Tag Archive | nazismo

Com a verdade me enganas

M. C. Escher, Reptiles, 1943.

A realidade engana. Menos porque nos ilude, e mais porque a encantamos. Tudo significa e tudo significamos.  Os anúncios argentinos Bigote e Mano, da Marcha por la Vida, são um exemplo de interpretação abusiva. Recordam uma história que Edgar Morin inclui no livro Para Sair do Século XX (1982):

Passeava na rua quando assisto a um acidente: um Mercedes desrespeita um sinal vermelho e embate contra um Dois Cavalos. Só chapa. Aproximo-me para testemunhar. O Mercedes desrespeitou o sinal vermelho? O condutor do Mercedes nega e o condutor do Dois Cavalos confirma. Foi ele quem passou no sinal vermelho. Mas não tenho nenhuma dúvida que foi o Mercedes que embateu no Dois Cavalos. Parece que não. O Dois Cavalos está amachucado na frente e o Mercedes no lado. Serei um idiota?

Desenhamos a realidade com os nossos esquemas mentais. Observar é construir a realidade. Por que motivo vi o Mercedes a desrespeitar o sinal vermelho e a bater no Dois Cavalos? Talvez porque para o meu arranjo mental é natural que o forte bata no fraco, predestinado como vítima. Se a realidade resiste, a gente converte-a. Será?

Anunciante: Marcha por la vida. Título: Bigote. Agência: Geometry. Direcção: Javier Altholz. Argentina, Abril 2020.
Anunciante: Marcha por la vida. Título: Mano. Agência: Geometry. Direcção: Javier Altholz. Argentina, Abril 2020.

Filhos do Crepúsculo: A Arte e a Música no Campo de Concentração

14 Felix Nussbaum. The refugee. 1939.

Felix Nussbaum. The refugee. 1939.

Porque um homem sem memória é um homem sem vida, um povo sem memória é um povo sem futuro (Ferdinand Foch).

Uma cabeça sem memória é uma praça sem guarnição (Napoleão Bonaparte).

Acabei de avaliar os trabalhos. Estava a gostar. Os alunos, quando se empenham, com autonomia, criatividade e envolvimento, são admiráveis. Foi-lhes pedida a comparação de duas entidades de géneros artísticos distintos: música e pintura, escultura e cinema, literatura e publicidade… As “entidades” podiam ser autores, obras, correntes, instituições… O resultado foi animador. Destaco, hoje, o ensaio de Glória Manuela Rodrigues Fernandes sobre um compositor, Oliver Messiaen, e um pintor, Felix Nussbaum. Com a devida autorização, junto o pdf: A arte na segunda guerra mundial: as diferentes artes que se faziam sentir nos campos de concentração, Sociologia e Semiótica da Arte, mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, da Universidade do Minho, 2017.

Trabalho sociologia e semiótica da arte – GLÓRIA FERNANDES

Oliver Messiaen

Oliver Messiaen

Oliver Messiaen (1908-1992), francês, esteve preso, nos anos 1940 e 1941, no campo de concentração Stalag VIII-A Gorlitz, na Alemanha Oriental, onde compôs o Quatuor pour la fin du Temps, atendendo aos quatro músicos e instrumentos musicais disponíveis no campo de concentração: piano, violoncelo, violino e clarinete. A obra foi estreada, no próprio campo de concentração, perante 5 000 prisioneiros.

Felix Nussbaum (1904-1944), alemão, era, em finais dos anos 20, um pintor bem sucedido. Exila-se em 1933, primeiro em Itália e, em seguida, na Bélgica. É capturado em 1940 e enviado para o campo de concentração de St-Cyprien, no sul de França. Consegue escapar durante uma viagem de comboio, passando a viver escondido em Bruxelas. Em 1944, volta a ser arrestado e deportado para Auschwitz, onde é assassinado, supostamente, no dia 9 de Agosto.

Felix Nussbaum retrato

Felix Nussbaum

A pintura de Nussbaum evidencia o trauma dos campos de concentração. Não me parece, porém, que testemunhe uma profunda conversão do olhar. O pincel acentua-se e focaliza-se. A amargura é mais amarga e o negro mais negro. Mas o desespero e o desencanto já predominavam na obra de juventude, inscrita no movimento Nova Objectividade, corrosivo, soturno e sinistro, como, por exemplo, a pintura de Otto Dix ou George Grosz.

Pensei fazer um vídeo com música de Oliver Messiaen (o V andamento, “Louange à l’Éternité de Jesus”, do Quatuor pour la fin du Temps) e quadros de Felix Nussbaum. Não disponho de tempo. Fica prometido. Por enquanto, segue a música de Messiaen e uma galeria com quadros do Felix Nussbaum. Uma acompanha a outra.

Oliver Messiaen. Louange à l’Éternité de Jesus. Quinto movimento do Quatuor pour la fin du Temps. 1941.

Galeria de imagens: Quadros de Felix Nussbaum.

Memória

LOBO ANTUNES 1A imaginação é a memória fermentada. Quando se perde a memóriaperdese a faculdade de imaginar (António Lobo Antunes).

A memória não é reacionária. A memória é o principal recurso de que dispomos para aprender que o futuro é imprevisível. O futuro é imprevisível não obstante as prospetivas, os projetos, os programas e as medidas inadiáveis. O futuro é imprevisível apesar das ciências, das técnicas e dos peritos. Relancem o olhar para trás! O que aconteceu às previsões e aos projetos mais robustos? Erraram, felizmente. Que vai ser da Europa daqui a dez anos? A memória não é reaccionária, “lembra” que o presente e o futuro são relativos e incertos. Recordar e imaginar faz bem à sabedoria e à capacidade de decisão.

Segue uma canção grega de Mikis Theodorakis, Asma Asmaton (Mauthausen), interpretda por Maria Farantouri. Com imagens do Holocausto.

Corpos sólidos

Hans Surén 1

Hans Surén 1

Hans Surén 2

Hans Surén 2

“Tornar os corpos robustos não é, num Estado racista, assunto dos indivíduos, nem uma questão que respeita em primeiro lugar aos pais (…), é uma necessidade da conservação do povo que representa e protege o Estado (…) Um jovem que o desporto e a ginástica tornaram duro como o ferro sofre menos que o indivíduo caseiro, exclusivamente nutrido com alimentação intelectual, a necessidade de satisfações sensuais (…) Deve, após a jornada de trabalho, cimentar o seu jovem corpo e endurecê-lo para que a vida, um dia ou outro, não o encontre demasiado amolecido (…) O futuro jovem alemão deve ser esbelto e alongado, ágil como uma lebre, resistente como o couro e duro como o aço de Krupp. Nós devemos transformá-lo num homem novo a fim de evitar que ele não sucumba à degenerescência geral” (Hitler, Adolf, Mein Kampf, ed. de 1934).

Hans Surén 3

Hans Surén 3

Na opinião de um seguidor do Tendências do Imaginário, o meu pensamento não é mau mas é demasiado rápido. Tem razão. Por entre síncopes e atalhos, alusões cifradas e teorias sem teóricos, uma pessoa perde-se. Em suma, uma escrita pouco amigável, com os neurónios a tropeçar uns nos outros. Por exemplo, no último artigo, a pretexto da qualidade de vida, insinua-se, sem preparo nem reparo, a frase “e os corpos coreografados da propaganda nazi”, com direito a uma fotografia de Hans Surén (https://tendimag.com/2015/04/18/qualidade-de-vida/). Por quê tanta frase curta cravejada com lembretes erráticos? Não sei. Talvez por receio que as ideias fujam!

Hans Surén 4

Hans Surén 4

Hans Surén (1885-1972) publicou, em 1924, o livro Mensch un Sonne (Os Homens e o Sol), com fotografias de nus masculinos e femininos. Era então promotor da NacktKultur e do naturismo. O livro atingiu 68 edições (250 000 exemplares) no primeiro ano de edição.

Arno Breker. Eos. 1939.

Arno Breker. Eos. 1939.

Surén aderiu ao partido nazi em 1933, adaptando, sucessivamente, o seu livro à ideologia do Terceiro Reich. Para a recolha de imagens (galeria 1), recorremos à edição de 1936, mais permeada pela estética nazi e pelo ideal ariano. Deparamo-nos com corpos nus, vigorosos, saudáveis, individuais e coletivos, autênticas alegorias da potência da raça.

Hans Surén não era, porém, fotógrafo do regime, pelo menos ao mesmo título que Arno Breker (1900-1991) e Leni Riefenstahl (1902-2003), respetivamente, o escultor e a cineasta prediletos de Adolf Hitler. Arno Breker também se dedica à escultura de corpos nus, atléticos, musculados, saudáveis, simétricos e disciplinados. “Uma materialização da ideologia nazi”.

Adolf Hitler,  Albert Speer e Arno Breker (à direita) em Paris (1942)

Adolf Hitler, Albert Speer e Arno Breker (à direita) em Paris (1942)

O governo disponibilizou-lhe três ateliers onde trabalhavam dezenas de pessoas, entre as quais prisioneiros deportados. Tornou-se célebre a fotografia em Paris, datada de 1942, com Adolf Hitler e Albert Speer, arquiteto do regime. Nesse ano decorreu na Orangerie uma exposição com a sua obra.

Arno Breker: Esculturas no pátio da chancelaria em Berlim.

Arno Breker: Esculturas no pátio da chancelaria em Berlim.

Arno Breker 2

Arno Breker 2

“A partir do mês de fevereiro de 1939, o visitante da nova chancelaria do Reich, em Berlim, é recebido, no pátio de honra, por duas estátuas de Arno Breker, simetricamente dispostas de um e do outro lado da escadaria central: uma, brandindo uma tocha, representa o Partido, a outra, armada com um gládio, a Whermacht. A força do espírito e da espada, transportada por torsos voluntariosos e músculos salientes, impõe-se, deste modo, a qualquer hóspede, nomeadamente estrangeiro, do Führer. A nova Alemanha dá-se a ver sob uma luz despojada e viril, ao mesmo tempo ascética e atlética, do nu do guerreiro” (Chapoutot, Johann, Le nu guerrier nazi. Art d’État et archétype de la race, Bulletin nº 24, Automne 2006, Université Paris I – Panthéon Sorbonne, http://www.univ-paris1.fr/autres-structures-de-recherche/ipr/les-revues/bulletin/tous-les-bulletins/bulletin-n-24-art-et-relations-internationales/johann-chapoutot-le-nu-guerrier-nazi-art-d8217etat-et-archetype-de-la-race/; sobre a importância da configuração e da decoração dos percursos de acesso nos palácios imperiais, ver o documentário da BBC: How Art Made the World. Episode 3 of 5. The Art of Persuasion, 2005).

Arno Breker 3

Arno Breker 3

A escultura de Arno Breker não se confina ao sexo masculino. Multiplicam-se as estátuas com jovens mulheres nuas de saudável constituição. Se as esculturas de homens, armados ou não, são de soldados ou de jovens preparados para o ser, as esculturas de mulheres convocam (futuras) mães, com os atributos que a reprodução da raça exige (ver “Antitabagismo. Uma nota histórica parcelar”: https://tendimag.com/2014/08/26/antitabagismos-uma-nota-historica-parcelar/). Se os corpos masculinos se querem prontos para a guerra, os corpos femininos devem estar preparados para a procriação, garantia do futuro da nação. Dezenas de milhares de anos depois da Vénus de Willendorf, da Vénus de Lespugue ou da Vénus de Doni Vestonice, emerge a Vénus do Terceiro Reich! Reconhece-se na escultura de Arno Breker a oposição, arquetípica, entre a espada, masculina, e a taça, feminina (ver Durand, Gilbert, As estruturas antropológicas do imaginário. Lisboa: Presença, 1989).

Arno Breker 4. Apolo e Dafneia.

Arno Breker 4. Apolo e Dafneia.

As fotografias de Hans Surén e as esculturas de Arno Breker inspiram-se na antiguidade clássica, mormente grega. Pela forma, pelo conteúdo e pelo alcance. A estética clássica, nos antípodas da “arte degenerada”, é assumida pelos políticos e pelos artistas nazis. Para além da influência da mitologia grega (por exemplo, os relevos Apolo e Dafneia e Orfeu e Eurídice, de Arno Breker), interessa relevar os princípios e as formas que lhe dão corpo.

Vídeo 1: A Obra de Arno Breker.

O início do filme Olympia, de Leni Riefenstahl, faculta uma visualização magistral da ponte entre a estética da antiguidade clássica e a estética ariana. Lentamente, em cerca de dez minutos, opera-se a passagem do testemunho das ruinas e das estátuas, masculinas e femininas, dos atletas e guerreiros gregos para os corpos dos atletas, homens e mulheres, arianos (ver vídeo 2).

Vídeo 2: Leni Riefenstahl. Olympia. Início.

São realistas as imagens de Leni Riefenstahl e as esculturas de Arno Breker? Não são realistas, são clássicas. Distorcem a realidade numa vontade de a predizer. Os corpos de Arno Breker são impossíveis. Não há simetria nem músculo que resistam. Até certo ponto, it’s a fake, uma ilusão. Mas a escultura grega também não era realista. Os corpos eram belos, mas não eram reais. A aspiração estética, a beleza, declina a cópia, aspira a uma representação “mais humana do que o humano” (ver o documentário da BBC: How Art Made the World. Episode 1 of 5. More Human than Human, 2005). A estética nazi é “clássica, demasiado clássica”, excessivamente clássica.

Galeria de fotografias de Hans Surén

O meu reino, imaginário, também é um pouco assim: clássico, na versão quadrada. Tudo se decide com valentes tesouradas. Parece a mesa de um alfaiate.