As mulheres são o máximo

As mulheres são o máximo, seja essa a sua vontade. No desporto como no resto. Ilustra-o a Nike em Dream Crazier, um anúncio enérgico. Têm crescido exponencialmente os anúncios promotores da mulher. E os homens, não há publicidade que os exalte? Porventura sem as trompetes da Nike, mas com uma mensagem mais ou menos implícita e subliminar. Num registo humorístico e invertido, o homem é mergulhado no ridículo do corpo e da mente. Porque não é o máximo quem quer! Milenar, a dominação masculina escreve torto por linhas tortas. Perversamente, como no lento e pasmado anúncio da Linx, em que, com os cocos na mão e a lâmina em riste, um homem investe contra os pelos da desgraça. Em suma, a epopeia da mulher vencedora versus a farsa do homem depilado. Joana d’Arc e Don Quixote.
Marca: Linx. Título: The Balls. Agência: 72andSunny (Amsterdam). Holanda, Fevereiro 2019.
Vulvas e pirilaus
Pelo conteúdo do anúncio No Jobs For C*cks, da associação Oh You Women, os pirilaus, usurpadores, desfrutam de algum protagonismo. Pergunto-me o que aconteceria se o anúncio fosse invertido? Uma indignação?
Marca: Oh You Women. Título: No Jobs For C*cks. Agência: Jung von Matt. Alemanha, Maio 2018.
Na publicidade, além de pirilaus, temos vulvas. O anúncio Viva la Vulva, da Libresse, consiste numa música cantada por vulvas. Muitas vulvas. Se o anúncio No Jobs For C*cks é um protesto, o anúncio Viva la Vulva é uma celebração. Goste-se ou não!
Marca: Libresse. Título: Viva la Vulva. Agência: AMV BBDO. Direcção: Kim Gehrig. Reino Unido, Novembro 2018.
Sugestão
“O nosso cérebro é uma esponja que se embebe com sugestões” (Francis Picabia, Jésus-Chist Rastaquouère, 1920).
Este anúncio é sugestivo. A sugestão pode ser mais potente do que a realidade. Sobretudo quando se trata de sexo, o maior alcoviteiro da sugestão humana. O anúncio Love Life – Aquarium é mais do que aquilo que mostra. É vulgar? Tão vulgar como nós, preservativos a rebentar de indignação. E a figura da menina? Não sei que diga, talvez uma Capuchinho Vermelho da pós-modernidade ou da sexualidade na idade da técnica. De qualquer modo, este anúncio tem o selo do Secretariado Federal da Saúde Pública da Suíça. Uma dupla garantia.
Marca: Love Life. Título: Aquarium. Agência: Rod Kommunikation AG Zurich. Direcção: David Constantin. Suíça, Fevereiro 2018.
A boca e o resto
De tanto badalar, o badalo perde o sino. O género justifica, neste anúncio, uma espécie de paródia com final inesperado. Após várias tentativas kitsch apostadas em criar produtos “femininos”, empoderadores da mulher, a australiana Young Henrys propõe uma nova cerveja, a Lady Beer, que sabe a igualdade”: “The Young Henrys Newtowner, made for your mouth, not your genitals”. Humor, irreverência, provocação, politicamente incorrecto, sentido de marca?
Marca: Young Henrys. Título: Lady Beer. Agência: Unko. Austrália, Maio 2018.
Salada de sexo com gomas
Este anúncio japonês respinga sexo por todas as imagens. Bem assumido e bem realizado, insiste na mesma tecla até ao desfecho, tão politicamente correto quanto déjà vu. Uma saga amorosa em dez episódios. Se o tamanho conta, com mais de seis minutos de duração, estamos perante um grande anúncio. Kitsch ou não kitsch, eis a questão!
Marca: Sakeru Gum. Título: Long Long Man: Size Matters. Japão, Abril de 2018.
Rejuvenescimento
O anúncio First Taste estreia amanhã, 15 de Janeiro. Como quase todos os anúncios da Coca-Cola, está bem feito e propõe um conceito claro: a libertação graças à magia da bebida. O anúncio é uma retoma de um anúncio homónimo de 2006. A narrativa é a mesma. Mr Hadley, institucionalizado num hospício, prova, pela primeira vez, Coca-Cola. O efeito supera os espinafres do Popeye ou a poção mágica do Astérix. No anúncio de 2006, declara-se à mulher amada, assume a paternidade, pratica nudismo, faz uma tatuagem, dá um beijo à Mona Lisa, mergulha, anda de mota, partilha a cama com gémeas, participa numa corrida de touros e destaca-se na multidão. O anúncio de 2018 acrescenta um cortejo carnavalesco; o contacto com um homossexual e o delírio de um concerto de música. Tudo condiz, até a canção Break Free, dos Queen.
Marca: Coca-Cola. Título: First Taste. Agência: Mccann EMEA. Direcção: Albert Uria. Reino Unido, Janeiro 2018.
O tema do rejuvenescimento é fruto da época, de mão dada com o foco na juventude (ver As idades da vida: https://tendimag.com/2016/12/23/as-idades-da-vida/). Subsistem, porém, anúncios excelentes que encaram a velhice como uma idade aprazível, sem precisar da máquina do tempo (ver Entre gerações: https://tendimag.com/2017/09/27/entre-geracoes-2/).
Marca: Coca-Cola. Título: First Taste. Agência: Wieden+Kennedy, Amsterdam. Direcção: Dante Ariola. Holanda, 2006.
Em ambos os anúncios, o rejuvenescimento convoca um quadrado de valores: virilidade; potência; desejo; libertação. Atente-se em figuras tais como o galanteio, a paternidade, o nudismo, a tatuagem, o beijo, o mergulho, a motorizada, as gémeas, os touros… Não sou discípulo de Freud, nem de Jung, nem de Lacan, mas qual seria a leitura de um perverso com inclinação para o disparate? O quadro de valores remeteria para o sexo. Mais metáfora, menos metáfora, seríamos confrontados com um “rejuvenescimento sexual, ver orgástico”. Orgasmo? Nada que faça corar a publicidade. Não obstante, não há dúvida que só um perverso poderia perfilhar tão inconveniente interpretação. Não é verdade?
Os dois anúncios culminam na condução, solitária ou em grupo, de uma motorizada. A motorizada está associada à virilidade, à potência e à libertação. Num anúncio notável de Taiwan, Dream, o rejuvenescimento é significado pelo regresso à condução de motorizada em grupo. É um prazer recolocá-lo.
Marca: TC Bank. Título: Dream. Agência: Ogilvy Taiwan. Direcção: Thanonchai. Taiwan, Março 2011.
Dúvidas íntimas
À primeira vista, o anúncio Gueule de Nain, da Media Markt, parece pós-moderno. À última vista, continua a parecer pós-moderno. Na recente mesa redonda Identidades & Territórios (Universidade do Minho, 06 de Dezembro de 2017), permiti-me uma provocação: duvidar da existência de um período histórico singular apelidado pós-modernidade. Mas como este anúncio é pós-moderno, a pós-modernidade existe.

Anões de jardim adquirem vida na ausência dos donos da casa. O vómito de um gato, cujo nome deve ser Shrek, é o acto inaugural. Segue-se uma festa, com música, bebida, dança, sexo, objectos técnicos, desvarios e excessos. Como é costume, os anões de jardim têm atitudes e comportamentos estranhamente humanos. François Rabelais (1494-1553) poderia subscrever a orgia, E.T.A. Hoffman (1776-1822), a vitalização dos bonecos e Tex Avery (1908-1980), o humor absurdo. Em suma, um anúncio que convoca algumas perplexidades.
Se as pessoas são líquidas, fragmentadas, polifónicas e híbridas, por que é que, passados vinte ou trinta anos, quando encontro alguém ele me parece a mesma pessoa? Será que a sua identidade oscila como um boneco teimoso?
Marca: MediaMarkt. Título: ZIPFELRAUSCH. Alemanha, Novembro 2017.
Continua a nossa sociedade empenhada no futuro, eventualmente com menos projecto e mais balanço? Será a nossa sociedade mais pós ou mais pré? A maior parte das nossas preocupações não deixam de se debater com o futuro.
Por que rara alquimia a sociedade é órfão de narrativas quando às narrativas da modernidade se acrescentam as narrativas da pós-modernidade?
Como é que uma injunção, o carpe diem (Horácio, 65 a.C – 8 a.C.; ver poema) caracteriza uma sociedade quando o atributo é transversal à humanidade. Não há como fazer escala no após I Guerra Mundial.
E, em termos de hibridismo, são os biomecanóides e os pós-humanos assim tão distantes das metamorfoses de Ovídeo e dos sonhos cómicos (songes drolatiques) de François Desprez?
Acabei de ser convidado para participar num programa de televisão. Declinei. Uma pessoa que não sabe o que é não deve expor-se. E eu não sei se sou pré-moderno ou pós-moderno. Moderno consta que ninguém é. Toda esta confusão é muito grave. Entretanto, tive uma epifania. As epifanias servem para saber quem somos e para onde vamos. Que o diga São Paulo! Pois, finalmente, sei quem sou. Sou um pós-moderno à moda antiga, à moda dos maneiristas e dos barrocos. Parafraseando John F. Kennedy, na modernidade, sou pós-moderno!
Não sei que me diga! Ainda estou confuso. Mas, repito, o anúncio da Media Markt é excelente.
Tradução do poema de Horácio
Colha o dia, confia o mínimo no amanhã.
Não perguntes, saber é proibido, o fim que os deuses darão a mim ou a você,
Leuconoe, com os adivinhos da Babilônia não brinque.
É melhor apenas lidar com o que cruza o seu caminho.
Se muitos invernos Júpiter te dará ou se este é o último, que agora bate nas rochas da praia com as ondas do mar.
Tirreno: seja sábio, beba seu vinho e para o curto prazo reescale suas esperanças.
Mesmo enquanto falamos, o tempo ciumento está fugindo de nós.
Colha o dia, confia o mínimo no amanhã.
Podemos sempre ser melhores. Basta pensarmos melhor.
(http://claudialins58.blogspot.pt/2009/08/carpe-diem-o-poema-completo-de-horacio.html).
Sexualidade avançada
Sinal de senilidade, repito-me sem parar. A publicidade é omnívora. No limite, tudo pode ser publicitado. No limite, todo anúncio pode ser consumido. Seja qual for o tema e o propósito. Até o que não existe é anunciável, noticiável e profetizável. Por outro lado, tudo, logo nada, pode ser censurado. Não é bem assim! Nada é bem assim… Retomemos a ingenuidade do pensamento lapidar.
Há muito tempo que a humanidade entrou na era da universalização da mercadoria, mercadoria que ostenta as artes mágicas da cadeira de Karl Marx:
“Ela não só se mantém com os pés no chão, mas põe-se de cabeça para baixo diante de todas as outras mercadorias, e em sua cabeça de madeira nascem minhocas
que nos assombram muito mais do que se ela começasse a dançar por vontade própria” Marx, Karl, 1867, O Capital, Livro I, Secção I, Capítulo 1).
A mercadoria e o consumidor nunca mais pararam de dançar.
Estou a travar as palavras porque o anúncio da PornHub, Old School: a Complete Guide to Safe Sex after 65, reveste-se de alguma delicadeza. Aceleremos: se a introdução à sexualidade é importante para as crianças nas escolas, não é menos importante a pós-graduação em sexualidade dos idosos. Uma nova generosidade anda no vento. Nova, não por ser interessada e estratégica. A generosidade sempre foi interessada e estratégica. Nova, porque assumidamente interessada e estratégica. Uma generosidade egoísta. Uma espécie de neo altruísmo com embalagem pós-moderna. Ressalve-se, enfim, que nem tudo é novo na novidade. Por exemplo, a figura do “missionário do sexo” é antiga.
Gostava, um dia, de conhecer a distribuição por sexo e idade dos clientes do guia da “universidade sénior” da PornHub. Os desígnios da publicidade são insondáveis.
Marca: PornHub. Título: Old School: a Complete Guide to Safe Sex after 65. Agência: Officer & Gentleman. Direcção: David Triviño. Estados Unidos, Julho 2017.
Sinais de sexo
Pertenço ao século que separou, de forma cabal, o sexo da procriação. Virtude dos preservativos e contraceptivos. Mudaram os sinais de sexo: obeliscos, mexilhões, comboios, túneis, esguichos e espuma. A simbologia da chave e da fechadura ultrapassou a simbologia do coelho e do ovo. Em vez de biológicos, os sinais de sexo passam a ser mecânicos. O nosso século foi o mais molesto à fecundidade. Os resultados não enganam. O anúncio Sexy Delights Of Europe, da lastminute, é um bom exemplo desta nova ordem sexual.
Marca: lastminute. Título: Sexy Delights Of Europe. Agência: Adam&eve DDB. Reino Unido, 2015.
A insofismável leveza do tacto
Não devia partilhar este anúncio! O insólito aveludado, mesmo reduzido ao mínimo, tem um efeito máximo. É antigo, ao jeito do vinho do Porto, com um humor de outras eras, enrugado e frutado, sem buttox. Raro, muito raro, este anúncio escapou, não se sabe como, à censura. Encalhou, há anos, nesta página e dela não vai sair. Um sorriso subtil fica sempre bem em qualquer lugar. Se tem menos de 16 anos ou humor de plástico, p.f., abstenha-se: não clique. Carregar na imagem para aceder ao vídeo.
Marca: Roge Cavailles Intimea Soap Wash. Título: The Painting. Agência: Grey Paris. Direção: Jean-Baptiste Leonetti. França, 2002.









