Muros e Marés
Acabei de escrever um artigo sobre o processo de democratização após o 25 de Abril. Uma oportunidade para recordar uma das primeiras medidas do MFA: a abolição da censura prévia, rebatizada como “exame prévio” por Marcello Caetano.
O controlo e a filtragem estão de vento em popa. Sempre, agora como dantes, para proteger eventualmente alguém de preferência com um elevado sentido de missão.
Em algumas universidades, os projetos de investigação começaram a ser submetidos numa fase inicial, antes de prosseguir, à aprovação, ou validação, por órgãos próprios, designados “comissões de ética”.
Seguem dois anúncios que, contra muros e marés, apostam na esperança: o primeiro, The Journey, da 84 Lumber, foi censurado no Super Bowl 2017 pela Fox; o segundo, Make Love Not Walls, da Diesel, quer-se um hino ao amor.
A Inteligência Artificial pode fazer desaparecer o encanto

Coloco este artigo da revista EM (Erasmus Magazine), de 20 de fevereiro, não porque está dedicado ao João, mas pelo seu teor e estilo. Trata-se de um texto da academia que tem a arte de abordar um dos seus membros não como um exemplar mas como uma pessoa. Privilegia a subjetividade, a singularidade e a idiossincrasia. Quem é o João, que episódios tem para contar, com quem se relaciona, quais são os seus gostos?
A escrita é simples e empática. Não cede ao protocolar e ao universal. Não normaliza. O investigador da Inteligência Artificial surge, antes de mais, como um ser humano.
O artigo interessa também pelo modo como contrasta com o retrato do mundo académico que esboço em A melancolia académica na viragem do milénio. Ilustra como este se circunscreve apenas a um recanto, a uma versão. A melancolia do mundo académico está acessível no seguinte endereço: https://margens.blog/2024/02/23/a-melancolia-academica-na-viragem-do-milenio/
Tradução (quase automática)
IA PODE FAZER DESAPARECER O ENCANTO, PENSA JOÃO GONÇALVES
Quando estudante em Portugal, João Gonçalves jogou Go – “uma espécie de xadrez da Ásia, mas mais complicado”. Até que os computadores derrotaram os grandes mestres. O livro The Master of Go, do autor japonês Yasunari Kawabata, fez Gonçalves perceber que o jogo, no que lhe tocava, havia perdido o mistério com o advento da IA. Em sua pesquisa, ele agora espera tornar a IA mais humana.
João Gonçalves tropeçou no jogo Go quando pesquisou jogos de tabuleiro complexos no Google. Ele gostava de xadrez, mas a forma como os profissionais o jogavam – “competitivos e rápidos” – tirou-lhe o encanto do jogo. Ele queria algo novo e encontrou online: Go –– ‘uma espécie de xadrez da Ásia, mas mais complicado’. Gonçalves mergulhou e se aprimorou no jogo junto com o irmão.
Go é um jogo de tabuleiro para dois jogadores com pedras brancas e pretas. O tabuleiro consiste em 19 por 19 linhas. Um jogador pode colocar uma pedra em cada interseção do tabuleiro. O objetivo é delimitar um território circundando áreas no tabuleiro com pedras da sua cor. O jogo termina quando nenhum dos jogadores quer fazer outra jogada.
Amadores magistrais
Não muito tempo depois, a Coreia do Sul quis tornar o jogo mais conhecido em todo o mundo. E aconteceu que, ainda estudante de 20 anos, Gonçalves voou para Seul com o irmão, quatro anos mais novo, para representar Portugal num campeonato de Go pago e organizado pela Coreia do Sul. “Depois de chegar à capital, seguimos para uma pequena vila que abrigou um dos grandes nomes do desporto. Foi a nossa primeira ida a Ásia e ficámos totalmente impressionados com a cultura tão diferente de Portugal.”
Numa aldeia rodeada de campos de arroz, os melhores amadores do mundo reuniram-se para jogar contra os grandes profissionais. As pranchas foram montadas lado a lado e Gonçalves enfrentou cinco vezes um grande mestre. Durante os jogos, ele bebia chá com arroz e – como é habitual em Go – cada jogador tinha uma hora para pensar. “Eu andava entre os campos de arroz pensando no meu próximo passo. Foi uma cultura totalmente nova para mim, mas assim que o jogo começou fiquei totalmente focado nisso.”
É a estrada que conta, não o destino
Gonçalves não venceu uma única partida. “Claro que não”, como ele disse, mas de qualquer maneira não é isso que o Go significa para ele. O objetivo é demarcar um território maior que o adversário. Se nenhum dos jogadores quiser fazer outra jogada, o jogo termina. Para Gonçalves, o que torna o Go tão fascinante é a forma como você joga. “É uma questão de refletir. Se eu quiser muito de uma vez, perderei, mas se for muito cauteloso, também não terei sucesso.”
Segundo Gonçalves, o Go perdeu a glória em 2016, quando os computadores venceram o melhor jogador do mundo da época. Inicialmente, Gonçalves não percebeu que este encontro tinha mudado a sua perspetiva do jogo. Foi apenas quando leu o livro O Mestre do Go, de Yasunari Kawabata, que recebeu como presente de sua esposa, que percebeu que ele descrevia o que estava vivenciando. “A mística esfumou-se. Um computador agora pode dizer qual movimento é bom e qual não é. Não se trata mais de uma bela jogada ou de como a sua forma de jogar é determinada por quem você é.”
The Master of Go é uma história fictícia baseada em um jogo real de Go em 1938, em que um antigo mestre do jogo competiu contra um talento emergente. O mestre representou a tradição e a antiga conceção do Go como processo criativo, enquanto a nova geração abordou o jogo de tabuleiro de forma competitiva e racional. Gonçalves dobrou a folha para marcar a página onde o autor descreve como as diferentes perspetivas se chocaram: “A batalha só era travada para vencer, e não havia margem para lembrar a dignidade e o perfume do Go como arte”.
Os professores são velhos mestres
Gonçalves também encontra paralelismos no livro com o advento do ChatGPT na educação. “Talvez eu seja o velho mestre que ensina da forma tradicional, enquanto o ChatGPT representa a nova geração, a geração do pragmatismo e da eficiência.” Ele vê claramente como a IA pode ajudar a educação: “Se um aluno tímido tem medo de discutir a sua proposta de pesquisa com um colega de classe, ele pode conversar com o ChatGPT”. Mas ele diz que algo também se perde: a interação e o processo. “Podemos focar no resultado final, mas é no caminho que você aprende a entender a si mesmo e ao assunto. Isso é essencial.”
Gonçalves recebeu uma bolsa Veni pela sua investigação para tornar a IA mais humana. Ele combina as competências de um cientista da computação e de um cientista de media: ele percebe a tecnologia por trás da IA e fala a linguagem das ciências sociais. “Quero trabalhar com a Meta e o Google para desenvolver um algoritmo que modere o ódio online de uma forma mais humana. Sim, sou um idealista. Através da pesquisa, quero mudar o mundo.”
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Número de livros por ano: 4
Gênero favorito: ficção científica, fantasia, detetives
Motivação principal: escapismo
Último livro lido: “O livro de fantasia do meu irmão, The Old Mage’s Gamble. Fui um dos seus primeiros leitores. Foi um prazer ler o livro, mas faltava alguma coisa. De repente, percebi que só havia pessoas e nenhum animal na história. Não estava certo. Meu irmão então mudou a história. Agora existem animais em seu mundo de fantasia.”
João Gonçalves é professor auxiliar na Escola Erasmus de História, Cultura e Comunicação. Depois de estudar Estudos de Comunicação em Portugal, trabalhou durante dois anos como jornalista num jornal. Para seu doutorado, ele pesquisou discurso de ódio online e desenvolveu pessoalmente um algoritmo para analisar seus próprios dados com mais rapidez.
Jean-Claude Combessie: O Método em Sociologia
Em março de 2020, em plena pandemia e ensino à distância, sugeri alguns textos para iniciação à metodologia e aos métodos e técnicas de investigação em Sociologia (ver Aula imaterial 2. A arte da sociologia: https://tendimag.com/2020/03/19/aula-imaterial-2-a-arte-da-sociologia/). Entre estes, constava O método em Sociologia, de Jean-Claude Combessie, meu antigo professor na Sorbonne. Não indicava, porém, nenhum link para descarga. Nunca é tarde. Pode descarregar agora o original, La Méthode en Sociologie, no seguinte endereço: https://www.academia.edu/36245797/Jean_Claude_Combessie_La_methode_en_sociologie. Existe tradução em português pelas Edições Loyola.


Semear erros
“A última coisa que descobrimos ao terminar uma obra é saber aquela que é preciso colocar primeiro” (Blaise Pascal).
“O conhecimento científico é sempre a reforma de uma ilusão” (Gaston Bachelard).
Escrevo sempre textos em construção, papers in progress. Mais ou menos a meio de uma pesquisa. Ousadia? imprudência? Existem motivos que o justificam, alguns por princípio, outros práticos.
Decidir partilhar uma obra apenas quando esteja absolutamente acabada representa candidatar-se a nunca a publicar. A perfeição não está ao nosso alcance. O conhecimento é sempre problemático, provisório e falível. Entre a primeira gota e a almejada cristalização definitiva estende-se uma eternidade. Um texto redondo como um ovo, sem janelas nem trancas, é uma ilusão, pior, uma presunção. Em suma, estamos, de facto, condenados a publicar textos em construção.
Como o sugerem Blaise Pascal e Gaston Bachelard, a ciência apresenta-se não como uma certificação da verdade mas como uma retificação do erro. No início não está a verdade mas o erro. No fim, volta a não estar a verdade mas, na melhor das hipóteses, um erro menor. Errar faz, neste sentido, parte da prática científica. O diagnóstico de um erro já é um mérito, mais, errar pode ser um contributo. Uma ideia errada pode revelar-se um passo rumo ao conhecimento. O exemplo avançado por Gaston Bachelard é desconcertante e convincente: do modelo proposto por Niels Bohr, assumido como decisivo para a teoria do átomo, não restou praticamente nada. Formular uma proposta que suscita tamanho apetite que nem sequer os ossos sobram pode corresponder ao sonho de um cientista. O erro e a dúvida são os companheiros de estrada do investigador. O cientista conjetura, não prega!
Estes apontamentos não configuram um dogma, apenas uma perspetiva, por sinal, bastante partilhada. Esta consciência, de tão geral e abstrata, com ares de maneirismo epistemológico, reveste-se de pouca utilidade se não se consubstanciar numa disposição, num modo prático, incorporado, quase espontâneo, de viver a investigação. Uma arte de ser e de estar, de abraçar, com humildade, a produção e a comunicação do conhecimento.
Mal concluo um texto, logo o começo a rever. No artigo dedicado aos Farrangalheiros, colocado há escassos quatro dias, já introduzi uma mão cheia de alterações. Coisas ínfimas, quase-nadas: melhorar uma formulação, complementar uma informação, limar uma imprudência desnecessária ou corrigir um lapso assinalado por um comentário mais atento com que me deparei quando, já redigido este texto, demandava a origem do vídeo anexo. Por enquanto, as alterações provêm, essencialmente, da mera autocrítica. Mas mantenho-me atento e aberto a reações alheias, a contributos suscetíveis de o melhorar, incluindo quase-tudos capazes de o subverter. Publicado, entregue à sua sorte, um texto passa a ser menos do autor e mais dos leitores, quase um estranho. A investigação esboça os primeiros passos e no princípio não mora o verbo mas a ignorância. Comparado com alguns colegas, sou um aprendiz na matéria.
Quando estudo uma coletividade, pressuponho que os seus membros conhecem a realidade, as respetivas experiências e crenças, com uma dimensão e profundidade que nunca lograrei. Por isso os procuro e escuto com a devida atenção. Dão mais do que dou, dívida que nunca resgatarei. Investigar, para mim, é antes de mais interagir com as pessoas, em cada esquina a cada momento. Se o maior desafio da investigação é a descoberta, a principal recompensa repousa nos laços criados. Longe de partir em cruzada contra o senso comum, caminho com as pessoas, com a sua sabedoria. Promovo a proximidade em vez da distanciação profilática. Não aspiro, sobretudo, a muito mais informação do que aquela que, pela sua memória e pela sua experiência, as pessoas contempladas já possuem.
Qual é, então, a minha utilidade? O meu contributo só pode ser diferente, porventura resultante de quase meio século de treino a interpretar o comportamento social, nomeadamente o imaginário, um exercício constante desde que ingressei, em 1976, no curso de sociologia na Sorbonne e, especialmente, em 1978, no seminário de sociologia da literatura na École de Hautes Études en Sciences Sociales. Esse é o meu património e a minha ferramenta, o meu olhar, que me esforço por usar com criatividade e imaginação, se possível fundamentadas. Acrescento à realidade, sem garantias de justeza, camadas de sentido, que, por vezes, se lhe colam à pele. Só pode ser esse o retorno, a contra dádiva. Conseguido ou não, isso é outra questão.


Qual é o interesse em partilhar precocemente textos em construção, exploratórios e provisórios? Sem escudos de validação nem rituais de verdade? O risco de errar não é contra-argumento. Está sempre presente, em qualquer fase, embora, naturalmente, não se saiba. O que se ganha com a imprudência? Existem duas potencialidades que são outras tantas virtudes. A primeira consiste, precisamente, em detetar e corrigir, a tempo, os erros graças à crítica alheia. O diálogo, o debate e a avaliação, despoletados pela publicação, concorrem para esse efeito. A segunda potencialidade convoca a inspiração: a leitura de um texto pode suscitar e alavancar novas perspetivas, novos problemas, novas hipóteses. Nesta ótica, uma investigação não é só coletiva por ser conduzida por uma equipa, mas também porque é recebida e apreciada por um público, apropriada por outrem, por um colégio mais ou menos invisível. Para quem, como Paul K. Feyerabend, acredita que importa mobilizar tudo o que quer que seja suscetível de propiciar conhecimento, estas possibilidades de retificação e inspiração não devem ser desperdiçadas. Enclausurar significa esterilizar e mumificar. A fecundidade reside na interação.
Recorrendo ao linguajar tecnocrático, subsiste, porém, uma ameaça: a eventualidade de enganar os leitores com falsidades insuspeitas. Risco que se agrava quando o escritor, pelo seu estatuto, desfruta de uma autoridade e de um crédito suplementares. Por mais voltas que dê, não consigo contornar esta questão. A única forma cabal de evitar o contágio do erro seria, logicamente, remeter-se ao silêncio ou escrever para não dizer nada. Acresce que ninguém consegue censurar erros que desconhece. Na falta de melhor, recorro a um arremedo: evito o discurso categórico e académico, a retórica da verdade. À arquitetura do tratado, prefiro a morfologia do conto. Opto por um estilo coloquial e poético, como quem conta uma estória à moda do Camilo Castelo Branco: uma aparente ficção com personagens e acontecimentos reais, na expetativa de que a razão conceda, à partida, menos fé ao literário, ao ligeiro e ao irreverente. Mesmo assim, a probabilidade de indução em erro permanece incomensurável. Deseja-se, neste beco sem saída, que o leitor desconfie das certezas, das respostas fechadas, e se contente com dúvidas, com propostas abertas.
Dou a ler à família os textos antes de os publicar. No caso vertente, a pergunta não se fez esperar: “Tiveste alguma reação?”. Nenhuma, ressalvando a menção num comentário a um lapso: escrevi, baralhado pela velocidade das letras, inverneiras em vez de brandas. Trata-se simplesmente de uma fatalidade do ofício que me preocupa, que me acompanha e perturba como um grilo falante. Escrever ajuda a pensar. O desconforto é geral, tanto vale para o livro que estou a escrever sobre as imagens de Cristo como para a coletânea, em revisão, sobre a morte na arte, o capítulo, no prelo, sobre as bugiadas de S. João do Sobrado ou o artigo, recente, sobre os Farrangalheiros de Castro Laboreiro. Confirma-o a advertência que culmina o capítulo dedicado às Bugiadas:
“O estudo do imaginário requer imaginação. Sem imaginar pouco se descobre e nada se inventa. Interpretar costuma ser um jogo incerto, estimulante na prática e ingrato nos resultados. Os avanços e os recuos resultam de um compromisso entre a dedução a partir daquilo que se sabe e a indução a partir daquilo que se aprende. Quando surge uma intuição, convém acolhê-la, equacioná-la e, eventualmente, explorá-la. Nada se ganha em autocensurar conjeturas em que se apostou, por mais elevado que seja o risco de errar. Infirmadas, corrigidas ou confirmadas, as ideias, mesmo falsas, possuem a virtualidade de abrir caminho ao conhecimento. Contra o desperdício intelectual, sempre que uma intuição nos desarma, avessa a uma promessa de validação, o mais avisado será enveredar pela generosidade e a imprudência de a partilhar. Uma proposta frágil mas honesta, motivada pela vontade de saber, desde que devidamente exposta à crítica e sem aparato de verdade, não incorre em pecado capital. Talvez venha a beneficiar do interesse e da crítica de alguém que lhe proporcione melhor sorte ou a cubra de ridículo. Assim introduzida, passamos a apresentar uma camada suplementar de leitura semiótica dos Serviços da Tarde, dotada de alguma coerência e sedução, conscientes de que carece sustentação mas não proscrição.”
Esta corrente de palavras aponta para uma postura na investigação e na comunicação do conhecimento: a aposta num jogo ponderado entre humildade quanto baste e ousadia tanta quanto possível. De preferência, com asas que voam em vez de asas que pesam: a andorinha no lugar da galinha.
Entrevista a Madalena Oliveira

O Instituto de Ciências Sociais, da Universidade do Minho, adotou como boa prática promover uma entrevista aos ex-membros recentemente reformados, para publicação no respetivo Boletim Informativo. Proporcionou-se uma conversa amável, franca e empática com Madalena Oliveira, atual diretora do Centro de Estudos em Comunicação e Sociedade.
A reforma não é a conclusão de um percurso mas uma nova fase. Não é por ser tão gasto que este provérbio deixa de ser verdade. As janelas de oportunidade modificam-se mas mantêm-se abertas para franquear experiências e arejar espíritos. Noutra condição, por outros caminhos e com novas artes.
Segue a entrevista, em pdf, a Madalena Oliveira.
Desaprender

Estou a escrever um artigo sobre o questionário para inquérito sociológico. A páginas tantas, dei comigo a folhear os Ensaios de Montaigne (1580). Encontrei estas passagens sobre o ensino e a aprendizagem. A deambulação tem destas artes: encontra-se o que não se procura mas que, por sinal, interessa.
Gostaria também que se tivesse o cuidado de lhe escolher um preceptor com a cabeça mais benfeita do que bem recheada (…) Os professores não param de gritar em nossos ouvidos, como quem entornasse o conhecimento num funil: nossa tarefa seria apenas repetir o que nos disseram (…) Gostaria que ele corrigisse essa prática e que desde o início, segundo a capacidade do espírito que tem em mãos, começasse a pô-lo na raia, fazendo-o provar, escolher e discernir as coisas por si mesmo. Ora abrindo-lhe o caminho, ora deixando-o abrir. Não quero que só o preceptor invente e fale: quero que, quando chegar a vez de seu discípulo, o escute falar (…) A autoridade dos que querem ensinar é, no mais das vezes, nociva para os que querem aprender (Michel de Montaigne, 1580. Ensaios. Livro I, Sobre a educação das crianças).
Que o preceptor faça o menino tudo passar pelo próprio crivo e que nada aloje em sua cabeça por simples autoridade ou confiança. Que os princípios de Aristóteles não lhe sejam princípios, não mais que os dos estoicos ou dos epicuristas; que lhe proponham essa diversidade de julgamentos e ele escolherá, se puder, do contrário permanecerá na dúvida.
Che non men che saper dubbiar m’aggrada / E, não menos que saber, duvidar me agrada (Dante, Inferno, XI, 93) (Michel de Montaigne. Ensaios. Livro I. Capítulo XXV: Sobre a Educação das crianças).

Quando vejo que me convenci, pela razão de outro, de uma ideia falsa, o que aprendo não é tanto o que ele me disse de novo, nem é de grande proveito a minha ignorância especial, mas em geral aprendo minha debilidade e a traição de meu entendimento, e com isso posso melhorar todo o conjunto. Com todos os meus outros erros faço o mesmo: e sinto nessa regra grande utilidade para a vida. Não olho para a espécie de erro nem para o erro individual como uma pedra em que tropecei. Aprendo a temer meu comportamento em qualquer lugar e trato de melhorá-lo. Saber que dissemos ou fizemos uma tolice é apenas isso; precisamos aprender que não passamos de um tolo, ensinamento bem mais amplo e importante (Michel de Montaigne. Ensaios. Livro I. Capítulo XIII: Sobre a experiência).
Há mais trabalho em interpretar as interpretações do que em interpretar as coisas: e mais livros sobre os livros do que sobre outro assunto: não fazemos mais que glosar uns aos outros. Tudo fervilha de comentários, mas de autores há grande escassez. O principal e mais famoso saber de nossos séculos não é saber compreender os sábios? Não é essa a finalidade comum e última de todos os estudos? Nossas opiniões enxertam-se umas nas outras. A primeira serve de caule à segunda: a segunda à terceira. Assim escalamos, degrau a degrau. E resulta que quem sobe mais alto costuma ter mais honra do que mérito. Pois só subiu um bocadinho, sobre os ombros do penúltimo (Michel de Montaigne. Ensaios. Livro I. Capítulo XIII. Sobre a experiência).
É só nossa fraqueza individual que faz que nos contentemos com o que outros ou nós mesmos encontramos nessa caça ao conhecimento: um mais hábil não se contentará. Há sempre lugar para um sucessor, e até para nós mesmos, e um caminho por outro lugar. Não há fim em nossas investigações. Nosso fim está no outro mundo. É sinal de estreiteza quando o espírito se satisfaz: ou sinal de lassidão. Nenhum espírito poderoso se detém em si mesmo. Sempre se empenha em ir mais longe e vai além de suas forças. Seus impulsos vão além de seus feitos. Se não avança e não se apressa, e não se força e não se choca e se revira, só está vivo pela metade. Suas buscas não têm término nem forma. Seu alimento é o espanto, a caça, a incerteza (Michel de Montaigne. Ensaios. Capítulo XIII: Sobre a experiência)
Vem mais ou menos a propósito a música Mon ami, mon maître, de Serge Lama, um cantor francês.
Deambulação

Raramente encontro o que procuro. Também não armazeno. Tenho as redes folgadas. Nada como parar de procurar. Deambular pelos labirintos. Andar sem destino com pés estrábicos. Ouvir música, por exemplo. Diferente, de preferência. Cativam-me duas músicas, Qui creavit coelum (anónimo) e Nesciens mater (Jean Mouton), do álbum Christmas Music From Medieval And Renaissance Europe. Para não fechar os olhos, escolho a Adoração dos Pastores, de Caravaggio. Sabe bem reencontrar o que já se tem.
O baloiço
O projecto Quem somos os que aqui estamos surgiu no âmbito do MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço. Visa o estudo das freguesias de Melgaço: iniciou em 2018, com as freguesias de Parada de Monte e Cubalhão; em 2019, foi a vez das freguesias de Prado e Remoães. O projecto prevê, para cada freguesia, as seguintes actividades e resultados: fotografias faladas; uma exposição de fotografia documental; um catálogo dedicado à exposição de fotografia documental; recolha e digitalização de fotografias de álbuns familiares; uma exposição de fotografia a partir dos álbuns familiares; e uma publicação (um livro).
“Produzido pela Associação AO NORTE, este projeto é coordenado por Álvaro Domingues, tem produção executiva de Rui Ramos e conta com colaboração de Albertino Gonçalves, Carlos Eduardo Viana, Daniel Maciel, Miguel Arieira, Daniel Deira e João Gigante”.
O Daniel Maciel escolheu para uma das fotografias faladas O Baloiço, com Celina Ribeiro, por sinal, minha tia. Comprova-se que houve mulheres emigrantes que gostaram de viver no estrangeiro; regressaram a Portugal um pouco contrariadas. Mas existem outras fotografias faladas, igualmente interessantes, na página Lugar do Real: http://lugardoreal.com/.
Em Julho de 2019, foi lançado o livro Pedra e Pele respeitante às freguesias de Parada do Monte e Cubalhão. No dia 20 de Outubro, foi a vez do livro Quem fica, da autoria de João Gigante, com textos de Álvaro Domingues e Albertino Gonçalves. Segue a fotografia falada O Baloiço e uma pequena galeria de fotografias do João Gigante.

João Gigante 1 
João Gigante 2 
João Gigante 3 
João Gigante 4 
João Gigante 5 
João Gigante 6
Conversa sobre investigação

Sexta, dia 1 de Março, vou partilhar experiências graças às quais melhorei a arte de investigar. Com uma vintena de projectos concluídos, algo se aprende. As histórias contadas não aparecem nos manuais. Pouco valem se as procuramos nos livros. São histórias que remetem para a vida e as suas contingências. Sexta, às 17:30, é uma data ingrata. Para muitos, já é fim de semana, tempo para voar noutras paragens. Acresce que estas conversas não dão pontos no pinball da intelligentsia académica.


