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Repetição

Quino. Ratos.

Quino. Ratos.

“Si la publicité des journaux constitue un moyen de persuasion très efficace, c’est que peu d’esprits se trouvent assez forts pour résister au pouvoir de la répétition. Chez la plupart des hommes elle crée bientôt la certitude” (Gustave Le Bon, Les incertitudes de l’heure presente, 1923).

“Jadis l’esprit se manifestait en toute chose. A présent nous ne voyons plus qu’une répétition sans vie que nous ne comprenons pas. La signification du hiéroglyphe nous fait défaut” (Novalis (1772-1803). Semences. Trad. Francesa: Paris, Allia, 2004).

“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade” (Joseph Goebbels).

Quino. No vazio da onda.Dizem os filósofos que o repetido é diferente do geral. A repetição requer uma singularidade, um original a copiar. Posto isto, é possível, pela repetição, fazer de um anão um gigante. Repete-se até frisar a monstruosidade. Mecânicas expeditas não faltam. Um cantor que se preze deve atingir milhões de visualizações na Internet, de preferência de um dia para o outro. É bom? Eis uma questão despropositada. O IMDb ordena os filmes segundo as receitas recolhidas. A comunidade científica pesa os investigadores em função das citações e das referências.

Quino. Plantando ideias

Quino. Plantando ideias.

Um cientista que recicla uma ideia há mais de dez anos tem, provavelmente, mais notoriedade do que um colega que desenvolve, todos os anos, ideias geniais, mas que, por qualquer motivo, as não mobiliza no circo da repetição. No circo da repetição, há círculos de repetição. Sabe-se muito destes e pouco daqueles. Acode-me, em noites sonâmbulas, que a ciência avançada assenta numa burocracia sofisticada, capaz de tudo e todos classificar, comparar e contabilizar. Presta-se, porém, a enxertos tribais de longo alcance, glocais e globais. Cerca de quatrocentos anos após a morte de Galileu, a ciência depara-se com um novo dogma: a repetição virtuosa.

Indefinição e instabilidade

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Máscaras estilizadas, parcas em feitio e expressão. Repetitivas e incómodas. São disfóricas. A inquietação não precisa de grandes atavios para se instalar. Um monstro, quanto menos definido, maior o efeito, perdão, pior o efeito. A propósito da “coisa” (The Thing, John Carpenter, 1982), um ser de substância improvável, Omar Calabrese escreve: “a coisa não tem uma forma autónoma, mas as suas células imitam as dos seres que lhe passam mais perto, até as engolirem e se transformarem nelas. O que faz que, quando a coisa é enquadrada, seja na realidade ora um cão, ora um membro da expedição” (A Idade Neobarroca, Lisboa, Edições 70, 1999, p. 109). O monstruoso reconhece-se, mas desconhece-se. E quanto mais se desconhece, maior a monstruosidade. Em suma, um anúncio excelente!

Marca: Zona Jobs. Título: Lottery. Agência: McCann, Buenos Aires. Direcção: Turbo Trueno. Argentina, Fevereiro 2014.