Tag Archive | Idade Média

Tatuar ou incorporar a morte

A morte à flor da pele (revisão aumentada). Tendências do Imaginário, 06.09.2017

Vade retro! Atribulações das almas

Morte de São Bento. Capela de São Bento. Mosteiro de de São Martinho de Tibães

Em 29 de dezembro de 2014, publiquei o artigo A caminho do inferno. Retoquei-o várias vezes: em 3 de janeiro de 2015, com o título O último suspiro, aumentei-o. Em 23 de agosto de 2017, procedi a uma nova revisão, optando pelo título inicial A caminho do inferno; por último, em 15 de janeiro de 2023, retomei-o, no blogue Margens, com o título Atribulações das almas, acrescentando um vídeo com gravuras do Livro Horas de Taymouth e um excerto do álbum Heaven and Hell, do Vangelis. Recoloco esta versão mais recente e mais completa.

Atribulações das almas. Margens, 15.01.2023

Da “Banda Desenhada” Medieval à “Animação Abstrata” Contemporânea

No século XII, já se produziam histórias dispostas em séries de pequenos quadrados ilustrados. Aparecem, por exemplo, no Livro de Salmos de Canterbury, manuscrito entre 1155 e 1160.

Cerca de 850 anos depois, o videoclip The Kandinsky Effect (2010), de Manu Meyre, pode ser entendido como um exemplo de animação abstrata contemporânea, na medida em que converte os elementos geométricos e cromáticos da Composition VIII (1923), de Wassily Kandinsky, numa composição visual em movimento, articulada ritmicamente com a música Girl/Boy Song.

Imagem: Wassily Kandinsky, Delicate Tension No. 85, 1923

História aos quadradinhos do tempo de D. Afonso Henriques. Tendências do Imaginário, 19.08.2013
Composição. Tendências do Imaginário, 19.08.2012

Dar à luz na “idade das trevas”

Iluminura do século XV com o nascimento de São Edmundo (rei da Ânglia Oriental). Contempla a preparação do parto e o período pós-parto

Em 16 de agosto de 2015, publiquei o artigo O parto na Idade Média. Volvidos dois anos, em 2017, recoloquei-o revisto. Um bom exemplo de como uma revisão pode tornar-se recriação.

O novo artigo, O parto na Idade Média (revisto), é, até hoje, o segundo mais consultado do Tendências do Imaginário: desde 3 de setembro de 2017, soma 15615 visualizações (a primeira versão: 3985; as duas: 19600). Recoloco-o a pensar em quem possa ter interesse em ver ou, eventualmente, rever com outros olhos.

O parto na Idade Média (revisto). Tendências do Imaginário, 16.08.2017

Com o Filho no Colo em Melgaço

Tenho colaborado em muitos eventos e projetos no município de Melgaço. Que me lembre, nenhum da minha iniciativa pessoal. Atividades paralelas ou circunstanciais.

“É preciso a chuva para florir”. Esperei pelos 66 anos de idade para apresentar em Prado, freguesia onde nasci, obra da minha lavra e interesse, resultado da minha própria investigação.

Vou retomar, adaptada, uma conferência, bem acolhida, em Braga, em novembro de 2025, e em Guimarães, em março de 2026. Abordarei, com alguma originalidade, as imagens, prodigiosas, da Virgem Maria com o filho no colo, ainda menino ou já morto: o princípio e o fim de Cristo feito homem, da Encarnação. Concentrar-me-ei nos séculos XIV e XV, recuando mais de quinhentos anos. O tema não é caseiro. Abriga-se na alma e ultrapassa a cristandade. A escala é a humanidade e a mensagem sempre atual.

Esperar tem custos. O mundo e a vida não param. Muitos que desejava que assistissem e que penso que gostariam de o fazer já não podem. Vou falar para os conterrâneos contemporâneos. Se conseguir, ao seu jeito.

Deixo o convite para a próxima sexta-feira, 29 de maio, com início às 21 horas, no salão da junta de freguesia de Prado. Mais do que uma conferência, poderá proporcionar-se, também, um reencontro. A promoção de mais iniciativas do género depende do modo como esta semente ou enxerto pegar.

Almir Sater – Tocando em Frente. Compositores: Almir Sater e Renato Teixeira. 1ª interpretação: Maria Bethânia, 1990. Ao vivo no programa Viola, Minha Viola, da TV Cultura, em 2012

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte
Mais feliz, quem sabe
Só levo a certeza
De que muito pouco sei
Ou nada sei
Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir
Penso que cumprir a vida
Seja simplesmente
Compreender a marcha
E ir tocando em frente (…)
(Almir Sater e Renato Teixeira, Tocando em Frente)

“Com o Filho no Colo” em Guimarães

No próximo sábado, dia 28, às 15h00, vou dar na Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, a conferência “Com o Filho no Colo”, dedicada às esculturas da Pietà e da Virgem da Humildade, dos séculos XIV e XV. Integra o programa Da Quaresma à Páscoa 2026 do Município de Guimarães, a que pode aceder carregando na imagem seguinte ou no link https://em.guimaraes.pt/cultura/geo_evento/da-quaresma-a-pascoa-2026

Natal na Idade Média

Os 50 minutos da “aula de Natal” não chegaram para projetar o vídeo “Como era celebrado o Natal na Idade Média” (portal Segredos da Humanidade), uma apresentação do ambiente e das tradições de Natal na Idade Média.

Duas observações:

O que é convencionado designar-se como Idade Média corresponde a cerca de mil anos (dos séculos V ao XV). A descrição do vídeo aplica-se, sobretudo, à Baixa Idade Média e à Idade Média Tardia, isto é, a partir do século XI.

A Festa dos Loucos (Festum Fatuorum), onde os “papéis sociais eram invertidos de forma cômica”, ocorria, efetivamente, durante o ciclo natalício, mais precisamente no final de dezembro e início de janeiro. Algo aparentadas, pertenciam ainda a este ciclo a Festa dos Meninos (Festum Puerorum) e a Festa ou Missa do Burro (Missa Asinorum), que abordámos nas aulas.

Acresce um pequeno reparo:

O tema e a narrativa talvez justificassem outro tipo de acompanhamento visual: menos “conteúdos significativamente editados ou gerados digitalmente” e mais imagens da época, por sinal abundantes e fascinantes. Ou talvez não… é provável que as imagens utilizadas, embora artificiais, atraiam mais visualizações e subscritores, objetivo assumido pelos streamers.

Seguem: o vídeo “Como era celebrado o Natal na Idade Média?”; uma pequena galeria de imagens da Natividade através dos tempos; e um cântico de Natal da segunda metade do século XIII.

Como era celebrado o Natal na Idade Média? Portal Segredos da Humanidade. Colocado em 23/12/2024
Cantigas de Santa Maria N° 424: Pois que dos Reis Nostro Sennor. Alla Francesca. Cantigas de Santa Maria. 2000

Com o Filho no Colo. Evento no Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa

Há três anos na forja (desde a conferência “O Olhar de Deus na Cruz: O Cristo Estrábico”, em novembro de 2022), a conversa “Com o Filho no Colo: As Esculturas da Humildade e da Piedade” aproxima-se. Ocorrerá no dia 28 de novembro, às 16 hora. O Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, que a acolhe no respetivo auditório, é uma das instituições organizadoras. Destaca-a no programa de eventos mensal. Para aceder à notícia detalhada, carregar numa das imagens ou no link: https://www.museuddiogodesousa.gov.pt/event-item/com-o-filho-no-colo-as-esculturas-da-humildade-e-da-piedade/

Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa. Eventos de Novembro de 2025

Horae ad usum Parisiensem. Antecipação medieval do surrealismo

Grandes Heures de Jean de Berry Fol. 12v

Há muito que andava à pesca do livro Horae ad usum Parisiensem [Grandes Heures de Jean de Berry], concluído em 1409. Acabo de o encontrar na Biblioteca Nacional de França. Reservados às elites, luxuosamente ilustrados com gravuras fabulosas, os livros de horas multiplicam-se durante a Baixa Idade Média. Correspondem a uma viragem da relação dos cristãos com o divino: a oração, retomada várias vezes, a horas certas, ao dia, é assumida em ambiente privado com recurso à mediação de imagens. Sobreviveram milhares de livros de horas. Em Portugal, o mais célebre é o Livro de Horas de D. Manuel (entre c. 1517 e c. 1538), publicado pela Imprensa Nacional e Casa da Moeda (1983).

Com capa original de veludo violeta, com dois fechos de ouro, rubi, safira e seis pérolas, o manuscrito das Grandes Heures de Jean de Berry (300X400 mm) é composto por 126 folios (252 páginas) com calendário (f. 1-6), horas de Nossa Senhora (f. 8-42), sete salmos da penitência e litania dos santos (f. 45-52), pequenas horas da cruz (f. 53-55) e do Espírito Santo (f. 56-58), grandes horas da Paixão (f. 61-85) e do Espírito Santo (f. 86-101) e ofícios dos mortos (f. 106-123). O livro está disponível, para consulta e descarga, no seguinte endereço https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b520004510

Segue uma montagem de uma das primeiras Horas de Nossa Senhora, acompanhada por uma galeria com iluminuras provenientes das margens, uma autêntica “antecipação” medieval do surrealismo do século XX (ver outros casos de “antecipação” histórica do surrealismo nos artigos: https://tendimag.com/2020/03/24/aula-imaterial-4-maneirismo-e-surrealismo-sonhar-o-pesadelo/; https://tendimag.com/2020/04/04/aula-imaterial-5-maneirismo-e-surrealismo-2-humanoides/; https://tendimag.com/2012/05/05/braccelli-a-maneira-surrealista/).

Horae ad usum Parisiensem [Grandes Heures de Jean de Berry]. Fonte: Bibliothèque Nationale de France: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b520004510

Galeria: Gravuras nas margens das Grandes Heures de Jean de Berry (carregar para aumentar). Fonte: Bibliothèque Nationale de France: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b520004510.

Alterações climáticas e crise na Idade Média

Da Biblia Pauperum, iluminada em Erfurt por altura da Grande Fome de 1315-1317. A Morte surge como um leão cuja longa calda termina em bola de fogo – o Inferno. A boca aberta, destacada a vermelho, representa a Fome.

“A Grande fome de 1315-1317 na Europa (também datada entre 1315-1322) foi a primeira de uma série de crises sociais em larga escala que atingiram a Europa no início do século XIV, causando milhões de mortes por um grande número de anos, marcando assim o fim de um período anterior de prosperidade no continente durante o século XIII. Iniciando com um tempo ruim na primavera de 1315, a alteração climatológica acabou por provocar quebras universais das colheitas entre a primavera de 1315, que se acentuaram no verão de 1316 até ao verão de 1317. A Europa não se recuperou totalmente até 1322. Foi um período marcado por níveis extremos de crimes, doenças, mortes em massa e infanticídio. Houve consequências para a Igreja Católica, os Estados nacionais, a demografia do continente a sociedade europeia como um todo. A grande fome de 1315 contribuiu para potencializar as futuras calamidades do século XIV. (…) Para a maioria das pessoas não havia o suficiente para comer e a vida era relativamente curta. Atendendo aos registos respeitantes à Família Real Britânica, a melhor e mais abonada da sociedade, a expectativa de vida média em 1276 era de 35,28 anos. Entre 1301 e 1325, durante a Grande Fome, reduziu-se para 29,84 anos. Durante a peste negra, caiu para 17,33 anos (…) Na primavera de 1315, chuvas caíram chuvas acima do normal na maior parte da Europa. Na primavera e no verão, continuou chovendo e a temperatura manteve-se fria. Nestas condições, os grãos não germinavam. (…) As taxas de produção de trigo (o número de sementes que uma pessoa poderia consumir por semente plantada) estavam em queda desde 1280 (…) Numa situação de bom tempo, a taxa era de 7:1, enquanto nos anos ruins descia até 2:1, isto é, para cada semente plantada, duas sementes eram colhidas, uma para o ano que vem, e uma para alimentação. Por comparação, a agricultura moderna possui taxas de 200:1 ou mais (..,) Os alimentos para os animais não podiam ser curados, deixando de existir ração para o gado. Os preços dos alimentos começaram a subir. Os preços na Inglaterra dobraram entre a primavera e o meio do verão. O sal, a única maneira de curar e preservar a carne, era difícil de obter, porque a água não evaporava com o tempo húmido: subiu de 30 para 40 xelins. Na província da Lorena, o trigo subiu 340% e os camponeses não tinham com que pagar o pão. As reservas de grãos para emergências de longo prazo estavam confinadas aos nobres e lordes. (,,,) Na primavera de 1316, continuava chovendo sobre uma população europeia desprovida de energias e reservas para se sustentar. Todos os segmentos da sociedade, dos nobres aos camponeses, foram afetados, especialmente os camponeses, que representavam 95% da população, e não possuíam suporte social. Para prover algum alívio, o futuro foi sacrificado, matando animais de reprodução, consumindo sementes de plantação, abandonando as crianças (…)  e negando alimentos aos idosos para dar hipóteses de sobrevivência às gerações jovens. As crónicas da época descrevem muitos incidentes de canibalismo. (…) O pico da fome foi atingido em 1317 quando o tempo húmido terminou. Finalmente, no verão, o tempo regressou ao padrão normal. As pessoas estavam tão enfraquecidas por doenças como pneumonia, bronquite e tuberculose, e muitas das reservas de sementes haviam sido consumidas, que apenas em 1325 os níveis de alimentos voltaram para condições relativamente normais anteriores à fome. (…) É estimado que entre 10%-25% da população de muitas cidades e vilas pereceram. Enquanto a Peste Negra (1338-1375) mataria mais em números reais, para muitos, a Grande Fome foi pior como calamidade social: a peste aniquilava uma área em alguns meses, a Grande Fome castigou durante anos, arrastando o sofrimento das pessoas que morriam lentamente de fome, enfrentavam canibalismo, infanticídio e crime descontrolado.” (A partir de Wikipedia, Grande Fome de 1315–1317: https://pt.wikipedia.org/wiki/Grande_Fome_de_1315%E2%80%931317. Acedido em 19/07/2022).

When God saw that the world was so over proud,
He sent a dearth on earth, and made it full hard.
A bushel of wheat was at four shillings or more,
Of which men might have had a quarter before….
And then they turned pale who had laughed so loud,
And they became all docile who before were so proud.
A man’s heart might bleed for to hear the cry
Of poor men who called out, “Alas! For hunger I die …!” (Poema de Eduardo II, c. 1321).

Imagem: Grandes Heures de Jean de Bérry. Séc. XIV-XV.