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Desigualdades desiguais

Quino.

Género, raça, etnia, território, idade, política, capital social, capital físico, nacionalidade, língua, saúde, profissão, migrações, rendimentos, educação, beleza, gosto… Um sem fim de fatores de desigualdade social. Cada um com a sua capacidade de mobilização. Existe uma desigualdade na luta pela igualdade. Há fatores mais desiguais que outros. Uma lista de anúncios pela igualdade revela que existem fatores quase ausentes enquanto que outros sobrecarregam lista.

O anúncio indiano The Divide, da Paytm, propõe um dispositivo engenhoso para mapear as desigualdades de género. O resultado não engana.

Marca: Paytm. Título: The Divide. Agência: Dentsu Impact. Direção: Ruchi Narain. Índia, março 2021.

Dinossauros sem cauda

J.J. Cale. Naturally. 1972

J.J. Cale, falecido em 2013, é um compositor, vocalista e guitarrista norte-americano cuja carreira começou em 1958. O primeiro álbum, A Trip Down The Sunset Strip, foi lançado em 1966. Pioneiro do Tulsa Sound, J.J. Cale é um dinossauro. Um dinossauro cuja cauda ninguém enxerga. Algumas das suas músicas brilharam nos covers de Eric Clapton (Cocaine ou After midnight) ou dos Lynyrd Skynyrd (Call me the breeze ou I got the same old blues). A Cocaine original não desmerce a reinterpretação do Eric Clapton. Assim com existem dinossauros com e sem cauda, também existem dinossauros ora com amplificadores, ora sem amplificadores. Comprova-o uma pesquisa na Internet: uns têm links, vídeos e alta resolução, outros originalidade e inspiração. O Tendências do Imaginário já contempla três músicas de J.J. Cale: Cocaine (https://tendimag.com/2014/01/12/saudades-caseiras/), Call me the breeze e Magnolia (https://tendimag.com/2015/12/19/a-sanita-e-a-cocaina/). Acrescento Crying e After midnight (ao vivo com Eric Clapton).

J.J. Cale. Crying. Okie. 1974.
J.J. Cale e Eric Clapton. After Midnigh. Naturally. 1972 . Live at Crossroads Guitar Festival, Dallas, TX, 2004.

Riqueza vaidosa

Rich and Poor – Unknown Painter 17th Century

Passam ferrari, porsche e lamborghini. E carros de colecção. Portugal é um país particularmente desigual? A desigualdade dos rendimentos de um país pode ser medida pelo índice de Gini. Varia entre um máximo de igualdade, 0, e um máximo de desigualdade, 100. Observemos os valores do índice de Gini nos países europeus, em 2017.

Índice de Gini nos países europeus, em 2017. Fonte: PORDATA.

Portugal consta entre os países em que existe maior desigualdade de rendimentos. Tem um índice de Gini de 33,5, próximo da Grécia e da Espanha, ultrapassado apenas por três países de leste: a Letónia, a Lituânia e a Bulgária.

Portugal é dos países mais desiguais da Europa. Justifica os carros de desporto e de luxo? Pode-se ser rico e discreto. Segundo Max Weber, os protestantes imbuídos do espírito o capitalismo preferiam o investimento ao fogo de artifício. Em Portugal, não impera nem a ética protestante, nem o espírito do capitalismo, predomina o consumo ostentatório e o espírito de corte. Consome-se luxo, faz-se lixo. Somos o 24º país mais desigual da Europa. Somos, também, aquele em que a riqueza rima com uma opulência quase ofensiva.

O índice de Gini é uma sequência da curva de Lorenz. No gráfico , indica-se na abscissa a população acumulada e na ordenada, os rendimentos acumulados.

Curva de Lorenz (país não identificado)

Comprova-se, por exemplo, que aos 20% mais pobres corresponde uma parte ínfima do rendimento nacional, enquanto os 20% mais ricos possuem acima de 60% do rendimento nacional. Segundo o gráfico, entre 1989 e 2004, a desigualdade diminuiu. A curva aproxima-se da diagonal a que corresponde a igualdade absoluta.

No início dos anos oitenta, era professor do curso de Relações Internacionais. Um dia, pergunto: “Conhecem a curva de Lorenz?”. Responde-me um aluno: “Não, professor, só conhecemos as curvas da Bo Derek”. Dar aulas pode ser estimulante.

If I were a rich man. Film: Fiddler on the roof. 1971.

Etnografia da etnografia. A um professor.

Máscara. Museu Nacional de Etnologia.

Conversa fiada:
Nos anos setenta, num corredor da Sorbonne, Georges Balandier comenta:” A relação dos portugueses com a distinção social é estranha. Nem nas autoestradas aceitam ser confundidos…”
Esperei uma alusão à “doutorite”, o socalco linguístico lusitano. Mas não, contentou-se com os automóveis. Ainda me assombra o reparo de Georges Balandier. Para cúmulo, vindo de um francês… Em férias, estou confinado a fumar na varanda. Vejo os carros passar. Georges Balandier tinha alguma razão. Hoje, passou um carro espalmado vermelho com o símbolo de um cavalo. Talvez me engane, mas Portugal é uma jardim de desigualdades onde as estradas são passerelles.

Desigualdade em repouso. Moledo do Minho, 09.08.2020.

Georges Balandier (1920-2016) é um nome marcante da sociologia francesa. Foi meu professor três anos consecutivos. Um professor de respeito. Falava como escrevia, de um modo exímio. Escreveu romances. No livro Afrique Ambigüe, relata um encontro com um indígena apostado em lhe vender uma máscara. Um episódio heurístico. Quando um investigador aprende com os outros é garantido que aprenderemos com ele.

Máscara. Plataforma das Artes. Guimarães
Máscara. Plataforma das Artes. Guimarães

A presença aflitiva
Encontrava-me há alguns dias no acampamento do Monte Nimba, quando um jovem de uma aldeia vizinha veio ter comigo ao anoitecer. Exigiu ver-me em privado (…).
Disse-me em tom solene :
“Cala-te, é perigoso, repara!”
Em seguida, acrescentou:
“Trago-te Nyon Néa.”
De uma velha peça de roupa rota, embrulhada por baixo do braço, retira uma máscara aconchegada num invólucro de ráfia. Os traços convencionais, que viria a aprender a reconhecer, estavam respeitados: face longa oblonga cujas estrias paralelas marcam o contorno; olhos esticados, simplesmente recortados, como se estivessem semicerrados; boca proeminente ornamentada com dentes de alumínio. Mas era uma máscara desleixada, talhada em madeira medíocre e mole, toda besuntada com uma tinta violeta inseparável, no que me respeita, das recordações da mercearia-papelaria campestre. Apesar de respeitar as convenções, nada restava daquilo que concedia valor às formas antigas; e o artesão, na falta de tinta negra que a velha paciência sabia compor, contentou-se com esta tinta comprada a um tratante da aldeia. O objecto fazia pensar num exercício de aprendiz. Recusava-me a acreditar que pudesse albergar o suporte das forças que moravam nos modelos do passado. Parecia demasiado caricato que se pudesse aplicar a velha fórmula da transferência de potência:
Sémè yabé nyon ploki zuki éto yiké zu.
« Que a força (semè), que estava na máscara antiga, entre na nova!” (…)
Tentei interrogar o meu interlocutor. Segundo ele, tudo era conforme: sim, os sacrifícios tinham sido realizados (mas a máscara não comportava na fronte nem marcas de sangue de frango sacrificado, nem fragmentos de cola mascada pulverizados pelo oficiante); sim, a máscara tinha nome: “Aquela-que-dá-a-paz”; sim, a primeira saída pública teve lugar. Tantas afirmações suspeitas, mas quis prosseguir:

  • Quem é Nyon Méa?
  • É a mulher.
  • Mas que mulher? A mulher de quem?
  • Ah ! isso, patrão, os « pequenos » como eu não conhecem os feitos das máscaras como outrora… Talvez seja a mulher dos iniciados.
    Tivemos que ficar por aqui. O meu interlocutor tinha apenas uma preocupação: queria algum dinheiro pela sua máscara – esta obsessão prendia-se com uma história confusa de honorários a pagar a um médico-mágico. Cedi perguntando-me se, por qualquer tipo de subterfúgio, os objectos tornados feios e disponíveis a quem assim o entender não iriam impor-me uma presença aflitiva (…).
    Mal souberam da minha aquisição da horrível figura violeta (…) as pessoas da aldeia pensaram ter descoberto uma das minhas fraquezas. Tiraram dos cestos, onde guardavam as máscaras antepassadas em desuso, algumas peças para negociar. Eles delegaram-me emissários”.
    Ballandier, Georges (2008), Afrique ambiguë, Paris, Plon. Primeira edição, 1957, pp. 137 e seguintes.

Comportar-se como uma mulher

Girls, Girls, Girls Magazine. Be a lady, they said. 2020.

A revista Girls, Girls, Girls Magazine publicou um excelente anúncio feminista com um discurso contundente:  Be a Lady,  They said (2017), com texto de Camille Rainville e interpretação de Cynthia Nixon (da série Sex and the City).

Que se pede a uma mulher? Um sacrifício eterno? A esquizofrenia do duplo vínculo? Que seja a mesma e o contrário, eventualmente tudo e nada: Be a size zero. Be a double zero. Be nothing. Be less than nothing.

Retenho dois traços do anúncio, de algum modo, ressonantes.

 A primeira metade do anúncio, cerca de minuto e meio, é dedicada aos cuidados do corpo. Obsessão de quem para quem? Li algures, há muitos anos, que, no que respeita à apresentação si, o espelho das mulheres seria mais feminino do que masculino. Importaria mais a reacção de outras mulheres do que dos homens. Verdade?

A maternidade é abordada em meia dúzia de frases curtas: “um dia serás uma boa esposa (…) dá-lhe filhos / tu não queres filhos / mais tarde ou mais cedo, eles virão / tu mudarás de opinião”. Trata-se de um discurso abonatório da maternidade? O que é ser mulher? Não sei, nem em concreto, nem em definido! A maternidade é uma relação de poder? Um desejo transplantado? Uma injunção bíblica? A maternidade parece ser o nó cego da nova humanidade.

Também não sei o que é ser homem. Seria oportuno um anúncio homólogo centrado, agora, no mote “tu serás um homem, meu filho”. Talvez resultasse esclarecedor.

Marca: Girl Girl Girl Magazine. Título: Be a lady, they said. Direcção: Paul Mclean. Estados Unidos, Fevereiro 2020.

Be a lady, they said
By Camille Rainville


Be a lady they said. Your skirt is too short. Your shirt is too low. Your pants are too tight. Don’t show so much skin. Don’t show your thighs. Don’t show your breasts. Don’t show your midriff. Don’t show your cleavage. Don’t show your underwear. Don’t show your shoulders. Cover up. Leave something to the imagination. Dress modestly. Don’t be a temptress. Men can’t control themselves. Men have needs. You look frumpy. Loosen up. Show some skin. Look sexy. Look hot. Don’t be so provocative. You’re asking for it. Wear black. Wear heels. You’re too dressed up. You’re too dressed down. Don’t wear those sweatpants; you look like you’ve let yourself go.

Be a lady they said. Don’t be too fat. Don’t be too thin. Don’t be too large. Don’t be too small. Eat up. Slim down. Stop eating so much. Don’t eat too fast. Order a salad. Don’t eat carbs. Skip dessert. You need to lose weight. Fit into that dress. Go on a diet. Watch what you eat. Eat celery. Chew gum. Drink lots of water. You have to fit into those jeans. God, you look like a skeleton. Why don’t you just eat? You look emaciated. You look sick. Eat a burger. Men like women with some meat on their bones. Be small. Be light. Be little. Be petite. Be feminine. Be a size zero. Be a double zero. Be nothing. Be less than nothing.

Be a lady they said. Remove your body hair. Shave your legs. Shave your armpits. Shave your bikini line. Wax your face. Wax your arms. Wax your eyebrows. Get rid of your mustache. Bleach this. Bleach that. Lighten your skin. Tan your skin. Eradicate your scars. Cover your stretch marks. Tighten your abs. Plump your lips. Botox your wrinkles. Lift your face. Tuck your tummy. Thin your thighs. Tone your calves. Perk up your boobs. Look natural. Be yourself. Be genuine. Be confident. You’re trying too hard. You look overdone. Men don’t like girls who try too hard.

Be a lady they said. Wear makeup. Prime your face. Conceal your blemishes. Contour your nose. Highlight your cheekbones. Line your lids. Fill in your brows. Lengthen your lashes. Color your lips. Powder, blush, bronze, highlight. Your hair is too short. Your hair is too long. Your ends are split. Highlight your hair. Your roots are showing. Dye your hair. Not blue, that looks unnatural. You’re going grey. You look so old. Look young. Look youthful. Look ageless. Don’t get old. Women don’t get old. Old is ugly. Men don’t like ugly.

Be a lady they said. Save yourself. Be pure. Be virginal. Don’t talk about sex. Don’t flirt. Don’t be a skank. Don’t be a whore. Don’t sleep around. Don’t lose your dignity. Don’t have sex with too many men. Don’t give yourself away. Men don’t like sluts. Don’t be a prude. Don’t be so up tight. Have a little fun. Smile more. Pleasure men. Be experienced. Be sexual. Be innocent. Be dirty. Be virginal. Be sexy. Be the cool girl. Don’t be like the other girls.

Be a lady they said. Don’t talk too loud. Don’t talk too much. Don’t take up space. Don’t sit like that. Don’t stand like that. Don’t be intimidating. Why are you so miserable? Don’t be a bitch. Don’t be so bossy. Don’t be assertive. Don’t overact. Don’t be so emotional. Don’t cry. Don’t yell. Don’t swear. Be passive. Be obedient. Endure the pain. Be pleasing. Don’t complain. Let him down easy. Boost his ego. Make him fall for you. Men want what they can’t have. Don’t give yourself away. Make him work for it. Men love the chase. Fold his clothes. Cook his dinner. Keep him happy. That’s a woman’s job. You’ll make a good wife some day. Take his last name. You hyphenated your name? Crazy feminist. Give him children. You don’t want children? You will some day. You’ll change your mind.

Be a lady they said. Don’t get raped. Protect yourself. Don’t drink too much. Don’t walk alone. Don’t go out too late. Don’t dress like that. Don’t show too much. Don’t get drunk. Don’t leave your drink. Have a buddy. Walk where it is well lit. Stay in the safe neighborhoods. Tell someone where you’re going. Bring pepper spray. Buy a rape whistle. Hold your keys like a weapon. Take a self-defense course. Check your trunk. Lock your doors. Don’t go out alone. Don’t make eye contact. Don’t bat your eyelashes. Don’t look easy. Don’t attract attention. Don’t work late. Don’t crack dirty jokes. Don’t smile at strangers. Don’t go out at night. Don’t trust anyone. Don’t say yes. Don’t say no.

Just “be a lady” they said.

Não me ajudes!

Mr. Músculo. 2019.

As palavras pesam! Ignora-o quem nunca falou. Os enunciados, “em condições de felicidade”, são performativos (J. L. Austin, How to Do Things with Words, 1962) e legitimam o portador do ceptro (Pierre Bourdieu, Ce que parler veut dire, 1982). As palavras são fontes de poder (Mikhail Bakhtin, Marxismo e Filosofia da Linguagem, 1929).

O anúncio argentino No me ayudes, compartamos, pode não ser um prodígio, mas apresenta duas virtudes:

Releva a perversidade das palavras, incluindo as mais misericordiosas. Ajudar pode significar dominar: ajudo-te na tua obrigação, que, pressupostamente, não compartilho.

Por outro lado, descentra o olhar, deslocando-o para o lar, para a família e para vida privada. Não é nas universidades, na ciência, na arte, na música, na moda, no desporto, na administração pública, nos transportes, na justiça, na comunicação social, na política… que a desigualdade de género mais dói. A mulher no seio da família, no lar, parece ser a gata borralheira da nossa sociedade e dos movimentos sociais que a caracterizam. É irónico que seja uma marca de detergente a levantar o tapete.

Marca: SC Johnson / Mr. Músculo. Título: No me ayudes. Argentina, Setembro 2019.

Lição de género

Benetton. United By Half.

O espírito de missão turva a reflexividade (Albertino Gonçalves).

É insensato publicar um texto como este. Escrever expõe-nos a asneiras íntimas, sem nenhum ganho. Mas, não obstante René Descartes, a doidice está mais bem distribuída do que a razão. Insistir num acto que nos vai prejudicar é estupidez de luxo.

Em sentido lato, discriminar é distinguir. Faculdade indispensável à acção. Num sentido corrente na sociologia, discriminar é avaliar preconceituosamente o outro.

Tu seras un homme, mon fils, da Fondation Des Femmes, prima pela qualidade. Uma sensibilização bem conseguida em torno das relações de género. Merece um comentário detalhado.

Nas últimas cinco décadas, na publicidade, as imagens de género alteraram-se. A supremacia masculina, outrora ostensiva, torna-se mais discreta. O homem sujeito aproxima-se do objecto e a mulher objecto, do sujeito. A submissão feminina já não é o que era. Emerge, entretanto, um novo tipo de anúncio publicitário: a proclamação de género. A moldura das manifestações e das efemérides transita para os anúncios. Seguem dois exemplos desta “nova vaga” (ver, também, Género e Publicidade: https://tendimag.com/2019/08/23/genero-e-publicidade/). Estas mudanças não significam que a publicidade deixou de sustentar o poder masculino garantindo, por fim, a igualdade. O homem não carece aparecer para que o sexismo se insinue. As vias da comunicação são travessas e insuspeitas. Quando os objectos falam, o homem pode saborear o silêncio.

Anunciante: OSFAM GB. Título: #wolmenUnlimited. International Women’s Day. Reino Unido, Março 2017.
Marca: United Colors of Benetton. Título: United By Half. Índia, Março 2017.

O anúncio Tu Seras Un Homme Mon Fils, da Fondation des Femmes, inspira-se no poema de Rudyard Kipling És Um Homem, Se… (If…, ca 1895; ver tradução na parte final do artigo). Uma voz masculina sublinha o modo como um pai deve educar um filho.

“Se em vez de te exaltares, souberes respeitar, escutar, partilhar; se, apesar da derrota, continuas a avançar, tu serás um homem, meu filho; se souberes apoiar sem querer dominar, ser forte sem ser violento; se és capaz de encarar uma mulher sem que ela tenha a temer o teu olhar, tu serás um homem, meu filho; se lutares por todo o lado contra as desigualdades e a violência e tiveres a coragem de quebrar a incidência (?), se recusas que incomodem a tua mãe, a tua irmã ou os teus amigos, bem como todas as mulheres que cruzares na tua vida, então, nesse dia, tu serás verdadeiramente um homem, meu filho! / O assédio e a violência contra as mulheres não dizem apenas respeito às mulheres”.

Anunciante: Fondation des Femmes. Título : Tu seras un homme mon fils. França, Maio 2018.

O anúncio sensibiliza contra o assédio e a violência de que sofrem as mulheres:

“L’idée de cette campagne : adresser les hommes et “futurs hommes” sur les valeurs propices à favoriser l’égalité femmes – hommes dans la société et in fine, mettre un terme à toutes les violences faites aux femmes. Décliné du poème de Rudyard Kipling, le film met en scène des instants de vie entre pères et fils de tous âges, milieux et origines. #TuSerasUnHommeMonFils aborde l’importance de l’éducation aux plus jeunes, au cœur de l’évolution des comportements des hommes envers les femmes » (https://fondationdesfemmes.org/tu-seras-un-homme-mon-fils/).

Para que um filho se torne “verdadeiramente um homem », que posturas e valores deve o pai promover? Colocar-se no lugar do outro é um exercício de reciprocidade recomendável. Troquemos o foco: “que personalidade e que valores deve a mãe promover na relação com a filha para que esta se converta verdadeiramente numa mulher”? Qual o efeito deste desígnio? No mínimo, incómodo. Uma verdadeira mulher? Criada através da relação mãe-filha?

Nós somos animais centrados. Satisfaz-nos, às vezes, enxergar a “metade”. Cantor, homem, filho… O problema é meramente masculino? A mãe não educa os filhos? Não tem influência na respectiva personalidade? Não perfilha preconceitos, incluindo de género? A percepção do mundo por metades pode comportar consequências desastrosas. Recordo a implementação da APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima). “Predestinada” a mulheres, quando os homens, vítimas de violência doméstica, começaram a demandar a APAV, foi uma vergonha de Estado.

Fonte: Christine Mateus. TuSerasUnHommeMonFils : une campagne pour ne pas en faire un macho. Le Parisien ( http://www.leparisien.fr/societe/tuserasunhommemonfils-une-campagne-pour-ne-pas-en-faire-un-macho-29-05-2018-7742571.php).

Este retrato da boa masculinidade convoca o binómio, polémico, protector/vítima. O que me intriga. Intriga-me, também, as qualidades do “verdadeiro homem”, que, preconizadas no anúncio, quase coincidem com os atributos associados pela população francesa a “ser homem”, segundo os resultados do inquérito online promovido pela própria Fondation des Femmes http://www.leparisien.fr/societe/tuserasunhommemonfils-une-campagne-pour-ne-pas-en-faire-un-macho-29-05-2018-7742571.php). Não imagino o que esta correspondência significa. Já me perdi em demasia. Pelo caminho, dispenso a noção de “verdadeiro homem”, cujo cadastro histórico é tremendo.

És Um HOMEM, Se… (Rudyard Kiplin, tradução)
Se és capaz de conservar o teu bom senso e a calma,
Quando os outros os perdem, e te acusam disso,
Se és capaz de confiar em ti, quando te ti duvidam
E, no entanto, perdoares que duvidem,
Se és capaz de esperar, sem perderes a esperança
E não caluniares os que te caluniam,
Se és capaz de sonhar, sem que o sonho te domine,
E pensar, sem reduzir o pensamento a vício,
Se és capaz de enfrentar o Triunfo e o Desastre,
Sem fazer distinção entre estes dois impostores,
Se és capaz de ouvir a verdade que disseste,
Transformada por canalhas em armadilhas aos tolos,
Se és capaz de ver destruído o ideal da vida inteira
E construí-lo outra vez com ferramentas gastas,
Se és capaz de arriscar todos os teus haveres
Num lance corajoso, alheio ao resultado,
E perder e começar de novo o teu caminho,
Sem que ouça um suspiro quem seguir ao teu lado,
Se és capaz de forçar os teus músculos e nervos
E fazê-los servir se já quase não servem,
Sustentando-te a ti, quando nada em ti resta,
A não ser a vontade que diz: Enfrenta!
Se és capaz de falar ao povo e ficar digno
Ou de passear com reis conservando-te o mesmo,
Se não pode abalar-te amigo ou inimigo
E não sofrem decepção os que contam contigo,
Se podes preencher todo minuto que passa
Com sessenta segundos de tarefa acertada,
Se assim fores, meu filho, a Terra será tua,
Será teu tudo que nela existe
E não receies que te o tomem,
Mas (ainda melhor que tudo isto)
Se assim fores, serás um HOMEM.
Rudyard Kipling (ca 1895).

A igualdade de género nos anúncios de automóveis

Fiat 500. 2019.

Um grupo de alunos do curso da licenciatura em Sociologia apresentou um trabalho dedicado à Desigualdade de Género na Publicidade Automóvel* (DGPA). Os protagonismos e os papéis de género mudaram nos anúncios de automóveis das últimas décadas? É um privilégio aprender com os alunos. Vou replicar estudo alargando-o a um conjunto de anúncios recentes da Fiat.

No anúncio “Dolce Vita” (5/7/2019), do Fiat 500, cabe ao homem conduzir. Mas, curiosamente, o homem quase não aparece. Os protagonistas, devidamente estetizados, são o carro e a mulher. O condutor, masculino, resume-se a um acessório residual.

Marca: Fiat 500. Título: Dolce Vita. Agência: Leo Burnett. Itália, Julho 2019.

No anúncio “Driven by dreams since 1899” (5/3/2019), do Fiat 500, a mulher é condutora, protagonista e utilizadora. Acompanha-a uma segunda mulher. Os homens aparecem por vias travessas: um como “sedutor não-verbal” e os outros dois como “emplastros”.

Marca: Fiat 500. Título: New 500 Family 120th. Driven by dreams since 1899. Agência: Leo Burnett. Itália, Março 2019.

A intertextualidade reina na publicidade. Proponho um exercício. No anúncio Driven by dreams, temos os seguintes apontamentos:

  • Relevância da música;
  • A protagonista não para de “dançar”;
  • Dois carros parados lado a lado num semáforo;
  • Comunicação não-verbal entre os dois condutores, homem e mulher; um quase assédio.
  • Aparição, do nada, de dois homens no banco de trás (Let Shaggy e Sting).

Observe-se, agora, o anúncio italiano Staying Alive (2008), da Kenwood:

Marca: Kenwood. Título: Staying Alive. Itália, 2008.

Relevância da música;
A protagonista não para de “dançar”;
Dois carros parados lado a lado num semáforo;
Comunicação não-verbal entre os dois condutores, homem e mulher; um quase assédio.
Aparição, do nada, de um morto (vivo) no banco de trás (Let Shaggy e Sting).

Há coincidências! Certo é que o anúncio Driven by dreams, do Fiat 500, incorre em discriminação de género: valoriza a mulher em detrimento do homem. Mas não faltam formas de assegurar a igualdade de género na publicidade.

Uma forma, corrente, de respeitar a igualdade de género consiste em não incluir nem homens nem mulheres. O anúncio do Fiat Toro 2020 é um bom exemplo. Recorda o provérbio segundo o qual, para escândalo do Padre António Vieira, “os peixes grandes comem os pequenos”. Ressalvando a filosofia, nenhuma sombra de presença humana, masculina ou feminina.

Marca: Fiat Toro 2020. Título: Ainda mais bruto. Ainda mais lindo. Agência: Leo Burnett. Produção: Vetor Zero. Brasil, Agosto 2019.

Um modo de igualar homens e mulheres nos anúncios de automóveis consiste em compensar os símbolos e os desempenhos de género: agora conduz o homem, logo conduz a mulher, com protagonismos idênticos. É o caso do anúncio Quality Time, do Mercedes-Benz SL-Class.

Marca: Mercedes Benz SL-Class. Título: Quality Time. Alemanha, Junho 2017.

Estas tentativas arriscam-se a conter falhas e vícios susceptíveis de a imparcialidade de género. Assim o entende o grupo de alunos:

“Neste vídeo publicitário, do automóvel de classe SL da marca Mercedes-Benz de 2017, tem duração de 1 minuto e 44 segundos e pode dividir-se em dois momentos, aquele que acontece de dia, até o sol se por, e aquele que é gravado de noite. No primeiro momento, o protagonista e única pessoa presente em cena é um homem e o automóvel seleccionado é de cor azul. O homem entra no automóvel e inicia uma longa viagem, por extensas estradas que passam por zonas naturais, onde não há casas, ou seja, zonas não urbanas, e que presenteiam a quem vê o vídeo paisagens encantadoras. Esta cena termina com o amanhecer, o homem está dentro do automóvel que se encontra parado, num lugar onde é possível observar o pôr-do-sol.
O segundo momento é protagonizado por uma mulher, que também é única a viajar no automóvel que desta vez é da cor branca. Este momento ocorre à noite e, ao contrário da viagem protagonizada pelo homem, esta viagem acontece numa zona citadina. São captadas algumas cenas com o carro em movimento, até que este chega a uma zona alta e estaciona para apreciar a paisagem nocturna da cidade.
Todo o momento protagonizado pelo homem consome 1 minuto e 11 segundos dos totais 1 minuto e 44 segundos do vídeo. O momento protagonizado pela mulher dura somente 33 segundos. Esta é talvez a principal diferença entre as cenas em que as personagens principais são, respectivamente, um homem e uma mulher. Outra diferença que poder ser realçada é a troca de cores do veículo. Quando é o homem a conduzir, o automóvel é azul. Quando é a mulher a conduzir, este é branco. Para além disto, as cenas onde está inserido o homem foram gravadas de dia, num local natural, sem grande intervenção do homem, tirando a própria estrada onde este viaja, e as cenas onde a mulher é a condutora foram gravadas numa cidade, durante a noite” (DGPA, págs. 26-27).

Mas é concebível um anúncio aproximar-se milimetricamente da igualdade de género, mediante a aposta na simetria rigorosa dos papéis e dos desempenhos masculinos e femininos. É o caso do anúncio Instinct de Séduction, do Renault Clio.

Marca: Renault Clio. Título: Instinct de Séduction. Agência: Publicis Conseil. Direcção: Mark Jenkinson. França, Setembro 2016.

Recorro, novamente, à generosidade do comentário dos alunos:

“Nesta publicidade, o slogan é perfeitamente capaz de traduzir todo o conteúdo que nela está implícito (“Instinct de séduction”- Instinto de sedução). São utilizados dois automóveis iguais, mas de cores diferentes, apelando à participação do género feminino e masculino. A mulher conduz o automóvel vermelho e o homem conduz o automóvel branco. Durante a campanha, é possível verificar que o objectivo da mesma é criar um charme e uma conexão entre os dois géneros, é importante criar um elo de ligação através dos olhares que trocam. No momento em que os automóveis se cruzam, o nível de aceleração dos automóveis acompanham-se não existindo relações de superioridade. Assim, homem e mulher estão ao mesmo nível, possuindo ambos a capacidade de fazer jus a um automóvel moderno, actual e único. A imagem feminina em momento algum se mostra receosa ou com pouca confiança. A assertividade e a certeza do que está a fazer não abrem margem para duvidar das suas habilidades” (DGPA, pág. 19).

Em suma, um pequeno sobressalto mental: quais destes seis anúncios nos incentivam a equacionar as relações de género na vida quotidiana?

*Cristiana Maria Faria Leitão; Daniela Filipa Borges Oliveira; Duarte Machado Gonçalves Abreu; Luísa Maria Cunha Ribeiro; Maria Carolina Silva Carvalho, Desigualdade de Género na Publicidade Automóvel, Relatório da Unidade Curricular de Projecto e Prática em Sociologia. Tutor: Joel Felizes. Licenciatura em Sociologia. Universidade do Minho. Janeiro 2019.

Desigualdade nas imagens de género

Tantos pénis pintados e esculpidos e tão poucas vaginas!… Uma discriminação que remonta a tempos imemoriais. Na pré-história a representação do pénis concorre com as esculturas de Vénus (Fig 1 a 3). Até os monólitos pecam por excesso. No antigo Egipto, os jardineiros da religião viram-se gregos para podar os falos das estátuas de deuses e faraós (Fig 4 e 5). Por seu turno, no império romano, os tintinábulos pendurados à entrada das casas eram compostos por falos inconfundíveis, eventualmente, voadores (Fig 6, 7 e 8).

Que fazer? Multiplicar as imagens de vaginas? Eliminar as relativas ao pénis? Cortar e tapar o sexo das esculturas e das pinturas com uma folha de figueira? “Vestir” a nudez do Juízo Final original de Michelangelo na Capela Sistina (ver Vestir os Nus: https://tendimag.com/2012/11/13/vestir-os-nus/)? Ou, ao jeito medieval, enveredar pela castração (Fig 9 a 11)?

Marca: ONF (Office National du Film du Canada). Título : Dessine-moi un Pénis. Agência : Rethink (Canada). Canadá, Março 2019.

No anúncio Dessine-moi un pénis, a ONF, um organismo público canadiano de produção e distribuição de filmes, estima que semelhante discrepância de género provém da nossa ignorância acerca do clítoris. Nem sequer o sabemos desenhar.

12. A flying penis copulating with a flying vagina. Gouache Credit: Wellcome Library, London. Wellcome Images.

Na realidade, segundo as estatísticas, existem na população mais vaginas do que pénis. O problema reside, porventura, no imaginário. Mas deixemos as retóricas. O guache A flying penis copulating with a flying vagina (Fig 12), da Welcome Collection, sugere uma solução paritária: um pénis para uma vagina ou uma vagina para um pénis, sem prejuízo de outras localizações e sexualidades.

Espelhos deformadores

Flat distorting mirrors

Atardo-me por terras de Islândia. Emiliana Torrini é islandesa. Tornou-se conhecida pela sua participação no Senhor dos Anéis (Gollum’s Song; As Duas Torres, 2002) e pela canção Jungle Drum (Me And Armini, 2008). Gosto do álbum Love In The Time Of Science (1999), especialmente da canção Baby Blue. Uma canção bem cantada encanta a dobrar.
O pai de Emiliana Torrini é italiano. Tenho um apreço enorme pela Itália. O que é um desconsolo. Tenho várias portas abertas para o mundo e a Itália quase nunca aparece. Aliás, a Espanha, a Grécia, Portugal e, em menor grau, a França parece que deram sumiço. Cinco países com um lastro histórico e cultural ímpar, que num par de décadas caíram do sétimo andar até às catacumbas. Não acredito que a produção cultural tenha entrado em colapso, mesmo com a “crise do petróleo” e as “novas tecnologias”. Na verdade, o mundo é uma feira popular com espelhos deformadores. E a Internet é uma enorme galeria de espelhos. Uma parte vale pelo todo e as outras partes carecem de uma lupa. O nosso mundo pode ser global, líquido, pós-moderno, pós-materialista, pós-humano, pós-urbano, pós-industrial, pós-colonial, pós-pipoca, não deixa de ser, como no romance de Camilo José Cela (A Colmeia, 1951), uma colmeia com vários enxames num cortiço político-financeiro. Talvez as abelhas humanas sejam menos propensas ao equilíbrio do aquilo que Bernard de Mandeville vaticinava (Fábula das Abelhas, 1705). Mas, sublinhe-se, todos contribuimos para as hegemonias culturais. Não fossem hegemonias…

Emiliana Torrini. Baby Blue. Love In The Time Of Science. 1999.