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Calexico e Gisela João

Gisela João.

Nas horas perdidas, costumo pesquisar publicações recentes de músicos de que perdi o rasto. Chegou a vez dos Calexico, uma banda do sudoeste americano caracterizada por uma postura de fronteira. Cruzam géneros, culturas, línguas e intérpretes. Num álbum recente, Seasonal Shift (2020), convocam o “fado”, com a participação Gisela João (Barcelos):

  1. “Tanta Tristeza” (feat. Gisela João)
    At the end of every year we tend to look back at what we’ve done or where we’ve gone. There is a lot of reflecting and a lot of celebrating, too. But it’s in that reflecting and remembering that matches beautifully with the winter layers we burrow ourselves in. Musically I had no idea when I mapped out these chords on my piano that instead I would be recording them on my nylon guitar that goes on every tour with me. On my guitar, whose nickname is “Manny,” there is an image of Portuguese Fado singer Amália Rodrigues. She is my patron saint of the minor blues and the path that leads from my musical door to the heart of the world.
    I recorded this tune late at night, and while listening upon playback Sergio suggested I sing a few Spanish lines of his that dealt with saying goodbye to a friend who had tragically died. They became the chorus, but still the song had no verses and finally I asked our friend Raúl to help translate some verses into Portuguese and see if Gisela João would be willing to collaborate. When we heard her vocals come back and placed in with the song, I knew this was a full-circle kind of moment. The song came about in the most unusual way, and it showed me to remember to trust the process and not worry about anything else. Keep following the heart of the musical idea that is there in front of you (Joey Burns: https://floodmagazine.com/83244/calexico-seasonal-shift-track-by-track/).

Segue a canção “Tanta tristeza”, dos Calexico, com Gisela João. Acrescento Crystal Frontier (Hot Rail, 2000) na versão original e na versão acústica, por sinal, bastante diferentes.

Calexico (Feat Gisela João). Tanta Tristeza. Seasonal Shift. 2020.
Calexico. Crystal Frontier. Hot Rail. 2000. Versão original.
Calexico. Crystal Frontier. Hot Rail. 2000. Versão acústica.

A Rosinha dos Limões

Estranho o cérebro que desconhece distâncias e proporções.  Hoje é dia de Super Bowl, com os anúncios mais caros do mundo. O anúncio Last Year’s Lemons, da Bud Light, lembra-me, deste lado do Atlântico, há mais de meio século, A Rosinha dos Limões, de Max. Lembrança tresmalhada.

Marca: Bud Light. Título: Last Year’s Lemons. Agência: Wieden + Kennedy (New York). Estados-Unidos, Janeiro 2021.
Max. A Rosinha dos Limões.

Perguntar não ofende

José de Almada Negreiros. Black and White. 1929.

“O Tango é uma tradição que se desloca. Este estado deslocado diferencia-o dos folclores fazendo dele uma cultura de viagem. Viagem dos imigrantes que escrevem o seu próprio romance, passo a passo, na cidade de Buenos Aires. Este romance é um livro aberto à estrutura destroçada. Mesmo nesta cidade, os Argentinos vivem como gente de viagem. Com um instrumento sob o braço ou uma melodia assobiada no canto dos lábios, eles põem em prática a teoria da viagem” (Nathalie Clouet : http://francoisheim.com/arpaban-tango.html).

Passar, mentalmente, pelo Rio da Prata comporta riscos. Por exemplo, o risco de conjeturar. Se “perguntar não ofende”, permito-me perguntar: se o tango canta as pessoas que se deslocam, que viajam, o fado quem canta e o que canta? A viagem dos que ficam?

Astor Piazzolla. Soledad. Astor Piazzolla & Friends. 1960.
Amália Rodrigues. Tudo isto é fado. Tudo isto é Fado. 1953/56.

Havemos de ir a Viana

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Desfile da mordomia. Maria Emília Vasconcelos. Fotografia: AG.

Quem investiga, algo encontrará. Nem que seja vinte anos depois. Tirei esta fotografia em Viana do Castelo, em 1998, no dia do desfile da mordomia. O cortejo aprontava-se nas imediações do Governo Civil. Maria Emília Vasconcelos possuía uma colecção ímpar de “trajes à vianesa” (sobre a vida e a obra de Maria Emília de Vasconcelos, ver Autores de Viana. Maria Emília Sena Vasconcelos). Fazia questão de acompanhar as mordomas antes do desfile. Para ajudar e aconselhar a forma de trajar. Ajudou-nos, generosamente, na pesquisa associada ao livro A Romaria da Srª d’Agonia – Vida e Memória da Cidade de Viana (http://www.comunicacao.uminho.pt/cecs/content.asp?startAt=2&categoryID=722&newsID=1908). Era coleccionadora. Reuniu documentação vasta e rara, que incluía, por exemplo, bilhetes para as touradas do início dos anos cinquenta. Uma memória nobre. Viana do Castelo tem uma rua com o seu nome.

Pois, Havemos de ir a Viana, poema de Pedro Homem de Mello, música de Alain Oulman e voz de Amália Rodrigues.

Amália Rodrigues / Pedro Homem de Mello / Alain Oulman. Havemos de ir a Viana.

Havemos de ir a Viana

Entre sombras misteriosas,
Em rompendo ao longe estrelas.
Trocaremos nossas rosas
Para depois esquecê-las.
Se o meu sangue não me engana,
Como engana a fantasia.
Havemos de ir a Viana,
Ó meu amor de algum dia.
Ó meu amor de algum dia,
Havemos de ir a Viana.
Se o meu sangue não me engana,
Havemos de ir a Viana.
Partamos de flor ao peito,
Que o amor é como o vento.
Quem pára perde-lhe o jeito,
E morre a todo o momento.
Se o meu sangue não me engana,
Como engana a fantasia.
Havemos de ir a Viana,
Ó meu amor de algum dia.
Ó meu amor de algum dia,
Havemos de ir a Viana.
Se o meu sangue não me engana,
Havemos de ir a Viana.
Ciganos, verdes ciganos,
Deixai-me com esta crença.
Os pecados têm vinte anos,
Os remorsos têm oitenta.

Pedro Homem de Mello

O Fado e a Fava

Palavras poucas! Às vezes, apetece-me escrever palavras poucas. Como estas…

Segundo o Índice Vida Melhor, um estudo da OCDE envolvendo 36 países, no que respeita à satisfação com a vida, só os húngaros se sentem pior que nós. É o fado, vaticinarão os analistas da alma lusitana. Esta nossa propensão para o trágico e para o melancólico. O resto é resíduo. E a fava? Nunca em tão pouco tempo calhou tanta fava ao povo português. Convenhamos, desta vez, a insatisfação conjuga o fado e a fava. Perdigão que perdeu a pena, não há fava que lhe não venha! E nós acordamos depenados.

Portugal é um país cheio de relíquias não exportadas. O bolo-rei é uma delas. Quem se lembraria de esconder uma fava empedrada em massa mole? E um brinde igualmente duro e com arestas agressivas? O contemplado com a fava pagava o próximo bolo-rei. Ainda bem que a ASAE aboliu tamanho risco sanitário. Naquele tempo, ou engolíamos a fava ou pagávamos o bolo. Agora, engolimos a fava e pagamos o bolo. Quanto ao brinde, é mais uma fava.

Pois, Portugal, há uns tempos para cá, anda bem favado. Só para exercício de memória: corte até 10% nos vencimentos; corte do subsídio de férias; corte do 13º mês; corte nas deduções e nos benefícios fiscais; criação e aumento de portagens nas autoestradas; aumento do IMI; aumento do IVA; aumento das taxas moderadoras; aumento dos combustíveis… Não esquecendo o desemprego. Tanta fava, pouco arroz e nenhum chouriço!

As favas não tocam a todos. Assim como “alguns animais são mais animais do que outros”, também há portugueses mais favados do que outros. Por exemplo, os cortes dos subsídios salariais são apanágio dos funcionários públicos e dos trabalhadores de empresas públicas. Todos? Todos não, há umas tantas aldeias de irredutíveis que resistem: o Banco de Portugal, pela autonomia, a TAP ou a Caixa Geral de Depósitos, por “adaptação”. Pior que ser favado é ser favado à parte.

O que torna esta chuva de favas mais amarga é ter sido precedida por uma chuva de fadas. Lembro, como se fosse ontem, os novos troços de autoestrada, as eólicas, os submarinos, a duplicação do orçamento da ciência e da investigação, os protocolos com Harvard e Austin, o choque tecnológico, a Parque Escolar, o Magalhães… Recordo uma reunião com a participação de representantes de uma quinzena de países da Comunidade Europeia. A distribuição do Magalhães pelas escolas suscitou boa impressão. Um tanto gelada, no entanto, pelo comentário do representante de um dos países mais ricos da Europa: “Nós também gostaríamos, mas não temos recursos”.

A chuva de fadas era de tal ordem que até parecia que todos participávamos no desenho das despesas. Era uma despesa participativa. Discutia-se durante meses e anos a fio se o futuro aeroporto de Lisboa ia para a margem sul ou para a margem norte do Tejo. Se o TGV devia entrar em Espanha por um, dois ou três sítios.

Os portugueses disputavam os dinheiros do Estado. Pois, em menos tempo do que leva a pronunciar Troika, passou a ser o Estado a disputar o dinheiro dos portugueses. A causa da insatisfação dos portugueses reside no fado? São favas, Senhor, são favas!