Marcadores e post its

Os marcadores são úteis para relevar detalhes que arriscam permanecer diluídos. Por exemplo, as mulheres notáveis nas fotografias coletivas da campanha “Highlight the Remarkable”, da Stabilo Boss (artigo Mulheres protagonistas, colocado em 10 de julho de 2018).
Por seu turno, os post its prestam-se ao registo de pequenos apontamentos, tais como as lições de “civilidade pueril” publicadas por Erasmo de Roterdão em 1530 (artigo Boas maneiras: os conselhos de Erasmo, colocado em 10 de julho de 2019).
Imagem: Sonia Delaunay – Figurino para “La danseuse aux disques”, 1923
Homo Acumulatus

Mais, mais e mais! Sempre mais. Novo, novo, novo! Ainda mais novo. Eis o impulso do homem moderno. Acumulação e mudança. As sociedades contemporâneas distinguem-se das ditas “sociedades sem história”, que resistem à transformação (ver Pierre Clastres, A sociedade contra o Estado, 1ª ed. 1974). O filme “Os deuses devem estar loucos” (1980) oferece uma boa ilustração: uma garrafa de coca-cola que caiu do céu representa uma ameaça para a estabilidade de uma comunidade de pigmeus; o protagonista parte em demanda do fim do mundo, para devolver a novidade, a garrafa, aos deuses; o seu povo sente-se bem tal como é! As “sociedades sem história” são também” sociedades sem moda”. Para Gilles Lipovetsky (O Império do Efémero, 1ª ed. 1987), importa não confundir moda e embelezamento. Toda a humanidade presta tributo à beleza, mas apenas uma parte adota a dinâmica da moda. O fenómeno da moda surgiu no Ocidente, na elite da sociedade de corte, por volta do séc. XII (ver Norbert Elias, A Sociedade de Corte, 1ª ed. 1969), primeiro entre os homens, acabando por se estender às mulheres e demais população. Geração após geração, estação após estação, as pessoas rejeitam o presente em nome de uma identificação distintiva e mobilizadora (ver Georg Simmel, “A Moda”, 1ª ed. 1911). Passa a ser moda o ser humano demarcar-se, mais ou menos ostensivamente, da sua inscrição e do seu passado imediatos. Ao contrário das “sociedades primitivas”, a civilização aposta na acumulação e na inovação. Sempre mais e, de preferência, novo! O anúncio Allez, dos supermercados Lidl, ilustra esta propensão ou, se se preferir, idiopatia: “Plus de coupons, plus de nouveautés, plus de simplicité; bref, c’est plus davantage / d’avantages” (“mais vales, mais novidades, mais simplicidade; em suma “ainda mais / vantagens””). Ao ver este anúncio, ocorreu-me a palavra Homo Acumulatus. Inovei? Nada se inventa, tudo se reverbera. Há 14 anos, um tal Serge Dupoux, comenta na página notre-planète.info. “ ils reveront d’une augmentation de 140/100 !! pour remplir 10 caddies par semaines ou acheter le meme 4×4 énorme ,la meme grosse piscine la meme grande maison avec des palmiers !! car l’homo consommatus a des envies bizarre il a été crée par l’homo acumulatus qui sait ce qui lui faut !” ((https://www.notre-planete.info/forums/discussion.php?id=29809&nd=40)). Foi a única menção que encontrei no Google, mas bastou para beliscar qualquer pretensão à originalidade.
Invenção, utilidade e tradição

O antes e o depois. Pequenas invenções, grandes diferenças. Um tópico fascinante bem aproveitado no anúncio The Power of Ok, da Roku. The best ideas are often the simplest. Like streaming made easy. Ok, Roku does that. Nada mais divertido e mais simples.
A implementação de um invento simples nem sempre é fácil. As atribulações da (re)introdução do garfo na Europa Ocidental constituem um bom exemplo.
“No seculo XI, um doge de Veneza casou-se com uma princesa grega. No círculo bizantino da princesa o garfo era evidentemente usado. De qualquer modo, sabemos que ela levava o alimento à boca “usando um pequeno garfo de ouro com dois dentes.” Este fato, porém, provocou um horrível escândalo em Veneza: “Esta novidade foi considerada um sinal tão exagerado de refinamento que a dogaresa recebeu severas repreensões dos eclesiásticos que invocaram para ela a ira divina. Pouco depois, ela foi acometida de uma doença repulsiva e São Boaventura não hesitou em declarar que isto foi um castigo de Deus.”
Mais cinco séculos se passariam antes que a estrutura das relações humanas mudasse o suficiente para que o uso desse utensilio atendesse a uma necessidade mais geral. Do século XVI em diante, pelo menos nas classes altas, o garfo passou a ser usado como utensilio para comer, chegando através da Itália primeiramente a França e, em seguida, a Inglaterra e Alemanha, depois de ter servido durante algum tempo apenas para retirar alimentos sólidos da travessa. Henrique III introduziu-o na França, trazendo-o provavelmente de Veneza. Seus cortesãos não foram pouco ridicularizados por essa maneira “afetada” de comer e, no princípio, não eram muito hábeis no usa do utensilio: pelo menos se dizia que metade da comida caía do garfo no caminho do prato à boca. Em data tão recente como o século XVII, o garfo era ainda basicamente artigo de luxo da classe alta, geralmente feito de prata ou ouro.” (Norbert Elias, O Processo Civilizador, 1ª ed. 1939, Rio de Janeiro, Zahar Ed.. 1990. Vol. I, pp. 81-82).
“Dicen que Leonardo quiso perfeccionar el tenedor poniéndole tres dientes, pero le quedó igualito al tridente del rey de los infiernos.
Siglos antes, san Pedro Damián había denunciado esta novedad venida de Bizancio:
—Dios no nos hubiera dado dedos si hubiera querido que usáramos ese instrumento satánico.
La reina Isabel de Inglaterra y el Rey Sol de Francia comían con las manos. El escritor Michel de Montaigne se mordía los dedos cuando almorzaba apurado. Cada vez que el músico Claudio Monteverdi se veía obligado a usar el tenedor, pagaba tres misas por el pecado cometido.” (Eduardo Galeano, Fundación del Tenedor, Espejos, Madrid, Siglo XXI, 2008).
Sociologia e música

As minhas férias são uma espécie de Halloween da música. Ouço vivos, mortos e mortos vivos. Até imagino a sociologia a dançar com a música.
O Tendências do Imaginário tem sido parcimonioso em relação a Mozart. Contempla apenas o Piano Concerto nº 23. Hoje, acrescento o Piano Concerto nº 21. A pensar em Norbert Elias, sociólogo que lhe dedicou um livro: Mozart – Sociologia de um Génio (1991).
Max Weber, que tocava piano, escreveu vários ensaios sobre música. Alguns estão reunidos no livro Os Fundamentos Racionais e Sociológicos da Música (São Paulo, Edusp, 1995). Theodor W. Adorno é, provavelmente, o sociólogo que mais abordou a música. A música marca o seu início de carreira, enveredando mais tarde pela sociologia. Tem ensaios sobre Schoenberg, seu amigo, e um livro dedicado ao seu antigo professor de música: Alban Berg: Master of the Smallest Link (1968). Entre os demais livros sobre a música, assinalo: Filosofia da Nova Música (1949), Mahler – Uma fisionomia musical (1960); Night Music: Essays on Music 1928–1962 (1964); e Introdução à Sociologia da Música, São Paulo, Editora Unesp, 2017. Além de escrever sobre a música, Adorno também escreveu música. Compôs vários estudos e peças para piano ou violino. Segue o Movimento 4, dos Estudos para Quarteto de Cordas (1920).
Boas maneiras: os conselhos de Erasmo

“Homem inteligente não urina contra o vento” (Erasmo de Roterdão)
Hoje, nada de anúncios publicitários. Aprender com os antigos é humildade que não está no vento. Erasmo de Roterdão é o autor do Elogio da Loucura (1511). Mas escreveu mais obras, entre as quais a Civilidade Pueril (1530), manual de boas maneiras destinado às crianças. Norbert Elias cita-o, abundantemente, no Processo Civilizacional (1939). Trata-se de um livro pequeno organizado em tópicos. Seguem quatro: o riso, a urina, a flatulência e a bebida.
O riso
Rir de tudo o que se faz ou é dito eis coisa de bobalhão, mas, não rir de nada já é estupidez.
Rir de palavra ou gesto obsceno espelha um caráter malicioso.
A explosão de risada, aquela que mexe o corpo inteiro e que os gregos denominavam “sacudir”, não cabe bem em idade alguma e muito menos em criança.
Rir como imitando o relincho de cavalo não é decente. Igualmente indecoroso aquele que ri, escancarando a boca e arregaçando as faces com os dentes em amostra, a guisa de um esgar canino ou de sorriso sardônico.
A face deve irradiar alegria sem deformar os traços da boca nem sugerir devassidão. Somente os tolos exclamam: “Ah! Eu enlouqueço de tanto rir! Eu estou caindo de risada! Morro de rir!”.
Se calha mesmo algo de tão hilariante e irresistível, mesmo para os desinteressados, então que se cubra o rosto com um lenço ou com a mão.
Rir sozinho e sem motivo aparente é coisa tida como amostra de tolice e de desequilíbrio.
Se tal ocorrer, prescrevem os bons modos que se decline a razão da hilaridade. Na hipótese de não convir dar o motivo, necessário se faz inventar qualquer pretexto a fim de evitar a suspeita de que alguém está a rir da pessoa dele.
…
A urina
Reter a urina é prejudicial para a saúde. É de bom costume vertê-la em lugar reservado.
Flatulência
Há quem aconselha que a criança deve apertar as nádegas para reprimir a flatulência. Nada de educação nisso. Pode até parecer urbanidade, mas, estás a provocar uma disfunção.
Se for possível afastar-se um pouco, então alivie-se isoladamente. Caso contrário, de acordo com um antigo costume, dissimula, com a tosse, a crepitação. De outro lado, por que não preceituar que se esvazie o intestino, já que retardar tal situação é mais danoso que comprimir o ventre?
…
Bebida
Principiar a refeição bebendo é hábito dos alcoólatras que bebem não por sede e, sim, por impulso. Isso, além de inconveniente, prejudica a saúde.
Não há necessidade alguma de tomar líquido logo depois de ter tomado sopa ou bebido leite.
Aliás, beber mais de duas ou três vezes, no decorrer da refeição, não é elegante nem saudável para as crianças. Bebam uma única vez ao começar o segundo prato, principalmente se for um assado. Depois, no final da refeição, bebam, mas sorvendo o líquido com moderação, não engolindo de um sorvo nem fazendo aquele rumor típico de cavalo.
O vinho e a cerveja, que têm igual teor inebriante, prejudicam a saúde das crianças e depravam os costumes.
Preferível mesmo é que a juventude, por ser mais acalorada, beba apenas água.
De acordo com a idade dos menores é mais adequado tomar água ferventada. Se tal não se adequar ao clima e a outras coisas mais, então bebam cerveja menos forte ou vinho mais suave diluído em água.
Pelo mais, eis alguns dos prêmios que contemplam pessoas dadas ao vinho: dentes amarelados, pálpebras caídas, olhos embaciados, estupor mental, velhice prematura.
Antes de beber, engole a comida. Nunca aproximar o copo dos lábios sem, primeiro, tê-lo limpado com o guardanapo ou com o lenço, principalmente se um dos convivas te apresenta o próprio copo ou se todos bebem da mesma taça.
Erasmo de Roterdão. De civilitate morum puerilium (Civilidade pueril), 1530.
O lenço e o telemóvel
No Processo civilizacional (1939), Norbert Elias adopta uma abordagem indirecta. Para apreender as mudanças nos usos e nos costumes no Ocidente, desde a Idade Média, recorre aos livros de boas maneiras. Quando vários livros mencionam uma prática a evitar, isso significa que essa prática é, embora indesejável, corrente. Se, com o tempo, essa prática desaparecer dos livros de boas maneiras, isso pode significar que essa prática deixou de ser problema, passando outras a estar em foco. Vários autores aludem, por exemplo, a formas impróprias de limpar o nariz à mesa:
“Se um homem à mesa limpa o nariz com a mão e não sabe que não o deve fazer, então, acredita, ele é um idiota (The babies book. 1475).
“O homem que limpa a garganta pigarreando quando come e o que se assoa na toalha da mesa são ambos mal-educados, isto vos garanto” (Rhodes, Hugh, Boke of Nurture. Ca 1550).
O lenço, introduzido no Renascimento, foi, durante décadas, de uso raro. Erasmo menciona-o:
“Assoar-se com um boné ou com um pedaço do casaco é próprio de um camponês; no braço ou no cotovelo, de um comerciante de salgados. Não é muito mais asseado assoar-se com a mão para em seguida a limpar na roupa. É mais decente servir-se de um lenço, afastando-se, caso esteja presente uma pessoa honorável.” (Erasmo, De civilitate morum puerilium, 1530).
Assoar-se à mão, ao braço, à roupa ou à toalha são comportamentos criticados pelos livros de boas maneiras. Representam práticas efectivas. Quando, mais tarde, a menção a estas incivilidades desaparece, isso pode significar que caíram em desuso, passando a atenção a incidir noutras actividades antes toleradas e agora censuradas, tais como tocar na comida com as mãos.
Estas palavras funcionam como um atalho, algo despropositado, para os dois anúncios da Roxy Cinema, uma cadeia de salas de espectáculos dos Emirados Árabes Unidos. Os anúncios Bomb e Western, da série Silence your phone, procedem a uma paródia de determinado tipo de filmes para censurar a intrusão dos toques de telemóvel durante as sessões de projecção. Como diria Norbert Elias, se existe a censura é porque existe a prática. Se existem práticas não censuradas é porque são toleradas, por exemplo, a luz do ecrã do telemóvel e o batuque das mensagens.
Marca: Roxy Cinema. Título: Silence your phone (Bomb). Agência: Misfits. Emirados Árabes Unidos, Abril 2017.
Marca: Roxy Cinema. Título: Silence your phone (Western). Agência: Misfits. Emirados Árabes Unidos, Abril 2017.
A importância do olhar
Duvido dos testes e das experiências que aparecem nos anúncios publicitários. Mas quero acreditar neste anúncio da Noemi Association. O desgosto e a conveniência aprendem-se com o tempo graças a um trabalho social contínuo e sistemático. Norbert Elias mostra-o a propósito do processo civilizacional. O que é natural para a criança pode não o ser para o adulto.
Anunciante: Association Noémie. Título: Les Yeux d’un Enfant. Agência: Leo Burnett. França, Dezembro 2014.
Nem a ponta de um pêlo
A partir de autores como Norbert Elias, Georges Vigarello ou Mikhail Bakhtin, costumo dedicar uma aula de Sociologia da Cultura à evolução dos usos do corpo desde a Idade Média. Mais habituados a grandes ideias do que a pequenas realidades, os alunos vão aderindo com alguma renitência. O objectivo é apreender como, séculos a fio, os usos do corpo evoluíram no sentido do auto-controlo, da rectificação, do polimento e do fechamento. Ao nível das posturas, da pele, das rugas, da boca, dos dentes, das secreções, da transpiração, da expectoração … E dos pêlos. A depilação humana foi mais radical do que a desflorestação da Amazónia. Ontem, as pernas e as axilas; hoje, as áreas genitais; amanhã, o cabelo e as sobrancelhas. A Gillette, marca infesta ao pêlo, mostra, no primeiro anúncio, o terreno que os pêlos perderam em apenas um século. Os dois vídeos seguintes apresentam a melhor forma de rapar as áreas genitais. Garante-se que “rapar os pelos torna a pessoa mais limpa” e que “cortar os arbustos dá mais visibilidade à árvore”. As nossas sociedades, que já não sei como as nomear, são exímias em criar e discriminar pessoas. Agora são os peludos. Trata-se de modalidades de estigma assentes em atributos sui generis que os media tendem a ampliar. Morte ao pêlo! Viva a árvore!





