Sol aluado

Os segmentos da indústria de automóveis e das telecomunicações disputam o pódio da publicidade. No artigo O sonho americano dorme na Suíça, o anúncio ” Tina Turner’s love story with Switzerland ain iO” (2014), da Swisscom, não desmerece. Por seu turno, no artigo Inocência são questionados os meandros da censura pública dos anúncios publicitários, em particular quando aparecem crianças ou seios femininos.
Refúgio da atrocidade
Quando se procura acontece encontrar-se, eventualmente, o que não se espera e nos choca. Para acompanhar o anúncio “Member of the British Empire”, da The Respite Association, é preciso ter “coração, cabeça e estômago”.
Morte Social e Sorte Grande
A crença universalmente difundida segundo a qual o medo da morte física é o maior dos medos do homem é altamente contestável. Incomparavelmente mais mortal é o seu medo da morte social, isto é o medo de ser desacreditado, ignorado ou escarnecido” (Günther Anders. Sténogrammes philosophiques. Ed. orig. 1965).
A memória de Jeff Buckley conduziu-nos aos Estados Unidos onde, em termos musicais, nos vamos demorar. Entretanto, uma pausa para publicidade. Insatisfeito com os anúncios mais recentes, demandei os premiados na última década no Festival de Cannes.

“Justino”, estreado em 2015, proporcionou um reencontro encantador. Partilhado no Tendências do Imaginário em dezembro de 2018 (ver Justino e os manequins), não resisto a recolocá-lo. Continua a sensibilizar-me, embora de um modo distinto. Em 2018, ainda não detinha a mínima experiência de “morte social”.
Imagem: Jean-Joseph Perraud – Desespero. Musée d’Orsay
No anúncio, tudo parece suceder como se Justino, anestesiado em rotinas e sem convívio, não existisse para os outros. Mas não se senta ao lado de outros transeuntes nas deslocações para o trabalho? Não vive em função dos outros? Morte social significa a nossa ausência na sociedade, não a ausência da sociedade em nós. A presença da sociedade em nós pode até ser obsessiva. Esse é um dos dramas da morte social. Justino sobrevive num armazém humanizando manequins. Poderia ser numa paisagem hertziana animada por pixéis ou num retiro qualquer onde são esquecidas as figuras outrora célebres. Apagar pessoas pode ser desumano, nem por isso deixa de ser corriqueiro.
Na realidade, resulta complicado sair de um estado de morte social. Inclino-me a acreditar mais na ressurreição mística do que na social. Uma vez acabado, nem sequer “cevada ao rabo”! Uma derradeira valsa sem parceiro. A não ser que sobrevenha algum “milagre” improvável: um bilhete de lotaria, uma fagulha de poder, um estranho reinteresse quase póstumo… Algo que desperte a atenção e a vontade alheias, que contrarie a sua inércia. Ámen!
Aprendizagem da discriminação. O olhar da idade

Discriminar, desvalorizar e excluir, atribuindo diferenças consideradas relevantes a outrem, é um comportamento que se aprende com a idade. Esta ideia inspira o anúncio “Les yeux d’un enfant”, da associação francesa Noémi. É, aliás, um dos pontos de partida de uma tese de doutoramento em curso apostada na observação das relações entre crianças em jardins de infância.
Pobreza: A importância das palavras
Junto o artigo “Pobreza: A importância das palavras”, publicado no jornal Diário do Minho (terça-feira, 20 de setembro de 2022, pág. 8) de que sou autor. Para escutar enquanto lê, a canção Ces gens-là, de Jacques Brel.
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Com poucas imagens se ilustra muito. Publicidade vintage.
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A relação com a pobreza. Uma questão de palavras

“Conhece-se a ave pelo seu ninho. E pelas palavras o espírito” (Provérbio turco).
Sério e crítico, este texto desvia-se do meu estilo atual. Prefiro propor jovialmente a contrapor categoricamente. Pertenço, porém, a um fórum de cidadania pela erradicação da pobreza e as circunstâncias assim o ditaram. Não se trata, porém, de um olhar sobranceiro e distanciado. A crítica é autocrítica: a linguagem visada é também a minha. O argumento resume-se a uma meia verdade que aspira apenas a despertar alguma reflexão. [Para uma caraterização da figura do crítico, recomendo a leitura do capítulo “Vestir a personagem” do livro A construção da Personagem, de Constantin Stanilavski (1ª edição em 1949, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2001, pp. 35-48), autor que, embora da área do teatro, marcou profundamente a minha formação como sociólogo].
Na parte final do artigo, junto o pdf do referido capítulo, Vestir a Personagem, do livro A Construção da Personagem, de Constantin Stanislavski . Para compensar a austeridade do meu texto, acrescento o filme The Kid, de Charles Chaplin, estreado em 1921. Por último, assumindo o texto como de domínio público, com permissão para descarga e partilha, disponibilizo o respetivo pdf.
As palavras são importantes. Pedem atenção, sobretudo quando designam uma instituição ou um movimento. O valor de uma palavra não se resume à intenção inicial, abrange, também, as interpretações e os usos que suscita, as suas ressonâncias semânticas e práticas. As palavras não dizem apenas a posição de quem as assume, sugerem ou denunciam a sua disposição. E têm efeitos, alguns inesperados e indesejados. Convém cuidar das palavras. Uma simples palavra pode condensar toda uma postura, todo um programa. Recorde-se que as grandes querelas religiosas, políticas, filosóficas e estéticas da história da humanidade gravitaram em torno de “duas ou três” palavras.
Habituámo-nos a expressões tais como anti-pobreza, combate à pobreza e luta contra a pobreza. Quais são os pressupostos inerentes e as consequências plausíveis? O que dizemos quando as pronunciamos e o que fazemos quando as dizemos?

A noção de “luta” implica um protagonista e um antagonista. Neste caso, o alvo é a pobreza. Como a definir e delimitar, dar-lhe corpo e sentido? Pobreza é um substantivo demasiado amplo. Originalmente, aludia à pobreza do solo. Hoje, pode até incluir a pobreza de espírito. Remete para uma privação. Do ponto de vista económico e político, para uma carência de bens (e.g. alimentação) e recursos (e.g. rendimentos) e, eventualmente, para a exclusão social. Embora exista uma aceção absoluta, a “pobreza” é normalmente assumida como uma situação relativa. É-se pobre em comparação com os demais, os ricos e os remediados, abaixo de um determinado patamar, o “limiar de pobreza”, que varia no tempo e de sociedade para sociedade. Se considerarmos, como o convenciona a União Europeia, que uma família pobre é aquela cujo rendimento é inferior a “60% da mediana do rendimento por adulto equivalente de cada país”, então nunca deixará de haver pobres, quando muito pode atenuar-se a “pobreza extrema”.
Segundo os dicionários, a pobreza é um estado e uma classe: um estado a que corresponde uma classe: os pobres. Embora associadas, a pobreza enquanto estado é distinta da pobreza enquanto classe. À semelhança da saúde, em que combater a doença não significa combater os doentes, lutar contra a pobreza não implica lutar contra os pobres. Na melhor das hipóteses, “lutar contra a pobreza” pode até presumir “lutar pelos pobres contra a pobreza”.
A pobreza como classe não constitui um grupo. Não possui textura nem espessura, tão pouco identidade, afinidades e comportamentos próprios. É uma categoria construída a partir de variáveis, indicadores e índices estatísticos. Só assim pode, por exemplo, sustentar-se que, em Portugal, “18,4% das pessoas estavam em risco de pobreza em 2020, mais 2,2 pontos percentuais (p.p.) do que em 2019” (https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_destaques&DESTAQUESdest_boui=473574196&DESTAQUESmodo=2). As pessoas são rotuladas e medidas, individual, abstrata e isoladamente. O conjunto é heterogéneo, fragmentado e descosido, compondo uma manta de condições, culturas e estilos de vida. O que há de comum entre uma pessoa nascida num bairro social e um novo pobre? Entre imigrantes provenientes de Cabo Verde, de Marrocos, da Ucrânia, da Roménia ou do Brasil? Entre um jovem desempregado urbano e um idoso isolado rural? Entre as diversas etnias? Apetece exagerar defendendo que, não obstante reduzirem-se a um quinto da população, não se desenham menos diferenças entre os pobres do que entre os remediados. Na gíria académica, a perceção da pobreza como uma massa consubstancia dialética a menos e reificação a mais. Este misto de atomização e confusão favorece o risco de desnorte e inadequação na compreensão e nas iniciativas referentes aos mundos da pobreza.

Até agora encaramos a construção da figura do antagonista da “luta”: a pobreza. Cumpre indagar como o recurso a expressões tais como anti pobreza, luta contra a pobreza ou combate à pobreza afeta a relação entre protagonistas (os sujeitos ou promotores da luta) e antagonistas (seus objetos ou destinatários). A noção de luta subentende uma separação das partes extremadas em dois lados opostos: uma “bipolaridade”. Propicia também a focalização no alvo, no segmento visado. Esta separação tende a ofuscar e a enviesar o olhar e a ação com consequências decisivas. Elenquemos alguns riscos:
a) Subestimar a interação existente entre a sociedade e os mundos da pobreza. Se é verdade que existem fatores endógenos, boa parte das causas, dos mecanismos e dos processos geradores, reprodutores e multiplicadores da pobreza residem fora dos seus próprios mundos. Pretender superar ou diminuir a pobreza sem os contemplar representa, no mínimo, uma falácia;
b) A pobreza e a sociedade envolvente não estão apenas interligadas, são interdependentes. Os mundos da pobreza contribuem para sociedade a vários títulos: demográficos, económicos, sociais, políticos, culturais e simbólicos. Menosprezar esta interdependência expõe o pensamento e a ação à parcialidade, à unidireccionalidade, à disfunção e, até, à injustiça;
c) A separação dos intervenientes e a focalização nos mundos da pobreza dificultam a transversalidade, a cooperação, o diálogo e a partilha em todas as fases: diagnóstico, planeamento, mobilização, implementação, avaliação e partilha. Acentua a propensão para agir para e sobre os pobres em vez de agir com eles;
d) A abordagem tende a pautar-se e a ser formulada pela negativa: os pobres não são definidos pelo que são mas pelo que não são, preponderantemente, não têm. Na verdade, os mundos da pobreza encerram realidades consistentes, complexas, heterogéneas e específicas, que ganham em ser equacionadas por si mesmas, de um modo neutro ou positivo. Ilustram-no estudos de autores, tais como Oscar Lewis (Os Filhos de Sanchez, Moraes Editores, 1970) ou Richard Hoggart (As utilizações da cultura, Editorial Presença, 1973), sobre as “(sub)culturas da pobreza”. Basta, porém, um mínimo de interação e convívio com a realidade da pobreza para o comprovar. Assumindo o princípio do relativismo cultural, os padrões, os rituais, as normas e os valores caraterísticos das (sub)culturas da pobreza merecem o mesmo respeito que outras (sub)culturas, por exemplo de classe, étnicas, juvenis ou urbanas. Este lapso no entendimento concorre para o desfasamento e o desperdício de recursos, dinâmicas e potencialidades;
e) Expressões como “anti-pobreza” ou “luta contra a pobreza” enfermam de um efeito de depreciação simbólica da pobreza enquanto classe, cuja carga estigmatizante se acentua no caso da expressão “erradicação da pobreza”. Ousemos colocar o outro na nossa pele: qual seria o sentimento dos professores universitários confrontados com um movimento externo, composto, digamos, por políticos e tecnocratas, que se auto propõe combater e, inclusivamente, erradicar a academia para bem, para a promoção, dos académicos?
f) Lutar contra a pobreza adquire os contornos de uma nova cruzada, tendencialmente maniqueísta, do bem contra o mal. Por mais que esta “missão” transborde de motivação e interesse, para o desígnio específico da diminuição da pobreza assevera-se mais relevante e propositada a humildade do que o empolgamento, especialmente quando alimentado por um cortejo de metáforas bélicas ancoradas num determinado imaginário histórico. A humildade sobressai como uma atitude imprescindível que expressões como combate ou luta contra a pobreza não apadrinham nem estimulam.
“O que nós fazemos pelos pobres é uma gota de água no oceano: mas se o não fizéssemos, se não deitássemos no oceano essa gota, ao oceano faltaria algo, faltar-lhe-ia essa gota” (Madre Teresa de Calcutá).
Esta desconstrução de palavras de ordem tais como anti pobreza, luta contra a pobreza, combate à pobreza e erradicação da pobreza pode revelar-se, na prática, insensata, inconsequente e infundada, fruto de uma hipersensibilidade à receção e aos usos atribuídos às palavras e às denominações. Mesmo na hipótese de lhe assistir alguma razão, não se estará, mais uma vez, a bater com a cabeça contra a parede? Estas expressões são cunhadas e consagradas pelas instituições mais poderosas e influentes do planeta. Com certeza, mas os novelos costumam desfiar-se por uma ponta. E as palavras mestres têm pés de barro. Não faltam exemplos de designações “indiscutíveis” subitamente abandonadas e menosprezadas. Nas últimas décadas, quantos batismos não se sucederam a propósito, por exemplo, da velhice, dos países menos desenvolvidos, do trabalho social ou das orientações sexuais?

A consulta dos resumos de apresentação das “25 maiores organizações dedicadas à luta contra a pobreza” (ver: https://www.humanrightscareers.com/issues/organizations-dedicated-to-fight-poverty/) sugere que, a contracorrente de expressões “clássicas” tais como lutar, combater e erradicar (frequentemente circunscritas à “pobreza extrema”), emergem e consolidam-se formulações alternativas tais como superar (overcome), atenuar (attenuate), apoiar (support), capacitar (empower), melhorar a qualidade de vida (improve the standard of living) e incluir. Chegou, talvez, o momento de adotar expressões mais positivas e pró-ativas (por e não contra) inspiradas num arco semântico distinto: apoio, superação, capacitação, partilha, qualidade de vida, cidadania, dignidade e inclusão social.
Loucura por conveniência

“La familia la declaró loca y la metió en un manicomio.
Camille Claudel pasó allí, prisionera, los últimos treinta años de su vida.
Fue por su bien, dijeron.
En el manicomio, cárcel helada, se negó a dibujar y a esculpir.
La madre y la hermana jamás la visitaron.
Alguna que otra vez se dejó ver su hermano Paul, el virtuoso.
Cuando Camille, la pecadora, murió, nadie reclamó su cuerpo.
Años demoró el mundo en descubrir que Camille no sólo había sido la humillada amante de Auguste Rodin.
Casi medio siglo después de su muerte, sus obras renacieron y viajaron y asombraron: bronce que baila, mármol que llora, piedra que ama. En Tokio, los ciegos pidieron permiso para palpar las esculturas. Pudieron tocarlas. Dijeron que las esculturas respiraban.” (Eduardo Galeano. Resurrección de Camille. Espejos. 2008).
Galeria com esculturas de Camille Claudel.

Camille Claudel, Femme accroupie. c. 1884–85. 
Camille Claudel, Torse de Clotho. Vers 1893. 
Camille Claudel,L’homme penché. 1886. 
Camille Claudel. A valsa. 1883. 
Camille Claudel. La Sirène ou la Joueuse de flûte. Vers 1905. 
Camille Claudel. La vague ou les bagneuses. 1897-1903. 
Camille Claudel. L’implorante. 1894-1905. 
Camille Claudel.- Profonde pensée, 1898. 
Camille Claudel. The Abandonment, or Vertumnus and Pomona, or Sakountala, 1905 
Camille Claudel. Torso of a Crouching Woman. model about 1884–1885.
A loucura de Camille Claudel.
“Claudel’s father approved of her career choice, and he tried to help and support her financially. But when he died on 2 March 1913, Claudel was not informed of his death. Instead, eight days later, on 10 March 1913, at the request of her younger brother Paul, she was admitted to the psychiatric hospital of Ville-Évrard in Neuilly-sur-Marne. (…)
Doctors tried to convince Paul and their mother that Claudel did not need to be in the institution, but they still kept her there. According to Cécile Bertran, a curator from the Musée Camille Claudel, the situation was not easy to judge, because modern experts who have looked at her records say she was indeed ill.(…)
For a while, the press accused her family of committing a sculptor of genius. Her mother forbade her to receive mail from anyone other than her brother. The hospital staff regularly proposed to her family that Claudel be released, but her mother adamantly refused each time.[50] On 1 June 1920, physician Dr. Brunet sent a letter advising her mother to try to reintegrate her daughter into the family environment. Nothing came of this.
Paul Claudel visited his confined older sister seven times in 30 years, in 1913, 1920, 1925, 1927, 1933, 1936, and 1943. He always referred to her in the past tense. Their sister Louise visited her just one time in 1929. Her mother, who died in June 1929, never visited Claudel” (Wikipedia. Camille Claudel: https://en.wikipedia.org/wiki/Camille_Claudel).







