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O estádio do respiro

Estou a passar uma fase em que a oralidade e a interação presencial se sobrepõem à escrita. Muitas comunicações, algumas a pedir preparação. Por exemplo, sexta, dia 18, cumpre-me a abertura da Conferência Internacional “We Must Take Action #3 O Ensino Artístico no Desenho do Futuro da Arte, na XXII Bienal Internacional de Arte de Cerveira. Não é óbvio nem dá para improvisar. Para inspiração recorro à música, também pouco óbvia. Por exemplo, da cantora e compositora francesa Camille (Dalmais).

Tive um professor, Jean-Louis Tristani, sociólogo e psicanalista, que, para além dos estádios oral e anal descobertos por Freud, inventou o estádio do respiro em que o desejo e o prazer se centram no aparelho respiratório (Le stade du respir, Paris, Éd. de Minuit, 1978). Pois a música de Camille lembra-me o estádio de respiro de Jean-Louis Tristani.

Seguem quatro canções de Camille: Home is where it hurts; Gospel with no Lord; Waves; e Ta Douleur.

Camille. Home is where it hurts. Music Hole. 2008. Ao vivo. Antenne 2.
Camille. Gospel with no Lord. Music Hole. 2008
https://www.youtube.com/watch?v=JcBDp65uNzQ
Camille. Ta Douleur. Le Fil. 2005

Pranto

Lhasa de Sela

A alma pega fogo quando deixa de amar (Lhasa de Sela)

Não sou dado a cultos, mas a haver algum será a Lhasa de Sela. Pela voz e pela presença.

O Tendências do Imaginário já contempla três canções de Lhasa: De cara a la pared; Meu amor meu amor (uma reinterpretação de Amália Rodrigues); e La Marée Haute. Acrescento dois vídeos musicais: La Llorona e El Desierto.

Lhasa de Sela. La Llorona. La Llorona. 1997
Lhasa de Sela. El desierto. La Llorona. 1997

Miriam Makeba, Mama Africa

Miriam Makeba

Dedico-me cada vez mais a uma lentidão atenta à natureza. Hoje, assisti ao que creio ter sido uma “dança de corte” entre um melro, preto, e uma melra, de tez acastanhada. Ultrapassando raramente uma distância de meio metro entre ambos, o melro aproximava-se, investia, e a melra afastava-se, esquivava. Por vezes, ensaiava pequenos voos de menos de 40 cm de altura pousando no mesmo sítio. Esta “dança” durou cerca de 4 minutos. Fiquei a observar quieto, logo não filmei.

Lembrei-me de Miriam Makeba ao ler o artigo “Jean Rouch, cineasta, antropólogo, engenheiro, africano branco”, de José Ribeiro, a aguardar publicação. Menciona Makeba a propósito do filme anti-apartheid Come Back Africa de Lionel Rogosin (1960) em que esta participa como cantora. Este filme foi o primeiro impulso decisivo para a sua carreira.

Ao telefone disse a uma colega que estava a escutar Makeba. Que não conhecia. Estranhei. Somos almas gémeas no que respeita à música. Conhecer tenho a certeza que conhece, apenas desconhece que conhece, como o Monsieur Jourdain do Bourgeois gentilhomme de Molière (1670). Justifica-se, portanto, dedicar um apontamento a Makeba.

Primeira voz africana com reconhecimento expressivo a nível internacional, Miriam Makeba nasceu em Joanesburgo, em 1932. Cedo rumou para os Estados-Unidos, onde gravou o primeiro álbum a solo em 1960. No mesmo ano, o regime sul-africano proibiu-a de regressar ao país para o funeral da mãe. Empenhada em movimentos cívicos, em 1962, testemunhou perante a Comissão Especial das Nações Unidas para o Apartheid. Com um prémio Grammy em 1965, a sua canção mais popular é Pata Pata (1967). Casou em 1968 com Stokely Carmichael, líder do Partido dos Panteras Negras. O governo dos Estados-Unidos cancelou-lhe o visto quando estava em viagem no estrangeiro. Mudou-se para a Guiné, tendo residido em vários países. Artista e cidadã sempre ativa, tornou-se um símbolo da luta contra o apartheid. Terminado o apartheid, regressou à África do Sul. Foi nomeada, em 1999, embaixadora da boa vontade da ONU. Conhecida como “Mamã África”, é considerada a “rainha da canção africana”. Morreu de ataque cardíaco durante um espetáculo, na Itália, em 2008.

Segue cinco canções de Miriam Makeba.

Miriam Makeba (com Harry Belafonte). Malaika (My Angel). An Evening with Belafonte/Makeba. 1965
Miriam Makeba. Where Does It Lead?. Miriam Makeba. 1964
Miriam Makeba. Mbude. Miriam Makeba. 1964
Miriam Makeba. Umhome. Miriam Makeba. 1964
Miriam Makeba. Forbidden Games. The World of Miriam Makeba. 1962

Lendas, mistérios e assombrações. Curiosidades locais

Na zunga zango, não me deixam respirar
Vou acatando, mascarando o meu olhar
Fazem feitiços que te chegam a matar
Risos postiços branqueiam o mau olhar
(Batida feat. Mayra Andrade. Bom Bom. 2022)

Atendendo ao espírito da época, à comunicação com os mortos e à noite das bruxas, sugiro a leitura do artigo “Lendas, mistérios e assombrações”, publicado ontem, 27 de outubro de 2022, pela Ana Maria Fonseca no jornal Expresso. Para aceder ao artigo, carregar na imagem seguinte.

Expresso. Lendas, Mistérios e assombrações – onde (não) ir na noite das bruxas. 27.10.2022
Batida feat. Mayra Andrade. Bom Bom. Neon Colonialismo. 2022

O Homem-Serra

Chainsaw Man. Episódio 3. Tema Final. Outubro 2022

O mal está em começar. Não tarda o apetite. Sucede com os anime. Induzem-me a regressar a um imaginário a que dediquei especial atenção: o grotesco. A este título, o tema final do Episódio 3 do “Chainsaw Man” excede-se.

“Chainsaw Man”. Episódio 3. Tema final sem créditos. Música: Maximum The Hormone. Blade Length 200 Million Centimeters. Outubro 2022

Meigas

Existem momentos em que o contexto, os astros, as afinidades e as predisposições se conjugam para transformar a comunicação em comunhão, a porta em ponte, o limite em prolongamento, a cara em carinho e o saber em conhecer (do latim cognoscere, de com, junto, mais gnoscere, saber, ou seja, saber em conjunto). As pessoas, os gestos e os pormenores parecem apostados em entrelaçar as mãos. Não sei por que estou a escrever estas palavras. Deve ter sido algum pirilampo que passou pelo teclado.

Serões do Medo. Melgaço. 21.10.2022

Regressei de Melgaço com os ouvidos cheios de testemunhos de experiências sobrenaturais: acompanhamentos, aparições, sinais, bruxas e meigas. Proporciona-se a canção Túa nai é meiga e, por acréscimo, Alalá Das Mariñas, ambas de Uxía.

Uxía. Túa nai é meiga. estou vivindo no ceo. 1995. Ao vivo no Auditório da Ilha de Arousa. 2018.
Uxía. Alalá Das Mariñas. estou vivindo no ceu. 1995.

O destino, a voz, o violino e o assobio

Cenário. Serões do Medo. Melgaço, 21 de outubro de 2022

Acho que a curiosidade descuidada seria aquilo de que o mundo necessita agora” (Andrew Bird).

Sexta, dia 21 de outubro, vou participar na primeira edição dos Serões do Medo na Casa da Cultura em Melgaço (ver https://correiodominho.pt/noticias/noite-dos-medos-esta-de-volta-a-vila-de-melgaco/139827). A conversa versará, primeiro, sobre as esculturas tumulares, em seguida, sobre as visões noturnas, tais como acompanhamentos e procissões de defuntos. À partida, temas pouco apelativos. No entanto, não concebo nada de mais vivo e  presente na vida e no espírito dos vivos do que a experiência e o imaginário da morte. Possivelmente a componente mais criativa e imaginativa dos seres humanos. Pelo menos, para a morte rementem as obras mais notáveis da história da arte: as pirâmides do Egipto, a Pietá de Michelangelo, o Cristo de Velasquez, o Pensador de Rodin, Guernica de Picasso… Quem edifica, visita e cuida dos cemitérios, quem encomenda, talha e coloca as esculturas, quem as cobre de sentimentos e significados são os vivos. O mesmo sucede com as visões noturnas. Esculturas tumulares e aparições dizem muito acerca dos vivos, praticamente nada dos mortos. Acalento a esperança que, finda a conversa, a audiência desfrutará do conforto de ter ouvido falar menos da morte e dos mortos e mais da vida e dos vivos, que, porventura, ficarão a conhecer um pouco melhor. A pretexto da morte, descobre-se a beleza e, sobretudo, o amor, omnipresente como o principal rival da morte.

Amanhã, vou para Melgaço. Em princípio, não vou ter acesso doméstico à Internet. Despeço-me, assim, por uns dias. Costumo escolher as músicas a pensar na sensação e no sentimento que desejo que me provoquem. Outras vezes, mais raras, escolho-as para expressar o que me vai na alma. Em que lado se situará este excerto de um concerto de Andrew Bird?

Andrew Bird

Andrew Bird: NPR Music Tiny Desk Concert: “Are You Serious”; “Roma Fade”; e “Capsized”.

O barco de casca de pinheiro

Barco de brincar feito com casca de pinheiro

De vez em quando gosto de quebrar a rotina e regressar a este ou aquele artista. Como o barco de casca de pinheiro ao tanque de rega. Voltou a caber a sorte a Sufjan Stevens, músico que o Tendências do imaginário já contempla (ver https://tendimag.com/2018/09/16/festival-para-gente-sentada/; e https://tendimag.com/2021/10/19/sufjan-stevens-o-misterio-do-amor/).

Sufjan Stevens. Visions of Gideon. Call Me by Your Name: Original Motion Picture Soundtrack. 2017.
Sufjan Stevens. The Greatest Gift. The Greatest Gift. 2017.
Sufjan Stevens. Fourth of July. Carrie & Lowell. 2015.

Notável e notório. A formiga e a cigarra, o galo e a galinha

Moledo, domingo. Proporciona-se um mergulho no adubo humano.

Notável é aquilo que é “digno de nota”, “merecedor de consideração e apreço”; notório, o que é notado, “conhecido por um grande número de pessoas”. Pode-se ser notável sem ser notório; e notório, mas não notável. Numa sociedade da imagem, da rede e do artifício, prevalece o notório. Chegados a esta encruzilhada, apetece reequacionar a fábula de La Fontaine: hoje, quem morre de fome não é a cigarra, notória, mas a, a formiga, notável. A cigarra polariza o reconhecimento. Sendo esta a verdade mundana, importa refundar as pragmáticas, as éticas e as teodiceias.

A propósito da cigarra e da formiga, acode-me a relação entre o galo e a galinha, cantada, com inspiração e humor, por Sérgio Godinho.

Sérgio Godinho. O Galo é o Dono dos Ovos. Pano-Cru. 1978. Ao vivo no Centro Cultural de Belém.

Publiquei, em 2011, uma fábula no ComUm, boletim da Universidade do Minho, com o título “Fábula comUM” (contemplada no Tendências do Imaginário com o título “Fábula das formigas sabichonas”). A Universidade tinha a virtude da homeopatia: sabia digerir o “mal”, a adversidade, expondo-se à crítica mordaz e sarcástica. É certo que as farpas se afogavam na gordura académica. Destilada e delirante, a escrita enferma de um vício que não me larga: discorrer sem explicitar o assunto. O leitor que adivinhe e o resto reverbere. O “segredo” remetia para a implementação da política dos rácios alunos/docentes consoante os cursos, depressa extrapolada, abusivamente, para os departamentos. Um veneno que as universidades, em particular a do Minho, devoraram. Este desvio de uma fórmula de financiamento para uma forma de governo desvirtuou o mundo académico, resultando numa legitimação e num reforço dos interesses e privilégios instalados ou em vias de instalação. Uma deformação que, a par do controverso processo de Bolonha, contribuiu estruturalmente para o atual desequilíbrio institucional das universidades portuguesas.

Para aceder à “Fábula das formigas sabichonas”, carregar na imagem seguinte ou no endereço https://tendimag.com/2011/11/13/fabula-das-formigas-sabichonas/

Desequilíbrio fórmico

Pequeno desvio

Kishi Bashi

Descobre-se o que não se espera quando e onde menos se espera. Deparei com a música do cantor, instrumentalista e compositor norte-americano Kishi Bashi numa curta-metragem (these little moments matter: https://vimeo.com/369736156). E gostei. Lembra alguns artistas preferidos. Partilho três músicas, duas interpretadas com o Nu Deco Ensemble: I Am the Antichrist to You; Violin Tsunami; e Atticus in The Desert.

Kishi Bashi. I Am the Antichrist to You. 151a. 2011. Interpretado com o Nu Deco Ensemble. New World Center, Miami Beach, FL. 2020.
Kishi Bashi. Violin Tsunami. Omoiyari. 2019. Vídeo oficial.
Kishi Bashi. Atticus in The Desert. 151a. 2011. Interpretado com o Nu Deco Ensemble. Light Box in Miami, FL. 2017.