Arrumar sombras

Se te apetece

Vem
limpa as lágrimas.

Se te apetece gritar, grita
Não cales a dor que te rompe a alma
nem a tempestade que te mareja os olhos.
Não temas ventos esquivos que te derrubam
nem ondas que te rasguem a pele.

Vem
eu ensino-te a arrumar as sombras
e a disfarçar as feridas
que vagabundeiam pelo teu corpo
amotinado.

©Fátima Guimarães in A VOZ do Nó

Não consigo resistir ao prazer de partilhar um pequeno mas generoso poema, uma espécie de carícia reconciliadora, da Fátima Guimarães

Inspirado no encontro entre Alexandre o Grande e Diógenes, costumo alertar para a sombra que difundimos sobre os outros, mormente quando nos consideramos iluminados.

A propósito das comemorações do 25 de Abril, escrevi recentemente: ” A defesa da democracia requer alguma humildade (democrática), mormente ponderação na sombra que se projeta sobre os outros. Amarga ironia seria regar cardos com a água dos cravos. Convém não esquecer o provérbio alemão: “As árvores grandes dão mais sombra do que fruta”.

“Arrumar sombras”. Surpreende-me e seduz-me esta magnífica expressão. Representa, aliás, algo de que estou a precisar. Ressoa a apaziguamento e disponibilidade. Quando muito, uma ou outra reticência quanto ao alcance desta jardinagem do sombrio. Paradoxalmente, as nossas sombras, embora nos estejam vinculadas, resultam difíceis de controlar. Talvez a poesia possa ajudar!

Passei uma década a envelhecer precocemente. Nos últimos três anos, tenho recuperado. Como que rejuvenesço. “Recuo”, agora, meio século recordando-me dos Camel. Sombras lunares no mar da memória! Talvez esteja a aprender a arrumar sombras.

Camel – Selections From The Snow Goose. 1975 (Live At The BBC, London – 1975 – Medley)
Camel – Preparation. The Snow Goose. 1975

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