Chamamento
O Carlos Nascimento é um amigo. Tem uma empresa de publicidade e deu-me o prazer de o acompanhar no doutoramento em Ciências da Comunicação. Numa conversa vadia, afloramos a importância crescente da figura do chamamento nos anúncios publicitários. Enviou-me, como exemplo, um anúncio soberbo da Nike: The Jogger, pela agência Wieden+Kennedy Portland. Estreado em 2012, foi um autêntico devorador de prémios. Desafiei o Carlos a fazer o comentário. Ganhei uma lição: a qualidade deste blogue pode melhorar.
O chamamento da grandeza ou a grandeza do chamamento?
À convocatória que as marcas fazem nos anúncios actuais, Albertino Gonçalves designa de chamamento, atribuindo-lhe assim algo de religioso que visa, mais do que uma relação material, uma ligação emocional, assente na partilha de missão e de valores e menos na experiência de produto.
Este anúncio da Nike é um excelente exemplo de chamamento, onde a marca não nos convoca nem pela experiência nem pelo benefício do produto mas sim por um exemplo de anónima virtude que nos toca: Greatness.
Dois movimentos fazem o filme: o de uma estrada gasta, agreste e inóspita que o efeito da câmara transforma num tapete rolante; o de um jovem anónimo, numa corrida sofrida e pesada. À medida que o filme avança, ambos os movimentos classificam e competem um com o outro. O esforço do corredor torna a estrada num calvário. Por sua vez, a estrada revela naquela figura desajeitada e quase grotesca um lutador persistente. O movimento da estrada, apesar de racional, regular e perpétuo vai perdendo para o da pessoa, emocional, desajeitado e ocasional. A aproximação sofrida da personagem à câmara é a prova maior de superação.
Neste exemplo rude é o texto que lhe dá o sentido. Greatness não apenas um exclusivo de alguns, poucos, nem tão pouco de super heróis mas também de all of us. É pelo texto que aquele episódio anónimo e aleatório passa a ser uma referência de virtude. Sem saber e sem contar, o chamamento daquele rapaz, longe dos olhares e de exibicionismos é também o nosso chamamento. E lá estava a marca para nos servir o exemplo como deve ser: cru, sem vaidades nem juízos.
Carlos Nascimento
Marca: Nike. Título: The Jogger. Agência: Wieden+Kennedy Portland. Direção: Lance Acord. USA, 2012.
O Gato das Botas na China
O que é digno de ser desejado para um jovem (basquetebolista chinês)? O anúncio da Nike, Wish List, arrisca um inventário: um court, um DJ, multidão… Tudo, e mais alguma coisa. Mas a fama, essa é coisa à parte: conquista-se. Com a ajuda de uma bola e de um par de sapatos! Eis o toque de um bom anúncio. O que tem a marca? Um não sei quê que faz a diferença. É quanto baste! E quanto mais imaterial, melhor!
Marca: Nike Basketball. Título: Give me the ball / Wish List. Agência: Wieden + Kennedy (Shangaï). Direção: Stacy Wall. China, 2013.
Futebolistas de terracota
A China é uma terra espantosa. Ia-me esquecendo deste anúncio, uma relíquia premiada em Cannes. Há muitos do género, alguns excelentes (ver o vídeo da Nike), mas não deixa de ter alguma piada ver estes guerreiros de terracota a dar uns pontapés ao globo. Não tem?
Marlboro. Terracotta Warriors. Leo Burnett, Hong Kong, China, 1998.
Nike. Good vs. Evil. The Mill. 2006.

