Tag Archive | inversão

Girl power

Emily Roberts. #santaclara

O anúncio Santa Clara, do Lidl, e o vídeo musical #santaclara, de Emily Roberts, festejam o advento de Santa Clara e o fim da usurpação na terra. Santa Claus? Who cares? Talvez tenha chegado o momento propício para começar a chamar ao divino divindade e retocar o espírito da natividade.

“Whohohohohohohoho
You’re the best, you’re the best and we love you so
Whohohohohohohoho
You’re the best, you’re the best and we love you so

It’s time for us to change this stupid old school game
A whole new era Santa Clara’s gonna reign
There’s something coming ain’t it, we’re up and running
And we’re finally gonna change it.”
(Excerto da letra da canção #santaclara, de Emily Roberts).

Marca: Lidl. Título: Santa Clara. Agência: Überground. Direcção: Nathan Price. Internacional,

Emily Roberts. #santaclara. 2016.

O lindo patinho feio

ugglly-duckO anúncio Ginger Deer, da Lowe’s, é uma revisitação do conto “o patinho feio” (1843), de Hans Christian Andersen. O tópico é banal, mas pungente. Toca numa das feridas mais simbólicas da humanidade: a exclusão. O excluído acede às chaves da comunidade. Acontece com o conto Cinderela (1697), de Charles Perrault, ou com o anúncio Frankie da Apple (O monstro e a Boneca). A inversão (excluído/incluído) pode ser extrema: a Gata Borralheira ascende de vítima a princesa; o patinho feio descobre-se cisne majestoso. No anúncio da Lowe’s, uma bolacha singulariza-se por ter chifres. É rejeitada pela comunidade dos objectos animados. Entretanto, vence uma prova: o humano não consegue mergulhá-la no copo de leite por causa dos chifres, um defeito que se revela uma virtude. A comunidade dos objectos animados aceita-a de braços abertos. O estigma transforma-se em símbolo de status (Erving Goffman, Estigma, 1963). Bem-aventurados os patinhos feios que deles será o reino dos cisnes!

Marca: Lowe’s. Título: Ginger Deer. Agência BBDO (New York). USA, Novembro 2016.

Sileno, o vinho e o burro

Fresco of Silenus mask, Villa of Fannius Synistor, Pompeii. Metropolitan Museum of Art

Fresco of Silenus mask, Villa of Fannius Synistor, Pompeii. Metropolitan Museum of Art.

Não é apenas nas festas medievais ou durante a Bugiada de Sobrado que o burro é montado às avessas. Sileno, semideus, o mais velho dos sátiros, faz-se acompanhar por um burro. Constantemente ébrio, Sileno foi tutor de Dionísio, a quem passou a paixão pelo vinho. A sabedoria de Sileno reside na sua ebriedade. É sábio por não estar sóbrio. Cumpre ao burro aguentar esta carga obesa e periclitante. A posição mais típica de Sileno em cima do burro é às arrecuas. Montar um burro às avessas condiz com a figura de um semideus que se entrega ao vinho e ao sexo, semeando a confusão e a desordem.

 Lysippos. Silenus holding the infant Dionysos in his arms. Hellenistic copy. 4th BCE. Louvre.

Lysippos. Silenus holding the infant Dionysos in his arms. Hellenistic copy. 4th BCE. Louvre.

 

Drunk Silenus riding a donkey. Onyx. 1st century BCE.

Drunk Silenus riding a donkey. Onyx. 1st century BCE.

Sileno gostava de visitar o mundo dos homens, mas nunca falava com eles. Exceto uma vez. Tão bêbado estava, que se perdeu do grupo que o acompanhava. O rei Midas encontrou-o e desafiou-o a dizer o que era melhor para os homens. Sileno calou-se, como era seu costume. Não falava com os homens. Mas rei Midas tanto insistiu, que Sileno quebrou, por uma única vez, o silêncio:

Jules Dalou. O triunfo de Sileno. Jardin du Luxembourg. 1885.

Jules Dalou. O triunfo de Sileno. Jardin du Luxembourg. 1885.

“– Ignóbil raça, essa a dos homens, efêmeros rebentos do acaso e dos maus dias. Tão afastados estais da natureza que nem mesmo sabeis o que é melhor para vós próprios. Seres patéticos; e tu, filho de Górgias e Cibele, a quem chamam de Midas, Rei da Frígia, nada mais és senão fiel representante desta raça. Não há dúvida, estás a altura dela. Não vês? Por quais tolas razões queres saber algo que para ti é inalcançável? O que é o melhor para os homens, tu me perguntas. Creia-me, para ti, melhor mesmo seria não sabê-lo. Porém, como estás obstinado, revelar-te-ei o que não precisas para te manteres são. O melhor para ti seria não teres vindo à luz, não teres nascido. Não ser, ser nada, isto seria o melhor para ti e para os demais da tua estirpe. Contudo, como hoje te encontras a distância do infinito de tal logro, resta-te ainda uma opção: agora, o melhor para ti é cedo morrer. Assim, retornarás a tua verdadeira condição pretérita, menor que o mínimo. “ (https://scribatus.wordpress.com/2013/08/24/sileno/).

Sítio Arqueológico de Volubilis. Ruínas Romanas. Mosaico do Desultor. Sécs I a III.

Sítio Arqueológico de Volubilis. Ruínas Romanas. Mosaico do Desultor. Sécs I a III.

O rei Midas deu abrigo a Sileno. Poucos dias depois, Dionísio vem buscar Sileno. Agradecido, diz a Midas para formular um desejo. O pedido foi que tudo o que tocasse se transformasse em ouro. Um presente envenenado. Mas essa já é outra história.

Silène sur son âne, bas-relief funéraire romain. Rheinisches Landesmuseum Trier

Silène sur son âne (parece mais um hipocampo), bas-relief funéraire romain. Rheinisches Landesmuseum Trier

Pela diferença

coca-cola-fantastic-600-37067Há quem desdenhe, aristocraticamente, da publicidade. E há anúncios simplesmente fantásticos, que nos agarram pelas ideias e pelos sentidos, surpreendendo-nos. Nem tudo na vida nasceu para ser anestesiado pelo algodão etílico da homogeneização. Ainda caem folhas incómodas nas águas pasmadas do pântano simbólico. Por ironia, ou talvez não, cabe a um anúncio da Coca-Cola significá-lo com eloquência. “They make you feel different; it’s fantastic”. Acerca do tema da diferença na publicidade, recomendo o seguinte artigo de Fernando Peixoto: O Eu e o Outro no Culto da Performance. Caleidoscópio.

Marca: Coca-Cola. Título: Fantastic. Bélgica, Setembro 2014.

Redondo vocábulo

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“Era um redondo vocábulo”, canta Zeca Afonso. Tudo se afigura redondo: gente redonda, ideias redondas, poder redondo. Como a esfera armilar. Tantas esferas armilares! Iguais umas às outras, excepto as que têm defeito. E o redondo enrola no redondo como as lagartas do pinheiro. Frases redondas, discursos redondos, oradores redondos, mais redondos e mais ocos do que uma laranja verde.

Lagartas do pinheiro.

Lagartas do pinheiro.

Este mundo não é o que parece. O mundo não é um coco, é um poema. É vontade, sonho e diferença. Não se conforma com formulários online e euros obesos. A esperança não mora numa bola de sebo. Nasce por amor, não nasce por concurso. Não é morna, nem formatada. A esperança é “uma criança que pula e avança”.

Vêm estes disparates a propósito do anúncio Coming Out, concebido para o Festival Queer Lisboa 18. Criatividade, imaginação, originalidade, qualidade. Ousadia. Por uma agência, a Fuel, reconhecidamente inovadora. Um sucesso apreciável no estrangeiro (em Portugal, “nunca se sabe”). Nem vocábulo redondo, nem esfera enferrujada, nem lagarta do pinheiro. Este é um anúncio valioso produzido por uma agência que abre caminho.

Anunciante: Queer Lisboa. Título: Coming Out. Agência: Fuel Lisboa. Direção: Fred Oliveira. Portugal, Setembro 2014.

Mãos com dentes de tubarão

Southern Comfort

O conto da Capuchinho Vermelho re-revisitado. A versão da canção Little Red Ridding Hood, por Bushwalla e Sallie Ford & The Sound Outside, é primorosa; o ambiente confere; e a postura da mulher desconcerta. Um anúncio global. Tudo encaixa. Não resisto, por isso, a fixar-me num pormenor: as mãos com dentes de tubarão. Anúncio bem concebido pela Wieden+Kenndy.

Marca: Southern Comfort. Título: Shark. Agência: Wieden+Kennedy, New York. Direção: Steve Rogers. UK, Agosto 2014.

Da frente para trás, de baixo para cima

Eis um anúncio engenhoso. Lembra Clarice Lispector.

Marca: Oui Marketing. Título: Mais qui s’en préoccupe vraiment ?. Agência : Oui Marketing. Direção : Thomas Vannieu. Canadá, 2013.

(Ler e recomeçar de baixo para cima)

Não te amo mais.
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais…
(Clarice Lispector)

Inversão de papéis de género

Homem grávidoUm amigo enviou-me este vídeo produzido por estudantes canadianos sobre a representação da mulher na publicidade. Lembra-me o livro Gender Advertisements, de Erving Goffman (1976), bem como o livro de Silvana Mota-Ribeiro (Retratos de mulher, Porto, Campo das Letras, 2005). A parte final, simulando uma troca de papéis, está particularmente bem conseguida. Mas não é preciso forjar a inversão de papéis de género. Já existe, ostensivamente, nos anúncios publicitários atuais. Ver, por exemplo, os artigos: https://tendimag.com/2011/10/27/o-poder-da-lingerie/; https://tendimag.com/2011/10/19/a-mulher-o-homem-e-o-objecto/; https://tendimag.com/2013/03/25/discriminacao-de-genero/; https://tendimag.com/2013/04/26/o-lado-feminino-do-homem/; https://tendimag.com/2013/02/22/barriga-de-cerveja/.

Representations of W0men and  Men in advertising. Women and Gender Studies class at the University of Saskatchewan by Sarah Zelinski, Kayla Hatzel and Dylan Lambi-Raine.

La Fontaine revisitado: o regresso da tartaruga fantástica

O anúncio Turtle introduz uma tartaruga voadora facilmente irritável. Mais uma vez se observa a tendência para a aproximação dos opostos. A tartaruga lenta, silenciosa e desprotegida transforma-se numa tartaruga relâmpago, tagarela e agressiva. Um prodígio proporcionado pelas guloseimas Jolly Ranchers.

Marca: Jolly Ranchers. Título: Turtle. Agência: Weird Pictures. Direção: Olivier Agostini. EUA, Janeiro 2012.

Melhor do que uma tartaruga voadora, só uma tartaruga brasileira que adora futebol e bebe cerveja Brahma, a tal que “refresca o pensamento”. Não há obstáculo que a segure nem prazer que lhe escape. Esta compilação feita pela Culturepub contém meia dúzia de episódios da saga desta mascote do futebol canarinho.

Marca: Brahma. Título: Tartaruga. Agência: F/Nazca Saatchi & Saatchi. Direção: Sérgio Amon, Brasil, 2002.

Prada Candy: A Dança do Excesso

Deu-me para esgaravatar na publicidade de perfumes. Um mundo fabuloso. Um cheiro a Primavera cujo negócio se concentra na quadra natalícia. À semelhança do Baiser, de Jean Paul Gaultier, este anúncio ao perfume Prada Candy reincide na confusão dos papéis de género. Ela, a actriz Léa Seydoux, “é uma menina mimada, impulsiva. Esteve a estudar piano, de forma submissa, durante horas, sentindo-se atraída pelo professor. De repente, solta os cabelos, perde o controlo, atira-se a ele e deita-o ao chão (…). É uma história que fala de sedução, é um jogo amoroso. Normalmente, são os homens que têm a voz de comando (“llevan la voz cantante”), nunca as mulheres. Pois, neste caso, ocorre o contrário” (do Making of). A dança, a dança Apache, que inspirou o anúncio era a dança dos rufias parisienses dos anos 30. Uma dança tão brutal quanto bela, que, neste caso, se presta a que os papéis do homem e da mulher se baralhem e invertam.

Produto: Prada Candy. Direção: Jean-Paul Goude. França, 2011.