Da frente para trás, de baixo para cima
Eis um anúncio engenhoso. Lembra Clarice Lispector.
Marca: Oui Marketing. Título: Mais qui s’en préoccupe vraiment ?. Agência : Oui Marketing. Direção : Thomas Vannieu. Canadá, 2013.
(Ler e recomeçar de baixo para cima)
Não te amo mais.
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais…
(Clarice Lispector)
Inversão de papéis de género
Um amigo enviou-me este vídeo produzido por estudantes canadianos sobre a representação da mulher na publicidade. Lembra-me o livro Gender Advertisements, de Erving Goffman (1976), bem como o livro de Silvana Mota-Ribeiro (Retratos de mulher, Porto, Campo das Letras, 2005). A parte final, simulando uma troca de papéis, está particularmente bem conseguida. Mas não é preciso forjar a inversão de papéis de género. Já existe, ostensivamente, nos anúncios publicitários atuais. Ver, por exemplo, os artigos: http://tendimag.com/2011/10/27/o-poder-da-lingerie/; http://tendimag.com/2011/10/19/a-mulher-o-homem-e-o-objecto/; http://tendimag.com/2013/03/25/discriminacao-de-genero/; http://tendimag.com/2013/04/26/o-lado-feminino-do-homem/; http://tendimag.com/2013/02/22/barriga-de-cerveja/.
Representations of W0men and Men in advertising. Women and Gender Studies class at the University of Saskatchewan by Sarah Zelinski, Kayla Hatzel and Dylan Lambi-Raine.
La Fontaine revisitado: o regresso da tartaruga fantástica
O anúncio Turtle introduz uma tartaruga voadora facilmente irritável. Mais uma vez se observa a tendência para a aproximação dos opostos. A tartaruga lenta, silenciosa e desprotegida transforma-se numa tartaruga relâmpago, tagarela e agressiva. Um prodígio proporcionado pelas guloseimas Jolly Ranchers.
Marca: Jolly Ranchers. Título: Turtle. Agência: Weird Pictures. Direção: Olivier Agostini. EUA, Janeiro 2012.
Melhor do que uma tartaruga voadora, só uma tartaruga brasileira que adora futebol e bebe cerveja Brahma, a tal que “refresca o pensamento”. Não há obstáculo que a segure nem prazer que lhe escape. Esta compilação feita pela Culturepub contém meia dúzia de episódios da saga desta mascote do futebol canarinho.
Marca: Brahma. Título: Tartaruga. Agência: F/Nazca Saatchi & Saatchi. Direção: Sérgio Amon, Brasil, 2002.
Prada Candy: A Dança do Excesso
Deu-me para esgaravatar na publicidade de perfumes. Um mundo fabuloso. Um cheiro a Primavera cujo negócio se concentra na quadra natalícia. À semelhança do Baiser, de Jean Paul Gaultier, este anúncio ao perfume Prada Candy reincide na confusão dos papéis de género. Ela, a actriz Léa Seydoux, “é uma menina mimada, impulsiva. Esteve a estudar piano, de forma submissa, durante horas, sentindo-se atraída pelo professor. De repente, solta os cabelos, perde o controlo, atira-se a ele e deita-o ao chão (…). É uma história que fala de sedução, é um jogo amoroso. Normalmente, são os homens que têm a voz de comando (“llevan la voz cantante”), nunca as mulheres. Pois, neste caso, ocorre o contrário” (do Making of). A dança, a dança Apache, que inspirou o anúncio era a dança dos rufias parisienses dos anos 30. Uma dança tão brutal quanto bela, que, neste caso, se presta a que os papéis do homem e da mulher se baralhem e invertam.
Produto: Prada Candy. Direção: Jean-Paul Goude. França, 2011.
Contas de fadas
O trailer Princess, do Whistler Film Festival, inicia como uma animação clássica de um conto de fadas, mas acaba por se converter, insolitamente, numa cena de violência. O mundo da ficção já não é o que era: a presa é o príncipe, vítima da ganância da princesa.
Produto: Whistler Film Festival. Título: Unexpected Stories. Princess. Agência: Dare, Vancouver. Canadá, Dezembro 2011.
Inversão
Este anúncio peruano, uma paródia de reportagem, é um exemplo de inversão social. Tudo aparece ao contrário, incluindo os países emissores e receptores de migrantes clandestinos. Figura típica do grotesco, a inversão não é inócua. A brincar, com coisas sérias, dá-nos a volta, nem que seja por um momento.
Anunciante: Living in Peru. Título: Peruvian Dream. Agência: Fahrenheit, Lima, Peru. Direcção: Miqy. Peru, Fevereiro 2011.
Asas, para quê?
Como se pode tirar partido do simbolismo das asas, subvertendo-o? Habituámo-nos a associar às asas a ideia de leveza. No anúncio da Lynx, as asas, incómodas, acabam por pesar. E os anjos não voam, caem dos céus. As asas têm os seus limites. Muito melhor do que ter asas é conduzir um Volkswagem Jetta. Viva as asas! Abaixo as asas!
Marca: Lynx. Título: My Angel Girlfriend. Agência: The Mill Bbh Moxie Pictures. Direcção: Franck Todaro. Sem país, Outubro 2011.
Marca: Volkswagen Jetta. Título: Flyboy. Agência: DDB Mudra Group. Direcção: Hamish Rothwell. Índia, Outubro 2011.
