Tag Archive | estética

Mais do mesmo

Rafael Bordalo Pinheiro. Zé Povinho, in O António Maria. 1880.

Rafael Bordalo Pinheiro. Zé Povinho, in O António Maria. 1880.

O meu país tem uma sensibilidade estética crónica. Gosta do mesmo. Não é propenso a vanguardas, margens ou subterrâneos. O mesmo clube de futebol, na vitória e na derrota. O mesmo partido político, seja vinagre, seja vinho. Em quarenta anos de democracia, os resultados eleitorais pouco mudaram, exceptuando as legislativas de 1985, marcadas pela estreia do PRD, bolha de pouca dura. Há famílias que peregrinam todos os anos a Fátima. Cumprem o destino, a promessa e a penitência. O bolo-rei mudou de nome, mas manteve, desde o Império Romano, a fava. Ciclicamente, calha-nos a fava e emigramos em massa. Até a caricatura do povo permanece, há mais de um século, intacta: homem, rude, sofrido, com a albarda pronta para qualquer traseiro de elite. Em abono da verdade, pertenço a um povo de que os estrangeiros gostam muito.

Flor&Cultura

“C’est le temps que tu as perdu pour ta rose qui rend ta rose importante” (Saint-Exupéry. Le Petit Prince.1943).

maxresdefaultFlower. ps3.

Com ou sem fumo, há sinais de criatividade no mundo digital. Os videojogos são a meca da originalidade. Há jogos para todos os gostos e para todos os sonhos. Por exemplo, o Flower, desenvolvido, em 2009, pela Thatgamecompany para a Playstation 3.

Rene Magritte (1838-1967) L'invitation au voyage, 1961

R. Magritte. L’invitation au voyage, 1961

Salvador Dali. Meditative Rose, 1958

S. Dali. Meditative Rose, 1958

O Davide elegeu este videojogo para o trabalho da disciplina de Sociologia e Semiótica da Arte, do Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura:
“Para quem está familiarizado com videojogos, mesmo ao nível mais básico, este trailer pode parecer bastante confuso. Se neste momento pedisse a você leitor, para simplesmente pensar em qualquer videojogo, imaginaria você uma temática onde se utiliza o vento para colher pétalas de flores, e revitalizar espaços verdes? Pois essa é a proposta de Flower. Kellee Santiago, a presidente de Thatgamecompany, descreve o jogo como:

“…a videogame  version of a poem. I think asks something different of the player.” (Playstation, 2009)” (Davide Gravato, Flower – Uma poesia interactiva: https://comartecultura.wordpress.com/2015/04/23/flower-uma-poesia-interativa/)”.

O videojogo Flower é sweet, com aroma a flower power. A música (Catch the Wind, 1965), também. Nos antípodas do movimento Punk, Donovan é o compositor e cantor apropriado.

Playstation 3. Flower. Trailer. 2009.

Sede

Ya juiceUma estética de sonho. Lembra Bruno Aveillan. A realizadora, Karina Taira, trabalha para a mesma agência de produção: QUAD. É bom sonhar com sumo de cereja se o pudermos beber ao acordar. “É escusado sonhar que se bebe; quando a sede aperta, é preciso acordar para beber” (Sigmund Freud).

https://vimeo.com/107022498

Marca: Ya Juice. BBDO Moscow.Direcção: Karina Taira. Rússia 2012

Doenças raras

Dompé

Costumo ser céptico face à publicidade de consciencialização que se dá ares de apostolado do bem. Este anúncio da empresa farmacêutica Dompé é um caso à parte. Nem grandes causas, nem grandes públicos, nos antípodas dos exorcismos do tabaco, da droga ou do álcool, dos horrores dos acidentes rodoviários, das comiserações da exclusão social, das virtudes da contracepção ou das cruzadas para a salvação do planeta. Este anúncio alerta para uma realidade ínfima: doenças raras descuidadas, eventualmente, sem cura. Mas o anúncio é magnífico. Um hino à vida. Um corpo masculino, despojado, verdadeiro traço-de-união cósmico, relembra as potencialidades do nu masculino na comunicação estética. O anúncio despede-se de um modo notável. Estamos mais que habituados a inversões finais. Mas esta, para além de inesperada, é abrupta. Uma dobra suspensa no abismo da indiferença. “Ser um animal, e raro, é importante. Mas eu sou apenas um homem, com uma doença rara e ser raro como eu significa ser ignorado”.

Marca: Dompé. Título: The Rarest Ones. Agência: Saatchi & Saatchi Italia – Roma. Direção: Roberto Saku Cinardi. Itália, Fevereiro 2015.

Adamastor

Vitamin wellÉ tempo de recarregar, é tempo de ressurgir. Em câmara ultra lenta. Um belíssimo efeito. O recarregado é o futebolista Zlatan Ibrahimovic. É bizarro, mas esta figura vagarosamente emergente recorda-me o Adamastor.

Marca: Vitamin Well. Título: It’s time to reload. Agência:  Acne. Suécia, Janeiro 2015.

A Última Ceia

Andy Warhol. Last Supper.

Andy Warhol. Last Supper.

Vários autores espanhóis retocam A Última Ceia, de Leonardo da Vinci: Luís Buñuel (ver A ceia dos pobres ), Salvador Dali e, agora, Manuel Portillo, director do anúncio Amen, para os óculos Hawkers. A Última Ceia consta entre as obras de arte mais parodiadas de sempre. Rivaliza com A Gioconda e com O Juízo Final, de Michelangelo. A título de divertimento, seleccionei, de entre centenas, algumas versões de A Última Ceia, desde Andy Warhol até ao último restauro devoto artesanal. Um anúncio ousado e irreverente, com ambição estética, a condizer com a imagem da marca.

Marca: Hawkers. Título: Amen. Agência: Ontwice. Direcção: Manuel Portillo. Espanha, Dezembro 2014.

Inovação, técnica e estética

 

sony-ice-bubbles-hed-2014

A técnica não sossega. Os televisores Sony Bravia 4K ultrapassaram os limites do HD. A imagem 4K tem praticamente o dobro de pixels da imagem HD. Vale a pena ver: 1) aceda ao anúncio Ice Bubbles in 4K; 2) nas definições, seleccione a opção 2160p 4K (nem todos os equipamentos têm esta opção).

A Sony escolhe a estética para ilustrar a técnica. Não é a primeira vez. A estética encerra potencialidades de comunicação ímpares. Temos, assim, um belo anúncio sobre uma boa técnica. É uma maravilha ver cristais de gelo a formar-se em bolas de sabão, que acabam por se transformar em bolas de gelo.

Marca: Sony. Título: Ice Bubbles in 4K. Agência: Adam & Eve / DDB London. Direção: Leila & Damien De Blinkk. UK, Outubro 2014.

O apelo do objecto técnico

René Magritte. Ceci nést pas une pipe. 1928-29.

“O apelo do objecto técnico” é o título de um livro de José Neves (2007), que lembra outro livro: “o sex appeal do inorgânico”, de Mario Perniola (1994). Recorda, por último, a célebre mesa de Karl Marx que, uma vez mercadoria, se transforma “numa coisa ao mesmo tempo palpável e impalpável. Não se limita a ter os pés no chão; face a todas as outras mercadorias, apresenta-se, por assim dizer, de cabeça para baixo, e da sua cabeça de madeira saem caprichos mais fantásticos do que se ela começasse a dançar” (Karl Marx, 1867, O Capital, Volume 1, Parte I, Capítulo I, Secção 4). É óbvio que o berbequim de que vamos falar não possui a complexidade nem do objecto técnico, de José Neves, nem do inorgânico, de Mario Perniola, nem da mercadoria, de Karl Marx. Não obstante, do berbequim do anúncio da Byggmakker “saem caprichos fantásticos” e, se não dança, movimenta-se sedutor. Dança na nossa cabeça, com música sensual.

Marca: Byggmakker. Título: Drill. Agência: DDB (Oslo). Direção: Jens Lien. Noruega, 2006.

O sex appeal do berbequim afasta o homem da mulher e encanta-o com os seus movimentos mecânicos. Temos dedicado vários artigos à erótica dos alimentos. Chegou a vez da erótica das ferramentas. É curioso o que vai na cabeça dos publicitários. Melhor, o que eles pensam que vai na nossa…

Evasão

 

Louis Vuitton

Hoje, apetece-me algo bom! Sim! Algo mesmo bom! Para despedir as férias. Apetece-me zarpar para a ilha das pessoas raras. Apetece-me, por exemplo, um Aveillan! Um balsamo para os olhos e para os ouvidos. Que a boca e o tacto são dados à luxúria… Bruno Aveillan dirigiu em 2008 a primeira campanha para a Louis Vuitton: “Where Wil Life Take You”. Sob o signo da travessia. Recebeu 14 prémios internacionais. As imagens são fantásticas. A fotografia é inconfundível. Sequências passageiras despedem-se suavemente. A música é da autoria de Gustavo Santaolalla, vencedor de dois prémios Nobel pela melhor banda sonora dos filmes O Segredo de Brokeback Mountain (2005) e Babel (2006). Hoje, apetece-me algo bom! Mesmo bom! Uma pitada de evasão com as asas de Bruno Aveillan e Gustavo Santaolalla.

Marca: Louis Vuitton. Título: A Journey. Agência: Ogilvy. Direção: Bruno Aveillan. Produção: Quad. Música: Gustavo Santaolalla. França, 2008.

E o bonito se fez feio

Algo ou alguém pode ser belo ou feio e quem o apreciar ter bom ou mau gosto. A estética do feio e a estética do mau gosto podem conjugar-se: uma entidade feia é apreciada com mau gosto. Tanto o feio como o mau gosto podem suscitar atenção e atracção. O anúncio Ugly People (2004), da Volkswagen, pesca nestas águas. Crianças bonitas transformam-se em adultos feios. “What looks cute today might not look so cute tomorrow”. Não obstante o eventual mau gosto do conteúdo, o anúncio visa seduzir o consumidor e promover a compra de automóveis da marca. Coisas da publicidade!

Marca: Volkswagen. Título: Ugly People. Agência: Alma PBBDO São Paulo. Direcção: Marcello Serpa/Tales Bahu/Rodrigo de Almeida. Brasil, 2004.