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Anúncios de arrepiar

Brinquemos aos disparates!

Se existem profissionais cuja capacidade de aprendizagem admiro são os médicos. Mas, até entre os mais dotados e afoitos, a aprendizagem pode enredar-se num qualquer nó. Talvez seja o caso do “sistema” [informático], mais mecânico do que orgânico. Por trágica ironia, quando se começa a dominar o “sistema”, logo o dito cujo cuida de mudar.

Por seu turno, os sociólogos comprazem-se a desatar nós. Desconstroem-nos, “reformando ilusões”. No conhecimento sociológico proliferam, portanto, as pontas soltas. Entre enlaces e desenlaces, o diálogo entre médicos e sociólogos pode ser edificante. Mesmo quando é questão do senso comum sábio acerca dos malefícios mais que evidentes do tabaco.

Imagem: Kamal Gurung, Lalitkala Fine Art Campus. Kathmandu, Nepal

Tenho sugerido que a publicidade de consciencialização varia geograficamente. O Ocidente tende a apostar no sério realista assustador, o Oriente, no humor delirante persuasivo.

O anúncio português “Heavy Silence”, sobre o risco de afogamento, segue a regra; já o anúncio tailandês “Park”, sobre os perigos do cigarro eletrónico, afasta-se da tendência oriental. A fantasia e o riso congelam dando lugar ao drama. Pelos vistos, a adesão dos jovens ao cigarro eletrónico assevera-se particularmente alarmante.

Anunciante: APSI (associação para a promoção da segurança infantil). Título: Heavy Silence. Agência: Havas Worldwide Portugal. Portugal, julho 2022
Anunciante: Thai Health Promotion Foundation. Título: Park. Agência: Grey Thailand. Direção: Suthon Petchsuwan. Tailândia, agosto 2025

O vinagre e as moscas

Há muitas maneiras de o dizer e outras tantas de o entender, o que representa um desafio para os agentes publicitários. Tanto podem contribuir, junto do público, para o envolvimento e o agrado como para o enfrentamento e o desconforto, provocando sensações e sentimentos ora de satisfação, confiança e esperança, ora de perturbação, insegurança e receio. Difíceis de antecipar, as reações podem resultar perversas: indiferença, rejeição e, até, adversidade em vez de adesão, reconhecimento e conversão. A maioria dos anúncios comerciais, interessados em congregar e cativar, apostam na primeira modalidade; os anúncios de sensibilização, mais empenhados em assustar e mitigar, na segunda, destacando-se as campanhas antitabaco como exemplo extremo. Na prevenção ambiental ou rodoviária, a opção pela polémica e pelo choque tende a ser menos drástica e sistemática, com eventual recurso à fantasia, à simpatia e, até, ao humor. O anúncio natalício “Llegar”, da Dirección General de Tráfico (DGT), de Espanha, oferece-se como um excelente exemplo.

Um dia virá em que as altas autoridades se dignarão ponderar um provérbio antigo: “Não é com vinagre que se apanham moscas”; ou “Apanham-se mais moscas com uma colher de mel do que com vinte barris de vinagre“.

Entretanto insiste-se, décadas a fio, na repetição, na agressividade e, muitas vezes, na intrusão sem que os resultados correspondam. Algo me escapa! Existirão outras lógicas que não consigo ou ouso equacionar? Além da conversão, a discriminação, a estigmatização e a demonização? A justificação da penalização, nomeadamente através de impostos demasiado excessivos e pouco dissuasivos? Com certeza que não, seria grave.

Anunciante: DGT (Dirección General de Tráfico). Título: Llegar. Agência: Accenture Song. Direção: Juan Silva. Espanha, dezembro 2023

O medo dos palhaços e os dentes de lagarto

Argui, há seis meses, uma dissertação dedicada à figura do palhaço (ver https://tendimag.com/2023/02/25/esquilo-o-abutre-e-a-tartaruga/). Durante a prova não resisti a desconversar ressalvando que a figura do palhaço podia assumir significados negativos. Assim sucede quando afirmamos que determinado ato não passou de uma palhaçada ou uma dada pessoa se comportou como um palhaço.

Imagem: Pablo Picasso. Le Clown. 1962

Mas não era esta a negatividade que queria vincar. Aludia, principalmente, à associação da figura do palhaço ao medo e ao terror. Existe, inclusivamente, uma fobia aos palhaços conhecida como coulrofobia. Encontramos palhaços assustadores na literatura, no cinema, na publicidade… Recordo filmes como Palhaços Assassinos (1988) ou IT – A Coisa (2017); e deparo-me com o anúncio, estreado este mês, The Visitor, da Bell, inspiração imediata deste artigo.

Marca: Bell. Título: The Visitor. Agência: Leo Burnett (Toronto). Direção: Leigh Marling. Canadá, agosto 2023.

Mas o exemplo mais superlativo talvez continue a ser o anúncio Carousel , da Philips, de 2009.

Marca: Philips. Título: Carousel. Agência: Tribal DDB (Amsterdam). Direção: Adam Berg. Países Baixos, 2009

Enfim, parece que já não consigo inovar. Não há nada que escreva que já não tenha escrito antes. Redigi já lá vão sete anos, em 2016, o artigo O caso dos palhaços assustadores (https://tendimag.com/2016/11/06/o-caso-dos-palhacos-assustadores/). Não param de me revisitar este tipo de ecos. Nada de novo a toque de teclado! Estou obsoleto. O pouco convívio também contribui para esta calvície do intelecto. Sem a centelha dos outros, estrelinhas fulminantes num infinito de ideias geniais, sinto-me (narcisista?) como um lagarto que anda à roda, à roda, à roda, até abocanhar a própria cauda. Então, trinca, trinca, trinca, até lhe sobrarem apenas os dentes. Quem quer dentes de lagarto?

Embora o riso seja das atividades mais características e mais sociais do ser humano, surpreendo-me a rir sozinho, “com os meus botões”. Às vezes, acorda-se prazenteiro.

História de um melro que morreu por ser feliz

Pablo Picasso. Visage de la paix IV. 1950.

Um melro costuma fazer ninho no quintal. Atarefado, tem-se saído bem com os gatos. Pior destino teve “o melro” do Guerra Junqueiro, vítima da vingança do Velho Padre Cura, num extenso conto em verso que o meu avô recitava de cor. Segue a digitalização do poema “O Melro” a partir da segunda edição ilustrada do livro A Velhice do Padre Eterno (1ª edição: 1885). Segue o respetivo pdf,

Quem fala em melros, pode falar em rouxinóis. Porque a opressão e a maldade não têm pouso exclusivo. Ao melro raptaram-lhe os filhos; ao rouxinol da Cantilena de Francisco Fanhais cortaram quase tudo.

Francisco Fanhais. Cantilena. 1969. Poema de Sebastião da Gama.

Com imagens pode dizer-se muito. Com poucas imagens pode, por vezes, dizer-se ainda mais. Na curta-metragem dos bauhouse, sopra-se no medo e na esperança até que explodem como tiros e bombas. Porque as nossas asas são tão frágeis como as dos pássaros.

bauhouse. Momentum 2015 – Video Installation. 2015. Curta-metragem.

O medo e o racismo

É difícil discorrer sobre o racismo sem incorrer em contradições.  René Gallissot fala de Misère de l’Antiracisme (Paris, Editions de l’Arcantère, 1985). O anúncio Démasquons la Peur, da associação Licra, merece particular atenção. Em primeiro lugar, o morphing permite revelar a diversidade e a plasticidade humanas. Em segundo lugar, o recurso ao preto e branco propicia o esbatimento das cores e a acentuação dos contrastes. O discurso lembra uma árvore de palavras: alia a abrangência troncal à especificação dos ramos. O tópico do medo é matricial: “O racismo é o medo da diferença” (Franck Ntasamara).

Anunciante: Licra. Título: Démasquons la Peur. Agência: Publicis Conseil. Direção: Akim Laouar. França, fevereiro 2021.

Serenidade

Não se ganha em amedrontar as pessoas. Seja qual for o motivo: tabaco, Covid-19 ou inferno. O medo torna as pessoas irracionais. Cabeça e coração. Um amigo, com sintomas graves, adiou vários meses a consulta médica; fumador, receava um cancro nos pulmões. Não era! O problema, grave e urgente, era outro e nada tinha a ver com o tabaco. O evangelho vigente por pouco não foi fatal. A campanha do medo é medonha. É com determinação e serenidade que se atravessa o abismo (AG).

“Não é necessário ter razões par ter medo” (Romain Gary, La vie devant soi, 1975).

Serenas são as canções de Katie Melua. Na intimidade, com o Gori Women’s Choir, em concerto na Irlanda do Norte ou durante o memorial das vítimas da guerra, com a presença da Rainha.

Katie Melua. Dreams On Fire. In Winter, 2016.
Katie Melua. The Closest Thing to Crazy. The Closest Thing to Crazy. 2003. Ao vivo em Belfast, 2004.
Kate Melua. I Will Be There. Ketevan. 2013. At The RBL Festival of Remembrance (09.11.2013). BBC One.

Músicas de medo, morte e pranto 3. Gilbert Bécaud

The deathbed of Philippes de Commines. France. 1512.

Existem muitas canções de medo, morte e pranto. Algumas bem bonitas. Gilbert Bécaud: Quand Il Est Mort le Poète e Mon Père à Moi.

Gilbert Bécaud. Quand il est mort le poète. 1965.
Gilbert Bécaud. Mon père à moi. Don Juan. 1964. Live Olympia 1988.

Músicas de medo, morte e pranto

Turner. Death on a Pale Horse, 1825-1830.

A vida é uma cereja
A morte um caroço
O amor uma cerejeira.
Jacques Prévert. Histoires. Folio, 1972

Para entrar na distopia, duas músicas menos conhecidas do Lou Reed, Waves of Fear, e dos Pink Floyd, Dramatic Theme.

Lou Reed. Waves of Fear. The Blue Mask. 1982.
Pink Floyd. Dramatic Theme. More. 1969.

O açambarcador, a abelha e a formiga

Nos tempos que correm, um açambarcador representa um risco sério. Conjuga egoísmo e medo. Ambos potenciam uma ameaça à comunidade. O egoísmo só é bom na Fábula das Abelhas (1714) de Bernard de Mandeville e o medo não devia sair dos contos de E.T.A. Hoffmann (1776-1822). Juntos formam um binómio sinistro. Existem pormenores no anúncio tailandês Think, da Land and Houses, que manifestam a arte de emocionalizar mensagens. Por exemplo, a sequência em que a criança devolve o pacote ao açambarcador anómico: o inocente e o inconsciente.

Marca: Land and Houses. Título: Think. Agência: Phenomena (Bangkok). Tailândia, Março 2020.

A sociedade do medo. O riso e a morte.

O espetáculo é o mau sonho da sociedade moderna acorrentada, que acaba por exprimir apenas o seu desejo de dormir (Guy Debord, La société du Spectacle. 1967).

Há uma eternidade que não ria tanto com um anúncio. Aberta e espontaneamente. Uma empresa de electricidade malaia ridiculariza as novas tecnologias da realidade virtual. Importa rir.

A sociedade actual menospreza o riso. Aposta, em contrapartida, no medo, na catequese da ameaça, a modos como a santa inquisição, o nazismo, o estalinismo e outros guardadores de homens. Receamos tudo, até a água que bebemos e o ar que respiramos. Novos pastores, novos rebanhos, novos lobos, novos fantasmas, novos cavaleiros do Apocalipse.

Quino. Hombres de Bolsillo. Editorial. Lumen. 1977

Morre-se um pouco todos os dias. Nada escapa, tudo prejudica, tudo mata. Perdi a conta aos catastrofismos políticos e mediáticos a que sobrevivi. Acrescento uma bandeira à procissão: a vida precede a morte, viver pode matar! Mas, apesar da proliferação de infortúnios, só se morre uma vez. Parece que estamos pendurados num rosário de mortes. Se tudo mata, o riso ressuscita! É o que interessa. Convém reconhecer que os nossos pastores, ao contrário dos inquisidores, não nos conduzem a uma vala comum, satisfazem-se com o comboio fantasma. Não tenho emenda. Este comentário não faz jus ao anúncio. No meio de tanto humor, atravessou-se um espantalho.

Marca: TNB CNY 2020. Título: Reality Not Virtual. Produção: Reservoir World. Direcção: Quek shio Chuan. Malásia, Janeiro 2020.