição de moral

Livro de Horas de Simon de Varie. França. 1455.

Livro de Horas de Simon de Varie. França. 1455.

O anúncio The Book, do United Overseas Bank, propõe uma comovente lição de moral: 1) não devemos apropriar-nos do que pertence a outrem; 2) o valor sentimental suplanta o valor pecuniário; 3) esta sabedoria deve passar de pais para filhos. Apostado no valor da honestidade, o anúncio lembra as fábulas de Esopo e de La Fontaine. Lembra, também, as histórias dos livros da escola primária: A Carochinha e o João Ratão, o rato do campo e o rato da cidade; São Pedro e a ferradura; as unhas dos candidatos a emprego e outros ensinamentos do género. A retórica das boas maneiras prosseguia no ciclo preparatório com uma disciplina chamada, creio, civilidade.

De pé, colados às carteiras, olhos postos no poder, entoávamos as nossas cantorias:

“Vamos cantar com alegria
E começar um novo dia
Para nós o estudo só nos dá prazer
E faremos tudo, tudo para aprender.

Não encontrei a letra desta canção na Internet. Creio que não a sonhei. Cantar, não a canto, que espanto o gato. Mas, ideologias à parte, não convém apagar a memória que à memória pertence. No que me respeita, vou compassar uma nova cantiga a caminho da Universidade: vamos cantar com alegria e começar um novo dia…

Marca: United Overseas Brank – UOB. Título: The Book. Agência: BBH (Singapura). Singapura, Fevereiro 2018.

Voa, voa coração

Singapura 2

60 milhões de corações nas pistas do aeroporto de Changi. Amor, felicidade, lazer; lazer, felicidade, amor… Prazer, prazer com muita tranquilidade e ternura.

Marca: Changi Airport. Título: 60 Million Hearts. Agência: J. Walter Thonsom, Singapore. Singapura, Janeiro 2018.

O valor da vida!

Singapore Life

O Tendências do Imaginário devia chamar-se Cemitério. Imagens e mais imagens da morte. Mas não é um caso isolado. A propaganda do Estado & Cia também aposta na imagem da morte. Não tenho memória de propaganda com tantas imagens da morte, em circulação quase infinita, como as fotografias dos maços de tabaco. Uma galeria macabra. Existe tanta morte na propaganda de Estado & Cia: morte na prevenção rodoviária, morte no álcool, morte na droga, morte na sida, morte na violência doméstica, morte no uso do telemóvel… De tanta imagem da morte, o que se retém? A imagem da morte. A caravana passa e os esqueletos ficam. Em tempos, o grande leiloeiro da morte era a religião. Estou convencido que, no nosso tempo, o grande leiloeiro da morte é o Estado & Cia. Requiem em cima de requiem, nem sempre bem musicados. Se desejamos mensagens de esperança, confiança, libertação, amor e vida, o mais avisado é procurar noutro lado. No sector privado. O anúncio Birth, da seguradora SingLife é um excelente exemplo de como se pode promover, inequivocamente, o valor da vida. Uma última observação: algumas imagens do anúncio são pungentes, mas, por enquanto, não existe outro modo de produzir seres humanos. Todos o sabem, mas alguns esquecem-no.

Marca: SingLife. Tema: Birth. Agência: Dentsu. Direcção: Hailey Michelle Bartholomew. Singapura, Outubro 2017.