Ouvidos vadios

Continuemos a (a)variar. A banda francesa Orange Blossom presta-se. Fundada em Nantes em 1993, combina trip hop e rock, progressivo e eletrónico, com música oriental. Os membros principais são o francês PJ Chabot, violino, o mexicano Carlos Robles Arenas, percussão, e a egípcia Hend Ahmed, voz. Os demais têm origem argelina, marfinense e turca. “Multiculturais”, cantam em árabe, francês, inglês, turco, espanhol e português (Meu amor se foi).
Anónimo, ca. 1500. Univ. de Liège
Sentinela. Vista sobre Santa Tecla

Do cume do monte de Santa Tecla tiram-se fotografias magníficas: em baixo, de Moledo, ao monte, também. Só é preciso ter bom olho e boa câmara. Associar uma fotografia a uma música é um entretenimento desafiante. Cismei, um pouco desbussolado, que devia ser música eletrónica. Da discografia dos Tangerine Dream, do Klaus Schulze e do Mike Oldfield, retive três canções: Song of the Whale, Pt. 1: From Dawn…; Wellgunde; e Sentinel. Qual valoriza e resulta mais valorizada? Se obtiver respostas, coloco a eleita em primeiro lugar.
A Arte do Ruído na Viragem do Milénio
Para ensinar algo às pessoas, convém misturar o que elas conhecem com o que elas ignoram (Pablo Picasso)
Qualquer ruído escutado durante muito tempo torna-se uma voz (Victor Hugo)
A procura da primeira música matinal encalhou no álbum The seduction of Claude Debussy (1999), o quinto e último dos Art of Noise. Música eletrónica com declamação e ópera à mistura. Por que não? Aspiração e inspiração à solta. Trata-se de um álbum com uma sonoridade diferente dos precedentes Who’s Afraid of the Art of Noise? (1984), In Visible Silence (1986), In No Sense? Nonsense! (1987) e Below the Waste (1989). Conceptual, mistura trechos do compositor impressionista francês com bateria, baixo, ópera, hip hop, jazz, récitas, ruídos digitalizados e a voz da alta mezzo-soprano Sally Bradshaw.
Vanguardistas, os Art of Noise constituíram um grupo britânico de synth-pop que foi fundado em 1983 pelo engenheiro/produtor Gary Langan e pelo programador JJ Jeczalik, acompanhados pela teclista/arranjadora Anne Dudley, pelo produtor Trevor Horn e pelo jornalista de música Paulo Morley. Foram pioneiros no uso intensivo e criativo do Fairlight, instrumento musical eletrónico de origem australiana que permite o processamento computadorizado e a interpretação de amostras de sons através de um teclado semelhante ao de um piano (o vídeo com a canção Born On A Sunday ilustra, de algum modo, este procedimento). “Beat Box”, “Moments in Love”, “It’s All About Me”, “Close (to the Edit)” e os covers “Video Killed the Radio Star”, “Peter Gunn” e “Kiss” conquistaram os primeiros lugares nas tabelas de vendas. Várias composições integram filmes tais como O Diário de Bridget Jones, Os Anjos de Charlie: Potência Máxima ou A Minha Madrasta É Um Extraterrestre.
Cavalos cansados
De vez em quando, um álbum antigo de Bob Dylan insiste em me dar um sorriso: Self Portrait (1970), um vinil duplo de edição holandesa. É disco estranho. Começa com um coro, All the tired horses, e quase acaba (penúltima faixa) com outro coro (Wigwam). No primeiro, Bob Dylan não canta e nota-se a diferença. Mas o que surpreende é a voz: na maioria das faixas, não parece ele a cantar. Quando saiu, este álbum foi duramente criticado. Fora do habitual, com demasiados covers e sonoridades incomuns, não correspondeu às expectativas.
Regressar à adolescência é, se calhar, um reflexo estúpido. Bob Dylan não faz anos. É certo que este álbum acaba de ser reeditado em caixa, com mais qualidade, novas versões e demais acessórios. Mas há memórias que são objectos e teimam em permanecer vivas. O Self Portrait do Bob Dylan foi um bom companheiro, num tempo em que pequenos nadas como este podiam significar opções de vida.
Bob Dylan. All the tired horses. Self Portrait. 1. 1970.
Bob Dylan. Wigwam. Self Portrait. 23. 1970
Tangerina Electrónica
Os Tangerine Dream são uma banda alemã de rock progressivo formada em 1967. Ainda em atividade, foram, com os kraftwerk, pioneiros da música eletrónica. Publicaram mais de meia centena de discos. Stratosfear não é das músicas mais populares, nem das mais elaboradas. É, contudo, aquela que quando penso Tangerine Dream logo me vem à memória. Integra o álbum homónimo editado em 1976. Quem tiver a paciência de a ouvir, será regalado com alguns trechos compensadores. Para acompanhar, juntei umas tantas imagens das capas dos discos.
Tangerine Dream. Stratosfear. Stratosfear. 1976.
