Parto com Presunto
A responsabilidade social das empresas consubstanciada em obras de beneficência devidamente publicitadas veio para durar. A Campofrío oferece às parturientes tantos quilos de presunto quanto o peso dos bebés. O papa Bento XVI sugere que os Reis Magos não partiram do Oriente mas da Península Ibérica. São três mas podiam ser quatro: Baltazar, Gaspar, Belchior e Campofrío, cada qual com o respetivo presente: ouro, incenso, mirra e presunto.
Marca: U.N. Navidul/Campofrío. Título: Um jamón bajo el brazo. Agência: McCann Erickson España. Direção: Víctor García León. Espanha, Dezembro 2013.
Parto no Masculino
A OK! teleseguros tem-nos brindado com uma série de anúncios com um humor franco, próximo do teatro de revista à portuguesa. Alguns apostam no equívoco, quer das personagens (e.g., Engano; Mulher; Vingança), quer dos espectadores, como é o caso do novo anúncio Parto, da OK! Saúde. Não falta imaginação! Mas a realidade ultrapassa, muitas vezes, a imaginação. Por estranho que pareça, a figura do homem “parturiente” encontra-se disseminada pelo mundo.
No País Basco medieval, existia a tradição da couvade (incubação): “o pai, durante ou logo a seguir ao nascimento da criança, deitava-se e queixava-se de dores associadas ao parto, chamando a si as atenções e os cuidados normalmente reservados à mulher durante a gravidez e depois do parto” (http://www.jeunepapa.com/grossesse-26.html).
A fazer fé nos testemunhos, o papel do pai durante o parto entre os índios Huichol, do México, assevera-se, no mínimo, desconfortável. “Segundo a tradição Huichol, quando uma mulher estava prestes a ter o seu primeiro filho, o marido agachava-se nas vigas da casa, ou nos ramos de uma árvore, acima da mulher, com cordas atadas ao seu escroto. Mal a mulher começava a sentir as dores de parto, puxava vigorosamente pelas cordas, de modo a que o seu marido pudesse partilhar a dolorosa mas, em última análise, feliz experiência do nascimento” (Berrin, Kathleen, 1978, Art of the Huichol Indians, San Francisco, Fine Arts Museums of San Francisco). O esquema da Figura 1 ilustra claramente o modo como a mulher Huichol tocava os sinos durante o parto.
Marca: OK!Saúde. Título: Parto. Portugal, Setembro 2013.
Partos extravagantes
Embora o parto seja um dos atos humanos mais íntimos, não escapa ao humor da publicidade. Em 2002, num anúncio da X-box o nascimento de um bébé assemelha-se à abertura de uma garrafa de champanhe. Neste Birth, do álbum Pocket Symphonies de Sven Helbig, o trabalho de parto é acompanhado por uma orquestra.
Fantasiar a propósito do parto, parodiar o nascimento, não é apanágio do nosso tempo. François Rabelais, num livro escrito em 1534, descreve deste modo o nascimento do gigante Gargântua, pai de Pantaguel: Gargamelle, a mãe, grávida de onze meses, empanturra-se com tripas de boi. Tanto comeu que acaba por dar à luz as próprias tripas. Com as saídas de baixo obstruídas, a criança, Gargântua, “entra na veia cava e, trepando pelo diafragma até acima dos ombros (onde a dita veia se divide em duas), tomou caminho à esquerda e saiu pela orelha esquerda. Acabado de nascer, não gritou como as outras crianças: ‘Mies! Mies! Mies!’ , mas a alta voz: ‘A beber! A beber! A beber!’, como se estivesse a convidar todo o mundo a beber.” Mas há casos mais complicados do que o de Gargântua. Nascer, por exemplo, de uma costela ou de uma coxa masculina.
Marca: Sven Helbig’s Pocket Symphonies. Título: Birth. Agência: Kolle Rebbe, Hamburg. Direção: Kai Schonrath. Alemanha, Março 2013.
Marca: Xbox. Título: Champagne. Agência: Bartle Bogle Hegarty. Reino Unido, Janeiro 2002.
Dar à luz
Excelente anúncio de sensibilização. Esquema simples, mas tocante. A comparação costuma ser todo um discurso. Lembra filme/documentário Babies (2010). Pode carregar em HD.
Anunciante: Public Service Announcement. Título: The Walk. Agência: CHI & Partners New York. EUA, Novembro 2012.
Uma realidade mais fictícia do que a ficção
Os anúncios com formato de documentário não datam de agora, mas estão francamente na moda. Foram vedetas no último festival de Cannes. Tudo serve para construir realidades, as evidenciar ou tornar palpáveis: uma instalação, uma intervenção, uma filmagem oculta, uma performance, um evento… Este notável anúncio da Ogilvy & Mather Argentina é, a esse título, um bom exemplo.
A hipermodernidade habituou-nos a ficções que são mais reais do que o real. O dispositivo de Mi primer amigo, mais do que retratar, cria realidade, com realidades. A fórmula agora é outra: cria-se uma realidade que é mais fictícia do que a ficção, com tudo o que isso comporta em termos de convicção, absorção e emoção.
Nada está ao abrigo da voracidade da publicidade. Nem o parto, nem o acto médico, nem a maternidade, nem os primeiros gestos de dois bebés. Não há honra nem vergonha, vida ou morte, tabu ou conveniência, bom ou mau gosto, religiosidade ou sentido de estado, que não possa ser tema de anúncio, que não conste do cardápio da publicidade. Também na arte, há cerca de um século, a assinatura do artista se tornou omnívora.
Marca: Huggies. Título: Mi primer amigo. Agência: Ogilvy & Mather Argentina. Direção: Ariel Evasio. Argentina, Agosto 2012.
“Con una acción muy emotiva y llena de ternura, Ogilvy Argentina y Huggies desarrollaron Mi primer amigo.
La idea principal de esta acción fue que dos bebés recién nacidos compartan una cuna especial y pasen el día del amigo juntos.
La acción se registró en la Clínica Bazterrica y contó con el apoyo tanto de los padres de los recién nacidos, como de obstetras y enfermeras del lugar.
Enzo y Thomás, los bebés protagonistas de esta historia, comenzaron sus primeras horas juntos.
Ariel Evasio, director del proyecto, comentó: “Ha sido muy buena la predisposición de Alejandro Javier Muñiz, director de la clínica, que puso el lugar a disposición para poder registrar este momento increíble que nos regalaron los recién nacidos”.
Agencia y cliente se contactaron con distintos obstetras y visitaron a las parejas que esperaban hijos en el día del amigo: “Pudimos acompañarlos en el último tramo de la espera. Compartimos la ansiedad de preparar el bolso y los seguimos hasta la clínica hasta que los dos amigos nacieron. A las pocas horas, cada uno tenía a su primer amigo al lado”, contaron.” (Adlatina: http://www.adlatina.com/notas/noticia.php?id_noticia=46816).


