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Beijos

O amor é a invenção de tudo, uma originalidade inesgotável (Fernando Namora).

Gustav Klimt. Girlfriends. 1916-1917.

O título do anúncio da Nettflix é L’Amour. C’est Tout. O amor é tudo, para todos, sem apropriação, nem discriminação positiva ou negativa. Não é? A canção La Vie en Rose é uma escolha acertada.

Marca: Nettflix. L’amour c’est tout. França, fevereiro 2021.

O último beijo

01. Valente Celle.Tomb, 1893, The Staglieno Cemetery, Genoa

01. Valente Celle.Tomb, 1893, The Staglieno Cemetery, Genoa.

O contacto da morte com as vítimas oscila entre, por um lado, o assédio e a violência (Figuras 1 e 4) e, por outro, a sedução e a volúpia (Figuras 2, 3, 5 e 6). A morte ceifa, trespassa com flechas e lanças, persegue e agarra os ainda vivos. Mas também acontece beijá-los com atrevimento e sensualidade (Figura 3). Para não variar, a copresença de Tanatos e Eros. A morte namora a vida que se despede.

02. The Kiss Of Death, Poblenou Cemetery, Barcelona, Spain

02. The Kiss Of Death, Poblenou Cemetery, Barcelona, Spain.

 

03. Niklaus Manuel Deutsch. A donzela e a morte. 1517

03. Niklaus Manuel Deutsch. A donzela e a morte. 1517.

04. Hans Baldung Grien. 1518-20 Death and the Maiden.

04. Hans Baldung Grien. 1518-20 Death and the Maiden.

05. Hans Baldung Grien. 1518-20 Death and the Maiden.

05. Hans Baldung Grien. 1518-20 Death and the Maiden.

06. Edvard Munch. Death and the Maiden (1883-4)

06. Edvard Munch. Death and the Maiden (1883-4)

Festa batráquia

Para o Halloween, enquanto as bruxas e os zombies não chegam, recomendo a curta-metragem Garden Party. Fabulosa! Com sapos, animais associados ao mal, à morte e à bruxaria. O vídeo é longo (7 minutos) e lento. Mas tem uma estética e uma narrativa prodigiosas. O desfecho, cirurgicamente anunciado, é surpreendente. Trata-se de uma curta-metragem mega premiada: cerca de 30 prémios. Imagino quanto os autores se divertiram durante a produção.

Garden Party. Direcção: Florian Babikian; Vincent Bayoux; Victor Caire; Théophile Dufresne; Gabriel Grapperon; Lucas Navarro. MOPA, 2016.

Os sapos não são apenas criaturas do mal, são também beijoqueiros. No anúncio Water Frog, da Vitamin, um sapo anda à procura da princesa, mas não lhe serve uma qualquer, deve beber Vitaminwater Zero Glow. Para aceder ao anúncio, carregar na imagem ou no seguinte endereço: http://www.culturepub.fr/videos/vitaminwater-frog/.

Vitamin

Marca: Vitaminwater. Título: Frog. Agência: CP+B. Direcção: Bryan Buckley. USA, 2011.

 

 

O rapto de Europa

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O Dia Internacional do Beijo já passou, mas ainda há remanescências. Naquele tempo, Zeus, transformado num touro, raptou a princesa fenícia Europa, levando-a para Creta. Tiveram três filhos, um dos quais Minos, rei de Creta associado ao Minotauro e ao labirinto de Dédalo. Mas Minos era, como diriam os franceses, minable (deplorável). O beijo deste anúncio não é minable, é, em francês, interminable. Até que o euro os separe.

Marca: Topline. Título: Kiss. Agência: Del Campo Nazca Saatchi & Saatchi. Direcção: Guarna. Argentina, 2009.

Kitsch

CasablancaQuando se fica sem palavras é sinal que nunca tal tínhamos concebido. Pensamento virgem. Depois dos abraços da Idade Média, segue um beijo contemporâneo com sabor brasileiro.
Às vezes, por esta ou por aquela palha, apetece ser um pouco Kitsch. Lembrei-me de uma canção portuguesa dos anos cinquenta ou sessenta, de Artur Ribeiro. A letra começa assim: “Um beijo não custa nada, não custa nada / Dê-me um, que eu não digo nada, eu não digo nada / É só encostar sua boca à minha / Por fim, limpa-se o bâton, nada se adivinha”. Curiosamente, não encontrei esta canção na Internet. É mais fácil encontrar uma rosa em Marte do que muitas obras de cultura portuguesa na Internet! Para me resgatar do Kitsch e da crítica, acrescento um excerto do filme Casablanca com A Kiss is Just a Kiss (As Time goes by).

Marca: Gross Mocinho. Título: The Flavor of Old Times. Agência: Guts and Films, Porto Alegre. Brasil, Abril 2015.

“As Time Goes By” – Casablanca – The Original Sam (Dooley Wilson) song.

A incomensurável leveza do beijo

lacoste_big_leapUm amigo enviou-me este anúncio da Lacoste. A agência BETC tem destas coisas: um beijo à Matrix, capaz de rivalizar com o Shrek e a Fiona. Um beijo que vence o abismo, mais rápido e mais potente do que um teleférico ou um helicóptero. Ao mínimo toque, levitamos.

Marca: Lacoste. Título: The Big Leap. Agência: BETC, France. Direcção: Seb Edwards. França, Fevereiro 2014.

O Beijo

Auguste Rodin. Le Baiser. Pormenor. 1888-1889

Auguste Rodin. Le Baiser. Pormenor. 1888-1889

Já se sentia a falta de um anúncio argentino.
O beijo consiste numa junção de orifícios com troca de saliva. Um risco de transmissão de doenças. Uma libertação de energia por fricção que não contribui para o PIB, nem paga impostos. Inscreve-se a contracorrente de tudo quanto é regra civilizacional de bem ser, de bem estar e de bem fazer. Prazeroso, mas arriscado e inútil. Nem sequer garante a ignição da reprodução da espécie. O beijo que se cuide, a depuração espreita. Depois dos apitos de fumo, das ingestões espirituosas, dos músculos moles e da vigília do ecrã, a vez do beijo está a chegar. A dupla ventosa humana vai ser, política, científica e tecnicamente, ajustada, graças a uma chuva de medidas: o beijo só é permitido a um mínimo de 20 cm de distância entre entidades beijadoras; o beijo é proibido nos locais frequentados… E cartazes com o lema: “Fumar aumenta a saliva”. E nos guardanapos: “Se é beijador compulsivo, o seu médico pode ajudar”.
Ainda bem que, a fazer fé neste anúncio, o beijo resiste a tudo!

Marca: Topline. Título: Kiss. Agência: Del Campo Nazca Saatchi & Saatchi. Direção: GUARNA. Argentina, 2009.

A Bela e o Sem-abrigo

Todo o fim-de-semana dedicado a fazer relatórios! Os relatórios não são bens transaccionáveis, pois não? Ninguém os compra. É uma pena! Estamos a ficar peritos. Enquanto o escriba folga e o relatório espera, aqui vai um anúncio argentino de 1995. A resolução da imagem não é a melhor, mas a obra não perde. Lembram-se dos contos da Bela e do Monstro e do Príncipe Sapo? Pois voltarão a lembrar-se com este beijo de uma jovem a um sem-abrigo. O sapo e o monstro saberiam beijar assim? Trata-se de um anúncio desconcertante, que nos causa estranheza e desconforto e com estranheza e desconforto nos deixa.

Anunciante: Fundación Vida. Título: Kiss. Agência: Agulla & Baccetti. Direção: Pucho Mentasti. Argentina, 1995

O beijo já não é o que era

O beijo deu azo a obras-primas, tais como o quadro de Gustav Klimt ou a escultura de Auguste Rodin. Existem, também, fotografias como o Baiser de l’ Hotel-de-Ville, de Robert Doisneau (1950), ou o beijo do V–J day in Times Square, de Alfred Eisenstadt (1945), com um marinheiro norte-americano a beijar uma enfermeira no termo da Segunda Guerra Mundial.

Baiser de l'Hotel de Ville. Robert Doisneau. 1950

V–J day in Times Square. Alfred Eisenstadt. 1945

O beijo continua a estar no centro do anúncio de Jean Paul Gaultier. A intertextualidade é evidente. O beijo de Gaultier dialoga com todas estas artes de beijar, mormente com a fotografia de Eisenstadt. Cola-se à forma para mais profundamente a subverter. Porque é de uma inversão que se trata. No Beijo de Gaultier, é a mulher quem conduz. É ela quem domina, quem fica por cima. Entre o beijo de Eisenstadt e o beijo de Gaultier há uma troca simétrica de posições de género. Ao dia masculino da parada festiva sucede a noite feminina estremecida pelas luzes de néon e pelo ribombar do trovão. O Beijo de Gaultier opera uma transgressão. Mas convém ter cuidado com as transgressões. Com a febre que varre o mundo, ainda nos proíbem o beijo, este nosso pequeno luxo. Por causa da higiene, da saúde, do orçamento… Nada que já não aconteça nos universos assépticos da ficção científica!

Anunciante: Jean Paul Gautier – Parfum. Título: Femme et marin. Direção: Jean Baptiste Mondino. França, 1997.