Quinologia
Quino é um dos meus mestres. Se alguém perguntar se quero ler um livro disto ou daquilo, a resposta é imediata: um livro de Quino. Pena tê-los relido todos. Seguem quatro desenhos de Quinologia pura. Hoje, o meu rapaz mais novo está doente. Quero vê-lo sorrir.

2. Cooperação. Quino. Cada um no seu lugar.
Manifesto contra a liquidez

Quino. Quinoterapia. 1995.
Em O Amor Líquido (Relógio D’Agua, 2008), o sociólogo Zygmunt Bauman diagnostica um afrouxamento dos laços sociais. Mais passageiros e mais “escorregadios”. Pois o anúncio Valores, da MoviStar, parece um manifesto contra a liquidez. Atente-se no texto:
Dizem que o Natal já não é como dantes
Dizem que hoje as crianças já não escrevem cartas
Que já não nos olhamos nos olhos
E que se perdeu a magia
Dizem que antes eramos felizes com nada
Que já não compartilhamos
Dizem que hoje não ajudamos sem pedir algo em troca
E que já ninguém se coloca no lugar do outro
Dizem que as famílias já não estão unidas
Que digam o que quiserem.
As imagens do anúncio revelam o contrário. Curiosamente, trata-se de um anúncio de uma operadora de telecomunicações. Poucas profissões lidam tanto com os valores como a publicidade. Investiga-os e mobiliza-os. Na sociologia, um erro corrige-se, na publicidade, paga-se. Não se pode sustentar que a publicidade é anti-líquida; muitos anúncios apostam na liquidez, mas numa liquidez que pode vir de longe, como de longe vem a “solidez” do espírito de Natal. A contemporaneidade é sólida e “desfaz-se no ar”? Ou é líquida e escorre por entre os dedos? Talvez sólida como a areia e líquida como os coágulos.
Marca: MoviStar. Título: Navidad “valores”. Agência: Dhélet Y&R Latam. Direcção: Maxi Blanco. Argentina, Dezembro 2016.
Geometria do poder

Linhas. Quino. Hombres de bolsillo. 1977.
Há séculos que se conhece a diferença entre uma linha recta e uma linha curva. A primeira é clássica e a segunda, barroca. Comparada com a linha recta, a linha curva acentua a sensação de volume, movimento, desequilíbrio, jogo luz e sombra e aproximação dos opostos. Para Quino as linhas também se distinguem na sua relação com o poder. A recta é mais obediente, mais disciplinada e, em suma, mais alinhada e mais correcta.
Deflorestação
Este blogue anda meio macabro. Não é de estranhar. Participo numa equipa de investigação sobre a morte nos media e estou a dedicar-lhe a escrita de um livro. A própria sociedade também anda obcecada com a morte. Tropecei com anúncio argentino Sin bosques nos ahogamos todos, da Greenpeace. O título é sugestivo: nos ahogamos todos. Mas o vídeo reforça: um homem, fechado num recipiente transparente, fica sem ar, à medida que as florestas são destruídas, até ao afogamento. Um “espectáculo” de morte.
Anunciante: Greenpeace. Título: Sin bosques nos ahogamos todos. Agência: Wofbpp. Argentina, Agosto 2016.
Para contrariar esta onda funesta, pesquisei as entradas felicidade, alegria e vitalidade nas bases de anúncios. Saiu este Moved by Magic, da rádio Magic FM. Estimulante.
Marca: Magic FM. Título: Moved by Magic. Agência: Mother. Direcção: Daniel Kleinman. UK, 2003.
Repetição
“Si la publicité des journaux constitue un moyen de persuasion très efficace, c’est que peu d’esprits se trouvent assez forts pour résister au pouvoir de la répétition. Chez la plupart des hommes elle crée bientôt la certitude” (Gustave Le Bon, Les incertitudes de l’heure presente, 1923).
“Jadis l’esprit se manifestait en toute chose. A présent nous ne voyons plus qu’une répétition sans vie que nous ne comprenons pas. La signification du hiéroglyphe nous fait défaut” (Novalis (1772-1803). Semences. Trad. Francesa: Paris, Allia, 2004).
“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade” (Joseph Goebbels).
Dizem os filósofos que o repetido é diferente do geral. A repetição requer uma singularidade, um original a copiar. Posto isto, é possível, pela repetição, fazer de um anão um gigante. Repete-se até frisar a monstruosidade. Mecânicas expeditas não faltam. Um cantor que se preze deve atingir milhões de visualizações na Internet, de preferência de um dia para o outro. É bom? Eis uma questão despropositada. O IMDb ordena os filmes segundo as receitas recolhidas. A comunidade científica pesa os investigadores em função das citações e das referências.

Quino. Plantando ideias.
Um cientista que recicla uma ideia há mais de dez anos tem, provavelmente, mais notoriedade do que um colega que desenvolve, todos os anos, ideias geniais, mas que, por qualquer motivo, as não mobiliza no circo da repetição. No circo da repetição, há círculos de repetição. Sabe-se muito destes e pouco daqueles. Acode-me, em noites sonâmbulas, que a ciência avançada assenta numa burocracia sofisticada, capaz de tudo e todos classificar, comparar e contabilizar. Presta-se, porém, a enxertos tribais de longo alcance, glocais e globais. Cerca de quatrocentos anos após a morte de Galileu, a ciência depara-se com um novo dogma: a repetição virtuosa.
Embalar a felicidade
Houve tempos em que se criava aquilo que se dava. Com a prenda, ia parte da pessoa. Eram “boas obras”! Hoje, compra-se o que se dá. Vendemo-nos embalados. Em vez de boas obras, temos boas mercadorias. “A felicidade não se compra”, mas vende-se! O pai queria criar uma prenda pessoalizada. Estamos na ordem do desejo. O pai acaba por comprar uma Play Station 4. Cedeu ao princípio de realidade. Este anúncio é ousado. O sonho da dádiva pessoalizada resiste e há muito quem suspeite da massificação pela mercadoria. Talvez a Play Station 4 esteja para além do desejo e da realidade.
Marca: Otto. Título: Handmade. Agência: Heimat, Berlin. Direcção: The Perlorian Brothers. Alemanha, 2014.
A coisa
“Sem a nomear, vou falar dela” (Georges Moustaki). Nunca colheu tanta atenção. Deu azo a uma bolha opinativa comparável à falência do BPN, ao regresso de José Sócrates ou à demissão irrevogável de Paulo Portas. Despoletou tamanha nuvem de palpites que quase eclipsou a agenda política mais os comentários desportivos. Entre socorristas e cangalheiros da coisa, as palavras atropelam-se, pouco informam e muito julgam. Enfática e repetitiva, a troca de opiniões lembra um coro de Wagner em disco riscado: na televisão, nas redes sociais, no correio electrónico. Não há modo de lhe escapar. O que vale é a opinião ser um bem sui generis que se pode dar sem se ter. Um dia, coloco-me a seguinte pergunta: um país com muita opinião publicada é um país com uma opinião pública forte? Há países onde uma tragédia humana merece consternação, respeito e reserva. Noutros, funciona como rastilho de uma verborreia colectiva.
Trabalho em férias
Cada vez se trabalha mais, cada vez se vale menos. Ainda bem que a lei prevê as férias:
“A finalidade das férias é «possibilitar a recuperação física e psíquica do trabalhador e assegurar-lhe condições mínimas de disponibilidade pessoal, de integração na vida familiar e de participação social e cultural», conforme estabelece o n.º 2 do artigo 171.º do RCTFP, o que justifica a imperatividade do respectivo regime, designadamente no que concerne à obrigatoriedade do seu gozo e à fixação da sua duração mínima.” (Despacho n.º 4932-A/2011).
E se as férias fossem trabalhadas? Por que carga de água? Por exemplo, por motivo de avaliação. Férias com urgência avaliativa… Nos últimos tempos, a avaliação avolumou-se mais do que o défice, o choque tecnológico, as indústrias criativas ou o empreendedorismo. A avaliação não é o submarino, a avaliação é o balão do país. Para que serve? Para fins que a gente não vê nem percebe. Talvez dê jeito para transformar um acto de potência em acto de direcção (Jean Baechler, Le pouvoir pur, Paris, Calmann Lévy, 1978) e levar a água, abençoada, ao moinho. Perversidades (Raymond Boudon, Effets Pervers et Ordre Sociale, Paris. P.U.F, 1977).
Nasci antes da guerra colonial. Não me lembro de tropeçar em tanta sede de poder e em tanta prepotência como nos últimos anos.
Quando se tem férias trabalhadas, sente-se uma espécie de “déconfiture”, como canta Isabelle Mayereau, desconhecidíssima mas imitadíssima, Chevalier des Arts et des Lettres, pelo Ministério da Cultura francês, em 2010. Une déconfiture, um descalabro… Valha-nos uma Quinoterapia.
Isabelle Mayereau. Déconfiture. Déconfiture. 1979
Déconfiture
Je sens comme une déconfiture
Un bout de gâteau dans le thé
Comme un immense, immense mur
Un chewing-gum trop mâché (x2)Tu sens comme une drôle d’aventure
Où tu vas te risquer
Comme un bleu trop violent d’azur
Comme un vieux jean usé (x2)Je sens comme une presque blessure
Comme un nuage dans le thé
Comme une pomme acide pas mûre
Comme un pétard mouillé (x2)Tu sens comme une éclaboussure
Comme un peu de rhum dans le thé
Comme un vent trop violent qui dure
De l’eau dans le canoë (x2)Je sens comme une déchirure
Un bout de citron dans le thé
En quelque sorte, une éraflure,
Des bleus presque violets (x2)Il reste de cette mésaventure
Un peu de sel dans le thé
Des ecchymoses, des courbatures,
Une envie de pleurer (x2)Paroles et Musique: Isabelle Mayereau 1979
Com o Estado às Costas
Quando observamos, obcecamos. A realidade dança com os nossos fantasmas. Depois de aquecer o olhar com alguns cartoons (ver galeria), o que vislumbramos no anúncio Carry, da Adidas (2004)? O trabalhador português sobrecarregado com taxas e impostos?
- Fig 1. Quino
- Fig 2. Quino
- Fig 3. Plantu
- Fig 4. Plantu
- Fig 5. Rafael Bordalo Pinheiro
- Fig 6. António Maia
Marca: Adidas. Título: Carry. Agência: TBWA\CHIAT\DAY, USA, San Francisco, Direção: Chuck McBride. EUA, 2004.
A comunicação e a cidadania moram ao lado
Lembram-se do Quino? E da Mafalda? Houve mais Quino para além da Mafalda…
- Quino 1
- Quino 2
- Quino 3. Abaixo a sociedade de consumo
- Quino 4
- Quino 5
- Quino 6










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