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Potência

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Existem muitos tipos de poder. Tantos que nem apetece contar: o hegemónico, o quarto poder, o quinto poder… Vou reter apenas três: a potência, a direcção e a autoridade.
A potência dispensa regras e consentimento, impõe-se, caso necessário, pela força.
A direcção é um poder restrito que se exerce em determinadas condições. Por exemplo, o poder do árbitro num jogo de futebol. Fora das quatro linhas, o poder desaparece.
A autoridade requer legitimidade. O poder só existe enquanto for reconhecido pelos dominados. O líder do balneário é aquele que goza de autoridade junto dos seus colegas.
Lançado na véspera do Brasil-Alemanha, este anúncio alemão é uma boa metáfora da potência.

Marca: Bayern 3 Radiostation. Título: How it ends. Alemanha, Julho 2014.

Prolongamento

National-Centre-for-Domestic-Violence-SpotEste anúncio, de raro impacto, associa o som de um relato de futebol à imagem de uma mulher atemorizada. Os casos de violência doméstica aumentam quando a Inglaterra joga num Campeonato do Mundo. Sobretudo quando perde, mas também quando ganha. Vários estudos corroboram estas tendências.

Anunciante: National Centre for Domestic Violence. Título: England Match Final Minutes. Agência: Jwt London. UK, Junho 2014.

Police are issuing personal warnings to men and women with a record of domestic violence in the runup to England’s first World Cup game, acting on evidence that abuse against wives, girlfriends and partners spikes dramatically in the aftermath of matches – whether the team wins or loses.
The most detailed research into the links between the football World Cup and domestic abuse rates has revealed that in one force area in England and Wales, violent incidents increased by 38% when England lost – but also rose by 26% when they won.
The research, by Lancaster University criminologist Dr Stuart Kirby, a former police officer, monitored police reports of domestic violence during the last three World Cups in 2002, 2006 and 2010.
While domestic violence rose after each England game, incidents also increased in frequency at each new tournament, raising fears that the forthcoming competition in Brazil – where England’s first game is against Italy on Saturday 14 June – could see the highest ever World Cup-related rises in domestic violence across the UK.
Separate national research examining the 2010 World Cup echoed the Kirby findings – with domestic abuse reports up 27.7% when the England team won a game, and 31.5% when they lost.
(The Guardian, de 8 de Junho: http://www.theguardian.com/society/2014/jun/08/police-fear-rise-domestic-violence-world-cup).

Um furo no céu

orange being there

O céu deve ter um buraco. Caem estrelas na terra. Em plena febre futebolística, continua a brilhar um anúncio do tempo do mundial da África do Sul. A criança não resiste ao sono. As jornadas são assim: à chegada, o repouso, o repouso do guerreiro. Soberbo!

Marca: Orange. Título: Being there. Agência: Marcel (Paris). Direcção: Drake Doremus. França, 2013.

Hinos. Nada é impossível

Mineiros chilenosNada é impossível. Numa mobilização emocional, nada é de menos. Os hinos… Ai, os hinos!  A Marselhesa canta: “Soyons unis! Tout est possible; Nos vils ennemis tomberont”. Na Portuguesa, “uma nação valente e imortal” marcha contra os canhões. Tudo é realmente possível.

Marca: Banco de Chile. Título: Mineros Apoyo Selección camino ao Mundial 2014.

 

#todos tugas. Chamamento.

Calling of Saint Matthew. Contarini Chapel. The Calling of Saint Matthew. 1599–1600. Contarelli Chapel, San Luigi dei Francesi, Rome.

Caravaggio. The Calling of Saint Matthew. 1599–1600.

Este anúncio perturba-me. Ao contrário dos anúncios que apostam na claridade e no destaque das figuras, este é assumidamente lunar, com figuras indefinidas e instáveis. A luz não é solar. Serpenteada pelo fogo e pelas luzes das bicicletas, é nocturna, obstinadamente horizontal, produzida pelos actores. Não há vedetas, nem prodígios. O mundo, em construção, move-se, impreciso mas palpitante. Fecundo como o ventre ou a gruta. Herói? Quando muito, o espectador. Aura? Porventura a da marca, a Rádio Popular. A voz dirige-se, sempre, ao espectador. Mais do que invocar, convoca. Mais do que convidar, desafia. A uma libertação pessoal, nem isolada, nem arrebanhada: “descobrirás o teu caminho, não chegarás sozinho”. Trata-se de um chamamento. O anúncio não sugere qualquer compra ou avaliação, nem solicita a memória. Apela a uma mudança de atitude. O anúncio não é teu, tu és o anúncio, mais precisamente, tu és o anunciado. Abre-te, adere e segue. Como São Mateus a Jesus Cristo. No final, serão tantos os chamados como as estrelas no céu. Em suma, chamamento, ressonância e anamorfose da vontade pessoal. De qualquer modo, com este anúncio caminha-se na linha da frente da publicidade. Quem dá estes passos, não anda distraído.

Rádio Popular. #todos tugas. Portugal, Junho 2014.

 

Milagre

Frei Manuel dos Reis. Visão de D. Afonso Henriques na batalha de Ourique. 1665. Museu de Alberto Sampaio

Frei Manuel dos Reis. Visão de D. Afonso Henriques na batalha de Ourique. 1665. Museu de Alberto Sampaio

O futebol configura uma luta de titãs. Prometi alhear-me dos “anúncios do Mundial”. Mas não há modo de lhes escapar.  A Nike e a Beats by Dre acabam de lançar os anúncios The Last Game e The Game Before the Game, com duração superior a 5 minutos. Ambos convocam o “etos do guerreiro”. O humano contra o inumano, mas também o humano a braços com aquilo que o divide: o cálculo e o risco, a força e a fé, a razão e o coração… No “último jogo”, os heróis, “demasiado humanos”, enfrentam a burocracia da ciência e a eficácia dos clones. O anúncio é todo ele uma glória à animação em jeito de apoteose barroca. No “jogo antes do jogo”, acompanhamos a preparação ritual do herói antes do confronto, a construção do milagre, como na prece do cavaleiro medieval antes da refrega. O anúncio mergulha numa aura trágica, com a imagem e o som a entrelaçar-se ao ritmo da pulsação.

Ambos os anúncios são herdeiros de obras mais antigas. Retenho o filme Fuga para a Vitória, de 1981, com a participação de Pelé, Ardiles, Bobby Moore e Deyna. Quase todo o filme se resume à preparação do jogo. O adversário era a máquina nazi e o futebol, o cavalo de Tróia.

Marca: Nike. Título: The Last Game. Agência: Wieden + Kennedy, Portland. Direcção: Jon Saunders. USA, Junho 2014.

Marca: Beats by Dre. Título: The Game Before the Game. Agência: R/GA New York. Direcção: Nabil Elderkin. USA, Junho 2014.

 

Um quase nada que muda quase tudo

Marcel Duchamp. A Fonte. 1917.

Marcel Duchamp. A Fonte. 1917.

Marcel Ducham. LHOOQ. 1919. Lendo em francês as letras LHOOQ obtém-se: Elle  a chaud au cul.

Marcel Ducham. LHOOQ. 1919. Em francês as letras LHOOQ lêem-se Elle a chaud au cul.

O Botafogo, equipa de futebol brasileira, alterou a camisola: as listas pretas passam a brancas, e as brancas, a pretas. Marcel Duchamp não teria feito melhor.

O objectivo confesso é a luta contra o racismo. Como diria Vladimir Jankélévitch (Le je-ne-sais-quoi et le presque rien, 1980), trata-se de um quase nada que muda quase tudo.

 

 

Há princípios que importa inventar: quanto menor for o ícone maior a mobilização. Por outras palavras, a comunhão é grande quando a hóstia é pequena.

A troca das listas da camisola do Botafogo logra, porventura, mais efeito do que dezenas de encontros internacionais de cientistas, activistas e intelectuais.

É a força da cidadania! É o simbólico, estúpido! É o marketing, estúpida! É o hiper-real, estúpidos!

Anunciante: Botafogo. Título: Camisa invertida. Agência: Africa. Direcção: Daniel Lieff / Gabriel Ghidalevich. Brasil, Junho 2014.

O Jogador

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Já que o equiparam, ponham-no a jogar! Tem uma mão esquerda certeira. A publicidade passa, naturalmente, por uma fase iconófila agravada. O futebol nunca saiu dela.

Marca: Ladbrokes. Título: Iconic celebration. Agência: McCann. Direção: Emil Möller. Dinamarca, Junho 2014.

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O mundo é uma bola

Beauty shot of a large fry

Começou o grande circo…

Marca: McDonald’s. Título: Gol. Agência: DDB Chicago. Direção: Henry Alex Rubin. USA, Maio 2014.

O Churrasco e a Evolução do Homem

Cipolla. Allegro ma non troppoA publicidade dá-se bem com a paródia. Parecem feitas uma para a outra. Estes anúncios da Tramontina enaltecem o papel do churrasco na história da humanidade: “o homem só evoluiu porque descobriu o churrasco”. Os anúncios, em forma de documentário, alinham logicamente factos e ficções extravagantes e hilariantes. Vem à memória a paródia da razão científica, da autoria de Carlo M. Cipolla, a pretexto da influência da pimenta na história do Ocidente (Allegro ma non troppo, Oeiras, Celta, 1993).

 

Marca: Trampontina. Título: Evolução. Agência: JWT. Direcção: Jarbas Agnelli. Brasil, Abril 2014.

Marca: Trampontina. Título: Futebol. Agência: JWT. Direcção: Jarbas Agnelli. Brasil, Abril 2014.