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A regra e a originalidade

René Magritte. Not to be reproduced. 1937

É nos tempos de crise que se toma o pulso às instituições. Um mar de regras inunda as aulas. Espremidas como limões, vertem burocracia por todos os lados. Na linguagem de Max Weber, o professor deixou de ser uma autoridade carismática, como o profeta, e passou a deter um poder de direcção, de pastor, como o árbitro de futebol. O ensino evolui numa arena cercada por um coliseu de normas. Admito que estou a exagerar, mas a hipérbole afirma-se como um excelente artifício de comunicação. Requisitos, regras, plataformas e ferramentas, o que individualiza o ensino?

Entende a intelligentsia orgânica (para cruzar Karl Manheim e Antonio Gramsci) que uma aula ganha em ter um rosto, nem que seja estampado num ecrã. Concordo! Mas ganha em quê? Em aprendizagem? Duvido. Em “hiperritualização” (Erving Goffman)? Talvez. Todos concordamos que a sabedoria mora na testa, sai pela boca e resplandece nos olhos. Um dia, as aulas oscilarão entre o défice de atenção e o excedente de informação. Entre o défice e o excedente, repousa, recatada, a sabedoria. Normalize-se e certifique-se, que a originalidade é um estorvo.

Uma ovelha negra melancólica não resiste à voz “abrasiva” de Tom Waits.

Tom Waits. Cold Cold Ground. Franks Wild Years. 1987.
Tom Waits. Hold On. Mule Variations.1999.

Ignorância de estimação

Nietzsche

O PINTOR REALISTA
“A Natureza”; fiel e completa!” Como pode ele
chegar a isso?
Quando é que alguma vez se conseguiu liquidar a
natureza numa imagem?
A minha ínfima parcela do mundo é uma coisa infinita!
Dele só pinta aquilo que lhe agrada.
E o que é que lhe agrada? Aquilo que sabe pintar!
(Nietzsche, Frederico, 1882, A Gaia Ciência, Lisboa, Guimarães Editores, 1996, p. 31).

Abraham Kaplan (The conduct of inquiry: methodology for behavioral science, 1964) ilustra uma falácia habitual na Sociologia com a seguinte anedota:

Noite cerrada, um bêbado regressa, cambaleante, a casa. Chegado à porta, não encontra a chave. Começa a procurar. Passa um segundo bêbado que lhe pergunta:
– Que estás a fazer?
– A procurar uma chave.
– E perdeste-a junto ao candeeiro?
– Não sei! Mas aqui vê-se melhor.

Estou em crer que a falácia denunciada por Nietzsche e Kaplan é um vírus ainda activo. Investiga-se o investigado e comunica-se o comunicado. O que “se sabe pintar”. O resto pode inexistir à vontade. Estatisticamente falando, a distribuição da investigação científica por temas aproxima-se mais de uma distribuição de Student do que de uma distribuição normal. A ciência apraz-se a “chover no molhado”. Segundo Vilfredo Pareto, existem elites em todo o lado. Em todo o lado, existem membros que se destacam. Sobre as elites, produziram-se muitos estudos. Em todas as categorias sociais, existem parasitas. Um fenómeno da maior relevância. E, no entanto, pouca obra sobre o assunto. Para encontrar uma obra dedicada ao parasitismo social, convém pedir a Diógenes de Sínope a lanterna com que procura o homem. Trata-se, porventura, de uma “douta ignorância” (Pierre Bourdieu).

O mundo da ciência é uma caricatura. Quanto mais saturado está um domínio, mais rende. Mais encontros, mais parceiros, mais citações, mais revistas e, sobretudo, mais afinidades nos concursos e nos financiamentos. Se insiste em ser parvo, seja original!

Distribuição t de Student

Distribuição de t de Student

Distribuição normal

Distribuição normal

Originalidades

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O anúncio Original is never finished chapter3, da Adidas, arrisca tornar-se num marco no mundo da publicidade. Tema arrojado, imagens primorosas e intertextualidade subtil. Ironicamente, a originalidade é declamada com citações. A originalidade não acaba, recria-se. Por exemplo, a canção do anúncio, My Way, associada a Paul Anka e Frank Sinatra, é, afinal, uma originalidade francesa: Comme d’habitude (1967), com autoria e interpretação de Claude François. Nada como ser original graças à originalidade dos outros. Ser original em segunda mão. Reoriginalidades.

Marca: Adidas. Título: Original is never finished chapter3. Agência: Johannes Leonardo New York. Estados Unidos, Agosto 2017.

O romantismo atribui a originalidade ao indivíduo e ao génio. Esquece que a originalidade requer poder. Para ser original, a inteligência e a criatividade não bastam. Sem posição, alavanca e recursos, resulta improvável o reconhecimento como original. A originalidade é cada vez mais um luxo da academia dos Balnibarbos (Swift, Jonathan, 1726, As Viagens de Gulliver, Terceira Parte, Capítulo V). Não tarda a originalidade ser instituída por decreto. “Segundo publicação no Diário da República (…), está aberto concurso para originais (…) O júri é composto por clones especialistas na padronização do espírito”.

Não se deve brincar com coisas sérias! Caminhamos para um mundo que não sabe distinguir entre originalidade e repetição. Receio que as tendências actuais na organização da actividade científica (infografias, concursos, avaliação, financiamento) concorram para um menosprezo crescente do valor da originalidade.

 

 

Novidade e originalidade

M.C. Escher, Circle Limit IV (1960) The angels and devils

M.C. Escher, Circle Limit IV (1960) The angels and devils.

O anúncio brasileiro Anjos, da Telefónica, é uma festa da memória. Lembra “as asas do desejo”, de Wim Wenders. Como poderia não lembrar? Nada expõe mais o homem do que o desejo. Desejar é o âmago de nosso ser (Sigmund Freud).

Olhos de crianças, inocentes e sonhadores, surpreendem anjos, uma ilusão feliz a partir de um ponto de vista enganador. Existem imensos anúncios com anjos, mas não os anjos de Escher, entrelaçados com demónios (Fig. 1). Em contrapartida, existem muitas ilusões inspiradas em Escher. Importa ver com o coração, como Pascal, Magritte e o principezinho.

A publicidade é a alquimia de todos os desejos. A intertextualidade fere a originalidade do anúncio? Antes pelo contrário. “Não me digam que não disse nada de novo, a disposição das matérias é nova. Quando se joga à péla um e outro jogam com a mesma bola, mas um coloca-a melhor” (Pascal, Blaise, Pensamentos, 696-22). Pouco originais são aqueles que enchem um armário com coisas novas, esvaziam-no e voltam a enchê-lo com novas coisas novas. Sempre o mesmo armário com coisas sempre novas.

Marca: Telefónica. Título: Anjos. Agência: DDB Worldwide. Brasil, 2001.

Despasmar o prazer

Dune. Elements. 2017.

Estética orquestral num anúncio da Dior votado à sedução. Sem parasitar atributos alheios. “Je suis comme je suis, je plais à qui je plais” (Jacques Prévert). What else? A dança do corpo nas cordas de um violoncelo; o âmbar de um tempo humano e divino. Entre dois mundos, o cósmico e o feminino, e quatro elementos: o vento, a areia, o fogo, a água. E um perfume: Dune.

“A woman embodies the dune, created in the low chamber of an hourglass. After breaking free, she is able to control the Elements. This piece is a dreamlike journey from the sands of the dune to the waters of the ocean”.

Marca: Dior Dune. Título: Elements. Agência: Art Center College of Design. Direcção: Ignacio Sepúlveda. Estados Unidos, Junho 2017.

Houve tempos em que me revia no poema de Jacques Prévert. Hoje, infelizmente, só com um capacete de realidade aumentada. Seguem o anúncio Elements, da Dior, e o poema Je Suis Comme Je Suis, de Jacques Prévert, em francês e em português (tradução de Priscila Junglos). Não resisto a intercalar um vídeo musical com uma versão heavy Metal do poema de Prévert, pela banda Spike. O poema Je suis comme je suis foi interpretado, entre outros, por Juliette Greco (1952) e Wende Snigder (2004). Opto pela banda francesa de Salles-Sur-Hers (Carcassonne ):  o guitarrista é empregado municipal e bombeiro; o baixo, marceneiro; o bateria, “encarregado de negócios”. A música destoa da volúpia reinante, mas nada como uma dissonância para despasmar o prazer. Em vésperas de aniversário, acodem-me as originalidades da existência. O resto são inércias e formulários biográficos. Gosto de uma vertente da globalização. Não tanto a internacionalização, até um tomate bem calibrado se internacionaliza, mas o acesso ao local: a um lugar recôndito, com 695 residentes, e a uma banda de música, com 19 409 visualizações no You Tube. Como não a encaro como uma plataforma para alpinistas de rankings, a Internet agrada-me.

Spike. Je suis comme je suis. (J. Prévert / Spike). 2016.

Jacques Prévert. Je Suis Comme Je Suis. Paroles. 1946.

Je suis comme je suis
Je suis faite comme ça
Quand j’ai envie de rire
Oui je ris aux éclats
J’aime celui qui m’aime
Est-ce ma faute à moi
Si ce n’est pas le même
Que j’aime chaque fois
Je suis comme je suis
Je suis faite comme ça
Que voulez-vous de plus
Que voulez-vous de moi
Je suis faite pour plaire
Et n’y puis rien changer
Mes talons sont trop hauts
Ma taille trop cambrée
Mes seins beaucoup trop durs
Et mes yeux trop cernés
Et puis après
Qu’est-ce que ça peut vous faire
Je suis comme je suis
Je plais à qui je plais
Qu’est-ce que ça peut vous faire
Ce qui m’est arrivé
Oui j’ai aimé quelqu’un
Oui quelqu’un m’a aimé
Comme les enfants qui s’aiment
Simplement savent aimer
Aimer aimer…
Pourquoi me questionner
Je suis là pour vous plaire
Et n’y puis rien changer.

Jacques Prévert: Eu sou como eu sou

Eu sou como eu sou
Eu sou feita assim
Quando eu tenho voltade de rir
Sim, eu gargalho
Eu gosto de quem me gosta
Lá isso é culpa minha
Se não é o mesmo
Que eu gosto a cada vez
Eu sou como eu sou
Eu sou feita assim
O quê você quer além disso
O quê você quer de mim
Eu sou feita para agradar
E nada nisso posso mudar
Meus saltos são muito altos
Minha silhueta muito empinada
Meus seios são duros demais
E em meus olhos muitas olheiras
E depois, e daí
O quê isto tem a ver com você
Eu sou como eu sou
Eu agrado a quem eu agrado
O quê isto tem a ver com você
O quê aconteceu comigo
Sim, eu amei alguém
Sim, alguém me amou
Como as crianças que se amam
Simplesmente sabem amar
Amar amar…
Por que me questionar
Eu estou aqui para lhe agradar
E nada nisso posso mudar.

(Tradução de Priscila Junglos: http://triunfecomofrances.blogspot.pt/2012/11/je-suis-comme-je-suis-de-jacques-prevert.html).

Original sem limites

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As interpretações, organizadas qual fieiras em viveiro de plantas, começam a ficar entediantes; as pessoas têm saudades das florestas (Kayser, Wolfgang, O grotesco: configuração na arte e na literatura, São Paulo, Ed. Perspectiva [1957], 1986, p. 8).

Neste anúncio da Adidas, tudo está equacionado até ao mais ínfimo pormenor: a imagem, o som e a palavra. Original is never finished.

Marca: Adidas. Título: Original is never finished. Agência: Johannes Leonardo. Direcção: Terence Neale. Estados Unidos, Janeiro 2017.

O pormenor e a originalidade

the marmelade

Há anúncios que não brilham pela originalidade. Nem nas partes, nem no todo. Conseguem, não obstante, um efeito próprio, porventura o efeito desejado. Afirmar que um anúncio não é original, nem nas partes, nem no todo, não afasta possibilidades. Um anúncio, como o The Marmelade, da Krueber, contém pormenores originais, singulares, capazes de fazer a diferença, nomeadamente ao nível estético. Atente-se no rosto feminino coberto com café em pó. Se um anúncio parcimonioso em atributos originais pode lograr um efeito próprio, anúncios repletos de originalidades podem, por sua vez, acabar em lugares comuns. O imaginário não é linear nem é redondo. É retorcido e enrugado. Apraz-lhe saltar de paradoxo em paradoxo. Parafraseando Blaise Pascal, demasiada originalidade banaliza. Por outro lado, retomando Omar Calabrese, o pormenor oferece-se como a parte que pode dizer o todo.

Marca: Krueger Espresto. Título: The Marmelade. Agência: Brand Lounge. Direcção: Torsten Eichten. Alemanha, 2014.

Pessoas fora do comum

Finlandia vodka

As pessoas excepcionais são cada vez mais correntes na publicidade. E as vulgares, mais raras. O anúncio 1000 Years Of Less Ordinary Wisdom, da Finlandia Vodka, mostra pessoas invulgares acompanhadas por frases de sua autoria: “Be nobody’s bitch but your own”; “Get your ideas out of your head”; “Life is too short for bad drinks”; “Too old is a lousy excuse”; “Go out dancing”; “Stop thinking you are unique”; “Look out your partner and your feet”; “Never forget who you are”; “Save nothing for the way back”; “Get out before the mountain explodes”;  “Keep pushing or quit dreaming”. Belas imagens, bom ritmo, boa música…

Marca: Finlandia Vodka. Título: 1000 Years Of Less Ordinary Wisdom. Agência: Wieden+Kennedy, London. Direcção: Siri Bunford. UK, Junho 2015.

Cadeira de Rodas

Guinness. Wheelchair BasketballO anúncio Wheelchair Basketball (vídeo 1), da Guinness, é o sucesso do momento: boa imagem, bom ritmo, boa música, bom coração e um desfecho inesperado. Suscita, no entanto, dois reparos. Não é preciso sentar-se numa cadeira de rodas para ser solidário, interagir ou partilhar amizade com um paraplégico. É uma ideia obtusa. Como diria Max Weber, “não é preciso ser César para compreender César”. A diferença é um valor. Mas, na publicidade, uma ideia não tem que ser certa ou errada, basta que funcione.

Marca: Guinness. Título: Wheelchair Basketball. Agência: BBDO New York. USA, Setembro 2013.

Na página Ads of the World (http://adsoftheworld.com/media/tv/guinness_wheelchair_basketball), pode ler-se: “It’s a good ad, but not particularly representative of what Guinness is, even with such a vague tagline as ‘Made of More’. It could work for almost any other brand. I miss the days of ‘Good things come to those who wait’ (…) Like I said, could be done for any other brand, and it has: http://www.youtube.com/watch?v=KHIngSfm_ck&feature=youtube_gdata_player”. O anúncio podia ser para qualquer outra marca, incluindo uma marca de gelados (vídeo 2), o que, em abono da verdade, vale para quase todos os anúncios. Ou seja, a originalidade peca por defeito. Para além do conceito, a própria música já acompanhou outros anúncios publicitários. Estes reparos não obstam a que Wheelchair Baketball se destaque entre os anúncios mais partilhados nos últimos dias.

Marca: Mother Darey. Título: Chillz.

Simulacros da originalidade

Iznogoud

Acontece-me conversar com o Grão-Vizir Iznogoud, figura criada por René Goscinny e Jean Tabary, em 1962. Maligno, ávido de poder, Iznogoud sonha “em ser califa no lugar do califa”. Gosto de o visitar quando me acodem dúvidas incómodas aos neurónios.

Albertino: – Grão-Vizir, estive a pensar em vários intelectuais originais, com investigação, obra e escrita própria. Todos ignorados ou esquecidos. Em contrapartida, multiplicam-se os pirilampos que ofuscam a luz do Sol…

Iznogoud: – As pessoas não buscam a diferença, mas a referência. Seguem e são seguidas, transportando máscaras amplificadoras. As encruzilhadas causam-lhes confusão e os descarrilamentos pânico. Estão cansadas de profetas, preferem missionários e exegetas. As pessoas esperam que lhes aparem a relva, que as atualizem, mas não as flores, certezas tão delicadas. Se aspiras ser original, aconselho-te que te contentes com o simulacro. O original é um intruso impertinente e ´perturbador. O original é pó e em pó se tornará. Um cisco efémero no canto da inteligência.

O Grão-Vizir Iznogoud é assim: cínico, crítico e desagradável. Pelo menos, não é como o diabo. Não nos diz o que queremos ouvir.

Seguem imagens de alguns álbuns de Iznogoud. Só para recordar. Sobre Iznogoud ver, em português: http://colecionadordebd.blogspot.pt/2012/07/iznogoud.html.