A incomensurável leveza do beijo
Um amigo enviou-me este anúncio da Lacoste. A agência BETC tem destas coisas: um beijo à Matrix, capaz de rivalizar com o Shrek e a Fiona. Um beijo que vence o abismo, mais rápido e mais potente do que um teleférico ou um helicóptero. Ao mínimo toque, levitamos.
Marca: Lacoste. Título: The Big Leap. Agência: BETC, France. Direcção: Seb Edwards. França, Fevereiro 2014.
O Beijo
Já se sentia a falta de um anúncio argentino.
O beijo consiste numa junção de orifícios com troca de saliva. Um risco de transmissão de doenças. Uma libertação de energia por fricção que não contribui para o PIB, nem paga impostos. Inscreve-se a contracorrente de tudo quanto é regra civilizacional de bem ser, de bem estar e de bem fazer. Prazeroso, mas arriscado e inútil. Nem sequer garante a ignição da reprodução da espécie. O beijo que se cuide, a depuração espreita. Depois dos apitos de fumo, das ingestões espirituosas, dos músculos moles e da vigília do ecrã, a vez do beijo está a chegar. A dupla ventosa humana vai ser, política, científica e tecnicamente, ajustada, graças a uma chuva de medidas: o beijo só é permitido a um mínimo de 20 cm de distância entre entidades beijadoras; o beijo é proibido nos locais frequentados… E cartazes com o lema: “Fumar aumenta a saliva”. E nos guardanapos: “Se é beijador compulsivo, o seu médico pode ajudar”.
Ainda bem que, a fazer fé neste anúncio, o beijo resiste a tudo!
Marca: Topline. Título: Kiss. Agência: Del Campo Nazca Saatchi & Saatchi. Direção: GUARNA. Argentina, 2009.
A Bela e o Sem-abrigo
Todo o fim-de-semana dedicado a fazer relatórios! Os relatórios não são bens transaccionáveis, pois não? Ninguém os compra. É uma pena! Estamos a ficar peritos. Enquanto o escriba folga e o relatório espera, aqui vai um anúncio argentino de 1995. A resolução da imagem não é a melhor, mas a obra não perde. Lembram-se dos contos da Bela e do Monstro e do Príncipe Sapo? Pois voltarão a lembrar-se com este beijo de uma jovem a um sem-abrigo. O sapo e o monstro saberiam beijar assim? Trata-se de um anúncio desconcertante, que nos causa estranheza e desconforto e com estranheza e desconforto nos deixa.
Anunciante: Fundación Vida. Título: Kiss. Agência: Agulla & Baccetti. Direção: Pucho Mentasti. Argentina, 1995
O beijo já não é o que era
O beijo deu azo a obras-primas, tais como o quadro de Gustav Klimt ou a escultura de Auguste Rodin. Existem, também, fotografias como o Baiser de l’ Hotel-de-Ville, de Robert Doisneau (1950), ou o beijo do V–J day in Times Square, de Alfred Eisenstadt (1945), com um marinheiro norte-americano a beijar uma enfermeira no termo da Segunda Guerra Mundial.
O beijo continua a estar no centro do anúncio de Jean Paul Gaultier. A intertextualidade é evidente. O beijo de Gaultier dialoga com todas estas artes de beijar, mormente com a fotografia de Eisenstadt. Cola-se à forma para mais profundamente a subverter. Porque é de uma inversão que se trata. No Beijo de Gaultier, é a mulher quem conduz. É ela quem domina, quem fica por cima. Entre o beijo de Eisenstadt e o beijo de Gaultier há uma troca simétrica de posições de género. Ao dia masculino da parada festiva sucede a noite feminina estremecida pelas luzes de néon e pelo ribombar do trovão. O Beijo de Gaultier opera uma transgressão. Mas convém ter cuidado com as transgressões. Com a febre que varre o mundo, ainda nos proíbem o beijo, este nosso pequeno luxo. Por causa da higiene, da saúde, do orçamento… Nada que já não aconteça nos universos assépticos da ficção científica!
Anunciante: Jean Paul Gautier – Parfum. Título: Femme et marin. Direção: Jean Baptiste Mondino. França, 1997.



