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Simplesmente só

Edward Hopper. Sunday. 1926.

Não existe pior solidão do que aquela que nasce da indiferença dos outros (Martin Gray, Le livre de la vie, 1973).

Não desgosto da solidão. Preencho-a com tudo e com nada. Bem cuidada, a solidão seduz. O meu luxo é estar só no meio da multidão. A minha solidão é uma alternativa, não é uma fatalidade. Mas a maioria das pessoas sós não consegue escapar à solidão. Um inquérito promovido, em 2014, pela Fondation France, revela o seguinte:

«Um em cada oito franceses está só: em 2014, a solidão afecta 5 milhões de pessoas, um fenómeno que se agravou sobretudo entre os mais idosos, embora já não poupe os mais jovens (…) Existe mais um milhão de franceses do que em 2010 a não ter relações sociais no âmbito das cinco redes de sociabilidade (familiar, profissional, de amigos, de afinidade ou de vizinhança) (…) Se um em cada oito franceses se encontra hoje só, um em cada três corre o risco de ficar só (https://www.lemonde.fr/societe/article/2014/07/07/la-solitude-progresse-en-france_4452108_3224.html).

Em Inglaterra, a solidão é encarada como causa de morte precoce. Em Janeiro de 2018, foi criado o Ministério da Solidão. Portugal já tem um Observatório da Solidão (Obsolidão, no ISCET). Os portugueses não se podem queixar de falta de observação.

Marca: Age UK. Título: Just Another Day. Agência: Drum. Direcção: Phillippe Andre. Reino Unido, Dezembro 2017.

Do Reino Unido, vem, também, o anúncio Just Another Day, da Age UK. Incisivo! Um idoso, de boa condição social, autónomo e rodeado de pessoas, vive numa solidão despojada, sem assistência robótica nem companhia à distância. Repare-se na opção do realizador pela repetição das situações e dos gestos, repetição que enfatiza o peso da rotina e da circularidade na experiência da solidão.

Gosto de, alheio às regras da boa argumentação, alinhar disparidades. A ópera Madama Butterfly (1904), de Giacomo Puccini, aborda a solidão. Butterfly é uma jovem japonesa que casa com Pinkerton, oficial da marinha norte-americana. Pinkerton parte para os Estados Unidos, onde permanece vários anos sem dar notícias. Regressa um dia, acompanhado pela esposa americana. Butterfly suicida-se. “Com honra morre quem em honra não pode viver””. O “coro à boca fechada” embala esta tragédia.

Madama Butterfly. Coro à boca fechada. G. Puccini. Concierto Voces para la Paz 2010. Director: Miguel Roa. Madrid, Junho 2010.

Hoje, estou mais só. O gato desapareceu há quatro dias. Sente-se a sua falta nas mais pequenas coisas. Não podia, por exemplo, trabalhar no escritório com a porta aberta. O gato cultivava uma atracção pelos papéis e pelos fios. Sempre que o expulsava, esboçava um movimento para sair, mas reconsiderava e enfiava-se, majestoso, no cesto do lixo. O ritual era sempre o mesmo: pegava no caixote com sua excelência e colocava-o no exterior. Às vezes, volvidos alguns minutos, o gato continuava a ronronar no seu berço de palha. Dedico este artigo ao meu gato.

O hambúrguer de Andy Warhol

Burger King. Andy Warhol. 1981/2019.

O banquete é uma actividade cultural pródiga em símbolos. Ver uma celebridade comer só, sem mais ninguém, pode ser uma concelebração: um comensal comido por milhares de olhos. Por exemplo, Salvador Dali a comer chocolate da marca Lanvin (1968: ver https://tendimag.com/2012/06/21/o-artista-vai-a-publicidade-salvador-dali/) e Andy Warhol a ingerir um hambúrguer da Burger king em cerca de cinco minutos (1981). Há repastos que se reciclam. A Burger King retoma a performance de Andy Warhol e coloca-a no Super Bowl de 2019. A história repete-se, “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa” (Karl Marx, O 18 Brumário de Luis Bonaparte, 1852). A história “repete-se” em espiral. Resgatar celebridades é uma tentação. Mas o original e a cópia não coincidem. Andy Warhol faleceu em 1987. No anúncio de 1981, um vivo come um hambúrguer ; em 2019, não deixa de ser um morto a comer um hambúrguer. Não é a mesma coisa, pois não? Os média são antropófagos ou necrófilos? Mergulham num tempo confuso, onde tudo se baralha. “O morto agarra o vivo” (Karl Marx, prefácio à primeira edição do Livro I do Capital, 1867) e o vivo agarra o morto.

Seguem os dois anúncios da Burger King com Andy Warhol. O atual, #EatLikeAndy, e o de 1981, Andy Warhol eating a hamburger. Excetuando o título e o texto, são iguais!

Marca: Burger King. Título: Eat Like Andy. Agência: David Miami. Estados Unidos, Fevereiro 2019.
Burger King. Andy Warhol eating a hamburger. 1981.

O Absurdo do Extremo Oriente

“O absurdo é a razão lúcida que constata os seus limites” (Albert Camus, Le myth de Sisyphe, 1942).

Voiz the box

O absurdo pede subtileza; dispensa a retórica, as palavras e os argumentos. Repete mas não explica. O absurdo não promete, surpreende! O absurdo é o nó-cego da razão. Vem esta conversa a propósito do anúncio  The box, da Voiz, uma empresa tailandesa de produtos alimentares.

Marca: Voiz. Título: The box. Agência: Ogilvy & Mather Bangkok. Direcção: Wuthisak Anarnkaporn ( Un ). Tailândia, Abril 2018.

A cópia, a série e a ovelha negra

Golconda, 1953 by Rene Magritte

René Magritte. Golconda. 1953.

Trump X Magritte. The Surrealist Series by Butcher Billy (2016) Trump Travesty

Trump X Magritte. The Surrealist Series by Butcher Billy (2016) Trump Travesty.

Eu me contradigo? Pois muito bem, eu me contradigo. Sou amplo, contenho multidões (Walt Whitman).

Eu me duplico? Pois muito bem, eu me duplico. Sou amplo, contenho massas. A reflexividade não é pós-moderna. Mas tanta reflexividade, quem sabe? “Eu é um outro” (Arthur Rimbaud). Numa galeria de espelhos, eu sou vários outros iguais a mim. Um desfile de cópias como no Golconda de René Magritte. Mas ressalve-se: ainda existem ovelhas negras. O vídeo de Vladimir Cauchemar não as esquece.

Vladimir Cauchemar. Aulos. Direcção: Alice Kunisue. Ed Banger records. 2017.

Ecologia do Espírito

Quino

Quino

A originalidade é uma raridade. Um descuido dos deuses. Tanta criação antes de nós. Esta dificuldade em ser original sobressai, curiosamente, no universo da magia e da fantasia. Por isso, há tanta reciclagem da Alice, da Capuchinho Vermelho e da Cinderela. E do Pinóquio, do Peter Pan e do Aladino. A imaginação não é tão infinita quanto nos apressamos a acreditar. Daqui não advém mal ao mundo. As ideias coçadas podem ser brilhantes. São artes e manhas da “ecologia do espírito”. Nos anúncios Choose  Go, da Nike, e Rewind City, da Orange, a repetição dos gestos concorre para a mudança desejada.

Marca: Nike. Título: Choose Go. Agência: Must Be Something. Direcção: Edgar Wright. Estados Unidos, Fevereiro 2018.

Marca: Orange. Titulo: Rewind City. Agência: Publicis Conseil, Paris. Direção: Ringan Ledwidge. França, Maio 2008.

A variação do mesmo

Antuérpia

Antuérpia

Aos emigrantes de Antuérpia

As estrelas anunciam uma quadra em que contos, cânticos, figuras e anúncios tendem a ser uma variação do mesmo. Saturados, os marcadores simbólicos natalícios cobrem quase tudo que é sentido. Ressalve-se, porém, que repetir não é, necessariamente, anular ou reverberar. A própria repetição do mesmo gera uma mesmidade distinta. Dez pessoas que se alinham, uma atrás da outra, em frente a um caixa multibanco formam uma fila, com as possibilidades e os constrangimentos que isso implica. Acrescente-se que a variação não é irmã gémea da repetição. Nada impede a variação de ser genuinamente única. Escute-se, por exemplo, Bach.

J. S. Bach. Goldberg Variations, BWV 988: I. Aria.

O anúncio polaco Talizman, da Allegro, é uma variação do mesmo. Contracenam uma criança e um velho. A fé e a ternura, tanta fé e tanta ternura, são os sentimentos nucleares da época. No entanto, o disco não está riscado. Outras pautas e outras vozes cantam o espírito de Natal. E ouvimos, encantados, o milagre, um milagre que nos apressamos a esquecer.

Marca: Allegro. Título: Talizman. Agência: Bardzo. Direcção: Jesper Ericstam. Polónia, Novembro 2017.

Repetição

Quino. Ratos.

Quino. Ratos.

“Si la publicité des journaux constitue un moyen de persuasion très efficace, c’est que peu d’esprits se trouvent assez forts pour résister au pouvoir de la répétition. Chez la plupart des hommes elle crée bientôt la certitude” (Gustave Le Bon, Les incertitudes de l’heure presente, 1923).

“Jadis l’esprit se manifestait en toute chose. A présent nous ne voyons plus qu’une répétition sans vie que nous ne comprenons pas. La signification du hiéroglyphe nous fait défaut” (Novalis (1772-1803). Semences. Trad. Francesa: Paris, Allia, 2004).

“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade” (Joseph Goebbels).

Quino. No vazio da onda.Dizem os filósofos que o repetido é diferente do geral. A repetição requer uma singularidade, um original a copiar. Posto isto, é possível, pela repetição, fazer de um anão um gigante. Repete-se até frisar a monstruosidade. Mecânicas expeditas não faltam. Um cantor que se preze deve atingir milhões de visualizações na Internet, de preferência de um dia para o outro. É bom? Eis uma questão despropositada. O IMDb ordena os filmes segundo as receitas recolhidas. A comunidade científica pesa os investigadores em função das citações e das referências.

Quino. Plantando ideias

Quino. Plantando ideias.

Um cientista que recicla uma ideia há mais de dez anos tem, provavelmente, mais notoriedade do que um colega que desenvolve, todos os anos, ideias geniais, mas que, por qualquer motivo, as não mobiliza no circo da repetição. No circo da repetição, há círculos de repetição. Sabe-se muito destes e pouco daqueles. Acode-me, em noites sonâmbulas, que a ciência avançada assenta numa burocracia sofisticada, capaz de tudo e todos classificar, comparar e contabilizar. Presta-se, porém, a enxertos tribais de longo alcance, glocais e globais. Cerca de quatrocentos anos após a morte de Galileu, a ciência depara-se com um novo dogma: a repetição virtuosa.

Indefinição e instabilidade

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Máscaras estilizadas, parcas em feitio e expressão. Repetitivas e incómodas. São disfóricas. A inquietação não precisa de grandes atavios para se instalar. Um monstro, quanto menos definido, maior o efeito, perdão, pior o efeito. A propósito da “coisa” (The Thing, John Carpenter, 1982), um ser de substância improvável, Omar Calabrese escreve: “a coisa não tem uma forma autónoma, mas as suas células imitam as dos seres que lhe passam mais perto, até as engolirem e se transformarem nelas. O que faz que, quando a coisa é enquadrada, seja na realidade ora um cão, ora um membro da expedição” (A Idade Neobarroca, Lisboa, Edições 70, 1999, p. 109). O monstruoso reconhece-se, mas desconhece-se. E quanto mais se desconhece, maior a monstruosidade. Em suma, um anúncio excelente!

Marca: Zona Jobs. Título: Lottery. Agência: McCann, Buenos Aires. Direcção: Turbo Trueno. Argentina, Fevereiro 2014.