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O sabor da felicidade

Monstro das Bolachas. Rua Sésamo.

Publiquei o anúncio Biblioteca, da Oreo, no facebook, em 2011. Não hesito em retomá-lo. Retomar é viver duplamente: no passado e no presente. O anúncio Biblioteca é uma ternura. Trata da felicidade que tanto perseguimos e tanto nos escapa. Um pensamento estorva-me as ideias: qual é o lugar da felicidade na televisão, mormente na informação? Nos anos sessenta, chamava-se à televisão a “caixa mágica”, uma adição, uma droga, da sociedade do consumo e da imagem. Com todas as nossas viragens e posteridades, da sociedade do consumo e da imagem ainda não saímos. A felicidade na informação televisiva joga às escondidas ou aparece passada a ferro. Manifesta-se mais natural gerar medo, insegurança e tristeza do que inspirar confiança, esperança e felicidade. Existe atração pelo medo? Compensa o drama e a tragédia? A felicidade mora ao lado. E o golo? E o hino? E a lotaria? E os festivais? E a saída nacional do “lixo”? Extraordinários efémeros. A felicidade é um sentimento. Não é fácil contribuir para a felicidade alheia. Tão pouco para a nossa. O anúncio Biblioteca é um sobressalto da alma. Menos pelo conteúdo, “o apetite guloso”, e mais pela forma: o apetite aguça a arte de superar limites. Nos anúncios, como em quase tudo, a forma transcende o conteúdo. Conheci a Felicidade; até tenho fotografias; era uma das figuras da minha aldeia; uma excelente pessoa; despediu-se há muito tempo.

Marca: Oreo. Título: biblioteca. Agência: Draftfcb Argentina. Director: Martín Hodara. Argentina, 2010.

Lição de moral

Livro de Horas de Simon de Varie. França. 1455.

Livro de Horas de Simon de Varie. França. 1455.

O anúncio The Book, do United Overseas Bank, propõe uma comovente lição de moral: 1) não devemos apropriar-nos do que pertence a outrem; 2) o valor sentimental suplanta o valor pecuniário; 3) esta sabedoria deve passar de pais para filhos. Apostado no valor da honestidade, o anúncio lembra as fábulas de Esopo e de La Fontaine. Lembra, também, as histórias dos livros da escola primária: A Carochinha e o João Ratão, o rato do campo e o rato da cidade; São Pedro e a ferradura; as unhas dos candidatos a emprego e outros ensinamentos do género. A retórica das boas maneiras prosseguia no ciclo preparatório com uma disciplina chamada, creio, civilidade.

De pé, colados às carteiras, olhos postos no poder, entoávamos as nossas cantorias:

“Vamos cantar com alegria
E começar um novo dia
Para nós o estudo só nos dá prazer
E faremos tudo, tudo para aprender.

Não encontrei a letra desta canção na Internet. Creio que não a sonhei. Cantar, não a canto, que espanto o gato. Mas, ideologias à parte, não convém apagar a memória que à memória pertence. No que me respeita, vou compassar uma nova cantiga a caminho da Universidade: vamos cantar com alegria e começar um novo dia…

Marca: United Overseas Brank – UOB. Título: The Book. Agência: BBH (Singapura). Singapura, Fevereiro 2018.

Húmus

José Saramago, Ensayo sobre la ceguera.

A Librería Española, do Equador, adoptou um método interessante para promover a leitura. Criou um diário sensacionalista composto por excertos de livros. O princípio é conhecido dos agricultores: as sementes germinam melhor onde há húmus ou, eventualmente, um simulacro de húmus. A alguns intelectuais custa-lhes perceber esta química. Tomam-se pelo húmus, pela semente, pela folha, pelo fruto e pelo sumo. Vêem-se a um espelho cego. O anúncio Best Sellers Amarillistas acarinha José Saramago de um modo impressionante: O Ensaio sobre a Cegueira partilha o pódio com As Cinquenta Sombras de Grey, de Erika Leonard James, e O Principezinho, de Antoine Saint-Exupéry. Bem-haja! Por cá, húmus do costume.

Marca: Librería Española. Título: Best Sellers Amarillistas. Agência: McCann Quito. Direção: Javier Cotrona. Equador, Maio 2014.

Folhas

LIbreria Norma. Don Quijote.

Tantas folhas, senhor! E as folhas crescem nas árvores! E as árvores não são monstros! A impressão de milhões de livros do Dom Quixote, da Bíblia e do Principezinho devorou florestas inteiras. Não obstante, é possível que ainda não tenhamos devorado a dose recomendável de florestas de papel. Nesta excelente campanha, a Libreria Norma faz a apologia dos e-books. Menos árvores abatidas e um camião de livros num tablet. Mas, por que será que, no meu tablet, a maioria dos livros não tem fim? Nostalgia de virar a página? O fado do cansaço a meio do caminho? Um bocejar electrónico?

Marca: Libreria Norma. Título: Don Quijote De La Mancha. Agência: Ddb, Bogota. Direção: Reichart De Alcocer. Colombia, Abril 2013.

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Libreria Norma. The Holy Bible. Ddb, Bogota. Colombia, Abril 2013.

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Libreria Norma. The Little Prince. Ddb, Bogota. Colombia, Abril 2013.

Letras solidárias

Para o Nelson Zagalo (Virtual Illusion), que gosta de uma história bem ilustrada que se assemelhe a uma ilustração bem contada. Este anúncio, com um desenho fantástico que não censura o tabaco, dá vontade de folhear um livro como quem ama a humanidade.

Marca: Good Books. Título: Havana Heat. Agência: The Mill, String Theory. Direção: Mcbess e Simon. Nova Zelândia, Novembro 2012.