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Danças do Renascimento

Pieter Bruegel. A Dança Camponesa. 1568.

Nos anos setenta, pertenci a um clube de música clássica. Tinha a vantagem de estar ao corrente do que era publicado e de adquirir os discos a preço reduzido. Encomendei o álbum Danses de la Renaissance (1973), do Clemencic Consort, neste quadro, sem conhecer o conteúdo. Afeiçoei-me ao Clemencic Consort e acompanhei a sua carreira. Tivemos momentos felizes. Por exemplo, o álbum La Fête de l’Âne – Traditions du Moyen-Age (1980 : o Tendências do Imaginário contempla várias músicas). O vinil das “Danças do Renascimento” é uma relíquia.

O Tendências do Imaginário e a Internet contêm muita música medieval. Ainda mais, música barroca. E a música do Renascimento? Fica entalada entre o medieval e o barroco? As sociedades têm ouvidos selectivos. A História da Música comprova-o. Dispense-se alguma atenção a estas danças do Renascimento. Não ficamos mais pobres. Seguem a faixa 3, Danses, 08:58, ficheiro vídeo; a faixa 11, Danses anonymes, 05:12, e a faixa 14, Danses, 04:17, estas duas faixas em ficheiro áudio.

Clemencic Consort. Danses. Danses de la Renaissance. 1973.
Clemencic Consort. Danses anonymes. Danses de la Renaissance. 1973.
Clemencic Consort. Danses. Danses de la Renaissance. 1973.

No tempo em que os burros cantavam

Fête de Fous

Do disco Obsidienne, La Fête des Fous, 2005.

Andava com vontade de publicar um artigo sem interesse.

Gosto dos burros! Excepto os burros com ceptro e título. O burro é o meu símbolo preferido. Serviçal e teimoso. Por que desprezamos quem nos serve e aclamamos quem servimos?

Chris Beatrice. Luteplayer. 2010

Chris Beatrice. Luteplayer. 2010.

Nos artigos publicados no Tendências do Imaginário  dedicados à música da missa do burro (O burro e a cenoura; Tolos e burros) cingi-me à obra do Clemencic Consort. Na verdade, a missa do burro, bem como a Festa dos Tolos, celebrava-se em várias cidades medievais europeias.

Encontrei no computador duas obras sobre a Festa dos Tolos: Obsidienne, La Fête des Fous, 2005 ; e Choeur de Chambre de Namur, Missa Goliardica, Messe des Fous, 2005. Seguem dois excertos : no primeiro, o zurro do burro é ostensivo ; no segundo, mais discreto,na parte final os versos terminam com pronúncia de asno. Quem dera aos cavalos cantar como os burros!

Obsidienne. “Les femmes amoureuses de l’âne”, La Fête des Fous. 2005.

Choeur de Chambre de Namur, Missa Goliardica, Messe des Fous, 2005. Excerto.

O burro e a cenoura

“Aquele que faz de burro não deve admirar-se que os outros montem nas suas costas” (Provérbio chinês).

Guillaume de Digulleville (1295-1380), Pèlerinage de vie humaine; Pèlerinage de l'âme.

Guillaume de Digulleville (1295-1380), Pèlerinage de vie humaine; Pèlerinage de l’âme.

Cartaz do Carnaval de Loulé foi proibido de ser publicitado nos écrans das caixas multibanco. O que está em causa é uma caricatura

Cartaz do Carnaval de Loulé de 2014

Desconcerta-me ver as pessoas e as organizações empenhadas em correr atrás de uma cenoura. Onde estão os princípios, a função, a vocação e a missão? Só cenouras! O motivo é a cenoura, a motivação cenoura é. Somos heterodeterminados por artifícios que nos aguçam os dentes e nos hipnotizam a vontade. Pouco me entusiasma ver pessoas focadas em cenouras, ainda menos ver burros montados em cima de burros, homens em cima de homens e burros em cima de homens. Uma hierarquia asnática! É verdade que urge descentralizar, desconcentrar, desintoxicar e desburocratizar, mas não nos esqueçamos de desasneirar, desjericar e desburricar. Somos inteligentes? Somos burros? Acontece-nos ser espertos, daquela esperteza que faz a Terra girar à volta da Lua. Dêmos graças a Deus pelas orelhas que nos calharam em sorte.

Psalter-fragment (The Hague, KB, 76 F Courtesy of the Medieval Illuminated Manuscripts

Psalter-fragment (The Hague, KB, 76 F. C. 1200.

Na Idade Média, organizava-se uma missa em honra do burro (ver Tolos e Burros). Os “fiéis” zurravam, zurravam quanto podiam. O Clemencic Consort reconstituiu uma versão dos respectivos cânticos. Seleccionei a quarta e última parte do disco: Procession. VALE A PENA OUVIR! Este vinil do Clemencic Consort é um dos meus tesourinhos consistentes.

Clémencic Consort. La Fête de L’Âne. IV: Procession. 1979.

Com um burro às costas. Música com humor.

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Francisco Goya. Tu que no puedes. Los caprichos 42. 1799.

Estive sete dias sem Internet. O apoio técnico por parte da operadora, a única entidade que o pode prestar, só chegou hoje. Uma simples troca de modem. Podia ter recorrido a outros acessos à Internet, mas estas conversas são pessoais e têm um nicho, a minha casa. Sou fetichista.

Há quem acredite que a técnica nos conduzirá à eternidade. Quanto a mim, a técnica, parente da obsolescência, é aceleradora da morte. Atropelam-se os funerais de técnicas de ponta, computadores incluídos. Deus não fez, neste mundo, obra perfeita. O que fez desfaz-se. Não faltam porém divindades de barro em busca da perfeição. São os piores inimigos da humanidade.

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Pássaro alimenta uma cria proveniente do ovo de um cuco.

Neste País de mil leis, uma operadora não tem prazo para acudir a uma participação de avaria! E nem sequer é possível denunciar o contrato. Por causa da fidelização. Quando o poder político e o poder económico se sentam no mesmo banco, o melhor é o consumidor não se pôr a jeito. Para a próxima, pense duas vezes antes de avariar, não vá carregar dois burros às costas.

Esta abstinência digital lembrou-me quatro músicas dedicadas a animais. Na primeira, os burros zurram; na segunda, as galinhas esgaravatam; na terceira, os cucos parasitam; e na quarta, os zangões zumbem.

La Fête de l’Ane. Excerto. Música medieval. Clemencic Consort.

Jean-Philippe Rameau. La Poule. 1728. Sir Neville Merrimer.

Louis-Claude Daquin. Le Coucou. 1735. Trevor Pinnok.

Nikolai Rimsky-Korsakov. Flight of the Bumblebee. 1899-1900. David Garrett.

À Senhora da Boa Morte

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Fig 1. Demons and devotion. The Hours os Catherine of Cleves. 1440.

No artigo precedente, a canção Puestos están frente a frente dedicada a Don Sebastião acaba com uma citação de Petrarca (1304-1374): “Uma bela morte toda a vida honra”. Enquadrada nos livros e nas gravuras da Arte de Morrer do século XV (Ars Moriendi ), a citação de Petrarca adquire um cunho particular. O moribundo é submetido a várias tentações (ver https://tendimag.com/2016/10/19/o-galo-e-a-morte/). Do modo como reage assim é salvo ou condenado, não obstante as boas ou as más acções do livro da vida. Convinha apegar-se à Nossa Senhora da Boa Morte. Passo a citar Philippe Ariès:

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Fig 2. Alegoria da Música. 1350.

“Deus e a sua corte estão ali para constatar como o moribundo se vai comportar no momento da prova que lhe é proposta antes do seu último suspiro e que vai determinar a sua sorte na eternidade. A dita prova consiste numa última tentação. O moribundo verá a sua vida inteira tal como está contida no livro, e será tentado, tanto pelo desespero das suas faltas como pela vanglória das suas boas acções, bem como pelo amor apaixonado das coisas e dos seres. A sua atitude, no resplendor desse momento fugitivo, apagará de um só golpe todos os pecados da sua vida se afasta a tentação ou, pelo contrário, anulará todas as suas boas acções se não lhe resiste. A última prova tomou o lugar do Juízo Final” (Ariès, Philippe, Historia de la muerte en Occidente, Barcelon, Caderns Crema, 2000,  p. 49).

Uma “boa morte” pode salvar uma vida.

Aproveito esta nota para colocar um pequeno excerto do Lamento d’Arianna (Lasciatemi morire), composto por Monteverdi no início do sec. XVII. Acrescento um vídeo com um membro do Clemencic Consort a tocar saltério, instrumento musical típico da Idade Média (o instrumento que toca o rei na Alegoria da Música da Figura 2.

Clemencic Consort. Rencontrea de lutherie et musiques Médiévales, Largentiere, 3010.

Monteverdi. Lamento d’Arianna (Lasciatemi morire), Interpretado por Roberta Mameli. Excerto.

Tolos e burros

Sem hipóteses e sem metas também se faz caminho. Descobre-se e aprende-se. Com hipóteses e com metas muitas vezes só se descobre o que já se sabe. Deparei com este livro sobre a festa dos loucos numa travessia movida a curiosidade. Gosto mais de encontrar um búzio adormecido num charco do que uma ilha com GPS. O autor é Mr. Du Tilliot, o título Mémoires pour servir à l’histoire de la fête des fous (Lausanne e Geneva, 1741). Interesso-me pela festa dos loucos, que foi popular durante a Idade Média e desapareceu por volta do século XVII. Li muitas descrições da Festa dos Loucos, mas nenhuma de um autor do século XVIII.

The Festival of Fools. after 1570. After Pieter Bruegel.

The Festival of Fools. after 1570. After Pieter Bruegel.

“Elegia-se nas Igrejas Catedrais um Bispo ou um Arcebispo dos Loucos, e a sua eleição era confirmada por muitas bobices ridículas que serviam de consagração, em seguida promoviam-no a oficial pontífice, para dar a benção pública loucamente ao povo, transportando a Mitra, a Cruz e, mesmo, a cruz arquiepiscopal. Mas as Igrejas Isentas, ou que recebem imediatamente da Santa Sede, elegiam um Papa dos Loucos (unum Papam fetuorum) a quem também se dava, com grande derisão, os ornamentos do papado, de modo a que pudesse agir e oficiar solenemente como o Santo Padre.

Os Pontífices e as Dignidades desta espécie eram assistidos por um clero também licencioso. Viam-se os Clérigos e os Padres fazer na Festa uma mistura horrorosa de loucuras e impiedades durante o serviço Divino ao qual só assistiam, nesse dia, com roupas de Mascarada e Comédia. Uns estavam mascarados, ou com as caras manchadas, que metiam medo ou que faziam rir, outros com roupas de mulheres ou de pantomimos, como os atores de Teatro. Dançavam no coro e cantavam canções obscenas. Os diáconos e os subdiáconos entregavam-se ao prazer de comer chouriços e salsichas no Altar, debaixo do nariz do padre oficiante: jogavam às cartas e aos dados: colocavam no Incensário pedaços de calçado velho para dar a respirar um mau odor. Após a missa, cada um corria, saltava e dançava pela igreja com tanta impudência que alguns não tinham vergonha de se entregar a extremas indecências, e de se despojar completamente: em seguida faziam-se conduzir pelas ruas em tonéis cheios de imundícies, tomando prazer em arremessá-las à populaça que acudia à sua volta. Paravam e faziam com os seus corpos movimentos e posturas lascivas, que acompanhavam com palavras impúdicas. Os mais libertinos dentre os Seculares misturavam-se no meio do clero, para assumir também algumas personagens de loucos em trajes eclesiásticos, de Monges e Religiosas” (Mr. Du Tilliot, Mémoires pour servir à l’histoire de la fête des fous, 1741, pp. 5-6).

After Pieter Bruegel the Elder. Feast of Fools. After 1570.

After Pieter Bruegel the Elder. Feast of Fools. After 1570.

“Mas não era só nas Catedrais e nas Colegiadas que se fazia a festa dos loucos. Esta impiedade acontecia, inclusivamente, nos Mosteiros dos Monges e das Religiosas. Ficamos a conhecer pela queixa que Nandé escreveu a Gallendi em 1645 , sobre os costumes abusivos que se praticam em Aix, no dia do Corpo de Deus durante a procissão do Santo Sacramento, que em determinados Mosteiros de Provence se celebra  a festa dos Inocentes com Cerimónias tão impertinentes e tão loucas, como se faziam outrora as solenidades aos falsos Deuses. O exemplo que avança comprova-o. Nunca, diz ele, os Pagãos solenizaram com tanta extravagância as suas festas cheias de superstições e de erros como se soleniza a festa dos Inocentes em Antibes entre os Cordeliers. Nem os Religiosos Padres, nem os Guardas vão ao Coro nesse dia. Os irmãos Laicos, os Irmãos-Corta-Couve, que fazem o peditório, aqueles que trabalham na cozinha, os ajudantes de cozinha, os que tratam dos jardins, tomam o seu lugar na Igreja e dizem que vão produzir um ofício conveniente a tal festa, uma vez que são os loucos e os furiosos, e dizendo-o assim o fazem. Vestem ornamentos sacerdotais, todos despedaçados, e virados do avesso. Seguram nas suas mãos livros virados ao contrário, lidos de frente para trás, fazendo de conta que os leem com óculos a que retiraram os vidros, e aos quais adaptaram cascas de laranja, o que os torna disformes, e tão horríveis, que é preciso ver para crer, sobretudo que, após terem soprado nos incensários que abanam nas mãos por derisão, a cinza cobre a cabeça de uns e outros. Nestes atavios não cantam nem Hinos, nem Salmos, nem Missas correntes; mas resmungam determinadas palavras confusas, e dão gritos tão loucos, tão desagradáveis e tão discordantes, como uma vara de porcos a grunhir: de tal modo que as bestas brutas não celebrariam pior o ofício do dia. Porque mais valeria, efetivamente, trazer as bestas brutas para a Igreja, para louvar o Criador ao seu jeito, e seria, certamente, uma santa prática a seguir, do que aguentar estas pessoas que gozando Deus, com semelhantes louvores, são mais loucos e mais insensatos do que os animais mais insensatos e mais loucos” (Mr. Du Tilliot, Mémoires pour servir à l’histoire de la fête des fous 1741, pp. 19-20).

Estes relatos apontam para a Festa dos Loucos como um momento catártico pautado pela confusão e pela inversão. O episódio dos livros lidos e virados do avesso é sintomático. A festa dos loucos encerra, no entanto, outras dimensões que foram evidenciadas por Mikhail Bakhtine: a experiência da liberdade através do mergulho num caos revitalizador e da turbulência colectiva utópica.

Le livre de Lancelot du Lac. Autres romans arthuriens. Nord de France. 13e siècle.

Le livre de Lancelot du Lac. Autres romans arthuriens. Nord de France. 13e siècle.

Tenho-me interessado mais pela Festa do Burro do que pela Festa dos Loucos. São congéneres e há quem as confunda. No entanto, o burro que entra na Igreja montado por uma bela donzela, uma alusão à fuga para o Egipto, é apanágio da Festa do Burro. Bem como o burro montado ao contrário pelo arcebispo “faz de conta”. Por acréscimo, a missa centra-se toda na figura do burro. Cânticos zurrados culminam com o público a bramir no fim da missa. Mas ainda não é desta vez que me proponho falar da Festa do Burro.

O Clemencic Consort publicou, em 1985, uma excelente colectânea com cânticos da missa do burro. Selecionei a Kyrie Asini – Litanie. Uma pérola que não devia partilhar, mas quem chegou a este ponto do artigo merece recompensa. Como falso consolo, atentem que mais seca do que o ler foi traduzi-lo do francês arcaico.