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A parábola da garrafa de plástico

Quino. Naufrago.

O que uma pessoa não faz por uma garrafa de plástico! Só um prodígio consegue resgatá-la do fundo de uma lixeira.

“Qual é a mulher que, possuindo dez dracmas e, perdendo uma delas, não acende uma candeia, varre a casa e procura atentamente, até encontrá-la? E quando a encontra, reúne suas amigas e vizinhas e diz: ‘Alegrem-se comigo, pois encontrei minha moeda perdida’” (Lucas, 15).

Marca: Friends of the Earth. Título: We’ve all been there. Agência: Don’t Panic. Direcção: Eoin Glaister. Estados Unidos, Janeiro 2020.

Talvez seja uma boa ocasião para investir em garrafas de plástico, porque em breve vão ser peças de museu leiloadas na Sotheby’s. Atente-se: “by 2025, Sodastream will eliminate 67 billion single-use bottles on this planet. So we won’t have to go looking for a new one”. Afigura-se mais fácil ver-se livre das garrafas de plástico do que dos “endemoninhados gadarenos”:

Quando ele chegou ao outro lado, à região dos gadarenos, foram ao seu encontro dois endemoninhados, que vinham dos sepulcros. Eles eram tão violentos que ninguém podia passar por aquele caminho.
Então eles gritaram: “Que queres conosco, Filho de Deus? Vieste aqui para nos atormentar antes do devido tempo?”
A certa distância deles estava pastando uma grande manada de porcos.
Os demônios imploravam a Jesus: “Se nos expulsas, manda-nos entrar naquela manada de porcos”.
Ele lhes disse: “Vão!” Eles saíram e entraram nos porcos, e toda a manada atirou-se precipício abaixo, em direção ao mar, e morreu afogada.
Os que cuidavam dos porcos fugiram, foram à cidade e contaram tudo, inclusive o que acontecera aos endemoninhados.
Toda a cidade saiu ao encontro de Jesus, e, quando o viram, suplicaram-lhe que saísse do território deles” (Mateus 8: 28-34).

Amanhã, dia 2 de Fevereiro, será o Super Bowl, o delírio da publicidade.

Marca: SodaStream. Título: SodaStream Discovers Water On Mars. Agência: Goodby Silverstein & Partners. Direcção: Bryan Buckley. Estados Unidos, Fevereiro 2020.

Quando o corpo incomoda a alma

Avoir un corps, c’est la grande menace pour l’esprit (Marcel Proust, Le temps retrouvé, NRF, 1927).

Leon Bonnat. Job. 1880.

O corpo fala. Não se cala. E grita! Dores, avisos, urgências e avarias; a alma não sossega. A quem tem o purgatório em vida, apetece-lhe cegar os sentidos, pontapear o mundo e puxar o paraíso pelos cabelos.

A Bíblia permite várias interpretações. No Génesis, Adão e Eva andavam nus. Mal comeram a maçã, procuraram folhas de figueira para se resguardar. Foi nesse preparo que Deus os encontrou. O primeiro castigo não foi o trabalho, nem o parto, mas o corpo! Acontece zangar-me com o corpo. E não adianto nada.

A canção Child in Time, dos Deep Purple, vem, já tardava, a talhe de foice.

Deep Purple. Child in Time. Deep Purple In Rock. 1970. (Official Video) [HQ].

Superstar

Pietro Perugino. Madalena, ca 1500.

Recorremos à linguagem religiosa para dizer o mundo e a vida. Confessada ou inconfessadamente, latente ou patente. No anúncio do artigo precedente (Receitas Milagrosas), o religioso permanecia latente, subentendido. Na “série bíblica”, da campanha da Renault Argentina, o religioso é patente, explícito.

No primeiro anúncio, um homem (Jesus) aborda uma prostituta, chamada Madalena. Ela lava-lhe os pés (Evangelho de Lucas) e ele perdoa-lhe os pecados (Evangelho de Marcos). Separam-se, Madalena como prostituta perdoada e penitente. O homem (Jesus) desloca-se num Renault Clio dourado (ver Maria Madalena: O Corpo e a Alma).

Marca: Renault Clio. Título: Jésus et les pêcheurs. Agência: Agulla & Baccetti. Direcção: Marcelo Szechtman. Argentina, 2000.

O segundo anúncio inicia com uma ceia, a “última ceia”. “Jesus” conduz um automóvel com dois ladrões (o bom e o mau?). Capturados pelas autoridades, os automóveis formam uma cruz. O responsável, ao jeito de Pôncio Pilatos, lava as mãos. “Jesus” ressurge ao volante de um Renault Clio. Se o primeiro anúncio foca Madalena, este centra-se na crucificação.

Marca: Renault Clio. Título: La última Cena. Agência: Agulla & Baccetti. Direcção: Marcelo Szechtman. Argentina, 2000.

No terceiro anúncio, “Jesus” estaciona o Renault Clio e entra numa casa escura tumular. Encontra um idoso despedido da vida. “Jesus” ilumina e anima a casa e o idoso. O idoso chama-se Lázaro. Estamos, sem dúvida, perante uma ressurreição.

Marca: Renault Clio. Título: Lázaro. Agência: Agulla & Baccetti. Direcção: Marcelo Szechtman. Argentina, 2000.

Não sei se estes anúncios relevam de uma catequese secularizada ou de uma publicidade evangélica. Alguma coisa será.

Sombras

Alexey Bednij

Alexey Bednij

Por causa dos milagres que os apóstolos faziam, as pessoas colocavam os doentes nas ruas, em camas e esteiras. Faziam isso para que, quando Pedro passasse, pelo menos a sua sombra cobrisse alguns deles. Multidões vinham das cidades vizinhas de Jerusalém trazendo os seus doentes e os que eram dominados por espíritos maus, e todos eram curados. (Acto dos Apóstolos, capítulo 5, versículos 15 e 16).

Perguntei ao meu rapaz, que anda nas engenharias, se era possível tocar a sombra dos outros. “Não, a sombra não é um concreto. Mais, quando pensas que estás a tocar a sombra de outra pessoa é a tua própria sombra que estás a tocar”. O meu rapaz é assim: um quase engenheiro que pensa. Mas a minha vocação são as “ciências moles”. Não diz a Bíblia que o apóstolo cura os enfermos com a sua sombra? Se o milagre se faz pela sombra, não pode o toque da sombra ser erótico? Doutor Freud, o toque na sombra alheia é susceptível de provocar prazer?

Ando a escrever um artigo pontuável. Um artigo “duro” e tenso, que me vai envenenar os próximos dias. Resta-me espalhar disparates no Tendências do Imaginário. Seguem um anúncio em que a sombra se revolta, L’ombre, da Chanel (1993), e duas canções de Mike Oldfield, Shadow on the Wall e Moonlight Shadow, ambas do álbum Crises (1983).

Marca: Chanel. Título: L’ombre. Produção: Pac. Direcção: Jean-Paul Goude. França, 1993.

Mike Oldfield. Shadow on the Wall. Crises. 1983.

Mike Oldfield. Moonlight Shadow. Crises. 1983.

O gosto de gostar

john_lewis_journey_snowman

É mais gostoso gostar do que ser gostado. Afeiçoei-me com o tempo a esta ideia. Não deixa de ser uma paráfrase de um pensamento de Jesus Cristo: “Há maior felicidade em dar do que em receber” (Atos dos Apóstolos 20:35).

Na Segunda Epístola aos Coríntios (9:6), Jesus Cristo lembra: “Aquele que semeia pouco também colherá pouco, e aquele que semear com fartura também colherá fartamente”. Insinua-se, agora, a ideia de investimento: semear para colher. Uma dádiva interessada. Ao contrário do primeiro pensamento, este último poderia constar do livro O Caminho da Riqueza, de Benjamin Franklin (1757). Os homens movem-se pelo interesse, incluindo os estúpidos.

Marca: John Lewis. Título: The Journey. Agência: Adam & Eve DDB (London). Direcção: Dougal Wilson. Reino Unido, 2012.

Histórias aos quadradinhos do tempo de D. Afonso Henriques

Livro de Salmos de Canterbury, Inglaterra, 1155-1160

Fig. 1. Livro de Salmos de Canterbury, Inglaterra,1155-1160 (Pormenor da Fig. 5)

Quão antigas são as histórias aos quadradinhos? Não me refiro às histórias gravadas, pintadas, esculpidas que remontam às cavernas, aos túmulos egípcios, aos palácios assírios, aos frisos gregos, aos arcos de triunfo e às colunas imperiais dos romanos. Cinjo-me a histórias dispostas em séries de pequenos quadrados ilustrados. Estas histórias têm, no mínimo, 850 anos. Entre 1155 e 1160, foi manuscrito o Livro de Salmos de Canterbury, alvo de várias cópias. Creio existirem bíblias mais antigas com o mesmo esquema de ilustração. De qualquer modo, já existiam histórias aos quadradinhos no tempo de D. Afonso Henriques.

O Livro de Salmos de Canterbury relata várias passagens bíblicas em páginas divididas em quadrados, cada um com sua imagem. A figura 2, dedicado ao Genesis, é acompanhada por uma “legenda” que identifica as imagens (http://www.moleiro.com/fr/livres-bibliques/psautier-anglo-catalan.html). Graças a esta multiplicação das ilustrações, o Livro de Salmos de Canterbury é considerado o manuscrito inglês do séc. XII com maior número de imagens bíblicas (ver, a título de exemplo, as Figuras 3 a 6). Como prova da qualidade das iluminuras, acrescenta-se um pormenor com a imagem de um quadrado (Figura 1).

Livro de Salmos de Canterbury, Inglaterra, 1155-1160

Figura 2. Livro de Salmos de Canterbury, Inglaterra, 1155-1160

“Dieu créant la lumière : Fiat lux: dixit Deus, et facta est lux (Gén. 1: 3); Dieu créant l’ étendue entre les eaux : Fecit Deus firmamentum in medio aquarum (Gén. 1: 6); Dieu séparant les eaux de la terre : Congregentur aque, que sub celo sunt, in locum unum et appareat arida (Gén. 1: 9); Dieu créant le Soleil et la Lune : Fecit Deus duo magna luminaria, solem et lunam, et stellas (Gén. 1: 16); Dieu créant les oiseaux et les poissons : Creavit Deus cete grandia atque volatile super terram (Gén. 1: 21); Dieu créant les animaux et Adam à son image : Producat terra animam viventem. Faciamus hominem ad imaginem (Gén. 1: 24, 26); création d’Eve : un ange tend un morceau d’argile à Dieu pour engendrer sa chair : Edificavit costam quam tulerat de Adam in mulierem (Gén. 2: 21-2); Dieu prévient Adam et Eve de l’interdiction de manger les fruits de l’arbre de la connaissance du bien et du mal : Eva. Adam. De fructu sciencie boni et mali ne comedas (Gén. 2: 17); Adam et Eve mangent le fruit, tentés par le serpent : Eva. Serpens decepit me et comedi. Adam(Gén. 2: 13); expulsion d’Adam et Eve du paradis : Ubi ejecti fuerunt de paradiso. Adam. Eva (Gén. 3: 23-4); Adam en train de creuser et Eve en train de filer la laine auprès de leurs enfants : In dolore paries filios. In sudore vultus tui vesceris pane (Gén. 3: 16-19); Dieu repousse l’offrande de Caïn tandis qu’il accepte et bénit celle d’Abel : Abel. Sacrificium. Caym (Gén. 4: 3-5)” (http://www.moleiro.com/fr/livres-bibliques/psautier-anglo-catalan.html).

Figura 3. Livro de Salmos de Canterbury, Inglaterra, 1155-1160

Figura 3. Livro de Salmos de Canterbury, Inglaterra, 1155-1160

Figura 4. Livro de Salmos de Canterbury, Inglaterra, 1155-1160

Figura 4. Livro de Salmos de Canterbury, Inglaterra, 1155-1160

Figura 5. Livro de Salmos de Canterbury, Inglaterra, 1155-1160

Figura 5. Livro de Salmos de Canterbury, Inglaterra, 1155-1160

Figura 6. Livro de Salmos de Canterbury, Inglaterra, 1155-1160

Figura 6. Livro de Salmos de Canterbury, Inglaterra, 1155-1160