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Humanidade e inclusão

Herman Kuypers (Holanda). Babel try out. Anos 2000

Herman Kuypers (Holanda). Babel try out. Anos 2000. Babel, a história de um projecto de inclusão que acabou em segregação.

O anúncio Neymar Jr. and Teacher Kids alcança o alvo. A Humanity & Inclusion assegura, racional e emocionalmente, a mensagem. O jogador de futebol Neymar Jr. é o “embaixador”. Não sei se é um exemplo de ensino-aprendizagem, mas revela-se um bom actor. As crianças, por sinal, desfavorecidas são um suplemento de comunicação e sensibilidade. A manutenção das línguas é uma boa opção. O anúncio tem tanta qualidade que ouso desconversar. Diz Neymar Jr.: “Se eles podem ensinar, eles podem aprender”. Naturalmente! Mas na minha imaginação existem pessoas que ensinam como trombas de água e aprendem como desertos.

Anunciante: Humanity & Inclusion. Título: Neymar Jr. and Teacher Kids. Agência: Herezie (Paris). França, Outubro 2018.

O roubo da identidade

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O anúncio Replacement, da Starburst, é um resquício da temporada do Halloween. Versa sobre um roubo de identidade, que acaba por excluir uma criança do seu mundo familiar. No poema Deus, Maria Helena Amaro escreve: “Roubem-me tudo, mas não me roubem Deus!” Uma canção popular elege a cachaça: “Pode-me faltar tudo na vida (…) só não quero que me falte a danada da cachaça”. Pois, salvaguardando Deus e a cachaça, não deve existir pior roubo do que o roubo da identidade. A canção Epígrafe para a arte de furtar aborda o tema: “e de mim mesmo / todos me roubam”.

Marca: Starburst. Título: Replacement. Agência: Team Collaboration. Direcção: Christopher Leone. Estados Unidos, Outubro 2017.

José Afonso. Epígrafe para a arte de furtar. Traz outro amigo também. 1970.

Monstruosidade ready-made

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Uma pessoa severamente queimada convive naturalmente com as pessoas que participam no Halloween, o dia em que a exclusão, as diferenças e os estigmas se apagam. Por um dia, o protagonista é uma imitação de si mesmo. Halloween, da Burns and Smiles, é um anúncio excelente com uma duração e um ritmo que permitem o afloramento de uma velha questão: afinal, quem são os monstros? Questão abordada, por exemplo, por Victor Hugo (Notre Dame de Paris, 1831), Tod Browning (Freaks, 1932) ou David Lynch (The Elephant Man, 1980).

Anunciante: Burns and Smiles. Título: Halloween. Agência: TBWA (Paris). Direcção: Nicolas Galoux. França, Dezembro 2016.

O lindo patinho feio

ugglly-duckO anúncio Ginger Deer, da Lowe’s, é uma revisitação do conto “o patinho feio” (1843), de Hans Christian Andersen. O tópico é banal, mas pungente. Toca numa das feridas mais simbólicas da humanidade: a exclusão. O excluído acede às chaves da comunidade. Acontece com o conto Cinderela (1697), de Charles Perrault, ou com o anúncio Frankie da Apple (O monstro e a Boneca). A inversão (excluído/incluído) pode ser extrema: a Gata Borralheira ascende de vítima a princesa; o patinho feio descobre-se cisne majestoso. No anúncio da Lowe’s, uma bolacha singulariza-se por ter chifres. É rejeitada pela comunidade dos objectos animados. Entretanto, vence uma prova: o humano não consegue mergulhá-la no copo de leite por causa dos chifres, um defeito que se revela uma virtude. A comunidade dos objectos animados aceita-a de braços abertos. O estigma transforma-se em símbolo de status (Erving Goffman, Estigma, 1963). Bem-aventurados os patinhos feios que deles será o reino dos cisnes!

Marca: Lowe’s. Título: Ginger Deer. Agência BBDO (New York). USA, Novembro 2016.

Iluminar a cegueira

ADOT Homeless Lights

 

Para ver não é a luz que falta mas os olhos.

Anunciante: ADOT Homeless. Título: Lights. Agência: Ogilvy & Mather. Direcção: Dan Nathan. UK, Dezembro 2014.

A riqueza não é para todos

Classe média na UE. Dario.

Só quem conhece a realidade consegue exprimi-la a partir de pequenos pormenores. Descartes acreditava que a razão estava bem distribuída pelos seres humanos. A riqueza, não!

Marca: La República. Título: For something to change, we need to know it. Agência: Tribal. Direcção: Tito Koster. Perú, Dezembro 2014.

Sociologia sem palavras 1

Charles Chaplins. City Lights. CartazInicio, com este artigo, uma nova série de vídeos intitulada “Sociologia sem Palavras”. Pergunta-se, com frequência, o que estuda a Sociologia e o que faz o sociólogo. Eis uma pergunta clara de resposta ingrata.

As margens dos livros da Idade Média contêm pequenas gravuras excêntricas que funcionavam, segundo os especialistas, como marcadores simbólicos úteis nos sermões e nas trocas de argumentos. Na senda destas artimanhas medievais, a série “Sociologia sem Palavras” faculta, na era das imagens em movimento, cábulas electrónicas.

O objectivo desta série é contribuir para a divulgação da Sociologia. Com humor e desenvoltura. Está criado um conceito. Pequeno, mas original. Seguir esquemas não é o meu forte, criá-los é o meu fraco.

Sociologia sem Palavras. Episódio 1. Charles Chaplin. City Lights. Excerto.

Inocência

doritos-sling-shot-babyAos bobos tudo era permitido, menos enfurecer o rei. Aos bebés, também, menos magoar-se. Os anúncios com crianças comportam ousadias vedadas aos demais. Porquê? Porque são inocentes. No anúncio da Doritos, o bebé voa, fantasticamente, como um herói da Marvel. Num anúncio da Rexona, três jovens divertem-se sem cinto de segurança no banco de trás de uma carrinha: censurado (https://tendimag.com/2011/11/29/zelai-por-nos/)! Num anúncio da Zip.Net, um bebé Casanova assedia um anjo atarefado (uma top model), recorrendo, inclusivamente, a violência escatológica: nada! Num anúncio da Tom Tom, uma mulher corre com os peitos, resguardados, a abanar: censurado (https://tendimag.com/2014/07/25/pos-modernidade-vitoriana/). Qual é a diferença? A inocência infantil! Por exemplo, a mulher que corre, imparável, com os peitos a abanar pode visar um efeito global: pôr o mundo zonzo e desequilibrado para, logo, o endireitar com uma mezinha qualquer: farmacológica, psicológica, religiosa… Sabe-se lá que mais! Abençoadas criancinhas!

Marca: Doritos. Título: Sling Boy. Agência: Goodby, Silverstein & Partners. USA, 2012.

Marca: Zip.Net. Título: Bebé. Agência: F/ Nazca Saatchi & Saatchi. Direção: Rodolfo  Vanni. Brasil, 2000.

Um traço de giz

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Há muitos patinhos feios. E poucos cisnes. O inferno mora em todo o lado. “São os outros”, diria Jean-Paul Sartre. Em casa, na escola, na rua… Mas há um traço de giz que pode marcar a diferença. Pode desenhar a ilha que nos habita. A ilha da excepção. A ilha do tesouro. A ilha da vocação. A todos o inferno, a cada um o seu pedaço de giz.

JuBaFilms. With a piece of chalk. Alemanha. 2012.

A Bela e o Sem-abrigo

Todo o fim-de-semana dedicado a fazer relatórios! Os relatórios não são bens transaccionáveis, pois não? Ninguém os compra. É uma pena! Estamos a ficar peritos. Enquanto o escriba folga e o relatório espera, aqui vai um anúncio argentino de 1995. A resolução da imagem não é a melhor, mas a obra não perde. Lembram-se dos contos da Bela e do Monstro e do Príncipe Sapo? Pois voltarão a lembrar-se com este beijo de uma jovem a um sem-abrigo. O sapo e o monstro saberiam beijar assim? Trata-se de um anúncio desconcertante, que nos causa estranheza e desconforto e com estranheza e desconforto nos deixa.

Anunciante: Fundación Vida. Título: Kiss. Agência: Agulla & Baccetti. Direção: Pucho Mentasti. Argentina, 1995