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Arrumar sombras

Se te apetece

Vem
limpa as lágrimas.

Se te apetece gritar, grita
Não cales a dor que te rompe a alma
nem a tempestade que te mareja os olhos.
Não temas ventos esquivos que te derrubam
nem ondas que te rasguem a pele.

Vem
eu ensino-te a arrumar as sombras
e a disfarçar as feridas
que vagabundeiam pelo teu corpo
amotinado.

©Fátima Guimarães in A VOZ do Nó

Não consigo resistir ao prazer de partilhar um pequeno mas generoso poema, uma espécie de carícia reconciliadora, da Fátima Guimarães

Inspirado no encontro entre Alexandre o Grande e Diógenes, costumo alertar para a sombra que difundimos sobre os outros, mormente quando nos consideramos iluminados.

A propósito das comemorações do 25 de Abril, escrevi recentemente: ” A defesa da democracia requer alguma humildade (democrática), mormente ponderação na sombra que se projeta sobre os outros. Amarga ironia seria regar cardos com a água dos cravos. Convém não esquecer o provérbio alemão: “As árvores grandes dão mais sombra do que fruta”.

“Arrumar sombras”. Surpreende-me e seduz-me esta magnífica expressão. Representa, aliás, algo de que estou a precisar. Ressoa a apaziguamento e disponibilidade. Quando muito, uma ou outra reticência quanto ao alcance desta jardinagem do sombrio. Paradoxalmente, as nossas sombras, embora nos estejam vinculadas, resultam difíceis de controlar. Talvez a poesia possa ajudar!

Passei uma década a envelhecer precocemente. Nos últimos três anos, tenho recuperado. Como que rejuvenesço. “Recuo”, agora, meio século recordando-me dos Camel. Sombras lunares no mar da memória! Talvez esteja a aprender a arrumar sombras.

Camel – Selections From The Snow Goose. 1975 (Live At The BBC, London – 1975 – Medley)
Camel – Preparation. The Snow Goose. 1975

Sem Meio Termo: Poesia da Vida e da Morte e Canções de Não Sobrevivência

António Joaquim Costa. Poesia da Vida e da Morte. Companhia das Ilhas. 2024

“Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente!
Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.” (Apocalipse 3:15, 16)

Tenho uma costela de colecionador. Foram selos, minerais e outras preciosidades; agora, imagens, músicas e desenganos. Também medicamentos. Nove difeentes, alguns várias vezes ao dia. Comecei ontem mais um. Para a tensão. Anda alta (tanto que declinei o convite para participar hoje, 25 de Abril, num painel de 2 horas mum canal de televisão).

Nove medicamentos; outras tantas maleitas. Estou a aproximar-me de uma espécie de “transumano”. Como “parar é morrer”, não paro. E quem anda à chuva… Cismo, mesmo assim, que uma décima da tensão se deve à leitura de alguns poemas pouco ou nada apaziguadores.

Muitos sociólogos, à semelhança, por exemplo, dos médicos, namoram as artes e as letras. É o caso do Joaquim Costa que, inspirado, se dedica à poesia. Versos de uma lucidez crua e incisiva que desarmam e desconcertam. Tudo menos escrita morna. Qualidades raras! Percorri de fio a pavio o livro Poesia da Vida e da Morte (Companhia das Ilhas, 2024) e retive, para partilha, uma dúzia e meia de poemas, ciente de que numa segunda leitura, outra seria a escolha. E assim sucessivamente. Segue uma pequena compilação.

Os versos do Joaquim lembraram-me algumas canções, mais de morte do que de vida, de não sobrevivência, todas pouco ou nada relaxantes.

Atendendo ao momento [na rua entoa a Grândola Vila Morena], logo acudiram: Menina dos olhos tristes, de Adriano Correia de Oliveira (1969); Canta camarada (1969) e Cantar alentejano (1971), de José Afonso; e Manolo Mio, da Brigada Victor Jara (1977). De chorar por mais.

Adriano Correia de Oliveira – Menina dos olhos tristes. EP Fado de Coimbra. 1964
José Afonso – Canta camarada. Single. 1969
José Afonso – Cantar alentejano. Cantigas de Maio. 1971. Ao vivo com Rui Pato, no Teatro Avenida em Coimbra.
Brigada Victor Jara – Manolo Mio. Eito Fora. 1977

Nem de aqui, nem de além

Jacob Jordaens. Diógenes à procura de um homem honesto. 1642

“Ayer soñé que podía y hoy puedo” (Facundo Cabral)

Prefiro abraçar o próximo a chegar longe. Um abraço franco e aberto para deixar o outro desconcertar-me. Por exemplo, Facundo Cabral. Argentino, “mensageiro mundial da paz” pela UNESCO em 1996, foi assassinado a tiro no dia 9 de julho de 2011, na Guatemala, fez ontem 12 anos. Estimava-o como um Diógenes contemporâneo.

Facundo Cabral. No soy de aquí, ni soy de allá / Me gustan los que callan (ao vivo). Facundo Cabral. 1971

Me gustan los que se callan
No Soy de aqui, ni soy de allá
Facundo Cabral

Me gustan los que se callan
Y me gustan los que cantan
Y de tanto andar conmigo
Me gusta lo que me pasa
Me pasan cosas como esta
Aunque no tenga importancia andar contándole a todos todas las cosas que pasan
Porque uno no vive solo
Y lo que a uno le pasa le está sucediendo al mundo
Única razón, y causa
Pues todito es tan perfecto, porque perfecto es Dios
Que se mueve alguna estrella cuando arranco una flor
Por eso si hay uno, hay dos

Supe del diablo la noche al que al hambriento dije no
También esa noche supe que el diablo es hijo de Dios
Ando solo por la vida con un tono y dominante
Modestamente cantor sin pretención de enseñar
Porque si el mundo de redondo, no sé que es ir adelante

Andar y andar, siempre andando nada más que por andar
No vine a explicar al mundo
Solo lo vine a tocar
No quiero juzgar al hombre, al hombre quiero contar
Mi condición es la vida y mi camino cantar
Cantar, y comentar la vida
Es mi manera de andar

Un día llegué a Tandíl
Y conocí a un anciano que a falta de inteligencia se le dió por ser muy sabio
Le pregunté por Jesús una noche al lindo viejo
Y esa misma noche lo conocí
Cuando me alcanzó un espejo

Yo bailo con mi canción y no con la que me toca
Yo no soy la libertad, pero si el que la provoca
Si ya conozco el camino, por qué voy a andar acostado
Si la libertad me gusta, pa’ qué voy a vivir de esclavo

Elegir
Yo siempre elijo más que por mí, por mi hermano
Y si he elegido ser águila es por amor al gusano
Prefiero seguir a pie y no en caballo prestado
Alguien por una manzana, pa’ siempre quedó endeudado

Siempre se llega primero el que va más descargado
El día que yo me muera no habrá que usar una balanza
Pues pa’ velar a un cantor con una milonga alcanza

Doy la cara al enemigo la espalda al buen comentario
Porque el que acepta un halago empieza a ser dominado
El hombre le hace caricias al caballo, pa’ montarlo

Perdón si me propasé y me puse moralejo
Nadie puede dar consejos
No hay hombre que sea tan viejo
Me pongo el Sol al hombro
Y el mundo es amarillo

Me gusta andar
Pero no sigo el camino pues lo seguro ya no tiene misterio
Me gusta ir con el verano muy lejos
Pero volver donde mi madre en invierno

Y ver los perros que nunca me olvidaron
Y los caballos, y los abrazos que me dan mis hermanos

Me gusta
Me gusta

Me gusta
Me gusta el Sol Alicia y las palomas
El buen cigarro y la guitarra española
Saltar paredes y abrir las ventanas
Y cuando llora una mujer

Me gusta el vino tanto como las flores
Y los conejos pero no los tractores
El pan casero y la voz de Dolores
Y el mar mojandome los pies

No soy de aquí
Ni soy de allá
No tengo edad
Ni por venir
Y ser feliz, es mi color de identidad

Me gusta estar tirado siempre en la arena
O en bicicleta perseguir a Manuela
O todo el tiempo para ver las estrellas
Con la María en el trigal

No soy de aquí
Ni soy de allá
No tengo edad
Ni por venir
Y ser feliz, es mi color de identidad

O ar e a água, a voz e o sonho, numa tarde de domingo

O quarto anjo toca a trombeta (Apocalipse 8). Iluminura do Beatus de l’Escorial, ca. 950-955.

“Dorme com os anjos e sonha comigo porque um dia poderás dormir comigo e sonhar com os anjos” (anónimo)

O Tendências do Imaginário é um blogue unipessoal nada participado. Tenho sonhado com o oposto, com uma alternativa. Está, nesse sentido, em vias de construção um blogue coletivo que reúne autores amigos das áreas da cultura, da arte e do imaginário. Por enquanto, sempre que se proporcione, atrevo-me a abrir exceções convocando uma ou outra pessoa. É o caso deste recanto que dedico à Almerinda Van Der Giezen: deu-me a conhecer Meredith Monk e enviou-me, há tempos, o seguinte texto que rivaliza com os melhores escritos dos melhores sonhadores de estórias.

Meredith Monk & Collin Walcott. Cow Song. Our Lady of Late. 1973. Banda sonora da série Dark. Netflix. 2017

[Nina e Saul]

por Almerinda Van Der Giezen

“Nina disse a Saul:
– Que querem dizer estas palavras?
E Saul respondeu:
– Pensei que querias brincar.
Ao que Nina replicou:
– Magoa?”
Saul correu, com as mãos a cortar o vento e gritou:
– Nina! Nina! Onde estás?
Silêncio.
Ouvia-se apenas um assobiar baixinho, por entre as moitas. Nina espreitava, com o olhar acossado, vigiava todos os gestos de Saul.
Quando ele de súbito a viu, estremeceu. Disse-lhe:
– Não tenhas medo. É só a brincar.
Nina foi escorregando pelo chão, muito cautelosa, até chegar a Saul.
Olhou-o muito séria e perguntou-lhe:
– Quanto é a “a brincar”?
Saul tem largos horizontes dentro, a brincar com as fronteiras.
Irradiante, secreto algoz, acomete-se na missão de ser, não sendo.
Tem o olhar fundo e maduro de quem sabe o tempo e ri, ri muito, estremece as casas com o ruído do seu desejo.
Mas, num soluço interior, enrola-se, quedo. Tem medo de não ser feliz.
“Vamos brincar “, diz à Nina.
Nina tem perguntas simples de respostas impossíveis, um olhar muito aberto a querer saber o mundo, muita inocência, muito medo.
Quer correr contra o vento, subir aos montes, molhar os pés no mar, fazer castelos na areia, rir…rir muito.
Mas pergunta: “Magoa?” “Quanto é brincar?”
Dois sopros contra um muro.
Dois trovões.
Estava Saul sentado na beira do caminho, os braços e o rosto pendentes.
Quieto.
Nina abermou-se dele. Aninhou-se a entrar em seus olhos escondidos.
– Tens medo?, perguntou-lhe.
Saul titubeou as pestanas e, confuso, disse, para o vento:
– É longe de chegar.  Onde se começa?
Nina sorriu, gaiata. Olhou as flores minúsculas que bordavam a vereda, e o horizonte sem fim.
– Não é tão bom ser o infinito? Vamos descobrir os duendes na curva da estrada.  Enganamo-los?
Saul levantou de súbito a cabeça, incrédulo, e riu, riu muito, de Nina. Para Nina. Ficou aos pulos de contente, disse até:
– Conheço aquele malandro de barbas ruivas e dentes podres de comer amoras. Vou fazer-lhe uma que não vai esquecer.
E continuava gargalhando, sem querer caminhando pela estrada que tanto o acabrunhara. Agora era ele que contava histórias loucas a Nina que, secreta, reinventava a força de prosseguir. “Tanto tempo!”, pensava, “vou fazer de conta que estamos no mar”.
E assim foram os dois cabriolando no céu limpo de dores, velhos êxtases, sensabores.
Era o prazer de voar. “
O mar.
Saul a chorar, copiosamente.
Nina, tão muda, olhando-o.
O sol, quente, a brilhar.
Silêncio.
Cintilação.
Nina, tão muda, olhando.
Saul que sorri, sereno.
Nina, tão muda.
Ali.
Saul havia-lhe feito recordar: a alegria, o riso, a leveza, o voo.
Agora Nina perguntava:
– Dói-te, o mar?
Saul, a pele branca do salitre, tardava em responder.
Nina ajeitava o mar, com lentidão, com toda a paciência. As ondas iam, e vinham bater nas suas mãos abertas, e escorregavam pelos dedos, sem pressa, até formar um fiozinho brilhante que deixava um rasto vivo na areia.
Saul mirava o horizonte, com o queixo levantado, como se assim segurasse o eixo do mundo. Lembrava a Nina aquelas figuras prestes a conquistar o vento. Faltava-lhe apenas uma vela.
O vento assobiava, a rasar os cabelos e a pôr gotas no olhar.
Fitavam os dois o risco.
Sonhavam.
Saul virou as costas a Nina, caminhando pela areia, rumo ao tempo. Ela lembrava-lhe as dores dos primeiros passos, os tropeços, as corridas nos labirintos. E… não. Nina não entendia, levava-o para o remoinho. E olhou subitamente para a água, que remexeu em espiral, junto aos seus pés, plantados.
Ouviu a voz de Nina:
– Também estás aí. Podes fugir, mas as voltas enredam-se em ti.
– E tu? – pergunta Saul, sem se virar.
– Eu não sou um enredo.
– Porquê?
– Dou-te a mão.
– E se eu não quiser?
– A mão é longa e transparente, nunca te cortará.
– E se eu ainda não quiser?
– É porque pensas que eu quero.
– Não?
– Não.
– Explica-me.
– Quando brincávamos… lembras- te quando eu te fazia fintas e tu me insultavas?
– Às vezes era um sufoco.
– A minha mão estava sempre na tua.
– Eu não queria.
– Não querias, mas aquietavas-te.
– Tu, às vezes…
– Demais?
– Demais, sem mais – disse ele.
– Demenos, sem menos – disse ela.
– Queres que me volte? para o lado? para trás?
– Gostava que visses onde estou.
– Atrás de mim.
– Vê.
Saul virou-se bruscamente. Nina brincava com as ondas, em direcção ao mar. Abria os braços, com deleite, o peito aberto à brisa suave e melodiosa que enchia o ar.
– E agora, Nina, que me queres dizer?
– Quero dizer-te…
E, num gesto firme, Nina pegou-lhe na mão e levou-o para as ondas. Sentou-se na água, e pediu:
– Conta-me a história da amizade. O mar não sabe falar, e eu, às vezes, perco-me nas ondas.
– Eu tenho medo das ondas.
– Tens medo de mim?
Saul olhou-a. Saberia responder? Teve vontade de deixá-la de novo e voltar a caminhar na praia. Ela e aquelas perguntas…
Nina sorriu e disse-lhe:
– Lembras-te do amigo que ninguém te roubaria, porque ninguém sabia? Porque ninguém podia?
E acrescentou:
– Tenho a memória funda. E sou inviolável. Não queres ficar?
Saul sentou-se à beira dela, perguntou:
– Como é “querer ficar”?
Nina deu-lhe a mão. Olhou o mar. Disse:
– Sabes, é bom ter-te a meu lado…para perguntar-te coisas…
Saul, de repente, ficou com o rosto afogueado, a pergunta a queimar-lhe a garganta.
Nina não sabia se era a água salgada, se a inocência cruel que sustinha aquele nó. Saul olhava-a em súplica, sem emitir um som, fundo de uma espécie de agonia que Nina aplacava com o pensamento, dizendo, para si
” os caminhos da iniciação são fundos e feitos de lajedos; é preciso inscrever aí a pele”
Nina, me-nina!
Retornou ao lugar. A memória havia-a levado longe do horizonte, e Saul surtia no brilho do clarão verde, um susto de beleza.
“Adeus, Saul”, apeteceu dizer-lhe. Mas lembrou-se como essa palavra era tão “olá, como vais?”
– Vou viajar, responde-lhe Saul – não sei como voltarei. Trar-te-ei um pouco dos dias para que tu me contes uma história para eu adormecer.
– É, eu nunca fico. Realmente.
– Não querias?
– Gostaria, com amor.
Saul não se cansava de se surpreender. Que lhe dizia ela? Com amor? De que falava?
– Falo-te do futuro, das minhas memórias lendárias, do sopro que alimenta o mundo. Sabes como fantasio…
Saul deu-lhe um beijo, um segundo beijo, avidez, os lábios derrapando na pele de Nina. Que tormentos?
Deixou-a ir, com placidez, não a viu olhar para trás. Também não olhou para trás.
Sorriem. O vento já sopra baixinho, o mar veste-se de luz e a areia gorgoleja fantasticamente na pele do tempo. Sudações do Verão.
Verão.
Meninos caminhando na praia, com puro ardor no calor do
Verão. As ondas vão e vêm, afagando-lhes os pés cansados. Riem. Atiram pequenos seixos ao largo. Correm na desmesura do sossego quieto da tarde cálida.
Meninos. Caminhando na praia.
Mas o Verão ainda não havia chegado.
O mar continuava revolto e Saul, incólume, virava-lhe as costas, construindo as suas ameias, enfeitadas de conchas e algas esquecidas. Apenas, de quando em quando, mirava de soslaio o mar, não fosse surpreendê-lo, e ao seu castelo murado.
Nina, ao longe, alargava os passos, vagarosa. Num tropeço, caiu sobre si, e foram os seus soluços estremes que acordaram Saul. Caminhou até ela, mais curioso que preocupado, certo da fortaleza de Nina, suave declinar nas palavras.
Quando se aninhou junto dela, teve de lhe erguer a cabeça, que ela teimava em enfiar entre os joelhos, balouçando-se para trás e para a frente, as mãos cerradas como punhos, donde se escoavam grãos de areia.
Olhou-a. Pela primeira vez.  Olhou-a no fundo dos seus olhos e viu, viu tudo. O horror, a tristeza infinda, a ternura, a sede, a dor, a transparência. Apeteceu afogar-se ali, naquele mar de solidão. Perguntou-lhe assim:
– Que foi, Nina?
– A areia está a transformar-se em sal. Que faremos da cegueira? – e, ao dizer isto, lágrimas de areia perdida rolavam pela pele branca de espuma.
Saul teve o primeiro gesto de marinheiro da sua vida. Inclinou-se, e delicadamente, com a ponta dos seus dedos, retirou, um a um, os grãos do sal mordente do rosto de Nina.
Ela olhou-o longamente, a mágoa a sumir-se na luminosidade reencontrada. Agradeceu-lhe:
– Sabes, tenho uma vela de um barco antigo, lá, no meu sótão. Está um pouco rota, mas cosê-la-ei para ti.
E sorriu. Com mil estrelas.
Saul baixou a cabeça, timidamente, e foi até ao mar. Juntou alguma água entre as mãos e foi regar o seu castelo, vendo-o desfazer-se lenta e docemente.
Disse a Nina:
– O Verão está a chegar.
– Saul?
– Nina…
– É tempo de ir à floresta.
– E o barco?
– É o sonho…
– E o frio, as sombras?
– É só o medo. As sombras são as nossas mortes.
– E os picos, as silvas? Como fazemos?
– Desvia-as suavemente, como se as afagasses, e a dor não te cortará. Respira a floresta como se faz o amor.
– Nina, preciso de luz.
– Há sempre uma clareira na floresta, Saul.
– E duendes?
– Estamos no tempo das cerejas. Divertem-se a construir pequenas casas com os caroços e os seus telhadinhos feitos de caules. Abrigam-se no tronco da cerejeira louca com flores do Japão. Outros, armam-se de fisgas, a desafiar os ouriços do castanheiro bravio. Existe também uma pequenina fada, com cabelos de miosótis, que tinge os lábios nos morangueiros silvestres. E à noite, o céu deita-se na erva fofa e salpica-se de todas as estrelas sonhadas pelo arco-íris. A lua cobre todos os segredos. Há quem diga até, que nessas noites quentes e azuis, o velho e sábio carvalho entra nas danças de roda, e de mãos dadas com as campainhas cor de oiro, se faz rosado de luz, e ri, muito verde, feito menino. A terra sussurra músicas encantadas e os musgos acariciam-lhe o ventre. Os pirilampos espreitam no meio dos embaraçados arbustos que tapam a vereda. No pequeno lago, os nenúfares bailam, de mansinho, e pedem…um toque de pétala…uma asa de borboleta…
– Nina?
– Saul…
– É tempo de irmos à floresta.
– Depois ensinas-me o mar? “
(Almerinda Van Der Giezen)
Meredith Monk. Do You Be. Key. 1971
Meredith Monk. Memory song. Do You Be. 1987. Bang on a Can All-Stars com Meredith Monk, Theo Bleckman & Katie Geisinger, 2011

De uma extremidade à outra

Grandes Heures de Jean de Berry. 1400-1410. Fonte: gallica.bnf.fr / Bibliothèque nationale de France.

A uma amizade reencontrada

olhamos para o lado
uma criança chora
esquecida da dureza do vento
quando a terra é seca
e os cardos invadem as dunas

leva no olhar o sal
nas mãos um barco de papel
asas longas
à espera de um sopro
e um bafo quente
de boca interior

não bastam as pegadas na areia
pés de planta augada

erguemos o rosto
beijamos a espuma dos dias
perguntamos

e se a morte não basta?

(Almerinda Van Der Giezen. Excerto de poema)

Vivemos tempos ambivalentes. Aliás, o mundo sempre foi ambivalente. A lentidão convive com a aceleração e a luxúria com a humildade. Juntas, vizinhas ou à distância. Ora devoramos, ora ruminamos. Ávidos ou resignados, “vogamos num meio vasto, sempre incertos e flutuantes, impelidos de uma extremidade a outra” (Pascal, Blaise, Pensamentos, Artigo XVII – Conhecimento geral do homem). Consoante o estado do mar.

Criativos e invulgares, os anúncios Dry e Second Edition, da, Zara justificam uma atenção e um olhar redobrados.

Marca: Zara. Título: Dry. Produção: Smuggler. Estados-Unidos, julho 2022.
Marca: Zara: Título: Second Edition / An audiovisual poem inspired by Bob Marley. Abril 2022.

Os avatares do Tendências do Imaginário

Tetramorfo. Símbolos dos quatro evangelistas – humano, S. Mateus; leão, S. Marcos; touro, S. Lucas; águia, S. João. Livro de Kells, por volta de 800.

“Car je est un autre” (Arthur Rimbaud, carta a Paul Demeny datada de 15 de maio de 1871).

Tenho três avatares: o Dionísio, o mais trágico e cínico; o Porfírio, o mais prometeico e entusiasta; e o Amâncio, o mais poético e sensível. Cada um é responsável pelo que assina e todos me fazem companhia. Seguem três exemplos de assinaturas:

– Uma máxima do Dionísio:

                “Nunca desvalorizar os seres humanos, mas descrer sempre deles”.

– Um anúncio que convence o Porfírio:

Marca: Ariston Aqualtis. Título: Underwater World. Agência: Leo Burnett Italia, Milan. Direção: Dario Piana. Produção: FilmMaster, Milan. Pós-produção: BUF, Paris. 2006. Prémios: Gold Lion at the Cannes Lions International Advertising Festival in 2006; Grand Clio Award in 2007.

– E um vídeo musical que comove o Amâncio:

Vangelis. Ask the mountains. Pulse. Voices. 1995. Fonte: Akeldama חקל דמא.

La esperanza caminando despacito

Hébert Franck. L’Attente.

Una soledad que no acaba

Uno sale de uno

– un día –
y se encuentra
Y sín saludarse se reconoce.

Entonces se ve:
– el alma encogida,
– arrugas en la sinceridad,
– un dolor por ahí,
acurrucado
(como un niño poeta frente a la muerte),
y la vida,
caminando despacito,
despacito,
encorvada…
(René Bascopé Aspiazu. Las Cuatro Estaciones. Ed. La Mariposa Mundial. La Paz, Bolívia. 2007).

Astor Piazzolla. Milonga Del Angel. 1965. Ao vivo.

Uma solidão que não acaba

Um sai de si próprio

– um dia –
e encontra-se
E sem saudar-se reconhece-se

Então vê-se:
– a alma encolhida
– rugas na sinceridade
– uma dor ao redor,
de cócoras
(como uma criança poeta face à morte),
e a vida,
caminhando devagarinho,
devagarinho,
encurvada…
(René Bascopé Aspiazu. Las Cuatro Estaciones. Ed. La Mariposa Mundial. La Paz, Bolívia. 2007).

História de um melro que morreu por ser feliz

Pablo Picasso. Visage de la paix IV. 1950.

Um melro costuma fazer ninho no quintal. Atarefado, tem-se saído bem com os gatos. Pior destino teve “o melro” do Guerra Junqueiro, vítima da vingança do Velho Padre Cura, num extenso conto em verso que o meu avô recitava de cor. Segue a digitalização do poema “O Melro” a partir da segunda edição ilustrada do livro A Velhice do Padre Eterno (1ª edição: 1885). Segue o respetivo pdf,

Quem fala em melros, pode falar em rouxinóis. Porque a opressão e a maldade não têm pouso exclusivo. Ao melro raptaram-lhe os filhos; ao rouxinol da Cantilena de Francisco Fanhais cortaram quase tudo.

Francisco Fanhais. Cantilena. 1969. Poema de Sebastião da Gama.

Com imagens pode dizer-se muito. Com poucas imagens pode, por vezes, dizer-se ainda mais. Na curta-metragem dos bauhouse, sopra-se no medo e na esperança até que explodem como tiros e bombas. Porque as nossas asas são tão frágeis como as dos pássaros.

bauhouse. Momentum 2015 – Video Installation. 2015. Curta-metragem.

Condenados

Marca: Galeries Barbès. Título: Condamné à mort. França, 1935.

Sem anúncios, nem alusão à morte, o Tendências do Imaginário está descaracterizado. Urge reparar.

Encontrei na página Culturepub o anúncio Condamné à mort, das Galerias Barbès, datado de 1935. Uma relíquia estranha! Numa cena de fuzilamento, os soldados não obedecem à ordem de “fogo” do oficilal. Em vez de disparar, mostram caixas de fósforos. Na verdade, recusam-se a disparar, não contra o condenado que fuma um despreocupado cigarro, mas contra a cadeira onde este está sentado. O oficial não tem outro remédio senão libertar o prisioneiro. Um anúncio a uma marca de tabaco? Só se for subliminar ou currículo oculto. Trata-se de um anúncio às Galerias Barbès onde a cadeira pode ser comprada. Carregar na imagem acima para aceder ao vídeo.

Alexandre Parafita. Mitologia Popular Portuguesa. 2021.

Ando entretido com o livro Mitologia Popular Portuguesa, de Alexandre Parafita, publicado em novembro de 2021. Inclui um poema que me apraz partilhar.

O CASAL DE ANCIÃOS E A MORTE

Conta-se que outrora havia
Em certa aldeia do norte
Dois anciãos, noite e dia,
Sempre a cismar com a Morte.

“- Oxalá na frente eu vá! –
Dizia sempre o velhinho.
– Não me vejo andar por cá
Co’ a falta do teu carinho”

E, ouvindo tal, a mulher
Responde-lhe sempre assim
“- Se a Morte por’ i vier,
Que me leve antes a mim!”

Nisto, uma pancada forte
Na porta se faz ouvir
“- Quem vem l´?” “- Sou eu, a Morte,
Quero entrar, venham abrir.”

E logo cheio de medo,
Diz o homem p’rá mulher:
“- Tenho um pé com formigueiro,
Vai lá ver o que quer!”

“Mas eu não posso! – diz-lhe ela –
Estou bem pior do que tu.
O formigueiro que tenho
Chega-me dos pés ó cu”.

Estavam assim nesta faina,
Sem vontade de lá ir,
E a Morte sempre a dizer:
“Vamos lá, venham abrir”

Até que farta e irritada,
Que faz a Morte depois?
Entrou com a porta fechada
E, em vez de um, levou os dois.

(Alexandre Parafita. Mitologia Popular Portuguesa. Sintra: Zéfiro. 2021, p. 100-101).

Por quem dobram os sinos?

Esta imagem tem um texto alternativo em branco, o nome da imagem é tintinabulo-de-bronze.-gladiador-lutanto-com-a-sua-pantera.-ruinas-de-herculano.-museu-arqueologico.-napoles.-a.d.-1-500..jpg
Tintinábulo de bronze. Gladiador a lutar com a sua pantera. Ruínas de Herculano. Museu Arqueológico. Nápoles. A.D. 1-500.

“Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todos são parte do continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa ficará diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti” (John Donne. “Meditação XVII”, 1623), do livro Devotions Upon Emergent Occasions. 1624).

Para os amigos do Brasil, duas obras de autores/artistas portugueses.

João Villaret. A Procissão. de António Lopes Ribeiro. RTP. Década de 50.
GNR. Sentidos Pêsames. Os Homens Não Se Querem Bonitos. 1985.

Procissão

João Villaret

Vou lhes dizer
Procissão
Festa na aldeia

Tocam os sinos na torre da igreja
Há rosmaninho e alecrim pelo chão
Na nossa aldeia, que Deus a proteja
Vai passando a procissão
Mesmo na frente, marchando a compasso
De fardas novas, vem o solidó
Quando o regente lhe acena com o braço
Logo o trombone faz popopó, popó, popó

Olha os bombeiros, tão bem alinhados!
Que se houver fogo vai tudo num fole
Trazem ao ombro brilhantes machados
E os capacetes rebrilham ao sol

Tocam os sinos na torre da igreja
Há rosmaninho e alecrim pelo chão
Na nossa aldeia, que Deus a proteja!
Vai passando a procissão

Olha os irmãos da nossa confraria!
Muito solenes nas opas vermelhas!
Ninguém supôs que nesta aldeia havia
Tantos bigodes e tais sobrancelhas!

Ai, que bonitos que vão os anjinhos!
Com que cuidado os vestiram em casa!
Um deles leva a coroa de espinhos
E o mais pequeno perdeu uma asa!

Tocam os sinos na torre da igreja
Há rosmaninho e alecrim pelo chão
Na nossa aldeia, que Deus a proteja!
Vai passando a procissão

Pelas janelas, as mães e as filhas
As colchas ricas, formando troféu
E os lindos rostos, por trás das mantilhas
Parecem anjos que vieram do céu!

Com o calor, o Prior vai aflito
E o povo ajoelha ao passar o andor
Não há na aldeia nada mais bonito
Que estes passeios de nosso senhor!

Tocam os sinos na torre da igreja
Há rosmaninho e alecrim pelo chão
Na nossa aldeia, que Deus a proteja!
Já passou a procissão

Fonte: Musixmatch

Compositores: Varios Artistas / António Lopes Ribeiro

Sentidos Pêsames

G.N.R

Ele há gente que vive de si
Ele há vícios de que a gente se ri
Todos me falam, nunca os conheci
Assisto ao seu enterro metam-nos pr’aí

Os meus sentidos pêsames
Que pena não viveres mais aqui

Ele há músicos que eu nunca ouvi
Ele há estilistas que eu nunca vesti
Ele há críticas que eu nunca percebi
E até managers de quem nada recebi

Os meus sentidos pêsames
Sinceros parabéns por desistires de vencer
Os meus sentidos pêsames
Saudades de quem não se sabe vender aqui

Onde eu já vivi, sem saber como nem quando, onde eu já dormi
Condolências p’ra quem continua sem saber o que faz aqui
E como eu só vivi, também já acordei um dia sozinho
E no entanto, no entanto lembrei-me de ti

Aceita as condolências, deixa-te morrer, não fazes falta aqui
Quando te fores haverá sempre elogios
E alguém que se riu de ti

Onde eu já vivi

Fonte: MusixmatchCompositores: Rui Reininho / Alexandre Soares / Gnr