Tag Archive | dança macabra

Artes

James Ensor. Esqueletos disputando um arenque fumado. 1891
O Louco e a Morte. Tendências do Imaginário, 12.09.2013
Dentro e fora da imagem. Tendências do Imaginário, 14.09.2011

Patas de caranguejo

Imagem de caranguejo numa calçada

Tinha içado a vela, navegava à deriva obliquamente, como um caranguejo; depois, ao chegar ao fim do seu percurso, corrigia a deriva a baixa velocidade, posicionava-se de lado a três quartos do vento e a sua proa robusta abria-lhe caminho. (Roger Vercel, Remorques, 1935).

Apesar de estar com pouco tempo livre, assoberbado a escrever um capítulo intitulado A Senhora da Cabeça, São Bartolomeu e o sagrado em Penso, dei-me ao luxo, com imenso prazer, de revisitar o artigo A canção da morte a passo de caranguejo, colocado em 11 de setembro de 2017. A primeira parte retoma o artigo A passo de caranguejo. A canção da morte, publicado em 24 de abril de 2015. Versa sobre postais ilustrados, embora o mais interessante não seja o conteúdo, mas a indagação e a digressão, ao jeito de um crustáceo. O resultado não é pequeno. As coisas com que me entretinha em tempos adversos! Quando tiver uma folga, recomendo uma espreitadela. Já agora, o meu signo é o caranguejo.

A canção da morte a passo de caranguejo. Tendências do Imaginário, 11.09.2017

É possível

Recordar apenas uma canção (La Luna) de Angelo Branduardi sabe a pouco. Compositor e intérprete de eleição, tenho publicado muitas canções suas. Por exemplo, Ballo in Fa diesis Minore (Sono Io la Morte) e Nelle Palludi di Venezia (com Teresa Salgueiro), ambas no artigo A passo de caranguejo. Canção da morte (24.04.2015), que recoloco. Acrescento quatro canções: Confessioni di un malandrino (1975); Alla Fiera Dell’Est (1976); La pulce d’acqua (1977); e Si può fare (1992). Um consolo…

Angelo Branduardi – Confessioni di un malandrino. La luna, 1975. Premio Città di Recanati IX, anno 1999
Angelo Branduardi – Alla fiera dell’ Est. Alla Fiera Dell’ Est. 1976. Ao vivo em 1996. DVD “Camminando Camminando”, 2006
Angelo Branduardi – La Pulce D’Acqua. La Pulce D’Acqua. 1977. Ao vivo em 1983. Roma, Teatro Sistina.Tour “Cercando l’oro”
Angelo Banduardi. Si può fare. Si può fare. 1992. Ao vivo, em 1996. DVD “Camminando Camminando”, 2006

Literatura deitada

Desliga o telemóvel e vai para a cama com Shakespeare, Cervantes, Camões ou, eventualmente, Dante, Poe, Tolstói, Rilke…

Acompanha ou intervala com boa música. Por exemplo, a Dança Macabra (1874) de Camille Saint-Saëns bem interpretada pela Kamerton Orchestra from Koszalin Music School, da Polónia.

Eros ou Thanatos sobre ou sob os lençóis.

Imagem: Edvard Munch. Dança da Morte (Autorretrato). 1915

Fnac Portugal – Vai para a cama com um livro. 2026
Camille Saint-Saëns – Danse Macabre (1874). Kamerton Orchestra from Koszalin Music School (Polish Nationwide Music Schools’ Symphonic Orchestras Competition 2014).

Abanar o esqueleto

Skeleton Dance. Nuremberg chronicles f 264r (imago mortis). 1493. Latin copy in Sao Paulo

Na semana passada, proporcionou-se mostrar The Skeleton Frolic aos alunos de Sociologia da Arte e do Imaginário. Trata-se de uma animação, desenhada por Ub Iwerks em 1937, que integra a série Color Rhapsodies da Columbia Pictures. Entretanto, o Fernando lembrou-se de The Skeleton Dance, o “original inspirador”. Desenhado também por Ub Iwerks, inaugurou, há quase um século, em 1929, a série Silly Symphonies criada por Walt Disney.

The Skeleton Dance. A Silly Symphony. A Walt Disney Comic. Drawn by Ub Iwerks. Directed by Walt Disney. Music by Carl W. Stalling. 1929
The Skeleton Frolic. Color Rhapsodies. Columbia Pictures. Directed by Ub Iwerks. 1937

Dança da vida, triunfo da morte

Dança da Morte .1474. Detalhe, Cemitério da Igreja de Santa Maria da Rocha. Por Vincenzo da Castua, Beram, Istria, Croácia.

Um compositor anónimo italiano do início do século XVII, possivelmente Stefano Landi, compôs a passacaglia magistralmente cantada pelo grupo Apollo’s Fire. Trata-se de “um estilo de composição musical baseada num tema, que é repetido constantemente no baixo, e em variações sobre esse tema na melodia principal”.

“Este gênero, que data do século XVI, é fascinante. Simples e direta, a passacaglia atinge o coração do ouvinte com a sua melodia repetitiva e precisa, como o mecanismo de um relógio. O texto representa um memento mori, apresentado com graciosidade, uma dança macabra (…), que nos convida a refletir profundamente sobre a nossa existência.

Imagem: Mestre de Adelaide de Savóia. História de Merlim, Poitiers, ca. 1450-1455

Pois na nossa dança diária da vida, a um dado momento importa entregar-nos a uma pausa de reflexão (…) para nos interrogar se aquilo que somos é aquilo que gostaríamos de ser. É neste momento, quando paramos para pensar, que um novo impulso vital costuma surgir. Indo do movimento para a quietude e depois novamente para o movimento, percebemos que temos um passado e, embora não tenhamos a certeza de ter um futuro, vivemos verdadeiramente no presente. A vida é uma dança para a qual todos somos convidados, sem máscaras nem fantasias. E enquanto durar, por este momento de eternidade, podemos perfeitamente dançá-la bem.” (La Passaglia della Vita  ©Marco Beasley: https://www.marcobeasley.it/la-passacaglia-della-vita.html).

LANDI: Passacaglia della Vita (Dance of Life) – APOLLO’S FIRE, from “ALLURE: The Three Amandas”. Performed November 8, 2020 at First Baptist Church in Cleveland, Ohio.

Feliz dia dos mortos!

SLOVENIA – MAY 03: Death accompanying a merchant and a wealthy banker, Dance of Death (1490), detail from the frescoes by Janez Iz Kastva, Trinity Church, Hrastovlje fortified church, Slovenia. Detail. (Photo by DeAgostini/Getty Images)

Feliz dia dos mortos! Dancem, dancem a dança macabra! Treinem os fémures e as tíbias.

Para o vídeo, convém uma resolução de, pelo menos, 720p.

Camille Saint-Saëns (1835-1921) Danse Macabre (1874) Opus 40 in G minor for violin + orchestra. National Philharmonic Orchestra, conductor Leopold Stokowski.

Saída de palco

Bink’s Sake. One Piece.

Alguém pediu uma homologia? Noção recomendável na sociologia dos anos sessenta. Lucien Goldman foi um praticante convicto, mormente nos livros Sociologie du roman (1964) e Dieu Caché (1955). Pierre Bourdieu acumula homologias, designadamente, na Distinção (1979), e na “semiótica” da casa cabila (“La maison ou le monde renversé”, in Esquisse d’une théorie de la pratique, 1972). Não esquecendo o contributo de autores clássicos como Max Weber e Georg Simmel. O afunilamento da investigação não ajuda ao estudo das homologias, cuja pesquisa pressupõe abrangência, comparação e sentido da diferença. A comparação não requer, antes pelo contrário, igualdade de origens, conteúdos ou funções entre realidades

Pode-se falar de homologia entre o vídeo da canção Bink’ Sake, do anime One Piece, e a Sinfonia do Adeus de Haydn. Os músicos retiram-se paulatinamente da orquestra. Trata-se de uma despedida colectiva e individual. Um corpo que se fragmenta. Os intérpretes retiram-se um a um, sem cronograma pré-definido. No palco, permanece, “abandonado”, o maestro.

Na canção Bink’ Sake relevo duas correspondências: uma relativa à dança macabra, a outra à Sinfonia do Adeus.

O protagonista de Bink’ Sake é um mortal que se tornou imortal. Imortal como a morte. Apesar de ser imortal, não escapa à corrosão do tempo: decompõe-se como um transi. Conforme antes ou após a imortalidade, ora aparece como humano, ora como esqueleto. O que não o impede de comandar a música e a dança. Na parte final, os músicos e os cantores formam um círculo, à semelhança da maioria das danças macabras, e (des)falecem desamparados. A letra da canção confirma o destino: “We all end up as skeletons”.

A canção Bink’ Sake e a Sinfonia do Adeus são de géneros distintos. Concentram-se nos intérpretes: instrumentistas, cantores e maestros. A saída da vida, num caso, e do palco, no outro, são quase desenhadas a papel químico. Uma a uma, as pessoas retiram-se do grupo, da vida ou do palco. O último conta os estragos: “What’s wrong… We’re just a quartet… Trio…Duet… Solo.”

Fernando Gonçalves e Albertino Gonçalves

Bink’ Sake. One Piece. Vídeo.

Os ossos não enganam: a dança dos esqueletos

Figura 1. Franciszek Lekszycki . Dança macabra. Cracóvia, Polónia. Século XVII. Curiosamente, as danças da morte neste quadro e no seguinte contemplam apenas mulheres. Lembram as naves das loucas (ver
https://tendimag.com/2014/07/29/michel-foucault-e-a-nave-dos-loucos/ )

“Nenhum homem há naquele ponto que não desejara muito uma de duas: ou não ter nascido, ou tornar a nascer de novo, para fazer uma vida muito diferente. Mas já é tarde, já não há tempo” (Padre António Vieira).

The dance of death. Oil painting. Sec. XVII. Credit: Wellcome Library, London. Wellcome Images images@wellcome.ac.uk http://wellcomeimages.org.

“Para nascer Portugal: para morrer o mundo” (Padre António Vieira). A despedida é fado, o afastamento o corolário. Despedi-me da aldeia para estudar em Braga; de Braga para estudar em Paris; de Paris para trabalhar em Braga. O que mais custa na despedida não é a adaptação ao novo destino, é o afastamento de um pedaço de vida. É um vazio que trespassa o esqueleto. Partir e repartir é cavar cemitérios de amizades e desbastar florestas de rotinas. Partir empobrece! Suspende-se a familiaridade do mundo da vida. Afastei-me sempre voluntariamente. Volto a pressentir a semente do alheamento. Mas imagino esta nova travessia diferente. Não perco a familiaridade do mundo, nem os amigos; apenas aqueles que não tenho. Há três contingências a que os ossos não se habituam: à água do mar, à febre de protagonismo e ao feiticismo da sabedoria. Prevejo afastar-me aos poucos num alheamento a prestações. Como os intérpretes da Sinfonia do Adeus, de Joseph Haydn, que se retiram do palco sem que a música deixe de cumprir a sua promessa. A Dança dos Esqueletos, de Walt Disney (1929), precede A Sinfonia do Adeus (1772) de Joseph Haydn (no vídeo, a deserção dos intérpretes começa no minuto 4).

Walt Disney. A Silly Shimphony: The Skeleton Dance. 1929.
Joseph Haydn. Sinfonia 45. A Sinfonia do Adeus. 1772.

Vida de esqueleto II. O espelho

01. Despertador. Science Museum. Londres. 1840 – 1900.

01. Despertador. Science Museum. Londres. 1840 – 1900

O esqueleto acompanha-nos desde a expulsão de Adão e Eva do paraíso. A dança da morte da ponte Spreuer, em Lucerna, na Suíça (Figura 3), mostra Adão e Eva, mais o esqueleto, a sair, curvados, do paraíso:

“Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais” (Genesis 3:3).

Dança macabra da ponte Spreuer, em Lucerna

O esqueleto sempre assombrou a humanidade. Condenado, tal como o ser humano, ao trabalho, esmera-se. Toca os clientes, captura-os e transporta-os para o outro mundo. Assedia como um toureiro, ceifa como um camponês, pesca como um lobo-do-mar e caça como um nobre ou como um predador furtivo. Usa a gadanha, o arco e a flecha, o machado, a espada, a lança, a rede e a pá. Desloca-se a pé, montado num caixão (Figura 1), num cavalo, num burro ou numa vaca. Por finais do século XIX, também voa (Figuras 6 a 11).

O ofício de esqueleto

Às vezes, o esqueleto, enquanto trabalha, diverte-se com outros esqueletos. Nas danças macabras, toca música e baila de mãos dadas com os vivos mortos. O transporte para o outro mundo resulta festivo. O esqueleto investe na política. Faz a guerra e não desdenha o poder. Nos triunfos, a morte senta-se no trono, rodeada pelo seu séquito, com as autoridades mundanas a seus pés (Figura 2 e 12 a 15).

Triunfo da morte

12. Discípulo de Andrea Mantegna. Triunfo do Amor, da Castidade e da Morte. 1460s

12. Discípulo de Andrea Mantegna. Triunfo do Amor, da Castidade e da Morte. 1460s

13 a 15. Triunfos da morte do Palazzo Abbattelis, de Clusone e de Pieter Bruegel

O esqueleto também repousa. Cansa-se, como o esqueleto sentado na escada da figura 15. Aprecia o lazer e a actividade espiritual. Dormita aconchegado em prazeres, come, joga, espera, aborrece-se, vê-se ao espelho, lê, contempla uma caveira (uma dupla vanitas), ouve e toca música, parodia a arte e, sublinhe-se, reza (ver figuras 16 a 29).

Actividades de lazer

O espelho da morte mostra-nos a nossa finitude. Em vez da nossa imagem, vemos a morte. As actividades do esqueleto são semelhantes às nossas. Podiam ser as nossas. Com a ressalva da procriação. Ao olhar para o espelho, mais do que a morte, vemo-nos a nós próprios. O esqueleto é uma projecção. O esqueleto somos nós. Somos, pelo menos, o modelo (Figuras 30 a 33)

O espelho da morte

Tanto nos dá para temer o esqueleto como para o venerar. Dedicamos-lhe cultos, os cultos da morte e dos mortos. Nas igrejas, nos cemitérios, em casa, na rua e durante o Halloween. Às vezes, exorbitamos. É o caso dos santos descobertos no século XVII nas catacumbas romanas que o papa distribuiu por várias igrejas germânicas. Identificados como esqueletos dos primeiros mártires, beneficiaram do esmero póstumo de freiras, joalheiros e outros artífices dos séculos XVII e XVIII (Figuras 34 a 37).

Santos das catacumbas romanas

Nas fotografias de Paul Koudounaris (2013, Heavenly Bodies, New York, Thames Hudson), contam-se mais jóias e ornamentos do que ossos. Ao bom jeito barroco, são esqueletos em majestade. Rivalizam com Nossa Senhora da Boa Morte ou com a Santa Morte, padroeira, entre outros, dos traficantes e dos bandidos (Figuras 38 a 41).

Morte santa

Se os esqueletos são ecos, por que os imaginamos? Para personalizar ou eufemizar a morte? Para acomodar o vazio? Ou será porque prestamos mais atenção ao eco do que à voz? A vida do esqueleto é o paroxismo da reflexividade e da catequese humanas.