O mundo a seus pés
Segundo Zygmunt Bauman, estamos cada vez mais líquidos. Uma liquidez, porventura, antártica: não paramos de dar cabeçadas em barcos e icebergues. Estamos mais líquidos, estaremos mais lúcidos?
Há seres do outro mundo. Têm o globo a seus pés. Estão por todo o lado e em sítio nenhum. São mutantes e cósmicos. Divino e diabólico, aparição e milagre, o futebolista é o semideus da nova mitologia. Está para além do humano, aos nossos olhos demasiado humanos. Awaken the phantom é um anúncio sofisticado e profético da Nike, com efeitos especiais impressionantes.
Aproveito para colar a música Victoria (2014) do compositor polaco Wojciech Kilar (1932-2013).
Marca: Nike Football. Título: Awaken the phantom. Agência: Wieden+Kennedy (Amsterdam). Direcção: Matthew Vaughn. Internacional, Agosto 2018.
Wojciech Kilar. Victoria. Angelus, Exodus, Victoria. 2014.
Pisar o risco
Seis anos separam os anúncios Border (Fevereiro de 2011) e Equality (Fevereiro de 2017). Uma distância apreciável em termos de publicidade. Duas marcas de topo: a Coca-Cola e a Nike; uma mesma agência de topo, a Wieden + Kennedy.
Comecemos pelo anúncio mais recente.
“Nike has a long history of speaking up for causes that reflect its values. That continues today with the launch of EQUALITY, in which Nike encourages people to take the fairness and respect they see in sport and translate them off the field.
EQUALITY is centered on using Nike’s voice and the power of sport to inspire people to take action in their communities, with Nike leading by example with its recently announced partnerships with world-class organizations dedicated to advancing this work.
A new film, simply titled “Equality,” anchors these values in the power of sport. The film, directed by Melina Matsoukas, features LeBron James, Serena Williams, Kevin Durant, Megan Rapinoe, Dalilah Muhammad, Gabby Douglas, and Victor Cruz, amplifying their voices in an effort to uplift, open eyes and bring the positive values that sport can represent into wider focus. “Equality” also features actor Michael B. Jordan, who voices the film, and a new performance by Alicia Keys, singing Sam Cooke’s “A Change Is Gonna Come” (http://news.nike.com/news/equality).
O anúncio Equality abraça algumas ilusões e desdobra-se em contradições. Podia ser de outro modo quando o tema é a igualdade? Não é porque se partilha um espaço comum com regras iguais para todos que a igualdade acontece. Norbert Elias (The Established and the outsiders, 1965), Pierre Bourdieu (La Reproduction, 1970) e Raymond Boudon (L’Inegalité des Chances, 1973) desmontaram, a seu tempo, esta ilusão. Se o sonho se quer olímpico, convém reconhecer que foi sempre um sonho, inclusivamente na Grécia Clássica (ver Norbert Elias & Eric Dunning, A busca da excitação, 1992). Para relativizar a crença no igualitarismo dos jogos olímpicos, aconselho a leitura de Jean-Marie Bhrom (Sociologie politique du sport, 1976) e o visionamento do filme Olympia de Leni Riefensthal (1938). Nos bons momentos, no desporto há fair-play, que, segundo Norbert Elias, emergiu há séculos em Inglaterra e consistiu na seguinte novidade: os oponentes deixam de se encarar como inimigos e passam a encarar-se como adversários, que importava vencer mas não eliminar. O fair-play valoriza o jogo, não nivela nem confunde os jogadores. O que vale para as “quatro linhas”, vale para o entorno, para os públicos e os aficionados. O desporto não exala fatalmente igualdade, os públicos tão pouco a respiram. Um desportista pode valer quarenta vezes mais que outro. No liceu, quando havia um intervalo, a turma costumava jogar futebol. Dois colegas eram encarregues de construir as equipas. O primeiro escolhia um colega, o segundo, outro; dos restantes, o primeiro voltava a escolher um colega e o segundo, outro; e assim do melhor ao pior até ao último. Cada intervalo bradava aos céus uma hierarquia. O anúncio Equality mergulha-nos numa dupla ilusão: a igualdade predomina nos jogos desportivos; essa igualdade é exportável para os públicos envolventes.
Para além das ilusões, o anúncio Equality confronta-nos com várias contradições. Como construir um discurso de igualdade com a voz das elites? Atendendo a Vilfredo Pareto, elites existem em todos os domínios (Tratado de Sociologia, 1916). “Amplificados”, os “embaixadores” do anúncio constam entre os melhores do mundo do desporto. Vislumbra-se um pequeno paradoxo: criar igualdade com desigualdade. Não é impossível: a história da Europa é fértil nesse tipo de proezas. Do ponto de vista formal, a câmara em “voo de águia” intercala o desfile das celebridades. Estamos nas alturas. Acrescentando o texto e a música, sentimo-nos mais capacitados e empolgados do que igualados.
Que um anúncio se manifeste vulnerável aos olhos do sociólogo, não o diminui. Um anúncio publicitário não tem que ser académico. Os argumentos e os propósitos são distintos. O critério de valor de um anúncio radica, principalmente, na sua performance. Pedir que obedeça às regras da Sociologia é mera vaidade terrorista, no sentido de aplicar a lógica de um discurso a um discurso de outra lógica. Equality sobressai como uma obra excelente. Graças, em parte, às ilusões e às contradições. Seduz e mobiliza, com ou sem falhas sociológicas. Reconhecer os limites de um discurso só faz bem à palavra. Daqui para o Qatar, um abraço a um amigo, dos poucos que me sabe aturar.
O segundo anúncio, Border, é aparentemente mais simples. Meticulosamente minimalista e francamente humano. A linha e a fronteira existem. A diferença disciplinada, também. Mas quando os homens querem conseguem, apesar da adversidade, fintar fronteiras, comunicar e partilhar vontades. Nem que seja por um tempo. A câmara raramente é panorâmica e ainda menos paira nas alturas. O registo é o da proximidade demarcada. A marca do anúncio reside em visar mais os pormenores do que os detalhes. Os pormenores, a começar pelo folha de papel, ajudam a construir o todo. Os detalhes testemunham o todo. Simplificando Omar Calabrese (A Idade Neobarroca, 1987), o pormenor vai da parte para o todo, o detalhe, do todo para a parte.
Marca: Nike. Título: Equality. Agência: Wieder + Kennedy. Direcção: Melina Matsoukas. Estados Unidos, Fevereiro de 2017.
Marca: Coca-cola. Título: Border. Agência: Wiener + Kennedy Portland. Editor: Steve Gandolfi. Estados Unidos, Fev. 2011.
Recomeço

Adónis. Estátua de mármore restaurada no séc. XVII. Louvre.
Cantan con voz de hombre, ¿pero dónde están los hombres?
con ojos de hombre miran, ¿pero dónde los hombres?
con pecho de hombre sienten, ¿pero dónde los hombres?
(Rafael Alberti, 1917-1999, Balada para los poetas andalúces de hoy. Ora Maritima. 1953).
O anúncio Del Potro, da Nike Argentina, exorta ao exercício físico e ao cuidado corporal. Te da ganas de ser un hombre. Tanta evidência é de desconfiar. O mais avisado é ouvir os responsáveis pelo anúncio:
“Después de una lesión que casi lo obliga a dejar el tenis, Juan Martín del Potro tuvo un regreso triunfal en 2016. Ganó la medalla de plata en los Juego Olímpicos y, este fin de semana, participó de la victoria del equipo argentino en la Copa Davis. Como un homenaje a todo este esfuerzo, Nike y BBDO realizaron una pieza audiovisual que se publicó antes de la final de la Davis.” (http://www.adlatina.com/publicidad/nike-y-bbdo-rescatan-la-esencia-del-%E2%80%9Cjust-do-it%E2%80%9D-en-la-historia-de-del-potro).
O anúncio centra-se no percurso de Del Potro, jogador de ténis argentino. Condiz com o lema: “Se a tua carreira chegou ao fim, começa uma nova”. Como é costume, esta pessoalização não obsta a leituras mais abrangentes. Pelo contrário, o particular, o “embaixador” Del Potro, ancora e alavanca o geral. Moral à parte, enfatiza-se a actividade corporal. Advoga o investimento físico e, em caso de acidente, o reinvestimento físico, rumo à excelência. With a little help from Nike. É a estética e a ética do guerreiro (Norbert Elias). Segue, a preceito, a canção de Edith Piaff: T’es beau tu sais (1960).
Marca: Nike. Título: Del Potro. Agência: BBDO Argentina. Direcção: Verónica Zetta. Argentina, Dezembro 2016.
Edith Piaff. T’es beau tu sais. C’est l’amour. 1960.
T’es beau tu sais
T’es beau, tu sais
Et ça s’entend lorsque tu passes.
T’es beau, c’est vrai.
J’en suis plus belle quand tu m’embrasses.
Je te dessine du bout du doigt :
Ton front, tes yeux, tes yeux, ta bouche.
Comment veux-tu dessiner ça ?
La main me tremble quand j’y touche…
T’es beau, mon grand,
Et moi, vois-tu, je suis si petite.
T’es beau tout le temps
Que ça me grandit quand j’en profite.
Reste là, ne bouge pas.
Laisse-moi t’imaginer.
T’as l’air d’être l’été,
Celui qui pleut jamais.
Reste là, bouge pas.
Laisse-moi quand même t’aimer.
Je ne peux même pas penser
Que je te méritais.
T’es beau, tu sais.
Ça m’impressionne comme les églises.
T’es beau, c’est vrai,
Jusqu’à ta mère qu’en est surprise.
Tu me réchauffes et tu m’endors.
Tu fais soleil, tu fais colline.
Viens contre moi, il pleut dehors.
Mon coeur éclate dans ma poitrine.
T’es beau partout.
C’est trop facile d’être sincère.
T’es beau, c’est tout.
T’as pas besoin de lumière.
Il était beau et c’était vrai
Mais la gosse ne le voyait pas,
Ses yeux perdus à tout jamais.
Il en pleurait
Quand il guidait ses pas.
T’es beau, tu sais.
T’es beau, c’est vrai.
T’es beau, tu sais.
T’es beau, c’est vrai…
A juventude não tem idade

“Sem limites”! “Todos jovens”! “Com o potencial ao máximo”! Modernidade ou pós-modernidade? Pouco interessa. Certo é que Sister Madonna Buder é o máximo, o potencial ao máximo! E nós somos, quase como ela, o máximo em potência. Aliás, todos somos o máximo. Somos, por vocação, o que somos.
E a juventude, senhor? A juventude é cada vez mais sagrada. Já não é uma idade, mas um estado. Um estado de graça. Do máximo em potência para o potencial ao máximo, só falta atender ao chamamento e umas sapatilhas Nike. Coloquemos os olhos em Sister Madonna Buder. Uma referência, com uma carreira religiosa e desportiva notável. Jovem, muito jovem, aos 86 anos de idade.
Abençoado anúncio. Bem feito. É raro ver uma marca e uma agência tão afinadas.
Marca: Nike. Título: Unlimited Youth. Agência: Wieden + Kennedy Portland. Direcção: Max Malkin. USA, Agosto 2016.
Bebés desportistas

“E ao fim de cinco anos… Portugal voltou a ter mais bebés” (http://www.dn.pt/sociedade/interior/e-ao-fim-de-cinco-anos-portugal-voltou-a-ter-mais-bebes-4984930.html), acedido 01.08.2016.
“Estimativas do Instituto Ricardo Jorge, feitas com base nos “testes do pezinho”, realizados no âmbito do Programa Nacional de Diagnóstico Precoce, nasceram em Portugal, no primeiro trimestre deste ano, 20.992 crianças, mais 7% do que nos três primeiros meses de 2015. No ano passado, o crescimento face a 2014 já tinha sido de 4%” (http://rr.sapo.pt/noticia/52492/estao_a_nascer_mais_bebes_em_portugal_mas_falar_em_baby_boom_e_exagero), acedido, 01.08.2016).
“Há uma tendência de inversão e não foi só porque o número médio de filhos por mulher aumentou: há também uma diminuição da emigração e um aumento da entrada de imigrantes” (Maria Filomena Mendes, Presidente da Associação Portuguesa de Demografia, https://www.publico.pt/sociedade/noticia/portugueses-continuam-a-envelhecer-e-a-diminuir-apesar-de-terem-nascido-mais-bebes-1735304), acedido 01.08.2016.
É motivo de notícia a inversão de tendência da natalidade em Portugal. Vem a preceito um anúncio recente da Nike: Unlimited Future. Na sala, estão dezenas de bebés geometricamente dispostos. Um homem omnisciente discorre sobre o futuro. Predestinação? Aplicação? Alguns bebés já estão identificados com nomes de celebridades… Qual o resultado desta puericultura empreendedora? Um futuro sem limites? Um admirável mundo novo? Um desportista atlético, disciplinado, competitivo, sempre a ultrapassar a sombra.
Marca: Nike. Título: Unlimited Future. Agência: Wieden + Kennedy. USA, Julho 2016.
Toque humano
Este anúncio principia com uma jogada de basquetebol. Pensei para com os meus botões: mais um anúncio à americana. É, contudo, um anúncio da Nike pela Wieden + Kennedy, uma das melhores agências do mundo. Continuei. Afinal, era um “anúncio à americana” com muita qualidade. Câmaras preguiçosas, luzes sensíveis e um coro de amor e ódio, na despedida de Kobe Bryant. Deve ser isto o human touch entre a marca e o público. O anúncio termina com o mote always love the hate. Mais uma provocação da Nike? Pelo sim, pelo não, vale a pena ler o Novo Testamento.
Marca: Nike. Título: The Conductor. Agência: Wieden + Kennedy, Portland. Direcção: Mark Romanek. USA, Abril 2016.
Excelência
“Portugal já tem oitenta e dois centros de referência nos hospitais” (Público, 11.03.2016).
“Para já, o que se fica a saber é que, em 19 áreas clínicas, foram apresentadas 134 candidaturas e seleccionadas 74 (que na realidade correspondem a 82 instituições, se considerarmos todos os serviços, uma vez que há centros que vão funcionar em consórcio, o que é novidade em Portugal). Os que não foram escolhidos não serão prejudicados, porque continuam a fazer o que faziam. “Isto não serviu para seleccionar centros especializados, mas sim centros altamente especializados”, sublinha Alexandre Diniz, da Direcção-Geral da Saúde (DGS) e membro da comissão de peritos que escolheu as unidades” (Público, 11.03.2016).
Sobressalto de espanto e júbilo: “Portugal já tem oitenta e dois centros de referência nos hospitais”! Na ciência, também existem muitos centros de excelência. E mais que excelentes! Pontos de referência. Para quem? Lembro-me de uns rectângulos avermelhados que, molhados, eram pontos de referência para as moscas.
Os centros “que não foram escolhidos (…) continuam a fazer o que faziam”. Precise-se que “isto não serviu para seleccionar centros especializados, mas sim centros altamente especializados”. A avaliação esmera-se. Mais um caso nacional em que a avaliação se faz para avaliar e, por contágio, descriminar. Consequências? O arrasto do costume.
“O que muda para os doentes? Por enquanto, não haverá grandes alterações, porque para que um paciente seja tratado num destes centros precisa primeiro de ser encaminhado pelo seu clínico assistente” (Público, 11.03.2016).
Resta uma postura nacional com tradição excelente e, por sinal, de referência: esperar! Pela centelha da predição criadora do oráculo burocrático. Entretanto, vou deslocar-me para Lisboa, Porto ou Coimbra. Cidades onde a gente é gente, com centros de excelência e pontos de referência. Quanto ao clínico, mais do que um médico, espero que seja bom encaminhador e, caso disso, bom alavancador.

Boquiaberto. Escultura de uma máscara de teatro do período helenístico. Museu Arqueológico Nacional. Atenas.
As palavras têm altos e baixos. Ora estão na mó de cima, ora estão na mó de baixo. Excelência e referência são palavras em que as burocracias europeias apostam. Pouco importa se os ventos são atlânticos ou nórdicos, estas duas palavras incham que nem sapos com um cigarro na boca. Como nos vasos comunicantes, outras palavras esvaziam-se. Por exemplo, a palavra “elite”, penalizada pelo lastro histórico. Ressalve-se, porém, que não é por uma burocracia integrar uma sociedade democrática que ela é democrática. As burocracias não são democráticas!
“Portugal já tem oitenta e dois centros de referência nos hospitais”. Já? Nem sei o que pensar.Tanta excelência deve ser excelente!
Desta vez, não comento o anúncio. O anúncio ilustra, como contraponto de referência, o comentário.
Marca: Nike. Título: Jogger. Agência: Wieden+Kennedy Portland. Direcção: Lance Acord. USA, 2012.
Milagre

Frei Manuel dos Reis. Visão de D. Afonso Henriques na batalha de Ourique. 1665. Museu de Alberto Sampaio
O futebol configura uma luta de titãs. Prometi alhear-me dos “anúncios do Mundial”. Mas não há modo de lhes escapar. A Nike e a Beats by Dre acabam de lançar os anúncios The Last Game e The Game Before the Game, com duração superior a 5 minutos. Ambos convocam o “etos do guerreiro”. O humano contra o inumano, mas também o humano a braços com aquilo que o divide: o cálculo e o risco, a força e a fé, a razão e o coração… No “último jogo”, os heróis, “demasiado humanos”, enfrentam a burocracia da ciência e a eficácia dos clones. O anúncio é todo ele uma glória à animação em jeito de apoteose barroca. No “jogo antes do jogo”, acompanhamos a preparação ritual do herói antes do confronto, a construção do milagre, como na prece do cavaleiro medieval antes da refrega. O anúncio mergulha numa aura trágica, com a imagem e o som a entrelaçar-se ao ritmo da pulsação.
Ambos os anúncios são herdeiros de obras mais antigas. Retenho o filme Fuga para a Vitória, de 1981, com a participação de Pelé, Ardiles, Bobby Moore e Deyna. Quase todo o filme se resume à preparação do jogo. O adversário era a máquina nazi e o futebol, o cavalo de Tróia.
Marca: Nike. Título: The Last Game. Agência: Wieden + Kennedy, Portland. Direcção: Jon Saunders. USA, Junho 2014.
Marca: Beats by Dre. Título: The Game Before the Game. Agência: R/GA New York. Direcção: Nabil Elderkin. USA, Junho 2014.





